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Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que a Televisão continua
sendo o meio de comunicação mais importante de que dispomos, em
plena era das Novas Tecnologias de Comunicação, da Telemática e
da Internet, os episódios do seqüestro de Silvio Santos e do ataque
terrorista aos Estados Unidos devem ter deixado as coisas mais claras.
No dia dos atentados em Nova Iorque e Washington, o IBOPE registrou
a média de 45% de residências paulistanas sintonizadas em canais
abertos de TV, entre as 9:30 e 16:30 horas. À noite, O Jornal Nacional
atingiu média de 52% de audiência, com um pico de 60% que acabou
justificando que meia hora da novela fosse sacrificada para dar
continuidade ao noticiário. A CNN tornou-se o ponto central de toda
a cobertura internacional, mobilizando seus quatro mil e tantos
profissionais no mundo todo, gerando e comentando imagens utilizadas
por quase todas as emissoras do mundo, que faziam repercutir os
fatos através das palavras de seus peritos e autoridades locais.
Quem teve acesso à TV por assinatura e à TV aberta, pôde se dar
ao luxo de ficar zapeando entre emissoras de todos os pontos do
mundo, vivenciando uma cobertura jornalística detalhada e completa.
Tínhamos uma profusão de imagens, geradas por profissionais e amadores,
que nos mostravam os acontecimentos por mil e uma angulações. Tínhamos
Bush, Rudolph Giuliani e FHC ao vivo e corpos queimados caindo de
cem andares de altura. A televisão, definitivamente, foi a dona
do dia e funcionou plenamente como um veículo globalizado. Haveria
alguma chance de se trocar tudo isso por demorados downloads de
vídeos em janelas estreitas na Internet, ou por colunas de texto
sintético, mesmo que atualizado segundo a segundo? Nem pensar...
E a Internet, como ficou em tudo isso?
Bem, obrigada...
Vamos tentar esclarecer o lugar de cada coisa....
Aos poucos a tensão foi relaxando. Já havíamos visto uma centena
de vezes as múltiplas imagens dos choques dos aviões contra as torres,
as explosões, as correrias, as nuvens de pó e fumaça (é como num
filme!... é como num filme!...), as pessoas sangrando e gritando
em desespero. Parecia que nada mais de sensacional iria ocorrer
a curto prazo. Era o momento de abaixar o volume da TV e retornar
ao computador. E passei a me comunicar por e-mail, buscando notícias
de amigos, amigas, parentes, mais próximos dos acontecimentos. Passei
a vasculhar os sites de minha preferência, tirando proveito dos
bancos de imagem, áudio e vídeo que começavam a se formar. Agora
era possível ver, rever, copiar, estocar todas as fotos, todos os
sons todos os vídeos, que haviam sido mostrados na TV.
O menino palestino comemorando o ataque, num campo de refugiados
no Líbano, vestia mesmo uma camisa da Seleção Brasileira, ou aquilo
era uma montagem, mais um truque de Photoshop?
A profecia de Nostradamus (www.snopes.com/inboxer/hoaxes/predict.htm),
que circulava em correntes pelo e-mail, era dele mesmo ou uma invenção
engraçadinha?
E os dilemas.... Uma foto-montagem com dois pilotos olhando para
dentro do avião, de costas para os comandos e rindo, enquanto na
janela da cabine as duas torres se aproximam... Envio ou não envio
esta brincadeira politicamente incorreta para meus amigos? Já? Com
os corpos ainda fumegando no TWC?
Aos poucos, vamos voltando à normalidade, à rotina. A TV deixa
de ser a peça central de meu dia. Retorno às minhas tarefas acadêmicas,
às minhas navegações na Rede, aos meus sites jornalísticos prediletos,
que me informam que tudo continua mal, que ainda ninguém sabe quantos
morreram, que pode vir retaliação a qualquer momento e para qualquer
lado, que estão disponíveis galerias com centenas de fotos da tragédia,
dezenas de vídeos, dezenas de áudios, coleções de infográficos,
simulações, diagnósticos e prognósticos. Basta querer...
A chave para se entender como é que fica a Internet depois disso
tudo, é a distinção entre uma lógica da oferta, que caracteriza
as mídias tradicionais (rádio, TV, imprensa), que funcionam por
emissão de mensagens e uma lógica de demanda, que caracteriza a
Internet, que funciona por disponibilização e acesso do usuário
às mensagens. E essas modalidades midiáticas são complementares
e não pontos ascendentes numa escala evolucionária. Não há "progresso"
entre o jornal, o rádio, a TV e a Internet, mas sim conjugação de
formatos. Aliás, já dizia Marshall McLuhan que "as mídias não se
sucedem uma às outras: elas complicam umas às outras"... E no caso
da Internet a coisa se complica ainda mais, pois não se trata de
uma mídia, em sentido estrito, mas de uma coleção de ambientes informacionais
e comunicacionais, que se justapõem e interpenetram através da convergência
multimidiática. Clic, clic e numa mesma vizinhança ciberespacial
podemos ter acesso a salas de bate-papo, caixas de correio, arquivos
históricos, cursos online, jogos interativos, coleções gratuitas
de programas informáticos, bibliotecas de textos filosóficos e literários,
sites de todos os tipos: científicos, jornalísticos, políticos,
lúdicos, pornográficos, governamentais, comerciais...
Colocando as coisas de maneira simples e direta, diríamos que a
Internet é um excelente suporte para a oferta e estocagem de informação,
que ela funciona muito bem para o estabelecimento de Comunidades
Virtuais de indivíduos com interesses comuns (Listas de Discussão,
Fóruns, etc), que ela é um fantástico instrumento de trabalho e
de lazer, que já se começa a fazer um inteligente desses recursos
em Educação.. Mas a disponibilização de crescentes massas de informação
requer, cada vez mais, profissionais encarregados da filtragem,
triagem, validação dessas informações, e sua difusão pelos mais
variados tipos de suportes, dos monitores de TV, às telinhas dos
celulares, das ondas do rádio ao tradicional papel dos jornais.
Afinal, não se pode esperar que cada cidadão tenha que bancar o
Editor-Chefe, a cada manhã, em seu computador...
Informação, Comunicação e Conhecimento, não são sinônimos e o Jornalismo
é certamente uma das formas que temos para conhecer o mundo, seja
em que suporte for, inclusive, é claro, na própria Internet. A idéia
do desaparecimento do Jornalismo e dos Jornalistas, em função do
desenvolvimento da Internet e do crescimento da informação disponível
nas redes de comunicação, é uma simplificação absolutamente descabida,
frontalmente desautorizada por tudo que vivenciamos tão recentemente.
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