Elias no ponto

Panopticon - Um site como o Notícia e Opinião (No.) é viável no Brasil? Há público e apoio empresarial o bastante para isso?
Elias Machado -
Em primeiro lugar, vejo a necessidade de comentar a adaptação do formato do No. ao entorno das redes telemáticas. Trata-se de um projeto que demonstra bem um dos principais equívocos vistos durante o processo de constituição
das primeiras experiências jornalísticas no ciberespaço. O No. parte do pressuposto de que a junção de nomes de jornalistas famosos em outros suportes seja a receita suficiente para alcançar o êxito na rede. Grande parte do material distribuído para os assinantes são colunas assinadas pelos colaboradores. Um projeto sem muita ousadia, sem muito a acrescentar no novo ambiente. O possível fechamento do No. nada tem a ver com adaptação ou não ao mercado digital. E fruto de um desentendimento dos sócios. Se tem público para uma proposta como o No. somente com o tempo se poderia saber, mas nenhuma dúvida que o No. contribui muito pouco para o desenvolvimento de uma linguagem, de um modelo de produção e circulação de notícias na rede.

Panopticon - O fechamento do conteúdo se deveria a certa imaturidade do mercado brasileiro?
Elias Machado -
Vejo o fechamento das páginas como uma medida que contraria a filosofia das redes telemáticas. Em qualquer parte do mundo quem tinha página fechada, com algumas raras exceções como o The Wall Street Journal, teve que rever a posição, incluindo o The New York Times. A rede funda um novo mercado, com um novo tipo de economia. Para sobreviver neste ambiente qualquer empresa tem que ter o cuidado de elaborar uma proposta que seja viável economicamente sem contrariar principios essenciais da arquitetura da rede.

Panopticon - É possível manter um bom site jornalístico apenas com anunciantes e patrocinadores?
Elias Machado -
Qualquer projeto para ter futuro na rede deve ter claro que a publicidade entra como um elemento estrutural do sistema. Projetar uma publicação para a rede significa ter a capacidade de perceber que em tempos de ciberespaço
muda a função da publicidade, que antes de representar um simples patrocínio passa a ser um dos eixos de sustentação da rede como sistema. A verdadeira questão não é se se pode manter um projeto na rede sem publicidade, mas compreender que a publicidade entra como um dos pilares de sustentação das redes telemáticas.

Panopticon - Como você contextualizaria isso, em comparação com o mercado de outros países?
Elias Machado -
Em todos os países em que a rede apresenta um desenvolvimento avançado os projetos são financiados de três modos distintos: com o fornecimento de
serviços de acesso à rede; com a venda de publicidade e, cada vez mais, com
a transformação do espaço da publicação em uma espécie porta de entrada para
o comércio eletrônico. A cobrança dos usuários pelo acesso aos conteúdos nada tem a ver com a maturação mercado. Muito pelo contrário. Quanto mais
maduro o mercado menos o usuário deve pagar para circular nas redes. O lucro
vem de forma indireta como consequência das diversas transações econômicas
que a publicação possibilita ao usuário.

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Foto de Lucas Falcão

O jornalista e professor da Facom - UFBA, Elias Machado - Phd em comunicação pela Universidad Autonoma de Barcelona com a tese "La estructura de la noticia en las redes digitales (un estudio de las consecuencias de las metamorfosis tecnologicas en el periodismo)"- comenta a situação do site Notícia e Opinião (No.)

Para ele, o possível fechamento do No. seria fruto apenas de um desentendimento com patrocinadores, e não a uma deficiência do mercado brasileiro.


Leia a matéria em que o editor do no. desmente os boatos sobre o fechamento