Raquel Porto Alegre

Fabiana Neiva e
Márcio do Vale

PANOPTICON - Na internet qualquer um pode criar um site sem grandes dificuldades burocráticas. Para criar uma rádio na web, o que é preciso?
Raquel Porto Alegre - Assim como qualquer tipo de site, uma rádio na web pode ser criada sem nenhuma dificuldade burocrática. Existe, no Brasil, toda uma legislação sobre radiodifusão que trata das concessões para as operações em ondas curtas, ondas médias, ondas tropicais e freqüência modulada. A lei ainda não abrange as rádios que estão na rede. Por isso as rádios comunitárias (que operam com potência limitada a um máximo de 25 watts) podem entrar na rede e ampliar a área de cobertura facilmente, sem nenhuma barreira burocrática. Isso é só um exemplo. Para que você disponibilize uma rádio na rede é preciso apenas, em termos técnicos, disponibilizar softwares apropriados para a emissão de som, como é o caso do sistema RealMedia. Fora isso, é preciso montar uma equipe que mantenha o site atualizado, como deve acontecer em qualquer site.

PANOPTICON - Em seu ensaio A Extensão do Radiojornalismo por meio da Web você fala que as rádios têm de ser entendidas como novos meios de comunicação via internet. Por quê?
Raquel Porto Alegre - Porque não estamos mais falando em rádio apenas. Estamos falando em rádio nas redes digitais. O rádio sofre toda uma descaracterização na rede. Não temos mais ouvintes na rede, e sim usuários. Não temos mais a programação, e sim uma página web que nos oferece diversas opções de acesso. Não temos mais emissão e difusão, temos disponibilização de áudio ao vivo e áudio arquivado. O arquivo, mesmo, é outro diferencial do rádio na rede. O rádio é um veículo instantâneo. Tudo o que vai ao ar, “morre” naquele exato instante. Agora, os conteúdos podem ser recuperados na rede. Tudo isso descaracteriza o rádio convencional, como o conhecíamos até pouco tempo. Isso sem falar que o rádio na rede ganha conteúdos em texto e imagem. Antes o rádio não dispunha desses recursos. Para entender o rádio na rede é preciso “deixar de lado” os conceitos convencionais do rádio. Não esquecer que eles existem, é claro. Mas lembrar que os conceitos são novos agora. É preciso ter conhecimento de conceitos de rede, por exemplo.

PANOPTICON - A instantaneidade entra “em crise” na web?
Raquel Porto Alegre - Não. O rádio na rede continua instantâneo. É só você conectar o áudio ao vivo da emissora. Ali você vai ter as mesmas notícias do rádio convencional. Você vai receber as mesmas informações e ao mesmo tempo em que na rádio convencional. Acontece que agora você além de ter a informação em tempo real você tem também as informações que já foram ao ar. Se você perdeu alguma matéria ou notícia que te interessa muito, na página da emissora você tem a oportunidade de ouvir aquela informação a hora que você quiser.

PANOPTICONCom relação à atualização, o que a torna tão falha nas rádios web?
Raquel Porto Alegre - A rádio na rede que mais conheço é a CBN (Central Brasileira de Notícias) do Sistema Globo de Rádio. É o meu objeto de pesquisa. De fato a página da CBN não é atualizada de forma rigorosa. Na minha opinião isso acontece porque o modo de produção não é totalmente independente da rádio convencional. As emissoras deveriam manter equipes exclusivas para a rede e elas deveriam se pautar não só pelo áudio da emissora mas também pelo que está na rede. Existem emissoras que são atualizadas constantemente. É o caso da BBC de Londres. Não conheço o modo de produção deles, mas o site está sempre atualizado.

PANOPTICON -  Como você analisa a situação das rádios on line hoje e o que você vê de possibilidades para o seu futuro?
Raquel Porto Alegre - Na minha opinião as rádios que estão na rede ainda estão “engatinhando”, vamos dizer assim. Tudo isso é muito recente. A internet veio para o Brasil em meados da década de 90 (século XX) e os primeiros jornais entraram na rede em 1995. As emissoras radiofônicas começaram a entrar na rede um pouco depois. O site da CBN, mesmo, foi inaugurado em 1º de outubro de 2001. Vai fazer um ano agora. Mas acredito que as emissoras estão no caminho certo. Na minha opinião elas ainda estão muito apegadas ao modelo convencional. Com o tempo elas vão começar a descobrir os potenciais da rede e vão usar isso em prol delas. As rádios estão se adaptando aos poucos ao modo de produção da rede. Mas muitas ainda mantém apenas o método transpositivo.

PANOPTICON - Quais são as principais possibilidades que este novo meio oferece ao rádio e à atividade jornalística radiofônica?
Raquel Porto Alegre - A rede dispõe de várias ferramentas que o rádio não tira proveito ainda. Vou dar alguns exemplos: salas de bate-papo (que podem colocar os entrevistados em contato direto com o usuário), interatividade sonora (proporcionar ao usuário a possibilidade de ele mesmo gravar sua participação), hipertexto (não há links para informações complementares), sistema wap (o rádio disponibiliza informações rápidas que podem fazer interface com esse sistema). Algumas atividades simples também não são explorados: não há um link, por exemplo, para a participação dos usuários (algo como o espaço do leitor em revistas). São algumas coisas que o rádio na rede poderia fazer. Em relação à atividade jornalística, a maior possibilidade que a rede oferece é o arquivo e a facilidade de acesso a fontes.

PANOPTICON - O meio de certa forma molda a linguagem. O que é exigido para a construção do texto radiofônico na internet? Quais são as características particulares do texto radiofônico na web?
Raquel Porto Alegre - O texto radiofônico fica no áudio disponibilizado na página das emissoras. Existe um texto novo nas páginas que é o texto para a web. Normalmente, nas páginas das rádios, há textos introdutórios para que o usuário acesse um determinado áudio. Ou então há textos pequenos sobre algumas matérias que foram ao ar e que não estão disponibilizadas em áudio na rede. Em termos de texto para a web o que se tem é aquilo que as próprias agências de notícias já fazem.

PANOPTICON - Uma das características propiciadas pela internet às rádios é a ampliação do seu alcance. Sendo assim, o que você acha que deve ser mudado para a adaptação das emissoras ao ciberespaço?
Raquel Porto Alegre - Como agora o alcance pode ser global, creio que as emissoras devem situar os usuários. Mostrar logo na home page que tipo de emissora é, o que ela disponibiliza, de onde ela é, etc. São informações básicas que qualquer um que acha uma emissora nova na rede quer saber. O que adianta eu entrar na página de uma emissora sem ter a menor idéia da identidade dela.

PANOPTICON - Não seria o radiojornalismo na web apenas um site que privilegia o áudio na transmissão das informações?
Raquel Porto Alegre - De fato, o rádio na rede ainda se apóia em demasia no áudio. Só que as outras formas (texto e imagem) estão ganhando cada vez mais espaço. Quando uma rádio não tem como disponibilizar no site o áudio de uma determinada notícia (por problemas técnicos, por exemplo) ela não vai deixar de dar a informação. Ela vai informar por meio de texto e de imagem (com uma foto, por exemplo).

PANOPTICON - As rádios tradicionais têm a vantagem para os ouvintes de serem baratas, acessíveis, de fácil mobilidade pelo seu peso e tamanho, fato entre outros que lhe conferem grande audiência. Na internet, no entanto, a audiência das rádios ainda é pequena, devido ao acesso à rede que ainda não é popular e a conexão que ainda é lenta para a maioria dos internautas. Para você, por qual caminho deve-se ir para um aumento da popularização da internet e principalmente para o aumento da audiência das rádios?
Raquel Porto Alegre - O rádio na rede não tem audiência como o rádio convencional, tem, na verdade, acessos, usuários. Os acessos das rádios, hoje, ainda são muito pequenos em função da má exploração, por parte das emissoras que estão na rede, das ferramentas que o protocolo oferece. Já dei alguns exemplos acima. Para que se aumente o acesso às rádios na rede, as emissoras terão de explorar melhor o suporte. Além disso a interface tem de ser mais incisiva. O rádio tem de estar na rede, assim como a rede tem de estar no rádio.

PANOPTICON - Com tantas “descaracterizações”, o que de rádio ficou na web (e mesmo de radiojornalismo no radiojornalismo da web)?
Raquel Porto Alegre - Som. O rádio é som e na rede ele tem som. O que ficou do rádio na rede, portanto, foi o som. A prática da profissão, de fato, sofreu alterações. Na rede você não trabalha para o rádio e sim para a página da emissora.

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Jornalista e mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, Raquel Porto Alegre fala ao Panopticon sobre as propriedades das rádios na web.