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Panopticon - A essa altura
do campeonato já se pode falar de jornalismo online, como se fala
de jornalismo impresso, telejornalismo e radiojornalismo?
Marcone Gonçalves - Com certeza. Eu acho que jornalismo online
é uma realidade, porque você tem aquilo que se configura como um
novo processo de jornalismo.
Panopticon - Você está
falando de linguagem?
Marcone Gonçalves - Já começa a ter uma linguagem própria,
um modo de produção próprio, e claro que um ambiente próprio de
divulgação, que é a internet - a internet e outros mecanismos. Até
os mecanismos tradicionais (jornal, rádio e TV) hoje se reportam
ao jornalismo online e à interação maior com esse novo tipo de jornalismo.
Panopticon - Você falou
de processo de produção...
Marcone Gonçalves - Existe um processo de produção dentro
do jornalismo online, que é diferenciado do processo de produção
do jornal, por exemplo, ou de televisão, ou de rádio. A Lílian Wittefibe,
por exemplo, que tem um programa no Terra. O material que ela produz
não é uma imagem do padrão Globo de jornalismo, é uma imagem que
tem que estar dentro de certas limitações técnicas, em largura de
banda, de limitações operacionais sérias. Claro que qualquer pessoa
que acessar vai perceber isso. É um novo tipo de jornalismo, o que
não significa que seja uma subversão do jornalismo que é praticado.
Reproduz um pouco, claro; ainda está se sustentando reproduzindo
o velho jornalismo.
Panopticon - E o que você
já identifica de específico? Você já falou na limitação de produção
pelo menos para ela, Lílian Wittefibe, que tenta colocar imagem
em movimento.
Marcone Gonçalves - Essa linguagem nova do jornalismo digital
é uma revolução em relação à linguagem da própria televisão. O jornalismo
começa com o meio impresso, o jornal impresso caminha para o serviço
de rádio, e necessariamente esse tipo de notícia vai para o novo
mecanismo que é a televisão; agora ele está indo para um outro,
diferenciado, que é a internet.
Panopticon - Há muita
diferença em relação aos mecanismos anteriores?
Marcone Gonçalves - Não há tanta, quer dizer, o resultado
final, o produto em si é ainda a velha informação. É claro que cada
sociedade define um determinado tipo de jornalismo, e o que acontece
é que a sociedade como a brasileira vai reproduzir um tipo de jornalismo
que já se faz no Brasil. O jornalismo online não chega com uma nova
preocupação, não chega com uma nova pauta, ela chega com a mesma
pauta de sempre. Aí você vai ter o jornalismo de fofoca, que é o
carro-chefe editorial hoje de todos os jornais, o que já vinha de
muito tempo. Quer dizer, não significa: "- olha, vamos fazer um
jornalismo mais sério porque é um jornalismo online". A tendência
é justamente seguir aquela linguagem de televisão cada vez mais
superficial, cada vez mais ligeira, mais rápida. A diferenciação
de linguagem do jornalismo online está justamente nesse maior volume
de informação cada vez mais superficial.
Panopticon - O que você
acha que se está fazendo aqui no Brasil?
Marcone Gonçalves - Olha, bem interessante isso, porque houve
tentativas importantes, mas todas tentativas vieram no velho esquemão
de sempre. Tem o esquemão da política, tem o esquemão do comércio,
tem o esquemão da indústria e tem o esquemão da indústria da comunicação.
O Quércia em São Paulo tentou lançar um jornal exclusivamente online,
o Panorama Brasil, e as coisas desandaram. Aqui em Brasília eles
montaram uma redação imensa, fizeram um portal mas não conseguiram
sustentar. Estão fazendo agora de novo. Perceberam que o dinheiro
todo era mais eficiente no jornal de papel mesmo, então vão lançar
um jornal de papel, sem internet.
Panopticon - Tem alguma
outra inicitiva?
Marcone Gonçalves - O Estadão chegou a montar um serviço
para a internet e acabou com o serviço, passou apenas a reproduzir
da agência, pela equipe de reportagem que produz o jornal. O Globo
é uma outra experiência também, tentou fazer um serviço de jornal
online que era o serviço da agência, voltado para um outro mercado,
mas colocado na internet e, novamente... Todos os grandes eram obrigados
a enxugar os seus quadros, a cortar pessoal, porque primeiro que
o negócio na internet é um outro campo. Os jornais não conseguem
botar as marcas na internet, como têm a marca no papel. Há um exemplo
para mim mais contundente: essas tentativas todas que foram feitas
até agora esbarram num sério problema, que é a falta de institucionalização
dos serviços da internet.
Panopticon - Como assim,
Marcone?
Marcone Gonçalves - Por exemplo, o UOL que é o principal
provedor hoje no Brasil com 10 milhões de clientes, segundo eles,
tem muito mais capacidade de fazer um jornal, do que a própria Folha
de São Paulo. Isso porque o UOL é um espaço, é uma marca da internet.
Essa coisa do jornal querer ir para a internet e achar que porque
já tem um nome vai passar a credibilidade para a rede é falsa. Ninguém
fala que deu na A Tarde Online, como se fala que deu na A Tarde,
por exemplo.
Panopticom - E qual é
o caminho então?
Marcone Gonçalves - Ainda está se descobrindo... Quem descobrir,
se dá bem. Mas o perfil do internauta é diferente do leitor de jornal.
Não é porque o pai lê um jornal, que o filho vai querer acessar
o site dele.
Panopticom - E a PontoEDU...
Ela vai bem?
Marcone Gonçalves - Vai muito bem. A oportunidade de que
ela se aproveita é da existência de nichos de mercado. A empresa
notou que a educação era um assunto ignorado, que 85% do que era
publicado vinha do MEC. E aí conseguiu descobrir um grande público.
Existem cerca de 45 milhões de pessoas ligadas à escola. O diferencial
é oferecer um material honesto, com credibilidade. E é privado,
independente...
Panopticom - Para quem
vocês mandam notícias?
Marcone Gonçalves - Primeiramente, para os grandes portais,
como os dos dois maiores provedores do país, o UOL e o IG. Também
para portais educacionais, como o de um grupo de escolas de São
Paulo, vinculado ao governo. Tem um projeto de Universidade Virtual
também, que é iniciativa privada, e o Banco Santander.
Panopticom - E a equipe,
qual o tamanho?
Marcone Gonçalves - São vinte e cinco pessoas, trabalhando
nos dois escritórios, em São Paulo e aqui em Brasília, e como correspondentes
no Pará, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Panopticom - E o projeto
de vir para a Bahia, ainda está de pé?
Marcone Gonçalves - Eu mesmo já tive contato com a acessoria
da Secretaria de Educação do Estado. A proposta é fazer uma rede,
para oferecer clipping de notícias para os professores. Mas ainda
pode demorar um pouco, o processo de negociação até o fechamento
pode ser um pouco longo.
Panopticom - Segmentar
é mesmo uma tendência para a Internet?
Marcone Gonçalves - Sim, é uma tendência. A gente pode pensar
em outras áreas, como saúde, velhice, segurança. Tem muito público.
Imagine o número de aposentados que existe, por exemplo, com uma
demanda específica de informações... Há demanda, com certeza. E
informação é um bem fundamental. Aconteceu na Itália um caso interessante
para ilustrar isso. Um juiz impediu que a justiça tomasse a TV de
um sujeito que estava endividado, porque aquilo era um bem fundamental.
Ter informação para exercer cidadania.
Panopticom - E como começou
a Ponto EDU ?
Marcone Gonçalves - O projeto era que fosse um portal de
educação, não só de notícias. Surgiu com investimento estrangeiro.
Isso em 1999. Em 2000, com a crise da NASDAQ, do setor, o investimento
externo saiu. E acabou virando uma agência de notícias, conteudista.
Panopticom - E quando
você entrou (em 2000) tinha certeza de que ia dar certo?
Marcone Gonçalves - Não. Era um risco, não foi calculado.
Mas isso representou um salto na minha carreira. Eu escrevia sobre
economia, estava no O Globo. Eles não me pagavam muito bem. Até
fizeram uma contra-proposta. Mas na PontoEDU eu passei a ser editor
e a ganhar melhor. E o contato com o mundo da educação, o mundo
real, foi marcante para mim. Antes eu me preocupava demais com a
taxa Selic (risos). Foi uma aventura.
Panopticom - A PontoEDU
tem perspectivas para crescer?
Marcone Gonçalves - Nós contratamos uma empresa para fazer
uma pesquisa há pouco tempo... E vimos que a agência chega a ter
50% do noticiário de educação na internet, durante o período letivo.
Mas agora, estamos tentando oferecer conteúdo também para jornais,
de médio porte. Estamos negociando com um jornal de Londrina, por
exemplo. Além disso, tem um projeto de criar um jornal semanal para
ser distribuído nas universidades.
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