A "velha rainha destronada"


Pintura documental: Diógenes Rebouças

O livro Bahia Século XIX – Uma Província no Império foi tese de Doutorado apresentada por Katia Mattoso, em 1986 à Universidade de Paris V – Sorbonne.

Katia Mattoso é uma historiadora grega que, chegando à Bahia no início da década de 50, deparou-se com uma sociedade e uma cultura (particularmente baiana) adormecida no tempo. Seus principais questionamentos giram, portanto, em torno das diversas faces desta Província/Estado que, estagnada economicamente e guardando uma série de valores e comportamentos tradicionalmente coloniais, acabou tornando-se sua segunda pátria, nutrindo a autora revelado carinho pela Bahia.

Como pesquisadora, Mattoso procurou estudar documentos e estudos anteriores sobre a economia baiana do século passado, com intenção de compreender em que período, como e por quais motivos a Bahia – grande Província da Colônia nos período escravocratas, do cultivo do açúcar – perdeu o rumo da história e deixou de desenvolver-se como outros estados do Brasil, a exemplo São Paulo e Rio de janeiro ( centrados principalmente no desenvolvimento da indústria ). No entanto, a autora deparou-se também com questões outras de igual ou superior importância: as relações sociais na Bahia até aqueles dias, os mitos e falácias da cultura baiana, o lugar da Igreja, enfim, toda a estrutura social vigente que legitimava ou acolhia naturalmente a " bela rainha destronada".

" (...) a esclerose da economia baiana , aliada às resistências de relações sociais enraizadas na história da Colônia e da escravidão, terá a explicação profunda da letargia que se possa da Província/Estado a partir do meado do Império? Existirá, de fato, uma relação de causa e efeito entre o econômico e o social?" são algumas das questões mais instigantes do trabalho de Mattoso. A Bahia, ainda neste século, revelou à historiadora uma grande falácia da cultura brasileira – a harmonia racial. Num estado de maioria negra e de afro descendentes, as relações sociais, cotidianas, demonstraram, e ainda demonstram, que o lugar reservado aos negros é o gueto social, as favelas e a cozinha da casa de famílias ricas ou tradicionais – pois revelaram também a grande força da tradição, dos nomes ilustres do passado – de quem os negros ou quase negros esperavam e esperam um apadrinhamento, uma recompensa qualquer.

Katia Mattoso conta, com certo espanto, como estes valores eram compartilhados por camadas sociais, distintas e desiguais, que buscavam conservar, através destes e outros comportamentos, um passado glorioso, num presente decrépito. " (...) as hierarquias sociais da região, impregnadas de desigualdades, que tornavam qualquer branco um homem rico e qualquer preto, ou quase preto, um pobre. A brancura era mais importante ( e mais durável ) que a riqueza, que podia desaparecer." Assim é descrito, pela autora, as possibilidades de ascensão social na Bahia, o branqueamento, em pleno século XX.

Mattoso continua seu estudo da sociedade baiana revelando alguns de seus mitos, como o poder do senhor de engenho, mesmo com a decadência das usinas de açúcar, o equívoco de pensar na fertilidade eterna de suas terras, o imenso papel da fé (sendo, no entanto, uma fé cambiante, como é revelado através de uma série de comportamentos profanos misturado á fé dos baianos ), a herança de ter sido escravo, passaporte para a miséria atual, etc.

Apesar da dificuldade com seu material de pesquisa – normalmente documentos não catalogados, esquecidos em porões de casas antigas, ou com lacunas de anos que não foram registrado, e, principalmente, através do convívio com a elite baiana e com as camadas pobres da população e seus códigos sociais, portanto, – Katia Mattoso consegue gloriosamente escrever, talvez, a única história oficial, sob diversos aspectos, da cultura e sociedade baiana de muitos séculos, visto que, neste mesmo trabalho fica claro a manutenção de padrões culturais da Bahia colonial nos dias atuais. Claro que a estrutura da sociedade ganhou novos ares, mas continua, em sua base, mantendo os mesmos privilégios e hierarquias das famílias tradicionais ( no poder político, por exemplo), e os mesmos sistemas de apadrinhamento e exclusão social do negro ( através da constatação da quase ausência do negro ou afro descendente em local de destaque na sociedade e detectando que a classe mais pobre da população é composta por negros ou quase negros).

Katia Mattoso, em seu estudo, aponta para diversos horizontes capazes de levar-nos a uma grande aventura, reveladora de velhas tradições, capaz de revolucionar o pensamento do baiano que sempre esteve de olhos vedados para sua própria cultura. Talvez, seja necessário mesmo, que uma estrangeira – mesmo que tenha se tornado baiana nos 30 anos que morou aqui – venha dizer o que não nos deixamos ver por medo, orgulho ou pura covardia. Acredito sinceramente que podemos estabelecer melhores relações, menos obscuras, inclusive, e levar a cabo uma mudança, mesmo que tenham passado muitas décadas, mesmo que tenham passado, realmente, nossos tempos de glória, segundo consta na História.

Tatiane Souza


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