A velha luta contra o tempo

Paulo Munhoz
munhoz@atarde.com.br

Aos cento e cinqüenta anos da primeira luta para a constituição de sua identidade própria, hoje resumida popularmente no dito de que "uma foto vale mais do que mil palavras", o fotojornalismo vive novamente sua mais antiga e árdua luta: a do tempo. Num primeiro momento de sua história, a busca da liberdade da escolha do momento, ser senhora do instante através da redução cada vez maior dos tempos de exposição, conquistada a duras penas. Hoje, a lentidão dos downloads, prejudica novamente a fotografia jornalística limitando a plenitude de sua expressão em seu mais novo e instigante suporte: o jornal online.

Na fotografia, em seus primeiros anos de existência, predominavam, principalmente pelas limitações técnicas da época, paisagens e retratos, estáticos na sua intemporalidade, frutos de longos tempos de exposição. Ainda com equipamentos nada discretos para que se pudesse registrar um instante de descontração e com tempos de exposição incapazes de conferir à espontaneidade dos gestos o movimento do momento, acabava por suprimir do instante capturando seu caráter documental.
Com o aprimoramento das técnicas, o fotojornalismo começa a definir seus objetivos. Através dos instantâneos de Erich Salomon, no começo do século passado, a fotografia começa a ganhar maior liberdade de atuação. A escolha do momento torna-se um ato pessoal e fundamental para a melhor compreensão do instante registrado. À medida que as velocidades de captação vão aumentando, o fotojornalismo vai se infiltrando na sociedade perseguindo o ineditismo, atrás daquele instante fugaz capaz de sintetizar o momento histórico numa fração do segundo.

Surgem as grandes marcas, Leica, Nikon, Cannon, e finalmente, já no final do século, após 150 anos servindo à história, o reinado absoluto da película é ameaçado pelos CCDs dos novos equipamentos digitais. Fragmentando a imagem em milhares de impulsos elétricos, possibilitando o armazenamento em computadores e transmitindo via satélite a notícia quase que instantaneamente a qualquer canto do mundo, a fotografia digital ocupa cada vez mais seu espaço definitivo na instantaneidade da notícia.

Novas tecnologias, novos suportes, e quando pareciam rompidas as barreiras do tempo para sempre, eis que o fotojornalismo esbarra novamente na sua luta mais antiga. O suporte mais atual, onde se desenvolve o novo modelo de se transmitir notícias, os chamados jornais online, dependem da velocidade da rede para baixar as fotos produzidas, e abdicam novamente de um espaço mais amplo para a divulgação das imagens registradas, em função de uma comodidade para seu usuário e de uma limitação tecnológica, que fazem com que a fotografia tenha seu espaço, nessa nova mídia, mais reduzido ainda do que nas já tradicionais formas de suporte.

É bem verdade que alguns sites jornalísticos, principalmente os norte americanos como o MSnbc, uma associação da Microsoft com a rede de televisão NBC, o USA Today, o Washington Post, investiram pesado e oferecem aos seus leitores amplas galerias de fotos não só em matérias especiais, mas também vinculadas às principais notícias do dia, por vezes até animadas (interativas), com projeções de slides, inclusive aproveitando recursos sonoros, em diversos assuntos tratados nos seus webjornais, mas estes ainda são minorias, mesmo nos Estados Unidos.

Infelizmente, a grande maioria dos Jornais online no Brasil e em vários países da Europa limita-se a poucas e pequenas fotos (thumbnails) que, mesmo quando clicadas, abrem-se para uma notícia mais completa, mas relegam a ilustração do fato à mesma imagem sem acrescentar novas fotos. Somente os fatos principais de cada editoria são contemplados. Utilizam-se de galerias apenas em situações extremas, a exemplo da cobertura da entifada no Oriente Médio ou dos atentados de 11 de setembro, em que a maioria dos sites noticiosos ofereciam fartas galerias alimentadas a cada instante por novas fotos da tragédia. Oferecem na seção de esportes seqüências dos melhores lances e em algumas matérias especiais pode-se também encontrar uma opção maior de fotos. Podemos aí citar como exemplos alguns dos principais jornais online do Brasil como o Zero Hora, o A Tarde na Bahia, o Correio Brasiliense, o Estadão de São Paulo, a Folha de Pernambuco, Correio do Povo de Porto Alegre, O Liberal de Belém e a Gazeta do Povo do Paraná esses três últimos, inclusive, sem galerias de fotos. Pelo mundo o NY Post, o Los Angeles Times, o La Vanguardia espanhol, o Le Monde e o Le Figaro da França. Na Inglaterra o The Times, o The Independent, o Sunday Mirror assim como os já citados webjornais franceses praticamente não apresentam fotos e não possuem galerias. Isso apenas para citar alguns poucos exemplos dos vários jornais online pesquisados.

Alguns desses sites como o do Jornal do Brasil, o Estado de São Paulo e O Globo que possuem apenas uma galeria de fotos do dia, limitada geralmente a poucos registros de alguns dos principais fatos, remetem, geralmente, às suas respectivas agências de notícias. Aí sim, se o usuário for cadastrado, poderá usufruir um pouco mais da velocidade e da amplitude de cobertura que os fotógrafos digitais tem a oferecer.

Das primeiras palavras moldadas na prensa de Gutenberg ao primeiro jornal com fotos agregadas a um texto, séculos se passaram e, a partir daí, em menos de cem anos o fotojornalismo alcançou seu status de importância na elaboração da notícia. E é bem verdade que agora, com a velocidade com que avançam as novas tecnologias esse problema da lentidão na transmissão de imagens na net será rapidamente solucionado.

Talvez uma fotografia não valha mais do que mil palavras. Fotografias e palavras se moldam em separadas forjas. Elas se afastam em diferentes direções, transmitindo diferentes habilidades, fabricando diferentes impressões. Na prática do jornalismo elas são como parceiros comerciais, duas áreas que necessitam profundamente uma da outra. As formas de suas interações nos novos suportes serão o futuro do próprio jornalismo. A fotografia deve prosseguir na busca de um maior espaço, persistindo em sua luta contra os revezes tecnológicos, interagindo em igualdade de espaço e condições com a sua velha parceira: a palavra.

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Paulo Munhoz é fotógrafo e neste artigo discorre sobre o espaço da fotografia no jornalismo online.