Fazendo jornalismo online na Bahia
Entrevista realizada por e-mail em 18/02/2002

Panopticon - Você migrou do jornalismo impresso para o online. Foi uma escolha ou uma necessidade?
Márcia Luz - Foi, na verdade, uma oportunidade. Queria muito fazer algo novo, pois estava desmotivada com o dia-a-dia da rua na reportagem. Passei um tempo escrevendo para o Correio Repórter, do Correio da Bahia, até que em junho de 2000, tive o convite para trabalhar com Internet, assumindo o IBahia.

Panopticon - Você passou por dificuldades de adaptação ao texto digital? Qual a melhor forma de controlar/superar essas diferenças de rotina produtiva?
Márcia Luz - Não tive dificuldades, pois já utilizava a Internet e sempre achei o texto muito próximo à linguagem televisiva, é um texto quase oral. As adaptações foram surgindo com o dia-a-dia, fui percebendo o que funcionava e o que não funcionava. Mas não foi uma passagem traumática, de forma nenhuma. Comecei a ler muito sobre o assunto e visitar outros portais também.

Panopticon - Os métodos de apuração para o jornalismo online são diferenciados. O que mais se usa hoje nessa área? Quais as coisas serviam ao impresso mas já não dão tantos frutos no online? novas técnicas foram criadas para os meios digitais?
Márcia Luz - Isso é lenda. Não existem meios de apuração específicos para impresso, TV ou Internet. A apuração deve estar sempre baseada no respeito à verdade. A maneira como escreve e o tempo são diferentes.

Panopticon - Você comanda uma equipe de jornalismo de portal (IBahia). Como funciona o trabalho?
Márcia Luz - A equipe do IBahia hoje é formada por três repórteres e uma editora, que sou eu. Pela característica do meio, esses repórteres têm autonomia para colocar uma notícia no ar. Todos dominam a ferramenta de atualização. Eu acompanho tudo, conversamos muito sobre a importância de cada notícia, o enfoque. Mas todos eles têm hoje o discernimento do que é importante para o nosso noticiário. É um meio muito dinâmico e o jornalista deve estar muito atento ao que vai publicar, existe uma preocupação muito grande com a verdadeira notícia. Não somos adeptos daquela história: "vamos colocar no ar para ganhar audiência!".

Panopticon - Sua relação com seus repórteres é semelhante ao que acontece nas redações de impresso?
Márcia Luz - A grande diferença entre o repórter da Internet e o do jornal é que, na Internet, as pautas preestabelecidas são aplicadas apenas aos canais especiais (esportes, comportamento, música) e nosso deadline é de 15 em 15 minutos. Acredito que na Internet a relação do repórter com sua produção e com o editor é mais intensa. No jornal, o repórter não acompanha todas as etapas até que sua matéria seja publicada, na Internet isso acontece diariamente. Além disso, existe muito mais entrosamento entre a equipe, o trabalho passa a ser de todos. Hoje no IBahia, todos da equipe entendem cada etapa do processo, não tem aquela história de fazer o texto, passar para a área do editor e tarefa finalizada. Repórter e editor são responsáveis pela matéria do início ao fim.

Panopticon - No caso do IBahia, como foi projetada a linha editorial? Hoje sua equipe consegue realizar o que foi pensado inicialmente?
Márcia Luz - Sim. Todos os repórteres têm hoje uma integração muito forte com o projeto, são muito engajados. Conversamos o tempo todo sobre o plantão, o que é interessante ou não para o nosso noticiário. A linha editorial foi definida partindo da idéia de oferecer algo diferente, não queríamos repetir o conteúdo do jornal, por exemplo. A rede tem vários veículos e nenhum se repete. Existem, Por exemplo, a TV Bahia e a TV Salvador, mas cada uma tem a sua linha e sua forma de atuar, assim também acontece com o o IBahia e o Correio da Bahia. Além disso, não cabia repetir o conteúdo do jornal, já que existia a página do Correio na Internet.

Panopticon - Hoje o trabalho do IBahia sofre as mesmas pressões de conteúdo do Correio da Bahia, empresa do mesmo grupo jornalístico (Rede Bahia de Comunicação, de propriedade da família de Antonio Carlos Magalhães)?
Márcia Luz - Nunca sentimos no Ibahia qualquer tipo de pressão. Apesar de pertencerem à mesma rede de Comunicação, os conteúdos de cada veículo são muito independentes um do outro. São equipes diferentes atuando e cada um tem uma finalidade diferenciada.

Panopticon - Quais as coisas foram idealizadas no início do projeto do portal, mas não foram colocadas em prática, ou não deram certo?
Márcia Luz - Um projeto de Internet não nasce pronto. Ele precisa ser adaptado e renovado a cada dia. A mudança de layout, por exemplo, é uma necessidade deste meio, pois é desagradável para o internauta ver sempre a mesma tela. Visualmente, ele precisa de mudança. Já fizemos muitas delas no IBahia. Mudamos a capa, deixando-a mais organizada para facilitar a navegação. Também fizemos alterações no site Issa - de cobertura fotográfica das festas da cidade. No início, ele tinha textos sobre as festas e a noite de Salvador, mas chegamos à conclusão de que seriam melhor apenas as fotos. Já no IRado, nosso site direcionado ao público jovem, tínhamos quatro campos de matérias - Música, Comportamento, Educação e Esporte. Decidimos deixar apenas uma área para essas matérias e abrir outros espaços para entrevistas, notas, campo para sugestões, comentários de CDs. Também exploramos melhor hoje as fotos com imagens mais arrojadas e deixamos o site mais interativo. Na Internet é assim, as mudanças precisam acontecer e é aí que entram a criatividade e a sensibilidade para saber o que o internauta deseja.

Panopticon - Analisando da ótica do usuário: em que você acha que o online supera o impresso?
Márcia Luz - A grande vantagem da Internet é a rapidez, o dinamismo. É também o meio que pode, ao mesmo tempo, usar áudio, vídeo, foto, texto. Pode comportar as linguagens de outros meios, talvez ainda de maneira experimental, mas pode. Só que nada disso supera qualquer meio que seja.

Panopticon - E a seu ver, o que não poderá ser substituído pelos meios digitais?
Márcia Luz - As grandes reportagens, por exemplo. Por mais que se possa utilizar na Internet o recurso do hipertexto, existe uma tolerância de tamanho de matérias, porque na tela um texto longo não é bom. Mas, por outro lado, a Internet me dá coisas que o impresso não dá, como a questão do "agora"! Instantaneidade!

Panopticon - O jornalismo online é uma faca de dois gumes. Pode levar a um detalhamento maior ou a uma série de notícias superficiais justificadas pela instantaneidade do suporte. Qual destas duas cenas você acha que caracteriza o jornalismo online brasileiro hoje?
Márcia Luz - Não podemos generalizar a questão. Ser instantâneo não significa ser superficial, significa utilizar a lei da prioridade - dar ao internauta o que ele quer saber agora. Eu posso escrever três laudas para o jornal e simplesmente não informar nada de importante ao meu leitor. Na Internet trabalhamos com a necessidade que o internauta tem naquele momento, mas também podemos desdobrar o assunto em blocos diferenciados de notícia. Se paramos o que é importante agora e colocamos dados complementares em outros blocos, que a pessoa vai ler se quiser e quando quiser.

Panopticon - Qual o jornal online você apontaria como o de melhor qualidade no Brasil? E em toda a Web?
Márcia Luz -
Acho muito bom o Terra, o Globo On-line, a Folha On-line, o Blues Bus. É difícil citar um em toda a WEB, porque por mais que uma pessoa navegue o dia inteiro não pode conhecer tudo.

Panopticon - Você acredita em substituição do jornal impresso pelo Online?
Márcia Luz -
A Internet não está aí para substituir qualquer outro meio. Cada um tem a sua vocação, sua linguagem e o seu público. Acredito na possibilidade de colaboração entre eles. Ela não nasceu com essa finalidade e não trabalha para isso. O mundo ainda está aprendendo a lidar com a Internet, é algo ainda sendo experimentado. Ainda não exploramos tal meio 100%, mas já sabemos que a Internet não está aí para derrubar nenhum outro. Cada um deles tem suas próprias características, suas vantagens e um pode complementar o outro. No IBahia, por exemplo, podemos noticiar um fato agora e chamar para a edição do Correio da Bahiado dia seguinte, onde o leitor/internauta poderá aprofundar sua leitura sobre o assunto. Existem notícias e espaço para todos.

Copyright © 2002 - Oficina de Jornalismo Digital - Faculdade de Comunicação / UFBA

Formada em jornalismo Pela Ufba, Márcia Luz é hoje editora do Portal de Internet IBahia, e se mostra contente com os rumos de sua trajetória no jornalismo online. Nesta entrevista para o Panopticon, ela fala um pouco de sua experiência com o IBahia e tenta quebrar alguns mitos sobre o jornalismo na Internet.


Página inicial do IBahia.com, capturada em 13.03.02