"Vocação do JOL é atingir as pessoas onde elas vivem"
Entrevista realizada por Suzana Barbosa, em 4 de março de 2002, via e-mail

Panopticon - Como a senhora avalia o aspecto da informação local na internet ?
Zélia Adghirni -
A principal mutação foi em relação aos jornais de informação local. De repente, apareceram na Web dezenas de sites de informações locais do tipo informação-serviço (city-guide) e entretenimento concorrendo com jornais que ocupavam tradicionalmente este espaço. Quem comprava jornal local para consultar programas de cinema, de espetáculos e até para ver "dicas" de restaurante se deu conta que a internet faz melhor este serviço. É breve, ágil, completa. Satisfaz o cliente. Para o jornal-empresa, é uma ameaça de perda de anunciantes. Nos sites-guias quem anuncia são os produtores de bens de cultura e entretenimento. Ninguém está ganhando dinheiro com isso, mas quem se aventurou neste caminho já está conseguindo equilibrar as contas. Certos grandes jornais, como o Correio Braziliense, por exemplo, minado e até pirateado pela concorrência nesta área, criou seu próprio serviço, o "Divirta-se" no Correioweb (NR: a versão digital do Correio Brasiliense). É o mais completo. Para quem procura notícia mesmo, aí os sites locais estão longe de poder concorrer com as grandes estruturas, as únicas que têm infra-estrutura e qualidade profissional para produzir e embalar informações jornalísticas. Ainda que os sites-guides tentem introduzir notícias breves entre as informações-serviços, percebe-se que são copiadas de outros sites, que não têm originalidade nem credibilidade.

Panopticon - Diversos autores falam do novo interesse pelo "local" e até mesmo da necessidade de se reinventar o "local" dentro do processo de globalização. Qual o seu posicionamento em relação a essa questão?
Zélia Adghirni -
Estudos sobre as audiências dos sites revelam efetivamente que há um grande interesse pelos assuntos locais. Mas a adoação do "tempo real" pela maioria dos sites e portais, que copiam o ritmo das agências de notícias, mudou um pouco este panorama. Os leitores (não gosto muito da palavra internauta - jamais ouvi de pessoas que lêem noticias na Internet, a frase "sou um internauta". Acho que internautas são os que usam a Internet para realmente brincar, surfar, bater papo, etc.) . O que vale agora é o que vem primeiro. Ou seja, o critério de importância da notícia é definido pela ordem cronológica. O fato que acaba de acontecer derruba o anterior, por maior que seja sua relevância política ou social. As notícias estão lá, em fluxo contínuo, jorrando na telinha.

Panopticon - Stuart Hall propõe se pensar numa nova articulação entre o global e o local. No caso do jornalismo online, como as redes poderão favorecer a mídia de proximidade?
Zélia Adghirni -
Esta contração do global com o local é o que os japoneses chamam de "glocalização". Eis um desafio. Certamente os leitores gostariam de se identificar com o veículo que trata da atualidade nacional e internacional a partir de um ponto de vista especial, voltado para suas preocupações cotidianas. Volto a dizer que esta é a vocação do jornalismo online - atingir diretamente as pessoas lá onde elas vivem, com suas singularidades, mas o que se observa é a obsessão da velocidade pelo óbvio.

Panopticon - Se observa nas edições online de jornais como o Washington Post e Chicago Tribune seções específicas dedicadas à cobertura local. Isso reflete uma tendência, demonstrando a importância dos conteúdos locais nas estratégias das empresas?
Zélia Adghirni -
No Brasil, não temos uma tradição de imprensa local ou regional forte. Os jornais de referência têm sede no Rio e em São Paulo de onde falam para o resto do Brasil. Isso se reproduz no jornalismo online, com raras exceções. Continuamos abordando questões gerais, nacionais, globais, sem pensar nos interesses das pequenas comunidades, dos bairros ou até mesmo das regiões. Na França, por exemplo, onde os jornais regionais ou locais são profundamente ancoradas nas tradições culturais, a internet reforçou esta tendência. O jornal Ouest-France, o maior jornal francês, com tiragem de 800 mil exemplares e 40 edições diárias, uma para cada micro-região do oueste francês, foi um dos pioneiros na criação de sites-guides. Com o site maville.com , eles abordam detalhadamente todos os aspectos dos lugarejos, das sessões na Câmara de Vereadores ao menu da cantina da escola maternal. Isso é informação local.

Panopticon - A senhora observa essa tendência no jornalismo online brasileiro?
Zélia Adghirni -
Não vejo esta tendência no jornalismo brasileiro. Temos os chamados "jornais populares", que abordam questões mais cotidianas, tanto no papel quanto na internet, mas não especificamente na internet. O Correio Braziliense, que vem envolvendo cada vez mais os leitores na produção de pautas e nas decisões de redação, não revela a mesma preocupação no Correioweb. O que mais se procura no site é a seção "Concursos". Depois vêm as notícias.

Panopticon - No texto "Jornalismo online e identidade profissional do jornalista" apresentado na X Compós, a senhora afirma que os internautas se conectam muito mais para saber o que se passa na sua cidade do que no resto do mundo. Será que os conteúdos de fato motivam esse acesso?
Zélia Adghirni -
Recente pesquisa feita por meus alunos de iniciação científica demonstram que menos de 30 por cento das notícias veiculadas nos sites são produzidas pelas próprias equipes. O que eles constataram é que na maioria dos casos, as notícias são cópias de material de outros veículos, principalmente das agências e eventuais parceiros. Este material é formatado nas redações e publicado na Web. Quero dizer que a qualidade dos conteúdos é pobre. Todos dão a mesma coisa. E a internet, a princípio, tem tudo para oferecer a noticia ideal: a velocidade do tempo real, a possibilidade de se aprofundar a análise nos links, a perenidade dos arquivos para consultas futuras, e a interatividade para dialogar com o leitor. Mas, honestamente, quem está fazendo isso ? Quanto à prioridade da leitura para os fatos locais, isso é velho como o mundo. Interessa mais o atropelamento do cachorro do vizinho do que o massacre dos palestinos em Israel.

Panopticon - Os conteúdos locais poderão contribuir para a heterogeneidade na rede, sendo uma alternativa à homogeneidade atualmente tão criticada?
Zélia Adghirni -
Poderiam sim, e muito, contribuir. Mas não é o que acontece. Os sites e portais são tão pasteurizados quanto os jornais de papel e suas manchetes-padrão. A singularidade no tratamento da notícia custa caro porque vai exigir da empresa a contratação de profissionais de alto nível que vão exigir bons salários. De que adianta novas tecnologias se não estamos preparados, ou não queremos fazer um jornalismo diferente, honesto, questionador ...

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Para trazermos à tona a discussão sobre a informação local na internet, "conversamos" com Zélia Leal Adghirni, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Ela é doutora em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade de Grenoble (França) e é pesquisadora do Jornalismo e novas tecnologias. Confira trechos da entrevista feita por e-mail, postada dia 04 de abril de 2002.