Comentário do texto de Katia Mattoso
A história, em geral, é contada baseando-se em acontecimentos evidentes ou na liderança de figuras visíveis que compõem, obviamente, grupos minoritários. A multidão só aparece quando sua ação - pró ou contra - atinge essas minorias. Quando se trata, entretanto, de diferenças marcantes como as percebidas entre Salvador e São Paulo, por exemplo, considerando que a Bahia de capital da Colônia alcançou uma situação de apatia, aparentemente parando no tempo, percebe-se que é necessário mais do que um estudo histórico e econômico para "diagnosticar o caso". Nesse ponto o livro de Kátia Mattoso destaca-se percebendo relações às vezes sutis e encobertas aos que com elas estão acostumados, mas que uma vez revelados nos parecem, senão óbvios, bastante relevantes e que de certo, nem seriam notados - ou não receberiam a importância devida - num estudo diferente deste.
A hierarquia baiana retrata, ainda hoje, a desigualdade de suas relações sociais. Aparentemente flexível, abriga um imenso conservadorismo que ultrapassa muitas vezes o plano econômico: "decadência alguma diminuía o prestígio dos senhores de engenho" e apesar da aparência harmoniosa proporcionada pela sociedade de favores mútuos, carrega uma herança preconceituosa - fruto talvez da memória coletiva que insiste em se atrelar ao passado. Como afirma Kátia "tornavam qualquer branco um homem rico e qualquer preto, ou quase preto, um pobre. A brancura era mais importante (e mais durável) que a riqueza".
Havia uma tentativa bilateral de manter vivo o passado na Bahia. Os que tinham interesse em continuar no "poder" e os servidores que apesar de nem sempre remunerados viam naquela relação com seu "superior" uma forma, ou a única, de melhoria de vida conseguindo favores como empregos humildes para seus familiares. Na verdade, essa era uma relação de interdependência , na qual cada um dos integrantes conhecia seus limites, um verdadeiro acordo subentendido que favorecia a harmonia social.
Seria no mínimo ingênuo acreditar que esse quadro ficou esquecido no tempo. O desejo da autora de construir "uma visão dinâmica do passado local" desperta-nos a perceber mais sensivelmente o presente local e a notar motivos claros para situações comuns -algumas mais que outras- que acontecem na Bahia.
Adriana Jacob
Carneiro
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