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A Página dos Cyborgs

Cyborgs Protéticos e Interpretativos.

Podemos pensar dois "ideais tipo" (Weber) de cyborgs: o interpretativo e o protético, embora não haja nenhuma unanimidade(1).

Os cyborgs protéticos simbolizam a simbiose entre o orgânico e o inorgânico, mais especificadamente entre as nanotecnologias ciber-eletrônicas e o corpo, ou como chama os cyberpunks, a carne ("meat"). Segundo o Webster's New Unabridge Dictionary poderíamos definir o cyborg protético como "a person whose physiological functioning is aided by, or dependent on, a mechanical or electronic device"(2). A partir dessa definição, chega-se a afirmar que os cyborgs protéticos são 10% da população americana Um exemplo é o físico Stephen Hawking. Ele vive numa cadeira de rodas motorizada e sua voz é gerada por um circuito digital, e é a mesma quando ouvida em presença do físico ou pelo telefone: uma voz maquínica indiferenciada. Outro exemplo é o artista australiano Stelarc, o hypercelista Yo Yo Ma (onde homem, instrumentos, computadores e sensores se comportam como um único sistema cibernético)(3), o ciber-nômade Steve Mann do M.I.T., que vive de forma errante ligado por tecnologias micro- eletrônicas como computadores, celulares, satélites, e num outro nível, até o corredor com seu "walkman" ou o vídeo-conferencista.

Um dos melhores exemplos do cyborg protético está nas performances do ciber-artista Stelarc. Ele utiliza seu próprio corpo como "ambiente", expandindo o caráter ao mesmo tempo repulsivo e fascinante da junção corpo-máquina. Stelarc leva ao extremo a fusão do corpo com as novas tecnologias, utilizando seu próprio corpo com "espaço" de sua arte, buscando reduzir a oposição entre o natural e o artificial. Seu corpo é o seu próprio simulacro. Sua obra se resume numa tentativa de estender o corpo humano com ciber-mecanismos, visando assim redefinir o humano(4). As evoluções das diversas próteses são realizados em perfeita sintonia com seu corpo, efetuado por movimento voluntários e involuntários de seus músculos (o movimento de uma mão robotizada, por exemplo, é comandada pelos músculos de seu estômago e de suas pernas). Para Stelarc "in this age of information overload, what is significant is no longer freedom of ideas but rather freedom of forms - freedom to modify, freedom to mutate your body. (...) the fundamental freedom to determine your own DNA destiny"(5).

O cyborg ao qual se refere Haraway, é o cyborg protético, em contato íntimo com próteses artificiais desenvolvendo "perpetually partial identity". Os cyborgs protéticos, em oposição aos cyborgs interpretativos (como veremos, formados pela ecologia dos media), possuem uma subjetividade associada a uma combinação física do biológico e do tecnológico. Para Haraway o cyborg protético liberta-se do mito falocêntrico da origem que fundo u no Ocidente a divisão de gêneros. Aí emerge todo o potencial libertador do cyborg: ao fugir do mito falocêntrico, ele escapa da estrutura da Civilização Ocidental, tornando-se livre da opressão da História. Visto que a opressão no Ocidente foi sempre exercida pelo homem, Haraway propõe que os cyborgs protéticos podem ser particularmente libertadores para as mulheres.

O cinema nos mostra de forma implacável outro tipo de cyborg, o interpretativo, como aqueles de "Laranja Mecânica" (Kubric, 1971), de "Videodrome" (Cronenberg, 1983) ou de "1984" (Orwell). Aqui não está em jogo a fusão corporal da máquina e da carne. Antes, o cyborg interpretativo se constitui pela influencia dos media, coagido pelo poder da televisão ou do cinema. Assim, a cultura de massa e do espetáculo nos fez cyborgs interpretativos.

O espetáculo forma os cyborgs interpretativos de acordo com a definição do espetáculo dada por Debord(6). Para o situacionista francês, o espetáculo é a mais sutil e cruel das armas do capitalismo avançado, cuja função na sociedade seria a produção contínua da alienação e da opressão. Pelos efeitos da sociedade do espetáculo, seríamos todos cyborgs interpretativos, dominados e transformados em pura programação tecnológica, uma subjetividade dominada e controlada. No entanto, o fim dessa sociedade do espetáculo (ou dessa perspectiva da sociedade do espetáculo) nos remete à novas potencialidades libertadoras para os cyborgs interpretativos das redes, ou como proponho chamar, os "netcyborgs". Os "netcyborgs" têm a possibilidade de esvaziar o controle dos media, que fizeram dessa sociedade do espetáculo uma realidade. Poderíamos argüir se esse potencial opressivo não estaria minimizado pelo caráter dos novos meios eletrônicos, que, diferentemente dos media de massa, não são baseados em um sistema "Um para Todos", mas auto-organizados a partir de conexões "Todos para Todos". Essa conectividade geral parece ser muito difícil de ser instrumentalizada por um poder centralizador e totalitário como no caso de "Laranja Mecânica" e "1984". A estrutura do ciberespaço abriria então, potencialidades emancipatórias para os cyborgs interpretativos das redes.

REFERENCIAS

1. Ver Gray, C.H., et alli., "The Cyborg Handbook", op.cit. A distinção "interpretativos e protéticos" foi proposta por Johnson, A; Wyman, M., in http://www.realid.com/ModernIdentity/RefHaraway.htm (08/05/96).

2. Citado por Jamison, P.K., "Contradictory Spaces: Pleasure and Seduction of the Cyborg Discourse"., http://www.lucifer.com/~sasha/articles/Cyborgs.html , (21/11/96).

3. Ver Mitchell, W.J., "City of Bits", capitulo 3, "Cyborg Citizens". http://mitpress.mit.edu/ city_of_bits/ (27/08/96).

4. A performance "Escultura do Estômago" é exemplar nesse sentido."The stomach sculpture is actually the most dangerous performance I've done. We had to be within 5 minutes of a hospital in case we ruptured any internal organs. To insert the sculpture, the stomach was first emptied by withholding food for about 8 hours. Then the closed capsule, with beeping sound and flashing light activated, was swallowed and guided down tethered to it's flexidrive cable attached to the control box outside the body. Once inserted into the stomach, we used an endoscope to inflate the stomach and suck out the excess body fluids. The sculpture was then arrayed with switches on the control box. We documented the whole performance using video endoscopy equipment. Even with a stomach pump, we still had a problem with excess saliva. We had to hastily remove all the probes on several occasions". in, Atzori, P., Woolford, K., "Extended-Body: Interview with Stelarc"., in http://www.ctheory.com/A29-Extended_body.htm , (08/06/96).

5. Dery, M., "Cyborging..."., op.cit., p.104. Ver também "Stelarc. Portrait Robot de l'Homme- Machine"., in L'Autre Journal, Paris, n°27, p.29.

6. Debord, G., "La Société du Spectacle". Paris, Gallimard, 1992.

André Lemos, PhD.

Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.

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