Ética e jornalismo online

Greice Schneider
greices@ufba.br

Com a inserção do jornalismo na internet, parece ter surgido uma certa expectativa sobre como funcionaria uma ética no ciberespaço. Talvez essa exigência pela revisão das normas morais nasça do caráter embrionário, inexplorado da rede: há um território novo, portanto, precisamos criar novas regras para organizá-lo.
Pensar dessa forma seria cair na armadilha de achar que a ética só é válida em circunstâncias restritas e seria mutável de acordo com seu espaço. Acontece que, se a cada novo meio (e não estou incluindo a internet como meio) fôssemos elaborar novos valores, não haveria razão de existir ética alguma.

Na verdade, os valores jornalísticos que eram aplicados na mídia impressa, no radiojornalismo e no telejornalismo continuam valendo. O jornalista deve continuar tendo um compromisso com a verdade, procurar preservar a esfera íntima alheia, e a dignidade do próximo. Isso é moralmente válido em qualquer lugar do mundo.

O que acontece é que, como a internet inaugura e potencializa outras possibilidades no jornalismo - como a interatividade, a instantaneidade, a hipertextualidade, a multimidialidade, - ela acaba por engendrar também novos problemas de cunho ético.
A começar pela interatividade. Na rede, todos podem tornar-se emissores de conteúdo. Existe uma autonomia maior sobre o material publicizado. Por um lado, isso pode ser extremamente saudável, já que passamos a não depender mais exclusivamente dos meios tradicionais e podemos contar com pluralidade de opiniões e de fontes. No entanto, no reverso da moeda, abrem-se brechas para publicações ofensivas, humilhantes e preconceituosas.

A instantaneidade da web também traz seus vícios, junto com suas vantagens. A imediaticidade com que as notícias chegam ao leitor acaba imprimindo um outro ritmo na rotina de apuração de informações. O compromisso com a notícia em tempo real diminui o tempo de pesquisa, verificação e checagem das informações que estão sendo veiculadas, o que termina por aumentar o risco da publicação de notícias falsas.

O caráter hipertextual do webjornalismo, por sua vez, pode aprofundar a notícia em vários níveis, interconectando informações através dos blocos de texto com os links. Esse ato de "linkar" informações, entretanto, está carregado de responsabilidade moral. O problema, nesse caso, surge, quando uma notícia guia o seu leitor para um site de conteúdo falso, tendencioso ou ofensivo. Mais uma vez, o cuidado com a checagem dos fatos que se está indicando é necessário, mesmo que o site indicado esteja fora dos domínios da publicação online.

Por fim, a convergência dos meios na internet esclarece um pouco por que não faz sentido falar em novos valores éticos na internet: justamente pelo fato do ciberespaço abranger vários media é que todos os cuidados que devem ser tomados nos outros meios transferem-se também para ela.

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foto: Unit

Greice Schneider é aluna da Facom e editora do Claque. Inspirada pelo seminário interno sobre ética e jornalismo online, apresentado no dia 23/04/02, Greice insere a discussão ética no JOL.