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O funcionamento da internet segundo uma lógica descentralizada
faz com que as informações circulem num fluxo ininterrupto
e envolva cada vez mais pessoas em suas teias. E é a partir
das suas localidades que as pessoas se integram num movimento em
direção ao universal que, na cibercultura, se articula
com a idéia de não totalização. Como
escreve Pierre Lévy, trata-se de um universal acompanhado
de todas as ressonâncias possíveis, uma vez que possui
uma relação profunda com a idéia de humanidade.
Cada site na rede expressa a identidade de determinado grupo ou
comunidade, o que contribui para a multiplicação de
redes locais, formando assim a Grande Rede Internet como um reflexo
da diversidade da humanidade. O funcionamento descentralizado da
internet permite usos e apropriações variados - a
circulação de diversas vozes como diz Fred Evans.
No que concerne ao jornalismo online - a quarta espécie do
jornalismo, como se referem Jo Bardoel e Mark Deuze (2000) - as
experiências e modelos geraram uma diferenciação
de formatos que contemplam a distribuição de conteúdos
variados, a depender do perfil da publicação. Assim,
temos, além das edições online dos jornais
comerciais, diários e com similares impressos, os grandes
portais, agregando informação jornalística
abrangente, serviços e entretenimento, e os portais locais
ou regionais - sites com atuação focada em um determinado
estado ou uma cidade, que se concentram na oferta de conteúdo
local e serviços específicos disponibilizados apenas
através do ambiente digital.
Esses portais trabalham, essencialmente, na veiculação
de informação local, cumprindo uma função
importante, pois, a partir do princípio da proximidade da
notícia, dos conteúdos em si, buscam agregar usuários
da comunidade para quem fala diretamente por meio das redes telemáticas.
Apesar de ainda fornecerem canais limitados para a participação
dos usuários no processo de produção dos conteúdos,
sem sequer atrair a sua participação para dizer o
que deseja ver retratado pelo site, os portais locais ou regionais
podem vir a contribuir para heterogeneidade da informação
que circula na internet. Poderíamos dizer que eles ajudam
a constituir o web-urbanismo de que fala a teórica norte-americana
Saskia Sassen. Ou seja, as redes digitais atuando no fortalecimento
das localidades e possibilitando mesmo um novo tipo de política
local, além de fomentar a sociabilidade.
Na verdade, os conteúdos locais são uma forte tendência
e alternativa contra a homogeneidade tão criticada. Além
disso, possuem uma grande demanda na rede. Nos EUA, por exemplo,
aproximadamente 48 milhões dos usuários adultos procuram
sites que forneçam informação local. No Brasil,
ainda não há números específicos, embora
possamos considerar crescente o número de sites focados nessa
área. A chamada informação de proximidade é
trabalhada aqui pelos portais locais ou regionais, pelos guias urbanos,
que ofertam serviços de lazer e entretenimento. Nas edições
online dos jornais com similares impressos, esse tipo de informação
continua limitado aos conteúdos noticiados pelas respectivas
editorias de cidade/comunidade ou cotidiano sem agregar nada mais
na versão online a não ser notas que alimentam as
seções de "últimas notícias",
mas ainda assim de forma pouco dinâmica.
O potencial da Rede para a difusão dos conteúdos locais
favorece desde as administrações públicas que
queiram estabelecer relação mais interativa com os
cidadãos até os sites jornalísticos de modo
geral. A questão central é produzir conteúdos
originais e realmente motivadores, difundidos através de
formatos igualmente atraentes, pois o que se percebe, em muitos
casos, é o receio em arriscar, ir numa direção
contrária ao que a maioria está ofertando e, assim,
segue-se replicando modelos, padrões que às vezes
são pouco funcionais.
Portais, guias e mesmo os sites de jornais com similares impressos
precisam compreender que uma boa cobertura sobre os fatos, acontecimentos,
serviços e tudo o mais que envolva o dia-a-dia de uma cidade
ou estado para quem se destinam deve ser abrangente, diferenciada
e a mais completa possível. Pois, ninguém melhor do
que eles, fixados em suas bases, serão capazes de ofertar
conteúdo melhor. E mais: com isso, ganha-se audiência,
amplia-se a visibilidade e a possibilidade de passar a ser um site
referenciado é potencialmente maior. A percepção
da necessidade de se ter produção descentralizada
poderá contribuir ainda mais para a expansão da cobertura
e da conseqüente qualificação do conteúdo.
A compreensão da importância que adquire o local na
contemporaneidade, em plena vigência da globalização,
é essencial. Quanto ao jornalismo online, o aspecto local
vem sendo privilegiado, refletindo uma contigüidade com a realidade
expressa no espaço territorial. Não é à-toa
que as edições online de grandes jornais norte-americanos
como New York Times, Washington Post e Chicago Tribune destacam
as seções Metro ou Local News. Estão preocupados
em estabelecer relação direta com a comunidade, ampliando
número de leitores e, claro, os anunciantes. Afinal, a publicidade
é uma das principais fontes de recurso para qualquer publicação
jornalística.
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