O NEGRO NA ECONOMIA BAIANA

1. Os Preconceitos sobre o tema
A participação do negro na sociedade brasileira , particularmente na Bahia , deve ser vista como uma forma de discutirmos as diversas análises dos problemas de desigualdades encontradas no contexto da sociedade como um todo . A questão do negro é parte fundamental de um problema maior da formação do povo brasileiro . Negros , índios e diversas outras etnias fazem parte deste universo complexo e intrigante chamado nação brasileira . Os negros , porém sofrem mais ,pois além de em maior número sempre estiveram incorporados ao regime de trabalho legado desde os tempos da escravidão .
Há vários modos de verificarmos os problemas relacionados com a questão econômica e o negro, entre eles temos a questão relacionada com a forma de interpretação do papel desempenhado pêlos componentes negros na sociedade , inclusive procurando explicar como eles interagem na reconstrução do quadro nacional .
A discriminação coletiva encontra uma série de justificativas . A segregação passada funciona como justificativa modificada para a discriminação dos dias de hoje . Esta identificação do negro com o contexto social refletem os hábitos rurais de trabalho , que entretanto são migrados para o contexto urbano , onde o negro geralmente ocupa tarefas menos qualificadas . Os negros , por esta razão , ficam restritos às profissões de menor remuneração .
2. O marco histórico da questão
A formação de desigualdade da sociedade brasileira sintetiza a diferença entre a contribuição de cada grupo social , inclusive no que tange às contribuições da formação do valor social . No que se refere aos negros a participação destes foi de certa maneira agravada tendo em vista os efeitos acumulados da discriminação incorporada inclusive ao sistema educativo . Diferenciação e predisposição na seleção são efeitos que se faz sentir dentro deste contexto . A analogia com situações de classe política e cultural é marcante , sendo que aos negros só restava aquilo de menor perspectiva dentro de um mesmo apogeu . Na Bahia este fato é mais marcante , devido sobretudo a maior penetração do sistema escravocrata na formação da cultura e do consciente coletivo da população .
A suposta "inferioridade" do negro também está relacionada a consequente condição de acúmulo de riquezas da região que fomentava indiretamente esta situação não dando oportunidade de ascensão do negro na sociedade . O sistema de produção pós escravista baiano sempre trabalhou com a premissa de oferta restrita de trabalho , sendo mais um meio de limitação da condição de desenvolvimento do cidadão de origem negra .
A modernização industrial evidenciou novos requisitos de qualificação do trabalhador . Aumentando a distância , indiretamente falando , entre os colégios destinados aos alunos das elites e os colégios destinados as pessoas mais humildes . A modernização , por outro lado , possibilitou a ampliação das oportunidades de trabalho juntamente com uma consequente ampliação da renda familiar . Os movimentos negativos da conjuntura traduzem o estreitamento destas mesmas oportunidades às classes menos favorecidas , Ocorrendo uma verdadeira segregação . Numa sociedade totalmente estratificada como a baiana isso significa uma redução da mobilidade e um como consequência uma postergação do consumo . As primeiras alternativas surgidas , neste processo , para o negro esta relacionada com trabalhos manuais ligados principalmente em empregos públicos ,nos sistemas de educação e de saúde .
3. Os problemas do método
Os problemas de análise estão intimamente ligados com a escassez de dados e sobretudo com as dificuldades em relacionamentos esquemáticos , conseguindo , por sua vez , elaborar metodologias adequadas e modelos capazes de explicar o contexto . As orientações relativas ao papel desempenhado pêlos grupos dominantes , por outro lado , não leva em conta indispensável trabalhar sobre a ligação entre as condições de vida das maiorias e o perfil de distribuição . Isso fez com que a análise econômica não focalizasse os mecanismos de discriminação embutidos na formação de capital . Os grupos tradicionalmente discriminados sobrevivem à margem do assalariamento e logicamente possuem menos oportunidade de participar do acúmulo de capital
A questão torna-se de como referenciamos os termos em que a interpretação da teoria deve dar conta das desigualdades e de seus efeitos na acumulação de capital .Concretamente ,em relação aos negros na Bahia é conveniente considerar o vínculo tradicional ao trabalho manual e sua consequente dificuldade de acesso às formas de trabalho mais qualificadas e também as limitações no mercado de trabalho . Também deve-se levar em conta , com bastante propriedade , a participação do Estado como fomentador e modificador das estrutura vigentes ( muitas vezes o Estado mostrou-se ineficiente) .
4. A experiência baiana atual
A questão do negro , dentro da estrutura social , encontra-se enraizada em uma pluralidade de situações , marcada sobretudo pela problemática urbana . Mais sua participação na urbanização está limitada às suas limitações no mercado de trabalho , cultural e político .
Setores como o de petróleo e o químico possibilitaram um aumento considerável , a partir da década de 60 , de empregos para trabalhadores não qualificados e semi-qualificados . Este fato ocorreu sobretudo pela implantação do centro industrial de Aratu e do polo petroquímico de Camaçari . Porém o desaceleramento da economia nos finais dos anos 70 resultou num aumento descomunal da procura por esses tipos de trabalho , tornando o sistema insuficiente para absorve-los . A debilidade do ensino público está enrraigado neste contexto , refletindo a perda de competitividade dentro da busca de aprimoramento e ascensão social .
Deste modo , entende-se porque os negros tenham sido atraídos para atividades ligadas às atividade de lazer e que tenham se identificados com formas de afirmação culturais como por exemplo o turismo .
5. O horizonte de análise
A análise deve ser devidamente limitada , localizada e datada com o objetivo de que possamos medir consequências claras reflexos de um contexto maior . A participação da Bahia no quadro nacional ,fez-se mediante o sistema de exploração do trabalho do negro e , na verdade , os mantém isolados do intercâmbios do quadro nacional . A análise da posição do negro oferecem uma referência essencial sobre a participação e a diferenciação dos diversos grupos pretendentes .
No contexto social econômico vivido pelo estado nas décadas de implantação dos grandes pólos industriais verificou-se que o Estado como financiador e promotor de desenvolvimento retraiu-se , encerrando as perspectivas de ampliação dos horizontes .
Neste mercado de trabalho a discriminação funciona com mais clareza na diferenciação salarial . A medida que o mercado de trabalho funciona com uma procura demandada diversificada e que o trabalhador pudesse ter a possibilidade de maior número de opções iniciais , este aumentaria suas possibilidades de encontrar compensações . Estas possibilidades porem normalmente não se concretizavam, sobretudo pela elevada dependência da especialização do trabalhador para conseguir uma melhor colocação . Ao alcançar a valorização das profissões tradicionalmente portadoras de status se valorizava , de sobremaneira , àqueles já privilegiados historicamente .
6. A reconstrução da pluralidade
Há hoje um paralelismo entre a segmentação do mercado de trabalho na Bahia e o modo como a sociedade baiana convive com sua própria pluralidade. O mercado de trabalho consiste da participação de grupos que não são mutuamente substituíveis . A ilusão da modernização aqui e supor que o domínio de um oficio deve, necessariamente , levar a aumentos de renda. A experiência diz que o pagamento de salário é mais atraído pela oferta de trabalhadores de empresas que se renovam ou que permanecem estagnadas .
Todos aqueles trabalhadores que chegam ao mercado por seus próprios meios , sem qualquer treinamento especial, são subordinados a regras de contratação que os mantém sob acordos de controle de salário real , que refletem os métodos das empresas para esquivar-se da legislação trabalhista .
A participação do negro neste contexto é marcante pelo modo como ela se insere na alternância de pluralização e integração própria dessa modernização . Esses movimentos se manifestam no modo como se alternam a criação de novas oportunidades de trabalho e como elas são preenchidas . Na prática trata-se de alterações na posição de um grupo 'numericamente majoritário mas sempre desfavorecido , num momento de contração deliberada do produto social . Significa que suas possibilidades de obter ganhos em emprego e renda dependem de modificações no todo .
A participação pode mudar pois o sistema não permanece estanque ou porque o próprio grupo também é mutável . A alternativa está dada pelas possibilidades de mudanças e na prática , em suas qualificações e nas modificações em relação aos mecanismos de controle dos produção e consumo.
Fabiana Pinna |
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