Conteúdos locais e originais são desafio para sites jornalísticos

Suzana Barbosa
suzana-b@uol.com.br

O funcionamento da internet segundo uma lógica descentralizada faz com que as informações circulem num fluxo ininterrupto e envolva cada vez mais pessoas em suas teias. E é a partir das suas localidades que as pessoas se integram num movimento em direção ao universal que, na cibercultura, se articula com a idéia de não totalização. Como escreve Pierre Lévy, trata-se de um universal acompanhado de todas as ressonâncias possíveis, uma vez que possui uma relação profunda com a idéia de humanidade.

Cada site na rede expressa a identidade de determinado grupo ou comunidade, o que contribui para a multiplicação de redes locais, formando assim a Grande Rede Internet como um reflexo da diversidade da humanidade. O funcionamento descentralizado da internet permite usos e apropriações variados - a circulação de diversas vozes como diz Fred Evans. No que concerne ao jornalismo online - a quarta espécie do jornalismo, como se referem Jo Bardoel e Mark Deuze (2000) - as experiências e modelos geraram uma diferenciação de formatos que contemplam a distribuição de conteúdos variados, a depender do perfil da publicação. Assim, temos, além das edições online dos jornais comerciais, diários e com similares impressos, os grandes portais, agregando informação jornalística abrangente, serviços e entretenimento, e os portais locais ou regionais - sites com atuação focada em um determinado estado ou uma cidade, que se concentram na oferta de conteúdo local e serviços específicos disponibilizados apenas através do ambiente digital.

Esses portais trabalham, essencialmente, na veiculação de informação local, cumprindo uma função importante, pois, a partir do princípio da proximidade da notícia, dos conteúdos em si, buscam agregar usuários da comunidade para quem fala diretamente por meio das redes telemáticas. Apesar de ainda fornecerem canais limitados para a participação dos usuários no processo de produção dos conteúdos, sem sequer atrair a sua participação para dizer o que deseja ver retratado pelo site, os portais locais ou regionais podem vir a contribuir para heterogeneidade da informação que circula na internet. Poderíamos dizer que eles ajudam a constituir o web-urbanismo de que fala a teórica norte-americana Saskia Sassen. Ou seja, as redes digitais atuando no fortalecimento das localidades e possibilitando mesmo um novo tipo de política local, além de fomentar a sociabilidade.

Na verdade, os conteúdos locais são uma forte tendência e alternativa contra a homogeneidade tão criticada. Além disso, possuem uma grande demanda na rede. Nos EUA, por exemplo, aproximadamente 48 milhões dos usuários adultos procuram sites que forneçam informação local. No Brasil, ainda não há números específicos, embora possamos considerar crescente o número de sites focados nessa área. A chamada informação de proximidade é trabalhada aqui pelos portais locais ou regionais, pelos guias urbanos, que ofertam serviços de lazer e entretenimento. Nas edições online dos jornais com similares impressos, esse tipo de informação continua limitado aos conteúdos noticiados pelas respectivas editorias de cidade/comunidade ou cotidiano sem agregar nada mais na versão online a não ser notas que alimentam as seções de "últimas notícias", mas ainda assim de forma pouco dinâmica.

O potencial da Rede para a difusão dos conteúdos locais favorece desde as administrações públicas que queiram estabelecer relação mais interativa com os cidadãos até os sites jornalísticos de modo geral. A questão central é produzir conteúdos originais e realmente motivadores, difundidos através de formatos igualmente atraentes, pois o que se percebe, em muitos casos, é o receio em arriscar, ir numa direção contrária ao que a maioria está ofertando e, assim, segue-se replicando modelos, padrões que às vezes são pouco funcionais.

Portais, guias e mesmo os sites de jornais com similares impressos precisam compreender que uma boa cobertura sobre os fatos, acontecimentos, serviços e tudo o mais que envolva o dia-a-dia de uma cidade ou estado para quem se destinam deve ser abrangente, diferenciada e a mais completa possível. Pois, ninguém melhor do que eles, fixados em suas bases, serão capazes de ofertar conteúdo melhor. E mais: com isso, ganha-se audiência, amplia-se a visibilidade e a possibilidade de passar a ser um site referenciado é potencialmente maior. A percepção da necessidade de se ter produção descentralizada poderá contribuir ainda mais para a expansão da cobertura e da conseqüente qualificação do conteúdo.

A compreensão da importância que adquire o local na contemporaneidade, em plena vigência da globalização, é essencial. Quanto ao jornalismo online, o aspecto local vem sendo privilegiado, refletindo uma contigüidade com a realidade expressa no espaço territorial. Não é à-toa que as edições online de grandes jornais norte-americanos como New York Times, Washington Post e Chicago Tribune destacam as seções Metro ou Local News. Estão preocupados em estabelecer relação direta com a comunidade, ampliando número de leitores e, claro, os anunciantes. Afinal, a publicidade é uma das principais fontes de recurso para qualquer publicação jornalística.

 

 

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foto: Fábio Salmeron

Suzana Barbosa é jornalista e mestranda em Comunicação na Facom - Ufba. Como supervisora da oficina de jornalismo digital, coordenou a produção do Panopticon.

Sites com perfil local - Web nacional

- GuiaSP: www.guiasp.com.br
- GuiaRio: www.guiario.com.br
- iBahia: www.ibahia.com.br
- Pernambuco.com: www.pernambuco.com.br
- Uai: www.uai.com.br


Outros

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- Maville.com: www.maville.com
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