Comentário a respeito de Organizações Negras, Poder e Imprensa na Bahia, capítulo extraído de Imprensa e Racismo no Brasil: A manutenção do ‘Status Quo’ do Negro na Bahia, de Fernando Conceição.

O autor inicia o capítulo com uma breve referência à época de fundação e ao caráter dos primeiros jornais baianos, constatando que a criação de todos eles foi essencialmente marcada por forte teor político. Citando Aloísio de Carvalho Filho, Fernando Conceição revela que "quem quer que percorra a história do jornalismo baiano encontrará, invariável e viva, a nota política" e, partindo dessa afirmação não é difícil admitir a impossibilidade da existência de uma "imprensa neutra".

Mas a idéia que o capítulo apresenta como fundamental está direcionada para um aspecto particular, a relação dos negros e das classes proletárias com os veículos de comunicação na Bahia. Por que há tão poucos negros atuando na imprensa baiana, já que eles formam a parcela majoritária da população? Na busca da resposta a essa questão, o autor enfatiza que os vínculos existentes entre os negros e os mass media se fundamentam numa subalternidade historicamente consolidada por conta das condições em que o grupo foi inserido na sociedade. O regime de escravidão inseriu na mentalidade das pessoas uma noção de inferioridade do negro que atravessou os séculos e, ainda hoje, dificulta o discurso afirmativo e toda tentativa de ascensão social.

Na Bahia, a ideologia da democracia racial funciona com êxito. Como não é evidente a existência de um problema racial específico do negro, permanece a idéia de que há igualdade de oportunidades para todos. Sendo assim, o fato de não existir uma imprensa negra nem incentivos a estudos referentes ao tema é visto com naturalidade. Na história do jornalismo baiano nunca houve, segundo Conceição, espaço aberto às reivindicações políticas dos escravos e seus descendentes. Para ilustrar tal realidade, o autor constrói um retrocesso, procurando estabelecer um vínculo entre a situação atual e os primeiros moldes das relações sociais no estado, que se fundaram no coronelismo. Nesse sistema, prevalecia o valor do prestígio, da tradição e até mesmo da força, num jogo de poder que muitas vezes se sobrepunha à administração institucional.

Fernando Conceição faz uma interessante análise da trajetória política das "elites de mando" da Bahia, demonstrando como os antigos coronéis perpetuaram seu poderio e continuam sendo representados pelas famílias mais influentes nos dias de hoje. Não resta dúvidas quanto à importância do conhecimento e compreensão desse esquema, entretanto, em vários momentos, o autor parece superestimar a bordagem político-econômica em detrimento de uma discussão mais palpável a respeito da imprensa especificamente. A freqüente recorrência a citações de outros autores, como Katia Mattoso, Eul-Soo Pang e Viana Filho também contribui para diminuir o dinamismo da leitura, seja por reafirmar tópicos já claros, seja por, mais uma vez, dispersar a atenção sobre as idéias do autor quanto à problemática da imprensa.

Somente no final do capítulo, sob o título ‘Afrobrasil’: um projeto jornalístico, têm-se uma noção mais concreta da presença (e da ausência) do negro na atividade jornalística. O autor descreve o processo de fundação, circulação e penetração social do Afobrasil, primeiro jornal de negros com relativa importância editorial, surgido em 1984 como fruto de um projeto político que pretendia dar voz às reivindicações da comunidade negra. Como toda a imprensa, o Afobrasil já nascia atrelado ao interesse de um grupo partidarizado. É por essa vertente que segue o trabalho de Fernando Conceição, que traz informações de importância fundamental e oferece subsídios para uma análise mais detida da situação do negro nas relações sociais predominantes na Bahia.

Daniela Castro


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