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Panopticon - Como a senhora
avalia o aspecto da informação local na internet ?
Zélia Adghirni - A principal mutação
foi em relação aos jornais de informação
local. De repente, apareceram na Web dezenas de sites de informações
locais do tipo informação-serviço (city-guide)
e entretenimento concorrendo com jornais que ocupavam tradicionalmente
este espaço. Quem comprava jornal local para consultar programas
de cinema, de espetáculos e até para ver "dicas"
de restaurante se deu conta que a internet faz melhor este serviço.
É breve, ágil, completa. Satisfaz o cliente. Para
o jornal-empresa, é uma ameaça de perda de anunciantes.
Nos sites-guias quem anuncia são os produtores de bens de
cultura e entretenimento. Ninguém está ganhando dinheiro
com isso, mas quem se aventurou neste caminho já está
conseguindo equilibrar as contas. Certos grandes jornais, como o
Correio Braziliense, por exemplo, minado e até pirateado
pela concorrência nesta área, criou seu próprio
serviço, o "Divirta-se" no Correioweb
(NR: a versão digital do Correio Brasiliense). É o
mais completo. Para quem procura notícia mesmo, aí
os sites locais estão longe de poder concorrer com as grandes
estruturas, as únicas que têm infra-estrutura e qualidade
profissional para produzir e embalar informações jornalísticas.
Ainda que os sites-guides tentem introduzir notícias
breves entre as informações-serviços, percebe-se
que são copiadas de outros sites, que não têm
originalidade nem credibilidade.
Panopticon - Diversos autores
falam do novo interesse pelo "local" e até mesmo
da necessidade de se reinventar o "local" dentro do processo
de globalização. Qual o seu posicionamento em relação
a essa questão?
Zélia Adghirni - Estudos sobre as audiências
dos sites revelam efetivamente que há um grande interesse
pelos assuntos locais. Mas a adoação do "tempo
real" pela maioria dos sites e portais, que copiam o ritmo
das agências de notícias, mudou um pouco este panorama.
Os leitores (não gosto muito da palavra internauta - jamais
ouvi de pessoas que lêem noticias na Internet, a frase "sou
um internauta". Acho que internautas são os que usam
a Internet para realmente brincar, surfar, bater papo, etc.) . O
que vale agora é o que vem primeiro. Ou seja, o critério
de importância da notícia é definido pela ordem
cronológica. O fato que acaba de acontecer derruba o anterior,
por maior que seja sua relevância política ou social.
As notícias estão lá, em fluxo contínuo,
jorrando na telinha.
Panopticon - Stuart Hall propõe
se pensar numa nova articulação entre o global e o
local. No caso do jornalismo online, como as redes poderão
favorecer a mídia de proximidade?
Zélia Adghirni - Esta contração do global
com o local é o que os japoneses chamam de "glocalização".
Eis um desafio. Certamente os leitores gostariam de se identificar
com o veículo que trata da atualidade nacional e internacional
a partir de um ponto de vista especial, voltado para suas preocupações
cotidianas. Volto a dizer que esta é a vocação
do jornalismo online - atingir diretamente as pessoas lá
onde elas vivem, com suas singularidades, mas o que se observa é
a obsessão da velocidade pelo óbvio.
Panopticon - Se observa nas
edições online de jornais como o Washington Post
e Chicago Tribune seções específicas
dedicadas à cobertura local. Isso reflete uma tendência,
demonstrando a importância dos conteúdos locais nas
estratégias das empresas?
Zélia Adghirni - No Brasil, não temos uma tradição
de imprensa local ou regional forte. Os jornais de referência
têm sede no Rio e em São Paulo de onde falam para o
resto do Brasil. Isso se reproduz no jornalismo online, com raras
exceções. Continuamos abordando questões gerais,
nacionais, globais, sem pensar nos interesses das pequenas comunidades,
dos bairros ou até mesmo das regiões. Na França,
por exemplo, onde os jornais regionais ou locais são profundamente
ancoradas nas tradições culturais, a internet reforçou
esta tendência. O jornal Ouest-France,
o maior jornal francês, com tiragem de 800 mil exemplares
e 40 edições diárias, uma para cada micro-região
do oueste francês, foi um dos pioneiros na criação
de sites-guides. Com o site maville.com
, eles abordam detalhadamente todos os aspectos dos lugarejos, das
sessões na Câmara de Vereadores ao menu da cantina
da escola maternal. Isso é informação local.
Panopticon - A senhora observa
essa tendência no jornalismo online brasileiro?
Zélia Adghirni - Não vejo esta tendência
no jornalismo brasileiro. Temos os chamados "jornais populares",
que abordam questões mais cotidianas, tanto no papel quanto
na internet, mas não especificamente na internet. O Correio
Braziliense, que vem envolvendo cada vez mais os leitores na
produção de pautas e nas decisões de redação,
não revela a mesma preocupação no Correioweb.
O que mais se procura no site é a seção "Concursos".
Depois vêm as notícias.
Panopticon - No texto "Jornalismo
online e identidade profissional do jornalista" apresentado
na X Compós,
a senhora afirma que os internautas se conectam muito mais para
saber o que se passa na sua cidade do que no resto do mundo. Será
que os conteúdos de fato motivam esse acesso?
Zélia Adghirni - Recente pesquisa feita por meus alunos
de iniciação científica demonstram que menos
de 30 por cento das notícias veiculadas nos sites são
produzidas pelas próprias equipes. O que eles constataram
é que na maioria dos casos, as notícias são
cópias de material de outros veículos, principalmente
das agências e eventuais parceiros. Este material é
formatado nas redações e publicado na Web. Quero dizer
que a qualidade dos conteúdos é pobre. Todos dão
a mesma coisa. E a internet, a princípio, tem tudo para oferecer
a noticia ideal: a velocidade do tempo real, a possibilidade de
se aprofundar a análise nos links, a perenidade dos arquivos
para consultas futuras, e a interatividade para dialogar com o leitor.
Mas, honestamente, quem está fazendo isso ? Quanto à
prioridade da leitura para os fatos locais, isso é velho
como o mundo. Interessa mais o atropelamento do cachorro do vizinho
do que o massacre dos palestinos em Israel.
Panopticon - Os conteúdos
locais poderão contribuir para a heterogeneidade na rede,
sendo uma alternativa à homogeneidade atualmente tão
criticada?
Zélia Adghirni - Poderiam sim, e muito, contribuir.
Mas não é o que acontece. Os sites e portais são
tão pasteurizados quanto os jornais de papel e suas manchetes-padrão.
A singularidade no tratamento da notícia custa caro porque
vai exigir da empresa a contratação de profissionais
de alto nível que vão exigir bons salários.
De que adianta novas tecnologias se não estamos preparados,
ou não queremos fazer um jornalismo diferente, honesto, questionador
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