"Weblogs têm papel próprio na divulgação de informação jornalística"
Entrevista com António Granado, realizada no dia 1º de maio, por e-mail.

Se os blogs vêm sendo cada vez mais usados como veículos noticiosos, por que não um blog sobre jornalismo? É essa a proposta do Ponto Media, mantido pelo jornalista português António Granado, que, desde janeiro de 2001, realiza um trabalho quase diário de monitoramento do jornalismo de Portugal e do mundo. Seguindo os moldes de publicações online que se voltam para a cobertura da própria imprensa, o Ponto Media traz informações sempre atualizadas sobre as diversas modalidades de jornalismo, do impresso ao telejornalismo, mas sempre com espaço para o jornalismo online. O Ponto Media faz parte do site Ciberjornalismo.com, também uma iniciativa de Granado, porém mais ampla que o blog.

Panopticon - O sr. explica que começou o site a fim de colocar no ar alguns textos para a disciplina que lecionava, e que o blog só veio depois. Como foi que surgiu o Ponto Media? Por que o sr. começou esse blog?
António Granado -
A idéia para o weblog Ponto Media surgiu em dezembro de 2000, quando percebi que era necessário dar uma voz ao "site" que criei e que se chama Ciberjornalismo.com. Seguia desde há algum tempo outros weblogs estrangeiros, principalmente de língua inglesa, e achei que seria possível lançar um weblog sobre media em português, a partir das leituras diárias que faço pela Web. Preparei o "lay-out" e lancei o weblog a 2 de Janeiro de 2001.

Panopticon - Como o sr. avalia o uso de blogs como veículos de informação jornalística? Quais são as vantagens e os riscos que esse recurso oferece?
António Granado -
Os weblogs têm um papel muito próprio na divulgação de informação jornalística. São sítios que têm uma voz, um autor, em quem os leitores confiam e cujo estilo apreciam. Não substituem os outros media, mas garantem uma leitura diferente da actualidade, num mundo cada vez mais mergulhado em informação. As vantagens são as que já enunciei, os perigos estão principalmente na falta de referências que temos dos autores dos weblogs, e no facto de alguns leitores poderem achar que tudo o que se escreve nos weblogs é verdade ou que todos os autores de weblogs seguem as regras da profissão jornalística.

Panopticon - E como o sr. avalia a cobertura sobre jornalismo online na internet?
António Granado -
A cobertura sobre o jornalismo online é ainda muito incipiente. Há algumas publicações especializadas, como a Online Journalism Review, mas ainda é muito pouco.

Panopticon - Quais são as fontes de onde o sr. tira as informações para o blog?
António Granado -
As minhas fontes são diversificadas. Leio outros "weblogs" sobre media (e não só), consulto "sites" onde é possível ler títulos de jornais de acordo com palavras-chave ou por temas, visito regularmente jornais e revistas que sei que dedicam sempre espaço aos media, assino diversas "mailing lists" de jornalistas, "newsletters" e serviços de aviso de notícias sobre certos temas.

Panopticon - O site Ciberjornalismo.com e o Ponto Media são iniciativas estritamente pessoais da sua parte? Estão ligados a sites maiores?
António Granado -
O "site" Ciberjornalismo.com é exclusivamente meu e registrei-o na seqüência da cadeira de Ciberjornalismo que leccionei na Universidade Nova de Lisboa. O weblog também é meu, mas faço dele uma versão reduzida para o diário onde trabalho - "Público". Essa coluna sai no jornal aos sábados.

Panopticon - Em que estágio se encontra o jornalismo online em Portugal em comparação com o resto do mundo?
António Granado -
O jornalismo online em Portugal encontra-se no mesmo estado em que se encontram muitos outros sectores, da ciência à educação, da agricultura à protecção do ambiente, quando se comparam com outros países. Portugal está mais atrasado do que alguns dos seus parceiros da União Européia, tem um dos mais baixos índices de leitura da Europa e os seus media reflectem essa situação. Existem alguns bons projectos, como é o caso do Publico.pt, o "site" do jornal onde trabalho, que apostam na actualização constante de notícias, mas ainda há muito a fazer para chegarmos ao nível dos países mais avançados.

Panopticon - O sr. acompanha o jornalismo online praticado no Brasil?
António Granado -
Acompanho alguns "sites", leio jornais brasileiros, leio weblogs de brasileiros, mas não sei o suficiente para escrever um simples artigo de jornal sobre o que se passa nessa área no Brasil.

Copyright © 2002 - Oficina de Jornalismo Digital - Faculdade de Comunicação / UFBA
António Granado, 39 anos, escreve para o diário português Público e também trabalha como professor de Jornalismo na Universidade de Coimbra, além de dar cursos sobre jornalismo online; no Centro de Formação de Jornalistas, Cenjor. Formado em Literatura Portuguesa e Inglesa, possui um mestrado em Jornalismo de Ciência, pela Universidade de Boston, nos EUA, que vem a ser sua especialização jornalística. Em 1999 e 2000, foi professor de Ciberjornalismo na Universidade Nova de Lisboa.