Olhando de dentro
Entrevista com Luciana Moherdaui, editora do canal Mundo Virtual do Último Segundo, realizada no dia 1º de maio, por e-mail.

PANOPTICON - Há uma tendência em classificar os leitores de Internet como scanners, que correm o olhar pelas informações. Você concorda com isso ou acredita que o leitor da Web também pode ser atencioso?
LUCIANA MOHERDAUI -
O leitor da Web é um scaner assim como o ouvinte de rádio, telespectador ou o leitor do papel também podem ser. Explico. A pirâmide invertida foi criada justamente para oferecer ao leitor a informação principal nos primeiros parágrafos. Se ele quiser ler o restante, terá de seguir a leitura até o final. Na Web, há espaço para todos os tipos de leitores, por isso, há os textos são editados para satisfazer a curiosidade de qualquer leitor - essa é uma das grandes características da Web.

PANOPTICON - O que existe hoje em termos de pesquisa sobre a leitura noticiosa na Web? Há um perfil formado do leitor ou a coisa ainda é muito mutante?
LUCIANA MOHERDAUI -
Há uma série de estudos, mas nada concreto sobre o leitor da Web. A grande dificuldade é levantar uma amostra confiável. Veja bem: no Brasil, há mais de seis milhões de internautas que usam a rede todos os dias. O Último Segundo, o site jornalístico de maior audiência da Web brasileira tem 500 mil visitantes/mês. Ou seja, nem 1% do total de usuários. É preciso recortar uma amostra confiável para se ter uma pesquisa concreta. Ë precisos saber, ainda, se os 500 mil do US são parte dos 300 mil da Globo ou do Estadão. Quando chegarmos a esse número, será mais fácil conseguir saber quem e quantos são os leitores on-line.

PANOPTICON - Como você vê a relação do leitor com a busca de informação na Internet? Acredita que isso já é uma realidade, ou seja, muitas pessoas já vão direto à Internet procurando notícias, ou isso acaba acontecendo quando se busca a rede para outros usos?
LUCIANA MOHERDAUI -
A Web se tornou uma grande fonte de informação - para o leitor e para o jornalista. A informação imediata, também difundida pelo rádio ou pela TV, está disponível na rede em minutos e é propagada rapidamente entre leitores, jornalistas e usuários em geral. Os relatórios de audiência do Ibope apontam um crescimento expressivo no número de leitores online (www.ibope.com.br).

PANOPTICON - O jornalista que trabalha com Web realmente aplica os conceitos que se tem sobre escrita e leitura para tal suporte ou acaba utilizando sua experiência anterior e formando sua própria rotina?
LUCIANA MOHERDAUI -
Sim. O jornalismo não muda com a Web. O lead não muda. A palavra não muda. O que muda é o suporte. Na Web, os recursos multimídia permitem uma edição interativa do noticiário. Isso caracteriza o jornalismo online.

PANOPTICON - Você acredita em uma rotina produtiva estanque, que atenda a todas as demandas do suporte digital?
LUCIANA MOHERDAUI -
Não.

PANOPTICON - Já é possível apontar modelos de webjornalismo que deram certo?
LUCIANA MOHERDAUI -
O MSNBC (www.msnbc.com) é um grande exemplo do bom uso dos recursos multimídia na rede. O espanhol El Pais (www.elpais.es) também não deixa a desejar. O El Pais tem os melhores infográficos em flash que eu já vi.

PANOPTICON - Como você vê o jornalismo online brasileiro hoje? Está caminhando bem ou ainda precisa encontrar sua direção?
LUCIANA MOHERDAUI -
O jornalismo online em geral ainda é muito "morno". Pouco atrativo. Falta criatividade no uso dos recursos multimídia existentes na rede para incrementar o material que vai ao ar diariamente.

PANOPTICON - O suporte Internet ainda está em desenvolvimento. Onde acha que chegaremos em cinco ou dez anos? Como isso influirá nos comportamentos do "leitor digital"?
LUCIANA MOHERDAUI -
Provavelmente, em cinco anos, as pessoas estarão mais habituadas com o uso da rede e, talvez, o acesso seja mais barato e melhor. O que tem de mudar são os projetos de JOL. Muito do que se vê por aí (Brasil e exterior) é parecido com a mídia impressa. Se a mentalidade não mudar, teremos o mesmo produto daqui a cinco ou dez anos.

PANOPTICON - No futuro, os mídia tendem a superar uns aos outros ou a se fundirem? Como você vê a predominância da idéia de convergência?
LUCIANA MOHERDAUI -
O Marshall McLuhan definiu melhor do que ninguém isso. Um meio não mata o outro. Todo novo meio que surge provoca ajustes nos veículos tradicionais. Com a rede, a TV e o rádio não mudaram, mas transformaram seu conteúdo num gigantesco banco de dados [veja o site da Globonews]. As notícias do jornal impresso deixam de ter interesse se forem simplesmente um relato referencial dos fatos. É preciso agora repensar a produção e aprofundar mais as notícias e transformá-las em informação.

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Luciana Moherdaui é editora do canal Mundo Virtual do Último Segundo (uma publicação do iG). É autora do Guia de Estilo Web - Produção e edição de notícias on-line, lançado em 2000 pela editora Senac. Ela pesquisa o comportamento do leitor de notícias online e, em breve, deverá lançar outro livro. Luciana estuda o jornalismo na Web há mais de cinco anos e publicou também Diários paulistanos na Web, vencedor do 2º Prêmio de Mídia do Estadão.