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Panopticon: Fale um pouco
sobre a sua formação, experiência profissional
e atual ocupação.
Marcelo Bartolomei: Tenho 25 anos, sou
formado pela PUC (Pontifícia Universidade Católica)
de Campinas (interior de São Paulo). Trabalho na Folha de
S. Paulo desde 1996. Comecei minha carreira como repórter
geral, cobrindo um pouco de todas as editorias do caderno regional
da Folha em Campinas, a "Folha Sudeste". Em 97, fui promovido
a chefe de reportagem e, em 98, a editor-assistente. Em 99, fui
chamado para cobrir uma vaga na redação em São
Paulo, onde me estabeleci como chefe de reportagem das três
regionais ainda existentes: Folha Campinas, Folha Ribeirão
e Folha Vale. Em 2000, fui convidado para um projeto pioneiro do
jornal: fazer jornalismo em tempo real, participando da criação
de um novo conceito com a Folha Online, onde estou até agora
como editor de entretenimento.
Desde o ano passado, também sou monitor da Oficina de Web
Jornalismo da Revista Imprensa. Antes de entrar na Folha, trabalhei
no "Jornal de Limeira", diário da cidade de Limeira,
também no interior de São Paulo, onde iniciei minha
carreira. Fiz, ainda, diversos trabalhos para revistas especializadas,
como free-lancer.
Panopticon: Qual a sua
relação com o jornalismo on-line? Fale um pouco sobre
o seu trabalho.
Marcelo Bartolomei: Jornalismo online
é fascinante. Você apura, descobre algo, conversa com
alguma pessoa, vê algo e divulga isso para o leitor/internauta.
Isso faz com que você procure um conhecimento prévio
dos assuntos que vai cobrir para, quando conseguir cumprir a pauta,
tenha agilidade para redigir o texto e pensar no gancho que é
mais interessante para o veículo, cumprindo etapas normais
da produção de texto, como cuidado com digitação,
erros de português e, no caso da Folha, padronização,
mantendo sempre qualidade.
Sou editor de entretenimento da Folha Online. Cuido de três
editorias que têm tudo a ver, são perfeitamente integradas:
Ilustrada, Equilíbrio e Turismo. É tudo que uma pessoa
precisa: cultura e lazer, saúde e qualidade de vida e viagens.
Não seria perfeito se conseguíssemos unir tudo à
nossa vida?
Minha função é coordenar o trabalho de reportagem
das três áreas, criando e sugerindo pautas, editando
textos, coordenando o trabalho de repórteres e cuidando para
que o trabalho tenha um perfil adequado para a internet.
Panopticon: Quanto à
remuneração do profissional que trabalha com jornal
on-line: é suficiente, satisfatória? Qual a faixa
de salário de um profissional de um veículo como a
Folha Online, por exemplo?
Marcelo Bartolomei: Não sei o
que é satisfatório para você, cada um tem seu
padrão de vida... O piso salarial em São Paulo, se
não me engano, é de R$ 1.900 (preciso checar e te
digo depois). A Folha Online é um jornal e trabalha com o
mesmo piso da Folha. Um repórter entra na empresa ganhando
o piso e, de acordo com seu desempenho e carreira, pode ganhar comissionamentos
e aumentar seu salário ou não.
Panopticon: Como é
sua rotina de trabalho?
Marcelo Bartolomei: É maluca,
isso eu posso garantir. Brinco com as pessoas que me perguntam isso
que eu sempre fui ligado no 220 V, mas agora estou com carga excessiva,
em 440 V, mais ou menos. Temos um compromisso com os leitores de
todo o mundo. É claro que um japonês não lê
a Folha Online em português e o site não tem versões
em outras línguas, mas brasileiros que moram no Japão
e em outros países lêem. Além disso, cobrimos
o território nacional, os principais acontecimentos ou manifestações
culturais, ao menos.
Não há um horário fixo a cumprir na redação,
mas passo o tempo todo do dia me dedicando a ver TV, assistir a
noticiários, ouvir rádio, ler, conversar com fontes,
sempre pensando no trabalho. E como consequência da internet,
em qualquer lugar que esteja, basta ter um computador conectado
à rede para poder colocar uma matéria no ar. De casa,
por exemplo, antes de ir para a Folha, monitoro e-mails (o mais
importante meio de comunicação com o mundo das assessorias
de imprensa e com artistas, por exemplo!) e edito/corrijo textos.
Há uma agenda, claro, que procuramos cumprir. Sabemos com
antecedência quando acontecerá um espetáculo,
uma entrega de prêmios, uma coletiva etc, mas também
há o imprevisível, como a doença ou a morte
de alguém, que temos de cobrir.
Panopticon: Que tipo
de suporte/instrumento de trabalho/fonte você utiliza no seu
dia-a-dia?
Marcelo Bartolomei: Como já disse,
basta um computador conectado à internet. Fonte de informação
boa é e-mail, além do clássico telefone. Temos
um sistema de publicação próprio, que nos permite
incluir, alterar ou excluir um texto a qualquer momento com uma
senha que cada profissional recebe. Trabalhamos com ferramentas
simples, que nos permitem agilidade, e, para alguns casos, temos
de ter um conhecimento meio aprofundado de linguagem html, para
produzir páginas especiais ou, ao menos, para entender porquê
aquela página age daquele jeito etc.
Panopticon: Antes de
atuar como editor de um segmento da Folha Online, qual era sua concepção
sobre o jornalismo online? Essa concepção mudou hoje?
Em que sentido?
Marcelo Bartolomei: Eu sempre achei
fantástico o jornalismo online, mas nunca pensei fazer parte
dele. Na verdade, há poucos anos atrás eu achava internet
um "bicho de sete cabeças". Houve um advento do
meio, e, com isso, me profissionalizei. Acho que ainda não
encontramos o formato correto, a fórmula mágica, se
é que ela existe! Desde quando começamos, em 2000,
muita coisa mudou, muita concepção foi diferenciada.
Digo que estamos em constante experiência. Nossa principal
fonte de experimentação é o leitor, a partir
do que o internauta quer ler e ver no nosso produto. E isso nós
testamos constantemente, participamos de discussões, reuniões,
tudo para tentar transformar o produto no melhor para o leitor,
desde o visual até o conteúdo da notícia e
o conteúdo web que podemos oferecer, como imagens, vídeos,
áudio e interação, entre outras coisas.
Panopticon: Na sua opinião,
quais as principais características inerentes ao jornal online
que o diferem do jornal impresso?
Marcelo Bartolomei: A agilidade, o dinamismo
e a capacidade de noticiar uma quantidade muito maior de informações
que no jornal impresso diferenciam o trabalho na internet. Eu publico
50 notícias por dia, enquanto o caderno Ilustrada publica
dez, no máximo, por causa de espaço físico.
O conteúdo das reportagens, no entanto, pode ser diferente.
Para a internet interessa o imediato, o inédito, não
a exposição de idéias de uma pessoa, como faz
o jornal.
Além disso, não há um horário para fechamento.
São vários fechamentos num dia, de acordo com os fatos.
Aconteceu, temos de publicar. Não podemos esperar. Isso mudou
o conceito de reportagem. Quando o repórter sai à
rua para apurar um material, ele tem de telefonar para a redação
para contar o que tem em mãos, e não ir dar uma volta
no shopping, fazer um lanche ou deixar para retornar à redação
no horário de fechamento. É tudo instantâneo.
É uma espécie de cobertura televisiva. Você
tem de ver e contar para o seu público.
Panopticon: Que aspectos positivos e/ou
negativos você apontaria sobre esse novo modo de fazer jornalismo?
Marcelo Bartolomei: O fato de podermos
noticiar com agilidade é positivo, mas tem de ter credibilidade,
apuração. Por isso, às vezes, optamos por não
ser tão ágeis, segurar um pouco, mas apurar tudo corretamente.
Outra coisa que não pode passar é erro de digitação
e de português. Tem site por aí que dá a informação
como recebe, copia release de assessoria de imprensa, faz uma coisa
meio "telefone sem fio" e deixa como está. No nosso
caso, representamos um jornal e, por isso, não podemos fazer
de qualquer jeito. Existe, sim, uma preocupação com
a credibilidade. E nosso leitor sabe que pode confiar justamente
por termos por trás de nós o maior veículo
do país, que é a Folha.
Panopticon: Algo poderia
ser mudado na estrutura dos jornais online atuais? O que você
mudaria, por exemplo?
Marcelo Bartolomei: Deixaria de dar
a notícia picada. Exemplo: Daniela Mercury sobe no trio;
Fernando Henrique chega ao Planalto; e depois vem ainda: Daniela
Mercury pede paz; FHC cumprimenta ministro da Saúde etc.
Acho que a notícia, para ter um bom título, que chame
a atenção do leitor para clicar nele, tem de ter um
embasamento. E para isso, penso que podemos noticiar assim que o
evento terminar ou que a pessoa fizer algo mais contundente. Daí,
no mesmo texto, juntamos tudo, desde o momento em que chegou, por
exemplo, até o momento em que saiu. Ninguém quer um
acompanhamento online das notícias, quer apenas saber o que
aconteceu. É diferente, por exemplo, de acompanhar uma votação
do Senado em tempo real ou uma partida de futebol. Daí, sim,
vale o minuto-a-minuto.
Além disso, como já disse, é preciso apurar,
checar e fechar as informações antes de publicá-las
para não prejudicar ninguém com dados errados.
Panopticon: A respeito
da linguagem utilizada, você concorda que ainda não
foi definida uma específica no jornalismo online? Qual seria
essa nova linguagem? De que outra linguagem ela se aproximaria/distanciaria?
Marcelo Bartolomei: A linguagem é
universal. Não podemos mudar a língua portuguesa,
abreviando palavras, por exemplo, para noticiar um fato. A linguagem
do e-mail é diferente, você usa o "vc", o
"qdo", o "abs", os símbolos "[]s",
":)" etc, mas para um texto jornalístico ela continua
sendo a mesma. Acho que não vai mudar.
O diferencial é no conteúdo, na maneira de noticiar,
nos recursos que a web oferece, como áudio, vídeo
e interação.
Panopticon: Você
pretende continuar trabalhando com jornalismo online? Qual a avaliação
geral que você faria do seu trabalho?
Marcelo Bartolomei: É uma transição,
talvez, sem volta. É difícil ter em mãos uma
ferramenta tão poderosa de divulgação e ficar
sem ela. Não desprezo o jornalismo impresso, mas é
difícil se acostumar com ele depois que você trabalha
com web. Os tempos são diferentes. Talvez isso seja o mais
difícil de aceitar. Acho só que o jornalismo impresso
tem de se adaptar melhor à web, se integrando a ela, trabalhando
conjuntamente. É o que estamos fazendo na Folha, por exemplo.
A internet é um imenso campo de dados históricos,
por exemplo. Com uma ferramenta de busca, consigo encontrar e aglutinar
uma série de informações do passado em alguns
minutos. Em uma cobertura, por exemplo, de um evento, consigo manter
em uma mesma página notícias desde o seu início
até o seu final, coisa que o jornal não consegue.
Diante disso, o jornal remete um link para a Folha Online, que é
o seu jornal em tempo real, para documentos, áudios, vídeos,
íntegras de discursos ou conteúdos que, por causa
do horário de fechamento, é impossível colocar
na edição do dia a tempo. Tivemos recentemente o caso
da prisão do ex-senador Jader Barbalho. Ele foi preso no
sábado de manhã. O jornal que estava nas bancas no
sábado dizia que ele poderia ser preso. Nosso leitor já
sabe que ele pode entrar na Folha Online para encontrar a informação
quente, do dia, a continuação do que ele leu no jornal.
Neste caso, especificamente, o jornal foi reimpresso duas vezes
para se atualizar dos fatos, mas, por problemas industriais, não
conseguiu atingir todas as suas edições para dizer
que o ex-senador havia sido solto no final da noite. Na Folha Online,
estava tudo reunido, desde o início do caso, além
de oferecer biografia, galeria de imagens, histórico do escândalo
da Sudam etc.
Panopticon: Fale um pouco do seu trabalho
de cobertura do Carnaval de Salvador, este ano, para a Folha Online.
Considerando todos os aspectos já abordados, como essa experiência
ilustra o que foi dito por você?
Marcelo Bartolomei: A cobertura em Salvador
seguiu os mesmos moldes de outras que já fizemos. Foi ótima
e atingiu satisfatórios índices de audiência.
A cobertura foi pautada pelos principais fatos que aconteceram no
Carnaval baiano. Não cobri tudo, foi humanamente impossível,
devido ao grande número de "eventos" que acontecem
durante os sete dias de folia. Mas o que ocorreu de principal esteve
registrado na Folha Online. Acho que a melhor experiência
do Carnaval, algo que só havíamos feito no Rock in
Rio 3 e no Free Jazz Festival do ano passado, foi com fotos, mas
com alguma diferença. Estou (a Folha Online ainda não
compactua da mesma opinião que eu!) testando um formato de
trabalho em que o repórter pode ter em mãos uma máquina
fotográfica digital, que é de fácil manuseio,
em mãos para mostrar, com imagens, o que acontece na cobertura
da qual está responsável. Há coisas que não
consigo mostrar com o texto, por melhor que ele seja. Mas a foto
diz tudo. Consegui fazer uma foto de Daniela Mercury cantando debaixo
de chuva em Salvador, no circuito Barra-Ondina, em sua primeira
passagem por lá. Por mais que eu escreva que ela cantou embaixo
de chuva, meu leitor nunca iria imaginar que foi uma forte chuva
e que espantaria qualquer um, mas ela teve garra de ficar lá,
cantando, numa belíssima apresentação, num
momento único do Carnaval, já que todos os artistas,
quando ameaçavam cair uns pinguinhos, cobriam o trio com
uma lona. A foto em questão está em http://www.uol.com.br/folha/galeria/album/p_ivetesangalo_11.shtml.
Veja como funciona nossa cabeça... Você vai clicar
no link para ver a tal foto da qual estou falando! É a mesma
coisa: não adianta eu dizer que a Beija-Flor protestou no
desfile das campeãs do Rio se eu não tiver a imagem
com as faixas. A notícia fica mais completa com a imagem,
dá para casar as duas formas de informação.
Temos aqui uma equipe de imagem, com fotógrafo, gente que
trabalha na edição da foto, mas que, cada vez menos,
estão podendo viajar, sair da redação para
cobrir tudo o que acontece. Por isso a otimização
do trabalho -2 em 1, neste caso - cai perfeitamente.
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