Blogs: quantidade x conteúdo

Fernanda Macedo

Panopticon - Quais são os principais aspectos positivos e/ou negativos dos blogs
ao serem utilizados como instrumento do fazer jornalístico? Quais os diferenciais do suporte?
Rebêlo - Não há edição nos blogs, cada um escreve o que quiser- algo que pode ser positivo ou negativo, a depender do objetivo do blog. Vejo o blog como um auxílio interessante a um veículo formal, usando linguagem informal.

Panopticon - Como anda a utilização dos blogs para a prática do jornalismo no Brasil e no mundo?
Rebêlo - Muita gente fazendo pouco e pouca gente fazendo muito. Pode-se contar nos dedos os blogs de qualidade que não sejam meros diários com parco conteúdo.

Panopticon - Os blogs abrem espaço para que qualquer um “seja” um jornalista? Seria um equívoco considerar que essa ferramenta pode levar a uma maior democratização da informação, onde se teria a oportunidade de exercer um jornalismo alternativo à grande mídia?
Rebêlo - Não. Jornalismo requer responsabilidade, sempre. É difícil encontrar responsabilidade jornalística nos blogs, excetuando uns poucos. Essa história de blog ser o ícone da democratização da informação, é conversa para boi dormir. O blog não tem nada a ver com democratização da informação - a internet, propriamente dita, é que tem. Conceitual e democraticamente, qual é a diferença entre manter um blog e um site pessoal? Nenhuma. Você pode abrir um blog ou montar um site pessoal para expor suas opiniões, seus artigos, suas idéias. O blog apenas facilita por causa da ferramenta de atualização, que é bem simples e funciona como diário e arquivo ao mesmo tempo. E você também pode montar uma revista online e dizer que é mídia alternativa.

Panopticon - Por que o leitor deixaria de consultar um site de notícias tradicional para informar-se através de blogs? De que forma os blogs jornalísticos tornam-se fontes fidedignas junto ao público? Essa credibilidade não seria um fator advindo do jornalista, muito mais do que do meio por si próprio? Ou seja, em blogs com grande audiência essa credibilidade não viria da fama anteriormente constituída de seus editores?
Rebêlo - Sem dúvida. Evidente que o blog tende a ser mais conhecido e visitado quando é mantido por um profissional qualificado (ou um grupo deles), com um nome a zelar e uma reconhecida responsabilidade jornalística. Até porque todo dia estão abrindo vários novos blogs; é impossível acompanhar tudo e muito difícil separar o joio do trigo. Entre 1996 e 1999, era moda ter um site pessoal para colocar fotografias da família, do cachorro, do papagaio e escrever coisas pessoais. Agora é moda ter blog. Em lugares onde a banda larga (internet em alta velocidade) é comum, é moda ter uma rádio pessoal no próprio computador. É muito fácil abrir um blog e dizer que matéria tal, no jornal tal, não está correta ou é preconceituosa. É preciso lidar com fatos, fontes fidedignas, bagagem cultural e embasamento teórico e prático. Opinar qualquer um faz. E o blog é uma ferramenta perfeita para opinar, além de ser versátil, fácil e rápido.

Panopticon - Os blogs jornalísticos devem aproveitar o espaço físico para o aprofundamento da notícia? O internauta tem tempo e paciência para conteúdos
profundos?
Rebêlo - Acho que deveriam, sim. Existe público para todo tipo de veículo/
abordagem. Da mesma forma como há público para revistas de fofocas, há público para revistas culturais, por exemplo. Claro que o segundo grupo é reduzido, porém, é mais por uma questão econômica e social. Se o conteúdo é bom e tem credibilidade, será lido. Acredito que o blog funcionaria muito bem para jornalistas das redações de jornais que topassem fazer algo em conjunto, até porque todos sabemos dos problemas crônicos de espaço/anunciantes, que poderia ser resolvido com a web, seja pelo blog ou por um site personalizado.

Panopticon - Em meados dos anos 90, quando a Web ainda era incipiente, alguns sites disponibilizavam ferramentas de edição semelhante às utilizadas pelos blogs. Muitos desses sites simplesmente desapareceram. Qual o futuro dos blogs?
Rebêlo - Quem sou eu para dizer o futuro de alguma coisa... Não faço a menor idéia, apenas não acredito na ladainha de que os blogs sejam a revolução democrática, a nova mídia, a nova cara da internet, esse tipo de coisa. Quando bem utilizados, podem ser um auxílio importante, um suporte. Difícil é utilizar bem.

Panopticon - Financeiramente falando, o que o jornalista ganha com o blog?
Rebêlo - Nada. Ganha apenas satisfação pessoal em opinar livremente sobre assuntos que considera ter conhecimento e, se for bom, ter um retorno dos leitores, que sempre têm muito a nos ensinar.

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Paulo Rebêlo é correspondente no Brasil da Wired News, subeditor do Webinsider e um dos integrantes do PontoJOL, blog sobre jornalismo online.