| Entrevista com a atriz Ângela Correa 11/10/98 - Jornal
O Estado de São Paulo
Ângela Correa investe na sensualidade de raiz da mulher negra. Ela escolheu o nome de seu
personagem, Fulô, no qual pôs muito de sua experiência pessoal Alta, belíssima,
por onde passa a atriz brasileira Ângela Correa desperta olhares de admiração. Em A
Viagem, quando conheceu o diretor e futuro marido Fernando Solanas, ela fazia apenas uma
pequena participação, que pouco revelava seu eventual talento. Já em A Nuvem - que lhe
rendeu o prêmio de melhor atriz no último Festival de San Sebastián, na Espanha -,
Ângela ganhou "de presente", como ela própria diz, de Solanas um belo papel,
no qual, efetivamente, pôde demonstrar que, além de bonita, é também uma ótima atriz.
Ângela interpreta Fulô, uma artista do Teatro Espelho que, como os demais atores, luta
para sobreviver de sua arte, com o agravante, ainda, de ser negra. Uma personagem intensa,
sensual, mas não caricata, vital por excelência. Há cinco anos radicada na Argentina
com o filho de 14 anos, Flexa, Ângela afirma que, com A Nuvem, conseguiu "pôr para
fora" muita coisa que desejava e, ainda por cima, ser reconhecida pelo seu trabalho e
não mais, simplesmente, como "a mulher do direitor".
Estado - Você está de acordo que A Nuvem é, entre outras coisas, também uma
grande declaração de amor de seu marido a você?
Ângela Correa - É, ele sempre quis fazer isso e dizia:
"Eu quero fazer um personagem bem bonito para você." Ele
sempre admirou a minha atuação, me apoiou muito, mesmo
quando eu fiz outros trabalhos. Sempre que eu pego algum
trabalho, fico muito enlouquecida, quero fazer o melhor
possível. Ele é muito ciumento, não me deixa trabalhar. Embora em suas aulas e
conferências diga para as pessoas que elas têm de trabalhar o tempo todo, etc. Mas,
comigo, quando eu estou fazendo isso em casa, ele me diz: "Mas você está louca,
falando sozinha... " (risos) Casa de ferreiro, espeto de pau.
Estado - Há quando tempo estão casados?
Ângela - Conhecemo-nos em A Viagem, em 1991, e nos casamos em 1993. Eu morava em
São Paulo, fiz Anastácia
e Abolição, na televisão, com personagens maravilhosos que
adorei fazer. Na época da Viagem, eu estava filmando no Peru, e o Fernando lamentou que
eu não pudesse aceitar o papel. Mas o tempo passou, ele não filmou quando planejava e
acabamos acertando um encontro no Brasil. Quando eu o vi, foi estranho, porque parecia que
eu já o conhecia há muito tempo, que esse homem já me pertencia, do passado.
Trabalhamos juntos, tivemos até umas briguinhas, ele grita
muito e eu olhava assim zangada. Ele se assustou um dia com o meu olhar, não há
necessidade de gritar tanto. Acho que foi a minha vingança, vou casar-me com ele para ver
quem grita mais em casa... (risos) Ou vou casar-me e ele vai parar de gritar comigo.
Estado - E o casamento aconteceu logo?
Ângela - Não, o filme acabou, Fernando ia voltar para Buenos Aires e me chamou
para ir despedir-me dele no hotel.
Eu sempre tive esse conflito de mulher, negra, gostosa, aquela coisa de objeto sexual. Eu
não gostava, nunca tive um namorado diretor de nenhum dos trabalhos que eu fiz. Então,
para despedir-me dele, eu peguei o meu filho, Flexa, que tinha 7 anos e hoje está com 14.
Quando cheguei, ele já estava debaixo no hotel. Abraçou o meu filho com um carinho
imenso - e até hoje eles têm uma paixão enorme um pelo outro - e, três meses depois,
me ligou para dizer que eu estava muito bem no filme. Eu achei estranhíssimo ele ligar-me
três meses depois para dizer que eu estava maravilhosa já que tinha apenas uma
participação no filme. Estranho. O tempo passou, ele me convidou para ir ao lançamento
do filme em Buenos Aires, escreveu-me cartas e... aí começou. Depois, ele sofreu o
atentado, a gente já estava namorando, eu fui para lá. Fiquei com ele, dei-lhe
assistência. Ele levou tiros nas duas pernas e foi muito difícil ficar na cama, porque
é muito agitado. E nos aproximamos cada vez mais, até que nos casamos. Ele também tem
os filhos dele, formamos todos uma família, nos damos muito bem, enfim.
Estado - Você tem conseguido trabalhar sempre na
Argentina?
Ângela - Eu fiz A Estrela Negra dirigida por uma chilena
que ganhou um Kikito em Gramado há alguns anos. E também um monólogo, de uma autora
uruguaia, que me assustou muito, mas que teve uma repercussão maravilhosa. Eu fui aceita
de braços abertos pelos grupos de teatro mais fortes de Buenos Aires. Tenho feito
televisão também. Escrevem personagens para mim. Eu trabalho, mas não é que eu me
adapte facilmente a qualquer personagem.
Estado - Na Argentina, a população negra é relativamente pequena.
Ângela - No Brasil, já é problemático, pelo preconceito. Na Argentina, tem o
problema do idioma, mas que não atrapalha mais do que o da cor. Agora, nem tanto. No
começo, assustava-me muito, porque é um idioma parecido
com o português, mas para falar perfeitamente é muito mais
complicado. E em teatro, você tem de falar. Mas foi assim, a
autora viu-me em Cuba e decidiu escrever para mim.
Estado - E o personagem da Fulô em A Nuvem?
Ângela - Eu quase não tive nenhuma influência. Apenas
umas poucas coisas. Por exemplo, Fulô. Eu pedi que esse
fosse o seu nome, por Jorge de Lima, essa coisa de resgatar a
África, chegando até agora. É a coisa do racismo. O Fernando me deu de presente essa
personagem, mas eu tinha muito mais coisa para pôr dentro do que ele poderia colocar,
alcançar. Por exemplo, o Chico (Buarque), ele sempre apoiou os negros, um homem de
esquerda, maravilhoso, etc. Mas, agora, tendo um neto negro, é totalmente diferente,
agora ele sabe o que é isso. A mesma coisa ocorre com o Fernando. Ele não sabe
exatamente o que é isso. Quando eu falo aquelas coisas de negra, que no meu país tudo
que é ruim é negro, sorte negra, etc., eu sei do que se trata. Mas eu não quis
influenciar muito. Eu deixei que ele criasse e depois inseri o que estava dentro de mim.
Estado - Você disse, há pouco, que colocou no personagem coisas que há muito
desejava pôr para fora.
Ângela - Como brasileira, você sabe que esse problema
existe. E eu, como ser humano, não apenas como atriz, tinha
tudo isso aqui, na garganta, e deu tudo certo, porque saiu no
momento certo e saiu de forma redonda. O personagem fez
muito sucesso em Buenos Aires. As pessoas me reconheceram: "Ela não é a mulher do
diretor, ela é uma atriz com um trabalho sólido." Isso para mim foi muito
gratificante: pôr tudo para fora e ainda conseguir prestígio. Esta sou eu, é assim
mesmo. Foi muito gostoso. Eu trabalhei a coisa da sensualidade, porém mais no ritmo que
imaginei para a Fulô. Eu sempre colocava um samba para estudar o personagem E ela saiu
com aquela sensualidade, que não é a sensualidade da Fulô, mas da própria raiz dela,
assim como a sua maneira de andar. Tudo isso para mim foi ótimo.
Estado - Tem vontade de voltar a trabalhar no Brasil?
Ângela - Adoro trabalhar no Brasil. Recebi uma proposta para atuar em Buenos
Aires e mandar a imagem para
o Brasil. Adoro trabalhar sempre. Nunca fico esperando.
Quando não tenho trabalho, crio projetos. Um deles é sobre
Ângela Maria, que minha mãe adorava e sempre cantava as
músicas dela. E aí comecei a escrever. Não sei bem o que vai
ser, mas é um projeto que eu tenho: não sei se é a história da
minha mãe com a Ângela Maria, se é a minha, vamos ver.
Então, quando estou sem trabalhar penso na Ângela Maria
para ver se consigo levar a sua história para o teatro. A minha frustração é não ter
sido cantora, talvez isso ocorra por causa do meu nome, não é? Mas uma atriz-cantora eu
posso fazer.
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