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PANOPTICON - Na internet qualquer
um pode criar um site sem grandes dificuldades burocráticas.
Para criar uma rádio na web, o que é preciso?
Raquel Porto Alegre - Assim como qualquer tipo de site,
uma rádio na web pode ser criada sem nenhuma dificuldade
burocrática. Existe, no Brasil, toda uma legislação
sobre radiodifusão que trata das concessões para as
operações em ondas curtas, ondas médias, ondas
tropicais e freqüência modulada. A lei ainda não
abrange as rádios que estão na rede. Por isso as rádios
comunitárias (que operam com potência limitada a um
máximo de 25 watts) podem entrar na rede e ampliar a área
de cobertura facilmente, sem nenhuma barreira burocrática.
Isso é só um exemplo. Para que você disponibilize
uma rádio na rede é preciso apenas, em termos técnicos,
disponibilizar softwares apropriados para a emissão
de som, como é o caso do sistema RealMedia. Fora isso, é
preciso montar uma equipe que mantenha o site atualizado,
como deve acontecer em qualquer site.
PANOPTICON - Em seu ensaio
A Extensão do Radiojornalismo por meio da Web você
fala que as rádios têm de ser entendidas como novos
meios de comunicação via internet. Por quê?
Raquel Porto Alegre - Porque não estamos
mais falando em rádio apenas. Estamos falando em rádio
nas redes digitais. O rádio sofre toda uma descaracterização
na rede. Não temos mais ouvintes na rede, e sim usuários.
Não temos mais a programação, e sim uma página
web que nos oferece diversas opções de acesso. Não
temos mais emissão e difusão, temos disponibilização
de áudio ao vivo e áudio arquivado. O arquivo, mesmo,
é outro diferencial do rádio na rede. O rádio
é um veículo instantâneo. Tudo o que vai ao
ar, “morre” naquele exato instante. Agora, os conteúdos
podem ser recuperados na rede. Tudo isso descaracteriza o rádio
convencional, como o conhecíamos até pouco tempo.
Isso sem falar que o rádio na rede ganha conteúdos
em texto e imagem. Antes o rádio não dispunha desses
recursos. Para entender o rádio na rede é preciso
“deixar de lado” os conceitos convencionais do rádio.
Não esquecer que eles existem, é claro. Mas lembrar
que os conceitos são novos agora. É preciso ter conhecimento
de conceitos de rede, por exemplo.
PANOPTICON - A instantaneidade
entra “em crise” na web?
Raquel Porto Alegre - Não. O rádio na rede
continua instantâneo. É só você conectar
o áudio ao vivo da emissora. Ali você vai ter as mesmas
notícias do rádio convencional. Você vai receber
as mesmas informações e ao mesmo tempo em que na rádio
convencional. Acontece que agora você além de ter a
informação em tempo real você tem também
as informações que já foram ao ar. Se você
perdeu alguma matéria ou notícia que te interessa
muito, na página da emissora você tem a oportunidade
de ouvir aquela informação a hora que você quiser.
PANOPTICON
- Com relação à atualização,
o que a torna tão falha nas rádios web?
Raquel Porto Alegre - A rádio na rede que mais
conheço é a CBN (Central Brasileira de Notícias)
do Sistema Globo de Rádio. É o meu objeto de pesquisa.
De fato a página da CBN não é atualizada de
forma rigorosa. Na minha opinião isso acontece porque o modo
de produção não é totalmente independente
da rádio convencional. As emissoras deveriam manter equipes
exclusivas para a rede e elas deveriam se pautar não só
pelo áudio da emissora mas também pelo que está
na rede. Existem emissoras que são atualizadas constantemente.
É o caso da BBC de Londres.
Não conheço o modo de produção deles,
mas o site está sempre atualizado.
PANOPTICON - Como você analisa a situação
das rádios on line hoje e o que você vê de possibilidades
para o seu futuro?
Raquel Porto Alegre - Na minha opinião as rádios
que estão na rede ainda estão “engatinhando”,
vamos dizer assim. Tudo isso é muito recente. A internet
veio para o Brasil em meados da década de 90 (século
XX) e os primeiros jornais entraram na rede em 1995. As emissoras
radiofônicas começaram a entrar na rede um pouco depois.
O site da CBN, mesmo, foi inaugurado em 1º de outubro de 2001.
Vai fazer um ano agora. Mas acredito que as emissoras estão
no caminho certo. Na minha opinião elas ainda estão
muito apegadas ao modelo convencional. Com o tempo elas vão
começar a descobrir os potenciais da rede e vão usar
isso em prol delas. As rádios estão se adaptando aos
poucos ao modo de produção da rede. Mas muitas ainda
mantém apenas o método transpositivo.
PANOPTICON - Quais são as principais possibilidades
que este novo meio oferece ao rádio e à atividade
jornalística radiofônica?
Raquel Porto Alegre - A rede dispõe de várias
ferramentas que o rádio não tira proveito ainda. Vou
dar alguns exemplos: salas de bate-papo (que podem colocar os entrevistados
em contato direto com o usuário), interatividade sonora (proporcionar
ao usuário a possibilidade de ele mesmo gravar sua participação),
hipertexto (não há links para informações
complementares), sistema wap (o rádio disponibiliza
informações rápidas que podem fazer interface
com esse sistema). Algumas atividades simples também não
são explorados: não há um link, por
exemplo, para a participação dos usuários (algo
como o espaço do leitor em revistas). São algumas
coisas que o rádio na rede poderia fazer. Em relação
à atividade jornalística, a maior possibilidade que
a rede oferece é o arquivo e a facilidade de acesso a fontes.
PANOPTICON - O meio de certa forma molda a linguagem.
O que é exigido para a construção do texto
radiofônico na internet? Quais são as características
particulares do texto radiofônico na web?
Raquel Porto Alegre - O texto radiofônico fica
no áudio disponibilizado na página das emissoras.
Existe um texto novo nas páginas que é o texto para
a web. Normalmente, nas páginas das rádios, há
textos introdutórios para que o usuário acesse um
determinado áudio. Ou então há textos pequenos
sobre algumas matérias que foram ao ar e que não estão
disponibilizadas em áudio na rede. Em termos de texto para
a web o que se tem é aquilo que as próprias agências
de notícias já fazem.
PANOPTICON - Uma das características propiciadas
pela internet às rádios é a ampliação
do seu alcance. Sendo assim, o que você acha que deve ser
mudado para a adaptação das emissoras ao ciberespaço?
Raquel Porto Alegre - Como agora o alcance pode ser
global, creio que as emissoras devem situar os usuários.
Mostrar logo na home page que tipo de emissora é,
o que ela disponibiliza, de onde ela é, etc. São informações
básicas que qualquer um que acha uma emissora nova na rede
quer saber. O que adianta eu entrar na página de uma emissora
sem ter a menor idéia da identidade dela.
PANOPTICON - Não seria o radiojornalismo na web
apenas um site que privilegia o áudio na transmissão
das informações?
Raquel Porto Alegre - De fato, o rádio na rede
ainda se apóia em demasia no áudio. Só que
as outras formas (texto e imagem) estão ganhando cada vez
mais espaço. Quando uma rádio não tem como
disponibilizar no site o áudio de uma determinada
notícia (por problemas técnicos, por exemplo) ela
não vai deixar de dar a informação. Ela vai
informar por meio de texto e de imagem (com uma foto, por exemplo).
PANOPTICON - As rádios tradicionais têm
a vantagem para os ouvintes de serem baratas, acessíveis,
de fácil mobilidade pelo seu peso e tamanho, fato entre outros
que lhe conferem grande audiência. Na internet, no entanto,
a audiência das rádios ainda é pequena, devido
ao acesso à rede que ainda não é popular e
a conexão que ainda é lenta para a maioria dos internautas.
Para você, por qual caminho deve-se ir para um aumento da
popularização da internet e principalmente para o
aumento da audiência das rádios?
Raquel Porto Alegre - O rádio na rede não
tem audiência como o rádio convencional, tem, na verdade,
acessos, usuários. Os acessos das rádios, hoje, ainda
são muito pequenos em função da má exploração,
por parte das emissoras que estão na rede, das ferramentas
que o protocolo oferece. Já dei alguns exemplos acima. Para
que se aumente o acesso às rádios na rede, as emissoras
terão de explorar melhor o suporte. Além disso a interface
tem de ser mais incisiva. O rádio tem de estar na rede, assim
como a rede tem de estar no rádio.
PANOPTICON - Com tantas “descaracterizações”,
o que de rádio ficou na web (e mesmo de radiojornalismo no
radiojornalismo da web)?
Raquel Porto Alegre - Som. O rádio é som
e na rede ele tem som. O que ficou do rádio na rede, portanto,
foi o som. A prática da profissão, de fato, sofreu
alterações. Na rede você não trabalha
para o rádio e sim para a página da emissora.
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