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Panopticon
- Você migrou do jornalismo impresso para o online. Foi uma
escolha ou uma necessidade?
Márcia Luz - Foi, na verdade, uma oportunidade.
Queria muito fazer algo novo, pois estava desmotivada com o dia-a-dia
da rua na reportagem. Passei um tempo escrevendo para o Correio
Repórter, do Correio da Bahia, até que em junho de 2000, tive o
convite para trabalhar com Internet, assumindo o IBahia.
Panopticon
- Você passou por dificuldades de adaptação ao texto digital?
Qual a melhor forma de controlar/superar essas diferenças de rotina
produtiva?
Márcia Luz - Não tive dificuldades,
pois já utilizava a Internet e sempre achei o texto muito próximo
à linguagem televisiva, é um texto quase oral. As adaptações foram
surgindo com o dia-a-dia, fui percebendo o que funcionava e o que
não funcionava. Mas não foi uma passagem traumática, de forma nenhuma.
Comecei a ler muito sobre o assunto e visitar outros portais também.
Panopticon
- Os métodos de apuração para o jornalismo online são diferenciados.
O que mais se usa hoje nessa área? Quais as coisas serviam ao impresso
mas já não dão tantos frutos no online? novas técnicas foram criadas
para os meios digitais?
Márcia Luz - Isso é lenda. Não existem
meios de apuração específicos para impresso, TV ou Internet. A apuração
deve estar sempre baseada no respeito à verdade. A maneira como
escreve e o tempo são diferentes.
Panopticon
- Você comanda uma equipe de jornalismo de portal (IBahia).
Como funciona o trabalho?
Márcia Luz - A equipe do IBahia hoje
é formada por três repórteres e uma editora, que sou eu. Pela característica
do meio, esses repórteres têm autonomia para colocar uma notícia
no ar. Todos dominam a ferramenta de atualização. Eu acompanho tudo,
conversamos muito sobre a importância de cada notícia, o enfoque.
Mas todos eles têm hoje o discernimento do que é importante para
o nosso noticiário. É um meio muito dinâmico e o jornalista deve
estar muito atento ao que vai publicar, existe uma preocupação muito
grande com a verdadeira notícia. Não somos adeptos daquela história:
"vamos colocar no ar para ganhar audiência!".
Panopticon
- Sua relação com seus repórteres é semelhante ao que acontece
nas redações de impresso?
Márcia Luz - A grande diferença entre
o repórter da Internet e o do jornal é que, na Internet, as pautas
preestabelecidas são aplicadas apenas aos canais especiais (esportes,
comportamento, música) e nosso deadline é de 15 em 15 minutos. Acredito
que na Internet a relação do repórter com sua produção e com o editor
é mais intensa. No jornal, o repórter não acompanha todas as etapas
até que sua matéria seja publicada, na Internet isso acontece diariamente.
Além disso, existe muito mais entrosamento entre a equipe, o trabalho
passa a ser de todos. Hoje no IBahia, todos da equipe entendem cada
etapa do processo, não tem aquela história de fazer o texto, passar
para a área do editor e tarefa finalizada. Repórter e editor são
responsáveis pela matéria do início ao fim.
Panopticon
- No caso do IBahia, como foi projetada a linha editorial?
Hoje sua equipe consegue realizar o que foi pensado inicialmente?
Márcia Luz - Sim. Todos os repórteres
têm hoje uma integração muito forte com o projeto, são muito engajados.
Conversamos o tempo todo sobre o plantão, o que é interessante ou
não para o nosso noticiário. A linha editorial foi definida partindo
da idéia de oferecer algo diferente, não queríamos repetir o conteúdo
do jornal, por exemplo. A rede tem vários veículos e nenhum se repete.
Existem, Por exemplo, a TV Bahia e a TV Salvador, mas cada uma tem
a sua linha e sua forma de atuar, assim também acontece com o o
IBahia e o Correio da Bahia. Além disso, não cabia repetir o conteúdo
do jornal, já que existia a página do Correio na Internet.
Panopticon
- Hoje o trabalho do IBahia sofre as mesmas pressões de conteúdo
do Correio da Bahia, empresa do mesmo grupo jornalístico (Rede Bahia
de Comunicação, de propriedade da família de Antonio Carlos Magalhães)?
Márcia Luz - Nunca sentimos no Ibahia
qualquer tipo de pressão. Apesar de pertencerem à mesma rede de
Comunicação, os conteúdos de cada veículo são muito independentes
um do outro. São equipes diferentes atuando e cada um tem uma finalidade
diferenciada.
Panopticon
- Quais as coisas foram idealizadas no início do projeto
do portal, mas não foram colocadas em prática, ou não deram certo?
Márcia Luz - Um projeto de Internet
não nasce pronto. Ele precisa ser adaptado e renovado a cada dia.
A mudança de layout, por exemplo, é uma necessidade deste meio,
pois é desagradável para o internauta ver sempre a mesma tela. Visualmente,
ele precisa de mudança. Já fizemos muitas delas no IBahia. Mudamos
a capa, deixando-a mais organizada para facilitar a navegação. Também
fizemos alterações no site Issa - de cobertura fotográfica das festas
da cidade. No início, ele tinha textos sobre as festas e a noite
de Salvador, mas chegamos à conclusão de que seriam melhor apenas
as fotos. Já no IRado, nosso site direcionado ao público jovem,
tínhamos quatro campos de matérias - Música, Comportamento, Educação
e Esporte. Decidimos deixar apenas uma área para essas matérias
e abrir outros espaços para entrevistas, notas, campo para sugestões,
comentários de CDs. Também exploramos melhor hoje as fotos com imagens
mais arrojadas e deixamos o site mais interativo. Na Internet é
assim, as mudanças precisam acontecer e é aí que entram a criatividade
e a sensibilidade para saber o que o internauta deseja.
Panopticon - Analisando
da ótica do usuário: em que você acha que o online supera o impresso?
Márcia Luz - A grande vantagem da Internet
é a rapidez, o dinamismo. É também o meio que pode, ao mesmo tempo,
usar áudio, vídeo, foto, texto. Pode comportar as linguagens de
outros meios, talvez ainda de maneira experimental, mas pode. Só
que nada disso supera qualquer meio que seja.
Panopticon - E a seu ver,
o que não poderá ser substituído pelos meios digitais?
Márcia Luz - As grandes reportagens,
por exemplo. Por mais que se possa utilizar na Internet o recurso
do hipertexto, existe uma tolerância de tamanho de matérias, porque
na tela um texto longo não é bom. Mas, por outro lado, a Internet
me dá coisas que o impresso não dá, como a questão do "agora"! Instantaneidade!
Panopticon - O jornalismo
online é uma faca de dois gumes. Pode levar a um detalhamento maior
ou a uma série de notícias superficiais justificadas pela instantaneidade
do suporte. Qual destas duas cenas você acha que caracteriza o jornalismo
online brasileiro hoje?
Márcia Luz - Não podemos generalizar
a questão. Ser instantâneo não significa ser superficial, significa
utilizar a lei da prioridade - dar ao internauta o que ele quer
saber agora. Eu posso escrever três laudas para o jornal e simplesmente
não informar nada de importante ao meu leitor. Na Internet trabalhamos
com a necessidade que o internauta tem naquele momento, mas também
podemos desdobrar o assunto em blocos diferenciados de notícia.
Se paramos o que é importante agora e colocamos dados complementares
em outros blocos, que a pessoa vai ler se quiser e quando quiser.
Panopticon - Qual o jornal
online você apontaria como o de melhor qualidade no Brasil? E em
toda a Web?
Márcia Luz - Acho muito bom o Terra, o Globo On-line, a Folha
On-line, o Blues Bus. É difícil citar um em toda a WEB, porque por
mais que uma pessoa navegue o dia inteiro não pode conhecer tudo.
Panopticon - Você acredita
em substituição do jornal impresso pelo Online?
Márcia Luz - A Internet não está aí para substituir qualquer
outro meio. Cada um tem a sua vocação, sua linguagem e o seu público.
Acredito na possibilidade de colaboração entre eles. Ela não nasceu
com essa finalidade e não trabalha para isso. O mundo ainda está
aprendendo a lidar com a Internet, é algo ainda sendo experimentado.
Ainda não exploramos tal meio 100%, mas já sabemos que a Internet
não está aí para derrubar nenhum outro. Cada um deles tem suas próprias
características, suas vantagens e um pode complementar o outro.
No IBahia, por exemplo, podemos noticiar um fato agora e chamar
para a edição do Correio da Bahiado dia seguinte, onde o leitor/internauta
poderá aprofundar sua leitura sobre o assunto. Existem notícias
e espaço para todos.
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