|
Panopticon - Como surgiu a oportunidade
de participar da pesquisa?
Sandra Narita - Eu já fazia parte do projeto "Sala
de Aula", desenvolvido na FACOM
pelo professor Afonso Júnior.
Nesse projeto, nós discutíamos muito sobre jornalismo
online e eu me interessei pelo assunto. O professor Marcos
Palacios, orientador da pesquisa, estava selecionando participantes,
eu me candidatei e passei no teste.
Panopticon - O que a pesquisa
pretendeu abordar?
Sandra Narita - O objetivo era fazer uma análise quantitativa,
um mapeamento mesmo. Queríamos saber quantos jornais online
utilizavam a interatividade, quantos disponibilizavam memória,
etc... A partir daí, apontávamos tendências
qualitativas. Por exemplo, se um jornal emprega muito o hipertexto,
isso demonstra uma preocupação em dar um tratamento
diferente ao texto, utilizando as potencialidades da nova mídia
que é a internet.
Panopticon - Vocês se
basearam em algum estudo anterior?
Sandra Narita - Sim, a pesquisa foi baseada em um estudo
do professor Tanjev Schultz, dos Estados Unidos. Ele pesquisou 100
jornais online americanos, analisando apenas a interatividade. Aqui,
nós ampliamos para outras características do jornalismo
online, a memória, a hipertextualidade, a multimidialidade
e a personalização.
Panopticon - Quais os critérios
utilizados para selecionar os jornais pesquisados?
Sandra Narita - Os jornais deviam ser filiados ao IVC (Instituto
Verificador de Circulação - www.ivc.org.br).
Também deviam ser brasileiros, diários, disponíveis
no gênero impresso, gratuitos e comerciais. Descartamos fanzines,
jornais semanais e de portal. Foi um recorte que fizemos para delimitar
o trabalho. Ficamos com 44 jornais.
Panopticon - Qual a principal
conclusão da pesquisa?
Sandra Narita - No Brasil, o jornalismo online é algo
que ainda está começando. Digamos que os jornais estão
'tateando no escuro', em fase de experimentação. Ainda
não existe o modelo padrão, em que as potencialidades
tecnológicas são utilizadas em sua amplitude. Alguns
jornais, por exemplo, mostraram ser ainda a simples transposição
do gênero impresso.
Panopticon - Quais foram as
características mais usadas e as menos usadas?
Sandra Narita - A personalização, com a elaboração
de conteúdos específicos para cada leitor, praticamente
não existiu. A multimidialidade também não
avançava muito e permanecia na dualidade texto e foto. A
hipertextualidade se mostrou a característica mais difundida,
mas ainda longe do ideal. Havia sempre a diversidade de links internos
para aprofundar a matéria. Nos cadernos de cultura e de informática,
os links eram mais numerosos e levavam para sites de bandas, cantores
e autores. A divisão de matérias em lexias, em níveis
de informação, por sua vez, era bem menos freqüente.
A instantaneidade também era pouco explorada. Foram poucos
os jornais que apresentavam plantão com as notícias
de última hora.
Panopticon - Marcos Palacios
agregou a memória às outras características
do jornalismo online. Como os jornais disponiblizavam a questão
da memória?
Sandra Narita - A memória é uma característica
estruturante da informação e era disponibilizada pela
maioria dos jornais com o conteúdo de uma semana ou 15 dias
apenas. Se o usuário quisesse uma informação
anterior, teria que pagar. Quase nenhum disponibilizava o arquivo
inteiro. A Tarde Online (www.atarde.com.br)
por exemplo, só tem o conteúdo de 1997 até
hoje. Já o Estado de São Paulo (www.estado.com.br)
possui um acervo considerável.
Panopticon - Como apareceu a
interatividade nos jornais pesquisados?
Sandra Narita - Todos os jornais forneciam e-mails de contato
para receber mensagens dos leitores/internautas. E-mails específicos
de jornalistas eram mais raros. Os colunistas geralmente divulgavam
o e-mail. As enquetes eram de múltipla escolha na maior parte
das vezes. Questões abertas eram menos freqüentes.
Panopticon - Havia chats e fóruns
de discussão?
Sandra Narita - Havia sim. Os fóruns funcionavam melhor
do que os chats, pois tinham sempre um tema específico para
debate. Nas discussões sobre problemas locais, existia a
possibilidade de o leitor indicar uma questão em seu bairro,
por exemplo. O jornalista então ia lá, verificava
o problema e fazia uma matéria.
Panopticon - E os chats ?
Sandra Narita - Não havia temas específicos
para debates nos chats. As discussões eram vazias, soltas,
sem convidados e sem a mediação de jornalistas.
Panopticon - Como você
avalia a sua experiência na pesquisa?
Sandra Narita - Foi muito bom trabalhar com Marcos Palácios
e ter contato com mestrandos, alunos, professores e jornalistas.
(Sandra trabalhou com as pós-graduandas Luciana
Mielniczuk, Suzana Barbosa
e com a colega Beatriz Ribas).
Discutir sobre jornalismo online também foi muito saudável.
Estar na faculdade, ter a oportunidade de desenvolver pesquisa científica...
tudo isso serviu para me dar embasamento teórico e entrar
no mercado de trabalho com uma visão mais crítica
a respeito do jornalismo digital. (Sandra trabalha atualmente como
estagiária no A Tarde Online).
Panopticon - Qual a visão
que você tem do jornalismo online?
Sandra Narita - A internet está hoje em todos os lugares,
então não dá para voltar atrás. O jornal
que não investir nisso certamente vai sair perdendo. Quanto
às potencialidades da mídia, ainda há muito
a explorar.
Panopticon - Na sua opinião particular,
como fica o papel do profissional de jornalismo que trabalha para
Web?
Sandra Narita - O jornalista deve manter
a ética e não ter pressa de divulgar uma notícia
sem que haja uma apuração cuidadosa. A responsabilidade
social do jornalista é a mesma, não importa que ele
trabalhe em jornal online, impresso, de rádio ou de TV.
|