"Jornalismo online é fascinante"
Entrevista feita por ... em 20/02/2002

Panopticon: Fale um pouco sobre a sua formação, experiência profissional e atual ocupação.
Marcelo Bartolomei: Tenho 25 anos, sou formado pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas (interior de São Paulo). Trabalho na Folha de S. Paulo desde 1996. Comecei minha carreira como repórter geral, cobrindo um pouco de todas as editorias do caderno regional da Folha em Campinas, a "Folha Sudeste". Em 97, fui promovido a chefe de reportagem e, em 98, a editor-assistente. Em 99, fui chamado para cobrir uma vaga na redação em São Paulo, onde me estabeleci como chefe de reportagem das três regionais ainda existentes: Folha Campinas, Folha Ribeirão e Folha Vale. Em 2000, fui convidado para um projeto pioneiro do jornal: fazer jornalismo em tempo real, participando da criação de um novo conceito com a Folha Online, onde estou até agora como editor de entretenimento.
Desde o ano passado, também sou monitor da Oficina de Web Jornalismo da Revista Imprensa. Antes de entrar na Folha, trabalhei no "Jornal de Limeira", diário da cidade de Limeira, também no interior de São Paulo, onde iniciei minha carreira. Fiz, ainda, diversos trabalhos para revistas especializadas, como free-lancer.

Panopticon: Qual a sua relação com o jornalismo on-line? Fale um pouco sobre o seu trabalho.
Marcelo Bartolomei: Jornalismo online é fascinante. Você apura, descobre algo, conversa com alguma pessoa, vê algo e divulga isso para o leitor/internauta. Isso faz com que você procure um conhecimento prévio dos assuntos que vai cobrir para, quando conseguir cumprir a pauta, tenha agilidade para redigir o texto e pensar no gancho que é mais interessante para o veículo, cumprindo etapas normais da produção de texto, como cuidado com digitação, erros de português e, no caso da Folha, padronização, mantendo sempre qualidade.
Sou editor de entretenimento da Folha Online. Cuido de três editorias que têm tudo a ver, são perfeitamente integradas: Ilustrada, Equilíbrio e Turismo. É tudo que uma pessoa precisa: cultura e lazer, saúde e qualidade de vida e viagens. Não seria perfeito se conseguíssemos unir tudo à nossa vida?
Minha função é coordenar o trabalho de reportagem das três áreas, criando e sugerindo pautas, editando textos, coordenando o trabalho de repórteres e cuidando para que o trabalho tenha um perfil adequado para a internet.

Panopticon: Quanto à remuneração do profissional que trabalha com jornal on-line: é suficiente, satisfatória? Qual a faixa de salário de um profissional de um veículo como a Folha Online, por exemplo?
Marcelo Bartolomei: Não sei o que é satisfatório para você, cada um tem seu padrão de vida... O piso salarial em São Paulo, se não me engano, é de R$ 1.900 (preciso checar e te digo depois). A Folha Online é um jornal e trabalha com o mesmo piso da Folha. Um repórter entra na empresa ganhando o piso e, de acordo com seu desempenho e carreira, pode ganhar comissionamentos e aumentar seu salário ou não.

Panopticon: Como é sua rotina de trabalho?
Marcelo Bartolomei: É maluca, isso eu posso garantir. Brinco com as pessoas que me perguntam isso que eu sempre fui ligado no 220 V, mas agora estou com carga excessiva, em 440 V, mais ou menos. Temos um compromisso com os leitores de todo o mundo. É claro que um japonês não lê a Folha Online em português e o site não tem versões em outras línguas, mas brasileiros que moram no Japão e em outros países lêem. Além disso, cobrimos o território nacional, os principais acontecimentos ou manifestações culturais, ao menos.
Não há um horário fixo a cumprir na redação, mas passo o tempo todo do dia me dedicando a ver TV, assistir a noticiários, ouvir rádio, ler, conversar com fontes, sempre pensando no trabalho. E como consequência da internet, em qualquer lugar que esteja, basta ter um computador conectado à rede para poder colocar uma matéria no ar. De casa, por exemplo, antes de ir para a Folha, monitoro e-mails (o mais importante meio de comunicação com o mundo das assessorias de imprensa e com artistas, por exemplo!) e edito/corrijo textos.
Há uma agenda, claro, que procuramos cumprir. Sabemos com antecedência quando acontecerá um espetáculo, uma entrega de prêmios, uma coletiva etc, mas também há o imprevisível, como a doença ou a morte de alguém, que temos de cobrir.

Panopticon: Que tipo de suporte/instrumento de trabalho/fonte você utiliza no seu dia-a-dia?
Marcelo Bartolomei: Como já disse, basta um computador conectado à internet. Fonte de informação boa é e-mail, além do clássico telefone. Temos um sistema de publicação próprio, que nos permite incluir, alterar ou excluir um texto a qualquer momento com uma senha que cada profissional recebe. Trabalhamos com ferramentas simples, que nos permitem agilidade, e, para alguns casos, temos de ter um conhecimento meio aprofundado de linguagem html, para produzir páginas especiais ou, ao menos, para entender porquê aquela página age daquele jeito etc.

Panopticon: Antes de atuar como editor de um segmento da Folha Online, qual era sua concepção sobre o jornalismo online? Essa concepção mudou hoje? Em que sentido?
Marcelo Bartolomei: Eu sempre achei fantástico o jornalismo online, mas nunca pensei fazer parte dele. Na verdade, há poucos anos atrás eu achava internet um "bicho de sete cabeças". Houve um advento do meio, e, com isso, me profissionalizei. Acho que ainda não encontramos o formato correto, a fórmula mágica, se é que ela existe! Desde quando começamos, em 2000, muita coisa mudou, muita concepção foi diferenciada. Digo que estamos em constante experiência. Nossa principal fonte de experimentação é o leitor, a partir do que o internauta quer ler e ver no nosso produto. E isso nós testamos constantemente, participamos de discussões, reuniões, tudo para tentar transformar o produto no melhor para o leitor, desde o visual até o conteúdo da notícia e o conteúdo web que podemos oferecer, como imagens, vídeos, áudio e interação, entre outras coisas.

Panopticon: Na sua opinião, quais as principais características inerentes ao jornal online que o diferem do jornal impresso?
Marcelo Bartolomei: A agilidade, o dinamismo e a capacidade de noticiar uma quantidade muito maior de informações que no jornal impresso diferenciam o trabalho na internet. Eu publico 50 notícias por dia, enquanto o caderno Ilustrada publica dez, no máximo, por causa de espaço físico. O conteúdo das reportagens, no entanto, pode ser diferente. Para a internet interessa o imediato, o inédito, não a exposição de idéias de uma pessoa, como faz o jornal.
Além disso, não há um horário para fechamento. São vários fechamentos num dia, de acordo com os fatos. Aconteceu, temos de publicar. Não podemos esperar. Isso mudou o conceito de reportagem. Quando o repórter sai à rua para apurar um material, ele tem de telefonar para a redação para contar o que tem em mãos, e não ir dar uma volta no shopping, fazer um lanche ou deixar para retornar à redação no horário de fechamento. É tudo instantâneo. É uma espécie de cobertura televisiva. Você tem de ver e contar para o seu público.

Panopticon: Que aspectos positivos e/ou negativos você apontaria sobre esse novo modo de fazer jornalismo?
Marcelo Bartolomei: O fato de podermos noticiar com agilidade é positivo, mas tem de ter credibilidade, apuração. Por isso, às vezes, optamos por não ser tão ágeis, segurar um pouco, mas apurar tudo corretamente. Outra coisa que não pode passar é erro de digitação e de português. Tem site por aí que dá a informação como recebe, copia release de assessoria de imprensa, faz uma coisa meio "telefone sem fio" e deixa como está. No nosso caso, representamos um jornal e, por isso, não podemos fazer de qualquer jeito. Existe, sim, uma preocupação com a credibilidade. E nosso leitor sabe que pode confiar justamente por termos por trás de nós o maior veículo do país, que é a Folha.

Panopticon: Algo poderia ser mudado na estrutura dos jornais online atuais? O que você mudaria, por exemplo?
Marcelo Bartolomei: Deixaria de dar a notícia picada. Exemplo: Daniela Mercury sobe no trio; Fernando Henrique chega ao Planalto; e depois vem ainda: Daniela Mercury pede paz; FHC cumprimenta ministro da Saúde etc. Acho que a notícia, para ter um bom título, que chame a atenção do leitor para clicar nele, tem de ter um embasamento. E para isso, penso que podemos noticiar assim que o evento terminar ou que a pessoa fizer algo mais contundente. Daí, no mesmo texto, juntamos tudo, desde o momento em que chegou, por exemplo, até o momento em que saiu. Ninguém quer um acompanhamento online das notícias, quer apenas saber o que aconteceu. É diferente, por exemplo, de acompanhar uma votação do Senado em tempo real ou uma partida de futebol. Daí, sim, vale o minuto-a-minuto.
Além disso, como já disse, é preciso apurar, checar e fechar as informações antes de publicá-las para não prejudicar ninguém com dados errados.

Panopticon: A respeito da linguagem utilizada, você concorda que ainda não foi definida uma específica no jornalismo online? Qual seria essa nova linguagem? De que outra linguagem ela se aproximaria/distanciaria?
Marcelo Bartolomei: A linguagem é universal. Não podemos mudar a língua portuguesa, abreviando palavras, por exemplo, para noticiar um fato. A linguagem do e-mail é diferente, você usa o "vc", o "qdo", o "abs", os símbolos "[]s", ":)" etc, mas para um texto jornalístico ela continua sendo a mesma. Acho que não vai mudar.
O diferencial é no conteúdo, na maneira de noticiar, nos recursos que a web oferece, como áudio, vídeo e interação.

Panopticon: Você pretende continuar trabalhando com jornalismo online? Qual a avaliação geral que você faria do seu trabalho?
Marcelo Bartolomei: É uma transição, talvez, sem volta. É difícil ter em mãos uma ferramenta tão poderosa de divulgação e ficar sem ela. Não desprezo o jornalismo impresso, mas é difícil se acostumar com ele depois que você trabalha com web. Os tempos são diferentes. Talvez isso seja o mais difícil de aceitar. Acho só que o jornalismo impresso tem de se adaptar melhor à web, se integrando a ela, trabalhando conjuntamente. É o que estamos fazendo na Folha, por exemplo.
A internet é um imenso campo de dados históricos, por exemplo. Com uma ferramenta de busca, consigo encontrar e aglutinar uma série de informações do passado em alguns minutos. Em uma cobertura, por exemplo, de um evento, consigo manter em uma mesma página notícias desde o seu início até o seu final, coisa que o jornal não consegue.
Diante disso, o jornal remete um link para a Folha Online, que é o seu jornal em tempo real, para documentos, áudios, vídeos, íntegras de discursos ou conteúdos que, por causa do horário de fechamento, é impossível colocar na edição do dia a tempo. Tivemos recentemente o caso da prisão do ex-senador Jader Barbalho. Ele foi preso no sábado de manhã. O jornal que estava nas bancas no sábado dizia que ele poderia ser preso. Nosso leitor já sabe que ele pode entrar na Folha Online para encontrar a informação quente, do dia, a continuação do que ele leu no jornal. Neste caso, especificamente, o jornal foi reimpresso duas vezes para se atualizar dos fatos, mas, por problemas industriais, não conseguiu atingir todas as suas edições para dizer que o ex-senador havia sido solto no final da noite. Na Folha Online, estava tudo reunido, desde o início do caso, além de oferecer biografia, galeria de imagens, histórico do escândalo da Sudam etc.

Panopticon: Fale um pouco do seu trabalho de cobertura do Carnaval de Salvador, este ano, para a Folha Online. Considerando todos os aspectos já abordados, como essa experiência ilustra o que foi dito por você?
Marcelo Bartolomei: A cobertura em Salvador seguiu os mesmos moldes de outras que já fizemos. Foi ótima e atingiu satisfatórios índices de audiência. A cobertura foi pautada pelos principais fatos que aconteceram no Carnaval baiano. Não cobri tudo, foi humanamente impossível, devido ao grande número de "eventos" que acontecem durante os sete dias de folia. Mas o que ocorreu de principal esteve registrado na Folha Online. Acho que a melhor experiência do Carnaval, algo que só havíamos feito no Rock in Rio 3 e no Free Jazz Festival do ano passado, foi com fotos, mas com alguma diferença. Estou (a Folha Online ainda não compactua da mesma opinião que eu!) testando um formato de trabalho em que o repórter pode ter em mãos uma máquina fotográfica digital, que é de fácil manuseio, em mãos para mostrar, com imagens, o que acontece na cobertura da qual está responsável. Há coisas que não consigo mostrar com o texto, por melhor que ele seja. Mas a foto diz tudo. Consegui fazer uma foto de Daniela Mercury cantando debaixo de chuva em Salvador, no circuito Barra-Ondina, em sua primeira passagem por lá. Por mais que eu escreva que ela cantou embaixo de chuva, meu leitor nunca iria imaginar que foi uma forte chuva e que espantaria qualquer um, mas ela teve garra de ficar lá, cantando, numa belíssima apresentação, num momento único do Carnaval, já que todos os artistas, quando ameaçavam cair uns pinguinhos, cobriam o trio com uma lona. A foto em questão está em http://www.uol.com.br/folha/galeria/album/p_ivetesangalo_11.shtml. Veja como funciona nossa cabeça... Você vai clicar no link para ver a tal foto da qual estou falando! É a mesma coisa: não adianta eu dizer que a Beija-Flor protestou no desfile das campeãs do Rio se eu não tiver a imagem com as faixas. A notícia fica mais completa com a imagem, dá para casar as duas formas de informação.
Temos aqui uma equipe de imagem, com fotógrafo, gente que trabalha na edição da foto, mas que, cada vez menos, estão podendo viajar, sair da redação para cobrir tudo o que acontece. Por isso a otimização do trabalho -2 em 1, neste caso - cai perfeitamente.

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Editor de entretenimento da Folha OnLine, o jornalista Marcelo Bartolomei fala sobre a paixão pelo trabalho, sua rotina produtiva, os problemas e vantagens do jornalismo digital, além da sua experiência na cobertura do Carnaval de Salvador, este ano. Confira.