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Quando a internet começou, as indagações a
respeito de quais seriam os rumos da atividade jornalística
a partir de então foram muitas, várias das quais denotavam
até mesmo um certo alarme quanto aos novos meios e recursos
tecnológicos. Os jornalistas seriam tornados obsoletos por
esta rede em que praticamente qualquer informação
que se busque está disponível? A agilidade dos meios
virtuais afetaria a rotina produtiva das redações?
Os valores jornalísticos seriam diluídos pela nova
dinâmica da internet, em que qualquer pessoa pode disponibilizar
informações sobre o que bem entender?
Hoje, não se pode dizer ainda que essa questões estejam
resolvidas, mas, ao menos, já podemos notar direções
que elas tomaram com o tempo. Hoje, com os ânimos mais acalmados,
podemos observar como essas questões foram sendo respondidas
ao longo dos anos e, assim, podemos pensá-las com mais profundidade.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a atividade jornalística
permanece imprescindível. Os jornalistas talvez sejam, inclusive,
mais importantes do que nunca numa sociedade em que há abundância
de informações, pois é fundamental que haja
um mediador entre esses dados e as pessoas. Um mediador que deve
se ocupar não apenas de indicar dentre as informações
disponíveis aquelas que devem ser as mais importantes para
o público como também de apresentar tais informações
da maneira mais adequada. Essa função é de
uma importância decisiva, e é por isso que o mediador
deve estar qualificado para exercê-la.
No entanto, vemos funcionarem na rede diversos veículos
noticiosos que, de maneira essencialmente amadora, dedicam-se a
publicar informações em primeira mão de caráter
"jornalístico". Um dos maiores representantes dessa
tendência é o site Drudge Report (http://www.drudgereport.com),
mantido pelo cibercolunista Matt Drudge, que fez fama com seu gosto
pelo escândalo e suas "reportagens em primeira pessoa",
realizadas por sua própria iniciativa e com seus próprios
recursos.
São veículos independentes, que praticam seu jornalismo
amador tendo muito mais em vista a oportunidade de publicar informações
quentes e chamativas do que os parâmetros éticos normativos
da atividade jornalística. Na ânsia pela notícia
mais recente, esses veículos podem negligenciar a apuração
dos dados e terminar por divulgar informações imprecisas
ou mesmo boatos sem fundamento algum.
Isso significa que o modelo de jornalismo a ser praticado na internet
será esse jornalismo amador, que sempre procura estar um
passo adiante, mesmo que, para isso, tenha que dar alguns tropeços?
Não necessariamente, mesmo porque não é esse
o tipo de jornalismo que os leitores procuram quando querem informar-se
a respeito dos temas relevantes para o mundo e para a sociedade.
É óbvio que as pessoas sempre se interessarão
por ver as últimas fofocas envolvendo seus astros de televisão
prediletos, ou ídolos musicais, ou pessoas públicas
em geral, e é aos veículos que trazem notícias
bombásticas que recorrerão para saciar esse interesse.
Mas há outra coisa que as pessoas procuram num veículo
quando querem informar-se: credibilidade. E é a credibilidade
que representa toda a diferença entre um tipo de prática
jornalística e outro.
Os leitores compreendem que um jornal que segue certos princípios
mínimos de normatização dos procedimentos de
apuração e obtenção de informações
estará menos sujeito ao risco de divulgar notícias
equivocadas e tomará mais cuidado a fim de lhes trazer informações
de qualidade. Os leitores têm esses jornais como mais confiáveis,
portanto.
A credibilidade é a grande moeda de troca dos jornais; é
o que atrai leitores e anunciantes para um veículo. Credibilidade
é coisa valiosa demais para que eles disponham-se a comprometê-la.
Ela é conseguida numa constante negociação
com os leitores que passa pela reiteração da parte
do veículo de sua confiabilidade - há jornais que
até mesmo fazem questão de publicar seu código
de conduta, para deixá-lo bem claro para os leitores. Mas
isso não quer dizer também que os jornais estabelecidos
são exemplos morais ou que estejam imunes a cometer essas
falhas que os veículos amadores cometem.
O grande perigo, na verdade, está em quando os jornais cedem
à tentação de participar dessa "corrida
atrás do furo" e desprezam as normas que se propõem
a seguir. A internet é, em boa parte, responsável
por intensificar as pressões competitivas entre os veículos
para serem o primeiro a publicar uma novidade, mesmo enquanto ainda
há aspectos importantes da história que permanecem
desconhecidos e merecem uma devida apuração.
Isso é prejudicial tanto para os leitores e para aqueles
que porventura sejam lesados por uma eventual notícia incorreta
quanto para o próprio jornal. Pois, quando um jornal estabelecido
abandona aquilo que o diferencia perante os leitores - um exercício
confiável da atividade jornalística - e adota práticas
de um veículo noticioso sensacionalista, é a sua credibilidade
que está pondo em jogo.
O importante é que os jornalistas - de meios digitais, impressos
ou audiovisuais - não percam de vista que o ofício
deles é, antes de qualquer coisa, contar a verdade para o
público. Eles não devem transformar sua atividade
em uma mera competição para ver quem consegue publicar
antes de todos os outros os últimos boatos a circular por
aí.
* Artigo elaborado a partir de textos de J.
D. Lasica publicados no site http://www.well.com/user/jd/webjournalism.html.
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