A ética faz a credibilidade*

Lucas Falcão
lucasfalcao@uol.com.br

Quando a internet começou, as indagações a respeito de quais seriam os rumos da atividade jornalística a partir de então foram muitas, várias das quais denotavam até mesmo um certo alarme quanto aos novos meios e recursos tecnológicos. Os jornalistas seriam tornados obsoletos por esta rede em que praticamente qualquer informação que se busque está disponível? A agilidade dos meios virtuais afetaria a rotina produtiva das redações? Os valores jornalísticos seriam diluídos pela nova dinâmica da internet, em que qualquer pessoa pode disponibilizar informações sobre o que bem entender?

Hoje, não se pode dizer ainda que essa questões estejam resolvidas, mas, ao menos, já podemos notar direções que elas tomaram com o tempo. Hoje, com os ânimos mais acalmados, podemos observar como essas questões foram sendo respondidas ao longo dos anos e, assim, podemos pensá-las com mais profundidade.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a atividade jornalística permanece imprescindível. Os jornalistas talvez sejam, inclusive, mais importantes do que nunca numa sociedade em que há abundância de informações, pois é fundamental que haja um mediador entre esses dados e as pessoas. Um mediador que deve se ocupar não apenas de indicar dentre as informações disponíveis aquelas que devem ser as mais importantes para o público como também de apresentar tais informações da maneira mais adequada. Essa função é de uma importância decisiva, e é por isso que o mediador deve estar qualificado para exercê-la.

No entanto, vemos funcionarem na rede diversos veículos noticiosos que, de maneira essencialmente amadora, dedicam-se a publicar informações em primeira mão de caráter "jornalístico". Um dos maiores representantes dessa tendência é o site Drudge Report (http://www.drudgereport.com), mantido pelo cibercolunista Matt Drudge, que fez fama com seu gosto pelo escândalo e suas "reportagens em primeira pessoa", realizadas por sua própria iniciativa e com seus próprios recursos.

São veículos independentes, que praticam seu jornalismo amador tendo muito mais em vista a oportunidade de publicar informações quentes e chamativas do que os parâmetros éticos normativos da atividade jornalística. Na ânsia pela notícia mais recente, esses veículos podem negligenciar a apuração dos dados e terminar por divulgar informações imprecisas ou mesmo boatos sem fundamento algum.

Isso significa que o modelo de jornalismo a ser praticado na internet será esse jornalismo amador, que sempre procura estar um passo adiante, mesmo que, para isso, tenha que dar alguns tropeços? Não necessariamente, mesmo porque não é esse o tipo de jornalismo que os leitores procuram quando querem informar-se a respeito dos temas relevantes para o mundo e para a sociedade.

É óbvio que as pessoas sempre se interessarão por ver as últimas fofocas envolvendo seus astros de televisão prediletos, ou ídolos musicais, ou pessoas públicas em geral, e é aos veículos que trazem notícias bombásticas que recorrerão para saciar esse interesse. Mas há outra coisa que as pessoas procuram num veículo quando querem informar-se: credibilidade. E é a credibilidade que representa toda a diferença entre um tipo de prática jornalística e outro.

Os leitores compreendem que um jornal que segue certos princípios mínimos de normatização dos procedimentos de apuração e obtenção de informações estará menos sujeito ao risco de divulgar notícias equivocadas e tomará mais cuidado a fim de lhes trazer informações de qualidade. Os leitores têm esses jornais como mais confiáveis, portanto.

A credibilidade é a grande moeda de troca dos jornais; é o que atrai leitores e anunciantes para um veículo. Credibilidade é coisa valiosa demais para que eles disponham-se a comprometê-la. Ela é conseguida numa constante negociação com os leitores que passa pela reiteração da parte do veículo de sua confiabilidade - há jornais que até mesmo fazem questão de publicar seu código de conduta, para deixá-lo bem claro para os leitores. Mas isso não quer dizer também que os jornais estabelecidos são exemplos morais ou que estejam imunes a cometer essas falhas que os veículos amadores cometem.

O grande perigo, na verdade, está em quando os jornais cedem à tentação de participar dessa "corrida atrás do furo" e desprezam as normas que se propõem a seguir. A internet é, em boa parte, responsável por intensificar as pressões competitivas entre os veículos para serem o primeiro a publicar uma novidade, mesmo enquanto ainda há aspectos importantes da história que permanecem desconhecidos e merecem uma devida apuração.

Isso é prejudicial tanto para os leitores e para aqueles que porventura sejam lesados por uma eventual notícia incorreta quanto para o próprio jornal. Pois, quando um jornal estabelecido abandona aquilo que o diferencia perante os leitores - um exercício confiável da atividade jornalística - e adota práticas de um veículo noticioso sensacionalista, é a sua credibilidade que está pondo em jogo.

O importante é que os jornalistas - de meios digitais, impressos ou audiovisuais - não percam de vista que o ofício deles é, antes de qualquer coisa, contar a verdade para o público. Eles não devem transformar sua atividade em uma mera competição para ver quem consegue publicar antes de todos os outros os últimos boatos a circular por aí.

* Artigo elaborado a partir de textos de J. D. Lasica publicados no site http://www.well.com/user/jd/webjournalism.html.

Copyright © 2002 - Oficina de Jornalismo Digital - Faculdade de Comunicação / UFBA

 

O faconiano Lucas Falcão é um grande conhecedor do universo dos blogs e também membro da equipe do Claque. Neste artigo, ele nos traz uma reflexão sobre a credibilidade no jornalismo, motivada pela participação no seminário temático sobre "Ética no jornalismo online", apresentado no dia 23 de abril de 2002.