Passado?

Em Amistad, o  diretor Steven Spielberg toca numa velha ferida norte-americana: a questão da escravidão e os conflitos étnicos surgidos a partir deste problema. O roteiro, baseado em  fatos verídicos, relata a trajetória de um  grupo de 53 negros, desde o seu aprisionamento por traficantes de escravos até o retorno ao continente africano. Criticado dentro e fora dos Estados Unidos, o  filme chegou a ser classificado de maniqueísta, pela maneira romântica como o enredo se  desenvolve – com a clássica contraposição entre o bem e o mal.
O protagonista da trama é o negro Cinque, que lidera um motim no navio-negreiro Amistad em 1839. A embarcação deveria transportar os escravos para Cuba, porém, foi parar em águas norte-americanas, onde foi recolhida pela guarda-costeira. A partir daí é travada uma longa batalha judicial, com a coroa espanhola, traficantes de escravos e comerciantes americanos reclamando a posse da "mercadoria humana". Com o seu futuro sendo decidido nos tribunais, o grupo de negros tem que contar com os serviços de um ambicioso advogado branco e o auxílio de um negro livre que mantém um jornal. Com a ampla repercussão do episódio no meio político, o caso foi parar na Suprema Corte Americana, a mais alta instância judicial do país, onde os negros foram defendidos pelo ex-presidente John Quincy Adams.

Em minha opinião, Spielberg comete alguns equívocos em Amistad, frutos, talvez, dos vícios adquiridos pelo diretor ao longo  de sua carreira. A obra do cineasta é marcada pela realização de filmes bem ao gosto de Hollywood – com grande apelo comercial, estrondosas bilheterias, magníficos efeitos visuais, mas com roteiros do tipo "Sessão da Tarde", ou seja, sem maiores preocupações sociais. O diretor, por exemplo, retrata os ingleses como sendo os paladinos da liberdade e defensores do fim da escravidão por interesses meramente humanitários.

Em verdade, é de conhecimento geral que a Inglaterra, ao proibir o tráfico negreiro, buscava novos consumidores para o excedente da sua poderosa indústria. Spielberg também busca delimitar claramente os mocinhos e bandidos,  introduzindo a própria personificação da bondade e da vilania. Outro erro foi Ter alterado, de acordo com documentos da época, o discurso do presidente Adams na Suprema Corte, visando fechar o filme com chave de ouro.
Porém, a principal questão que pode ser suscitada por Amistad  é a seguinte: o intenso tiroteio de críticas que envolve o filme não seria uma tentativa das classes dominantes de esvaziar e minimizar o debate acerca da questão racial? Seria muito diferente a qualidade de vida dos negros retratados no filme  com a dos negros de hoje? Haveria alguma co-relação entre os porões do Amistad e as condições de moradia dos negros atuais?
Anteriormente, Steven Spielberg já havia realizado um filme sobre conflitos étnicos nos Estados Unidos. Trata-se de A Cor Púrpura, de 1985, com Whoopi Goldberg no papel principal. O filme conta a saga de uma jovem negra do explosivo sul norte-americano ao longo de quarenta anos de dor e sofrimento. Indicado em 11 categorias do Oscar, A Cor Púrpura surpreendentemente não venceu em nenhuma delas, entrando para a lista dos injustiçados pela Academia de Hollywood.

José Raimundo Silveira


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