"O jornalismo online brasileiro é algo que ainda está começando"
Entrevista realizada por Daniel Freitas, em 25 de março de 2002, cara a cara com a entrevistada, tomando suco de laranja na praça de alimentação do Iguatemi

Panopticon - Como surgiu a oportunidade de participar da pesquisa?
Sandra Narita -
Eu já fazia parte do projeto "Sala de Aula", desenvolvido na FACOM pelo professor Afonso Júnior. Nesse projeto, nós discutíamos muito sobre jornalismo online e eu me interessei pelo assunto. O professor Marcos Palacios, orientador da pesquisa, estava selecionando participantes, eu me candidatei e passei no teste.

Panopticon - O que a pesquisa pretendeu abordar?
Sandra Narita -
O objetivo era fazer uma análise quantitativa, um mapeamento mesmo. Queríamos saber quantos jornais online utilizavam a interatividade, quantos disponibilizavam memória, etc... A partir daí, apontávamos tendências qualitativas. Por exemplo, se um jornal emprega muito o hipertexto, isso demonstra uma preocupação em dar um tratamento diferente ao texto, utilizando as potencialidades da nova mídia que é a internet.

Panopticon - Vocês se basearam em algum estudo anterior?
Sandra Narita -
Sim, a pesquisa foi baseada em um estudo do professor Tanjev Schultz, dos Estados Unidos. Ele pesquisou 100 jornais online americanos, analisando apenas a interatividade. Aqui, nós ampliamos para outras características do jornalismo online, a memória, a hipertextualidade, a multimidialidade e a personalização.

Panopticon - Quais os critérios utilizados para selecionar os jornais pesquisados?
Sandra Narita -
Os jornais deviam ser filiados ao IVC (Instituto Verificador de Circulação - www.ivc.org.br). Também deviam ser brasileiros, diários, disponíveis no gênero impresso, gratuitos e comerciais. Descartamos fanzines, jornais semanais e de portal. Foi um recorte que fizemos para delimitar o trabalho. Ficamos com 44 jornais.

Panopticon - Qual a principal conclusão da pesquisa?
Sandra Narita -
No Brasil, o jornalismo online é algo que ainda está começando. Digamos que os jornais estão 'tateando no escuro', em fase de experimentação. Ainda não existe o modelo padrão, em que as potencialidades tecnológicas são utilizadas em sua amplitude. Alguns jornais, por exemplo, mostraram ser ainda a simples transposição do gênero impresso.

Panopticon - Quais foram as características mais usadas e as menos usadas?
Sandra Narita -
A personalização, com a elaboração de conteúdos específicos para cada leitor, praticamente não existiu. A multimidialidade também não avançava muito e permanecia na dualidade texto e foto. A hipertextualidade se mostrou a característica mais difundida, mas ainda longe do ideal. Havia sempre a diversidade de links internos para aprofundar a matéria. Nos cadernos de cultura e de informática, os links eram mais numerosos e levavam para sites de bandas, cantores e autores. A divisão de matérias em lexias, em níveis de informação, por sua vez, era bem menos freqüente. A instantaneidade também era pouco explorada. Foram poucos os jornais que apresentavam plantão com as notícias de última hora.

Panopticon - Marcos Palacios agregou a memória às outras características do jornalismo online. Como os jornais disponiblizavam a questão da memória?
Sandra Narita -
A memória é uma característica estruturante da informação e era disponibilizada pela maioria dos jornais com o conteúdo de uma semana ou 15 dias apenas. Se o usuário quisesse uma informação anterior, teria que pagar. Quase nenhum disponibilizava o arquivo inteiro. A Tarde Online (www.atarde.com.br) por exemplo, só tem o conteúdo de 1997 até hoje. Já o Estado de São Paulo (www.estado.com.br) possui um acervo considerável.

Panopticon - Como apareceu a interatividade nos jornais pesquisados?
Sandra Narita -
Todos os jornais forneciam e-mails de contato para receber mensagens dos leitores/internautas. E-mails específicos de jornalistas eram mais raros. Os colunistas geralmente divulgavam o e-mail. As enquetes eram de múltipla escolha na maior parte das vezes. Questões abertas eram menos freqüentes.

Panopticon - Havia chats e fóruns de discussão?
Sandra Narita -
Havia sim. Os fóruns funcionavam melhor do que os chats, pois tinham sempre um tema específico para debate. Nas discussões sobre problemas locais, existia a possibilidade de o leitor indicar uma questão em seu bairro, por exemplo. O jornalista então ia lá, verificava o problema e fazia uma matéria.

Panopticon - E os chats ?
Sandra Narita -
Não havia temas específicos para debates nos chats. As discussões eram vazias, soltas, sem convidados e sem a mediação de jornalistas.

Panopticon - Como você avalia a sua experiência na pesquisa?
Sandra Narita -
Foi muito bom trabalhar com Marcos Palácios e ter contato com mestrandos, alunos, professores e jornalistas. (Sandra trabalhou com as pós-graduandas Luciana Mielniczuk, Suzana Barbosa e com a colega Beatriz Ribas). Discutir sobre jornalismo online também foi muito saudável. Estar na faculdade, ter a oportunidade de desenvolver pesquisa científica... tudo isso serviu para me dar embasamento teórico e entrar no mercado de trabalho com uma visão mais crítica a respeito do jornalismo digital. (Sandra trabalha atualmente como estagiária no A Tarde Online).

Panopticon - Qual a visão que você tem do jornalismo online?
Sandra Narita -
A internet está hoje em todos os lugares, então não dá para voltar atrás. O jornal que não investir nisso certamente vai sair perdendo. Quanto às potencialidades da mídia, ainda há muito a explorar.

Panopticon - Na sua opinião particular, como fica o papel do profissional de jornalismo que trabalha para Web?
Sandra Narita -
O jornalista deve manter a ética e não ter pressa de divulgar uma notícia sem que haja uma apuração cuidadosa. A responsabilidade social do jornalista é a mesma, não importa que ele trabalhe em jornal online, impresso, de rádio ou de TV.

Copyright © 2002 - Oficina de Jornalismo Digital - Faculdade de Comunicação / UFBA
Formanda da Faculdade de Comunicação da UFBA, Sandra Narita, 21 anos, conheceu um pouco mais sobre o jornalismo digital ao participar da pesquisa "Um Mapeamento de Características e Tendências no Jornalismo Online Brasileiro". Sandra falou ao Panopticon de sua experiência na pesquisa financiada pelo PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) entre agosto de 2000 e agosto de 2001.