A atual dinâmica do desenvolvimento de redes de computadores por todo o planeta e seu crescimento exponencial, nos propõe o ciberespaço como uma espécie de sistema "auto-organizante", hipercomplexo e vivo(6). É nesse sentido que J. de Rosnay analisa-o sob a empreita do "Cybionte", uma entidade cyborg formada pelos nossos neurônios e as redes de circulação de informação numérica. O Cybionte é para Rosnay um organismo, uma forma emergente da simbiose entre a cibernética e o biológico; um cérebro planetário formado pelo cérebro humano, computadores e redes. O Cybionte é "un organisme planétaire unique la forme la plus avancée d'un cerveau planétaire en cours de constitution"(7). O homem simbiótico, ou o netcyborg, seria aquele "connecté biologiquement au cerveau planétaire du Cybionte..."(8).
O ciberespaço é um imenso "corpo sem órgãos", um "CorpoRede". Esse "CorpoRede Cybiôntico", de maneira diferente da atuação da Grande Rede que conhecemos da televisão, a Rede de computadores é plural, rizomático, aberto e não centralizado. Ele forma hoje o que poderíamos denominar de "World Wide Webbed Body" (Kroker e Weinstein). O corpo hipertexto do netcyborg, que nos faz cyborgs interpretativos, abre assim possibilidades concretas de ser, como defende ao partidários do cyborg protético, também libertador. Esse corpo hipertexto está presente na interface do WWW, nas multipersonalidades dos MUDs e IRCs, na efervescência e agregação das comunidades virtuais (9).
No que se refere aos MUDs e IRCs, onde os usuários podem assumir diversas configurações de gênero (masculino, feminino, travestido, sem gênero), fica evidente o processo de "cyborgização" da personalidade. O netcyborg tem assim uma personalidade híbrida, constantemente construída e reconstruída no ciberespaço. Como explica Amy Bruckman, "MUDS are an identity workshop"(10). Elizabeth Reid toma a questão por um mesmo ponto de vista, ao mostrar os MUDs/IRCs como fenômeno que coloca o gênero, a sexualidade, a identidade e o corpo para além de suas fronteiras. Livre de todas os constrangimentos físicos, o corpo torna-se puro símbolo digital. No entanto, os usuários são mais que simples quantidades de bits, "they are cyborgs, a manifestation of the self beyond the realms of the physical, existing in a space where identity is self-defined rather than pre- ordained"(11).
Uma inversão se realiza sobre a questão da identidade quando essa é pensada no contexto do ciberespaço. Se na vida real, o corpo determina a identidade e as formas de sociabilidade daí emergentes (Goffman)(12), no ciberespaço a identidade é ambígua, não existindo certezas (sexo, classe, raça) para a determinação das formas de interação. Sem um corpo físico como âncora, não há identidade fechada, mas identificações efêmeras e sucessivas. Assim, se na vida real o corpo determina as interações, no ciberespaço não há identidade mas identificação (Maffesoli). Novas formas de sociabilidades passam a ser experimentadas pelos netcyborgs das redes eletrônicas.
No ciberespaço existe então, a possibilidade de "jogos de identidades" com as suas várias formas de identificação (IRC, MUDs, BBS, Newsgroups, WWW, etc.). O WWW, por exemplo, age como uma espécie de "casa", um cartão de visita do usuário. Ele é aberto a reconfigurações futuras, e não é à-toa que as Home Pages estão sempre, como a identidade aí revelada, "under construction". Já nos MUDs, IRCs, Usenet, BBS, listas, etc., o usuário pode "ser outra coisa", ele pode jogar com caracteres e identidades protegido, pelo anonimato. A sociabilidade on-line caracteriza-se como uma espécie de "esconde-esconde", onde o usuário pode assumir e experimentar identificações sucessivas às diversas comunidades virtuais.
O "netcyborg" está então livre para o exercício de multipersonalidades, agindo por "sinceridades sucessivas" (Maffesoli), desenvolvendo assim, uma forma de sociabilidade eletrônica barroca. As diversas comunidades virtuais emergentes desse novo espaço eletrônico que é o ciberespaço, proporcionam emoções coletivas identificadoras, não com o indivíduo preso a uma identidade fechada, mas com "personas" de diversas máscaras. No fundo, trata-se de uma forma de comunicação muito próxima da comunhão, onde as novas tecnologias agem como vetores de agregação nas redes, criando redes de convivialidade, estando em jogo a criação de uma "obra de arte coletiva".
Com a metáfora do cyborg, principalmente o interpretativo, o ciberespaço se constitui como um espaço para refazer as categorias identificatórias na cultura contemporânea. Assim, sem um corpo físico como receptáculo da construção da identidade, o sujeito fica livre para jogar com comportamentos e identidades. O ciberespaço produz uma nova forma de sociabilidade, criando um novo senso de identidade, ao mesmo tempo descentralizada e múltipla; uma sociabilidade eletrônica dos netcyborgs.
Conclusão.
Tentamos mostrar nesse artigo que o "devir-cyborg" não é fruto da contemporaneidade. Mostramos que a gênese da técnica, assim a nova ecologia do mundo artificial, é resultado de um processo simbiótico que forma o homem, a técnica e a cultura. O cyborg (protético e interpretativo) é fruto desse processo simbiótico ancestral, atualizado e radicalizado com a "cyborgização" e "virtualização" da cultura contemporânea. O processo de cyborgização da cultura contemporânea é herdeira do processo simbiótico entre o homem e a técnica, radicalizando-se com a emergente civilização do virtual. O discurso dos cyborgs se encaixa assim, dentro da perspectiva da pós-modernidade, onde as fronteiras e dicotomias bem estabelecidas passam por reformulações profundas.
O que nos interessa é mostrar que a tecnologia não pode ser vista como uma simples mediadora na relação do homem ao mundo. A relação homem-técnica é um contínuo. Não podemos insistir numa separação nítida entre os homens e seus artefatos. Essa dicotomia é estabelecida a partir de uma mitologização da relação homem-técnica, associando o humano ao divino, e a técnica ao profano. Esse dualismo cartesiano nos impediria de compreender a verdadeira relação entre "phusis" e "tekhnè".
Entendendo o processo simbiótico entre o homem e a técnica, cujo cyborg é sua forma paroxística na contemporaneidade, podemos então, reconhecer numa cultura artificial a sua humanidade. Se a cultura não mais exilar a técnica, transformando-a num sistema autônomo e dominador, possibilidades transformadoras podem ocorrer de forma inusitada. Estamos vendo crescer sob os nossos olhos uma nova forma de relacionamento entre a cultura contemporânea e a tecnologia sob o signo do cyborg. O ciberespaço será assim o espaço social de desenvolvimento de novas formas de sociabilidades a partir da emergência dos netcyborgs, estando em jogo a possibilidade de desfazer identidades rígidas e de jogar com a pluralidade e a diversidade.
REFERENCIAS
1. Guillaume, M., "Télésptectres", in Traverses, n.26, Paris, C.G.P., 1982.
2. Rosanne Stone, A., "Will the Real Body Please Stand Up?". in Benedikt, M., "Cyberspace. First Steps"., MIT, 1992., p. 109.
3. Rosanne Stone, A., op.cit., p. 101.
4. Kroker, A., Weinstein, M., "The Hyper-Texted Body, or Nietzsche gets a Modem".,in http://www.ctheory.com/e-hyper.htm , (08/05/96), do livro "Data Trash: The Theory of the Virtual Class", NY, St Martin's Press, 1994.
5. Kroker, A., Weinstein, M., op.cit.
6. Ver Lemos, A. "As Estruturas Antropológicas do Ciberespaço"., in Textos de Cultura e Comunicação, Facom/UFBA, n.35, julho 1996, pp. 12-27.
7. Rosnay, J., "L'Homme Symbiotique". Paris, Seuil, 1995., p.146.
8. Rosnay, J., op.cit., p.315.
9. Lemos, A. "Les Communautés Virtuelles" in Sociétés, no.45, Paris, Dunod, 1994.
10. Bruckman, Amy S., "Gender Swapping on the Internet"., in Ludlow, P.(ed)., "High Noon on The Eletronic Frontier"., M.I.T. Press, 1996, p. 323.
11. Reid, Elisabeth M., "Text-Based Virtual Realities"., in Ludlow, P.(ed)., "High Noon...", op.cit., p. 328.
12. Ver Goffman, E. "La Mise en Scène de la Vie Quotidienne.", Paris, Les Editions de Minuit, 1973.
André Lemos, PhD.
Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.
Home
Se quiser entrar em contato é só
clicar