Vampiro made in África

Baseado no texto "Uma genealogia das imagens do racismo; discursos sobre o negro serviram à dominação e à exclusão social." Muniz Sodré
Foto de Pierre Verger

 

Para Muniz Sodré, o negro brasileiro não possui uma imagem que seja refletida no espelho social. Para o cidadão do Brasil, o branco seria o reflexo de tudo aquilo que se almeja ser (com seus traços finos, sua cultura vanguardista, suas potencialidades intelectuais); o índio seria o passado remoto, a idéia de ancestralidade e ‘respeito’ pelo ente idealizado através de alguns séculos de ufanismo histórico. E o negro, o que seria o negro e sua imagem-representação no cenário da sociedade brasileira?!

Eu acredito que o negro possua, contemporaneamente, uma imagem na nossa sociedade; todo o imaginário coletivo, fortalecido por instituições como Escola e Igreja, tem no negro a imagem de sujeira, vagabundagem, pobreza e servidão. Entretanto, compreendo a analogia que faz Muniz Sodré entre o negro e o ‘vampiro’ , aquele que não vê sua imagem refletida no espelho. Ele fala de uma imagem mais específica, da imagem como publicização e, até mesmo, valorização dos seus traços físicos e culturais, da sua divulgação através dos aparelhos - tradicionais e avançados - de difusão de imagens e idéias.

Neste sentido, o negro tem pouquíssima visibilidade; quase nunca aparece na televisão, e, mesmo na mídia impressa, o seu espaço fica, geralmente, restrito às páginas policiais. Nas escolas, só é lembrado quando se fala dos muitos séculos de escravidão que assolaram e enriqueceram o mundo - inclusive a ‘pátria amada’ , sendo ainda tratado como o elemento humano inferior que foi escravizado por sua predisposição ao trbalho forçado. A sua subserviência é contraposta à rebeldia dos aborígenes, mas estes também são tratados de forma marginal por uma cultura ainda deslumbrada e sumetida aos ideais eurocêntricos.

O que o Estado brasileiro tenta forjar, assim com os demais Estados nacionais, é uma etnicidade fictícia, em que se homogeneizaria toda a população de um país. A criação e enrijecimento dessa ‘ideologia dos iguais’ gera um acirramento de diferenças (numa circunstância em que a diferença é vista como oposição) e termina por proporcionar - e justificar - a discriminação racial. Essa etnicidade única e singular é moldada a partir dos aparelhos ideológicos de produção de imagens sociais citados anteriormente, e acaba por constituir a ‘identidade coletiva’ de um povo.

Uma ‘identidade coletiva’ formulada sobre a base da discriminação da diferença somente poderia ser partidária da idéia de ‘pureza racial’ , em que a miscigenação não é vista com bons olhos. O mestiço, no caso mais específico, o mulato (mistura de negro e branco), é considerado impuro, menos qualificado nos traços étnicos, geneticamente inferior devido a sua mistura racial.

A elite sócio-cultural da sociedade brasileira vem reiterando essa ideologia ao longo dos anos; Muniz Sodré cita, no seu texto, escritores como Euclides da Cunha e Luís Vianna, que divulgaram idéias de impureza racial em suas obras. Sodré chama a atenção para o fato de esses autores terem origens mestiças, mas está contido aí um ‘porém’: o que a sociedade brasileira discrimina não é tanto a condição genealógica do indivíduo, as suas origens e parentescos, mas a ‘marca’ , aquelas características étnicas perceptíveis a olho-nu. O cabelo tendento ao liso, a pele mais clara, os traços mais delicados e também a condição sócio-econômica são passaporte para aceitação social.

A historiadora Katia Mattoso já observava isso na Bahia de ontem. Se fossemos partir do pressuposto da origem racial, quase todos os cidadãos baianos- marginais e ilustres - seriam mestiços, pois muito raros são aqueles que, dentre os ancestrais, não têm parentesco com algum representante dos africanos escravizados. Mas o que vale é a ‘marca’; pouco importa que o seu cabelo seja apenas bem-alisado e a sua pele tenha passado por ‘branqueamento artificial’.

É ainda interessante que se enfatize a polêmica questão do ‘embranquecimento’. A sociedade brasileira, desde os ‘remotos’ tempos da escravatura, acredita que, para os brancos puros, a união com negros é degradante, pois, além destes últimos serem inferiores, ainda podem gerar (ou contribuir para isso) filhos mestiços que já têm, por si só, uma conotação negativa de ‘impureza’. Entretanto, para os negros, a união, mesmo que informal ou extraconjugal, com indivíduos brancos é vista como uma possibilidade de ‘embranquecimento’ , de limpeza da raça, além de ser (ao menos, era assim há um século), inegavelmente, uma possibilidade de ascenção social.

Muniz Sodré fala ainda da passagem do ‘racismo de dominação’ ao ‘racismo de exclusão’; o primeiro se dava quando da época da escravidão, em que o negro era discriminado por ser inferior, e, portanto, passível de ser subjugado; o segundo, vigente nos nossos dias, é a representação suprema da atual situação das populações negras brasileiras.

O racismo de exclusão é fruto de séculos de escravização do negro, e de sua condição de pobreza e marginalidade que resultou disso. É esse o racismo que vigora hoje, o econômico-social, juntamente com o racismo cultural que continua (e até quando?!) indissociável dos nossos valores acerca do mundo.

Mesmo com a superação científica de conceitos como raça e etnia, ficando claro, ao menos ‘matematicamente’, que o que há são diferenças morfológicas entre os homens (tipos de cabelo, cor da pele, traços mais fortes ou mais finos), o racismo permanece cotidiano em nossas vidas, e, como diz o próprio Muniz Sodré, em seu texto sobre uma genealogia das imagens do racismo:

"Um certo senso comum precisa continuar acreditando na idéia de raça ou em algo equivalente."

Mas por que será que se ‘precisa continuar acreditando na idéia de raça’? Talvez, e muito provavelmente, pelo fato de que, ao longo dos anos, só conseguimos acentuar o nosso medo do outro, do supostamente ‘diferente’ , daquilo que não pode ser o nosso reflexo perfeito: "... porque narciso acha feio o que não é espelho." E Muniz Sodré tenta mesmo desmitificar a idéia de que, em tempos de globalização cultural, a aceitação do outro, com suas particularidades, seja crescente.

"Ao contrário do que possam pensar os otimistas das chamadas tecno-democracias ocidentais, apologistas do mundo neo-liberal, a globalização cultural só tem exacerbado a discriminação étnica."

Pode ser que este acirramento da discriminação racial e/ou religiosa ocorra pela intensa e constante aproximação das diversidades étnico-culturais, e, infelizmente, sendo assim, constatamos que o homem do século XXI ainda não está pronto para enfrentar a ‘diferença’ como elemento importante e rico, catalisador das transformações sociais. Acredita-se, em plena mundialização, que há riqueza na homogeneização, e que o ‘diferente’ deve ser erradicado.

"O ocidente culto estava preparado para reconhecer o direito à diferença. Mas descobre a duras penas que a questão não é apenas intelectual, ou seja, que não se resolve por reconhecimento nem por direito. Há aí uma verdadeira questão simbólica, mais difícil do que a socioeconômica e mesmo a psicológica."

O racismo, mesmo depois de peredr as suas bases científicas, alicerces que o ‘justificavam’, permanece impregnado nos nossos valores, impossível de ser ser degradado até em tempos de globalização (ou mesmo também pela globalização, mais forte). O deve ser erradicada é a idéia de etnia, de superioridade racial, de diferenças tão marcantes que nos tornam seres humanos diferentes. Enquanto isso, no mundo da net e de realidades vituais, paira o velho (e mais do que atual) desejo de exorcizar o vampiro, que é apenas ‘o outro’.

Irene Rocha Kalil


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