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A PRAGA AFRICANA |
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| As imagens são de cortar o coração: homens e mulheres exauridos, roupas aos frangalhos, os corpos reduzidos a pele e osso. Ainda mais doloroso é ver as crianças deformadas pela desnutrição, deixadas para morrer na poeira. Na imensidão sem estradas, telefones ou luz elétrica do Sudão, o maior país da África, uma severa escassez de alimentos ameaça com a fome 2,6 milhões de pessoas, das quais 350.000 correm o risco imediato de morte por inanição. Milhares de famílias desfiguradas estão neste momento vagando por terras devastadas em busca de comida. Os centros de alimentação instalados por organizações internacionais não têm em estoque o suficiente para todos eles. (...) Dez anos atrás morreram 250.000 sudaneses. Outra fome letal ocorreu há apenas quatro anos. Também ocorreram tragédias semelhantes na Etiópia e na Somália. Não é tarefa simples encaixar uma fome de dimensões bíblicas na economia globalizada às vésperas do século XXI. Se o mundo está abarrotado de alimentos, como podem os africanos, com dolorosa freqüência, ser vistos morrendo à míngua? Nessa crise, não há nada que esteja acontecendo pela primeira vez. É o que os profissionais da ajuda humanitária na África chamam, eufemisticamente, de "emergência complexa". A situação chegou a esse ponto dramático agravada por uma estação seca excepcionalmente prolongada. A lógica da natureza, contudo, não justifica a tragédia. O Sudão vem sendo devastado pela guerra civil nos últimos quinze anos, com 1,5 milhão de mortos (a maioria de fome). O próprio estado é uma ficção política, tão radical é a divisão do país em dois mundos distintos. O governo central, dominado por fundamentalistas islâmicos, representa o norte arabizado que tenta submeter a população do sul, predominantemente cristã ou adepta de religiões africanas. Nenhum dos dois lados está em condições de derrotar o outro, ainda que os movimentos guerrilheiros do sul tenham obtido vitórias significativas no último ano. A serviço do governo, forças irregulares saqueiam aldeias, queimam as lavouras, matam os homens e escravizam as mulheres e crianças. A guerrilha na realidade uma condição frouxa de facções rivais também se abastece roubando os civis. |
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| Ajuda rarefeita A crise atual vem crescendo desde o início do ano. Só agora os organismos internacionais se deram conta da extensão do problema. A quantidade de alimentos que tem sido despachada para o Sudão não é suficiente para dar conta da necessidade. Num centro de alimentação da cidade de Thiet, na região de Bahr al-Ghazal, a mais atingida pela fome, a escolha de quem vai receber comida é definida com o uso de uma tabela de correlação entre peso e altura. Só são alimentadas as crianças com peso abaixo de 70% do normal. Ali se vê gente esquelética ferver pedaços de couro para servir a lavagem como alimento aos filhos. Dói saber que toda essa desgraça é produto da ação humana. |
| O sul do Sudão oferece uma das terras mais produtivas do continente. A agricultura e a criação de gado são atividades que, em tempos normais, sustentam sem problemas os habitantes. O desafio da ajuda estrangeira não é tanto conseguir donativos nos países ricos, mas fazer a comida chegar aos necessitados. Nada chega aos famintos se os rebeldes não forem subornados. Nenhum avião pousa com alimentos se o governo não autorizar. A África era mais simples de entender quando se podia atribuir suas tragédias à rapina dos colonizadores europeus. A única mão ocidental atualmente no conflito sudanês é a que tenta entregar comida. "Os sudaneses estão morrendo porque a fome é uma arma na guerra", escreveu na revista Newsweek Michael Maren, jornalista americano com vinte anos de experiência de trabalho voluntário em organizações humanitárias na África. "A dura lição que aprendi é que, na indústria da ajuda, os recursos vão para os poderosos. Enquanto o Ocidente vê os alimentos como armas na guerra contra a fome, os grupos beligerantes os vêem como suprimentos para suas guerras". Essa é, em parte, a razão pela qual a crise de alimentos se tornou um fenômeno inteiramente africano. |
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Peso do passado As mazelas africanas foram por décadas atribuídas à herança perversa do colonialismo e às elites alimentadas pelos interesses das superpotências. Quase uma década depois do fim da Guerra Fria, essas desculpas não servem mais. Nenhuma potência ocidental demonstra interesse em sustentar ditadores africanos. Ao contrário, a entrega da ajuda internacional vem agora condicionada a contrapartidas como respeito aos direitos humanos, eleições democráticas e auditoria no destino do dinheiro. Meio século atrás, os países asiáticos, recém-saídos da situação de colônia, eram tão pobres como os africanos. Se hoje os asiáticos se tornaram modelo de desenvolvimento e fazem parte da economia global, por que os africanos ainda estão mais ocupados em matar os vizinhos que pertencem a uma tribo diferente? O conflito na Iugoslávia mostrou como nacionalismos mal resolvidos podem explodir de forma sangrenta mesmo no coração da Europa. A diferença é que, terminada a luta, as repúblicas dos Balcãs voltaram à estabilidade social. Isso não ocorre na África. Não há explicações simples para o fato de o continente, apesar de toda ajuda estrangeira, Ter trafegado na direção contrária ao restante do mundo, mergulhando cada vez mais fundo na pobreza, na fome crônica e na desarrumação econômica. A indiferença da caciqueira sudanesa com o destino de seu próprio povo é a melhor pista para entender essa tragédia. A rapinagem, a corrupção, o autoritarismo não são monopólios africanos. O autoritarismo também foi a norma na América Latina. Os países asiáticos são famosos pela corrupção. A particularidade da África talvez seja a perpetuação de todos esses defeitos num círculo vicioso. Pobreza tem o feito perverso de gerar mais pobreza. A criança africana que passa fome e não vai à escola não será um adulto preparado para o mundo em mutação. Falta à maioria da África a tradição de instituições sólidas, sobre as quais se pode construir um país de verdade. O resto do mundo, que não vê o continente nem sequer como mercado consumidor, simplesmente lhe deu as costas. Só volta a se interessar quando as fotos dos miseráveis se tornam chocantes demais para ser ignoradas. |