A ANTÍTESE BRANCA

Normalmente o consolo vem no final do texto. Assim como, normalmente, não se começa um texto com um advérbio forçado desse (a gramática ainda consegue um suicídio!). Mas, permissões não podem ser pedidas; devem de ser conseguidas... para que sejam uma conquista (algo muito mais digno). Essa elucubração inicial têm duas metas: uma, demonstrar que a reflexão aberta é imprescindível para alicerçar quaisquer análises; outra, preparar o leitor para que não pense que o texto terminou antes da hora: e isso não só porque o normal término está a princípio mas porque o tema raramente é bem-quisto.

Vamos lá, então: baseado em Rosenfeld, o jornalista Fernando Conceição diz, no segundo capítulo da tese de Mestrado "Imprensa e Racismo no Brasil: A Manutenção do Status Quo do Negro na Bahia", que "Nos espaços da ‘cultura’, como compositor, músico, sambista; por determinado período também nos clubes como jogadores de futebol, ao negro era até possível obter reconhecimento público de sua capacidade intelectual ou física". Lembra o autor, que fora desses espaços o negro sempre foi mal visto. É preciso lembrar também que nestes mesmos espaços "de alívio"(a expressão é minha) o negro um dia fora muito mal visto. Foi preciso "raça" para a mudança; daí, a certeza de que, também no espaço intelectual, a manutenção do status quo será rompida. Sendo que para tanto é preciso a busca! O destino inexiste! Diria Conceição: é necessário uma política afirmativa. Caso contrário, das trincheiras urbanas continuarão saindo os maravilhosos que animam a vida stressante de quem trabalha. E isso é lindo (apesar dos perfis sociais)! O paradoxo negro persistirá enquanto os que nele estão diretamente imersos não perceberem que são uma antítese branca. E que assim não deveria de ser. Chegará o momento!

Entretanto, ainda estamos no caminho (dizem que ele leva a algum lugar) e por isso notemos as barreiras e as tentativas. Ao verificar as "Organizações Negras, Poder e Imprensa na Bahia" (o citado segundo capítulo), Fernando Conceição documenta (os primeiros jornais do Estado da Bahia), relata (a campanha Edvaldo Brito versus Mário Kértsz), questiona e instiga (a adaptação cultural da tradição negra em favor da mídia), provoca (a quase-denúncia acerca do posicionamento do Olodum) e cita, cita vários autores, cita pra ...

Parece-me desimportante, até porque não é objetivo, resumir o capítulo. É muito mais interessante instigar em pequenas fatias a percepção desta complexa sociedade baiana em que, às custas da arquetipada cultura negra, a elite branca enriquece, feliz por ter uma tangente para sair da sua incompetência num verdadeiro desenvolvimento industrial. E quem se organizar para propor um reverso, jamais poderá ter eco: a imprensa baiana é historicamente um palanque político, mas política que não implica movimentos e organizações. Até porque, no caso específico da negritude favelada (oxe! Parece redundância), por exemplo, questionar racismo seria sair dos propósitos. Afinal, na Bahia existem baianos. Todos de alma negra! (e torcendo para que seja só a alma).

A síntese (pelo menos eu estou achando que seja) do capítulo acima apresentada não expurga as pequenas fatias "prometidas". Estas, estão imantadas ao anunciar conclusivo dos intertítulos do capítulo. O primeiro, é "Os Donos do Estado", a respeito do domínio administrativo familiocrático e interligado aos mass media; o segundo é "O Paradoxo Negro", procurando entender "como ficam os negros, nesse redemoinho de conflitos de interesses das elites de mando na Bahia"?; o terceiro é "O Mercado de Trabalho", expondo a interferência do preconceito no paradigma capitalista: quem procura trabalhar muda de vida (nem sempre é só querer...); os dois últimos são: "Cultura como Alienação" e " ‘Afrobrasil’: um projeto jornalístico", nos quais as organizações negras com seus flertes midiáticos são postas na berlinda bem como é demonstrado que o oxigênio da estrutura social é pernicioso às tentativas de "escurecer" os espaços executivo e editorial.

Isso em conseqüência de, apesar dos interesses muitos na mudança, ainda não haver um coletivo negro-baiano. (Alguns dirão que não é preciso ... Mas tudo bem, estamos caminhando).

Lodônio Almeida Moreno


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