A MÍDIA COMO CONSTRUÇÃO DE MENTALIDADE

O direito à imagem

O racismo com que deparamos na Bahia e no Brasil, de uma maneira geral, é fortemente reforçado pela mídia, tanto impressa como televisiva. A visibilidade do ser humano como cidadão é um exercício; ela é provocada por uma espelhação constante, como defende Muniz Sodré. Por isso, é importante que o negro se reflita, para poder conscientizar-se do seu direito de cidadania. Além do mais, na contemporaneidade, onde qualquer forma de sociabilidade é necessariamente midiatizada, o que prescindir, ou não tiver o aval desse poder, será invisível. Por conta disso, é escandaloso quando se nota que existe uma grande fração social que está à margem desse campo, e que quando aproxima do mesmo são em situações das mais repelentes possíveis, ou seja, o melhor seria não estar ali.

Das pessoas acusadas de criminosas e bandidas, culpadas ou não, que figuram diariamente nas páginas policias dos dois jornais de maior relevância de Salvador - A Tarde e Correio da Bahia- , pouquíssimas são aquelas que não têm a sua fotografia publicada. Não que prefiram, não lhes é dada a opção, ou seja, em momento algum o profissional da impressa que as usa como fontes, lhes inteira dos seus direitos de recusa ou aceitação a ser fotografado.

Nós perguntamos, até que ponto se é ético omitindo, e muitas vezes, sonegando direitos a quem cabe usufruí-los? Deveria se contar com o bom senso jornalístico? Isto porque o grande contigente de indivíduos que aparecem nas páginas policiais não detém um nível de escolaridade capaz que lhes permitiria uma maior capacidade de discernimento entre os seus direitos e deveres1. Seria uma prática racista por parte do repórter fotográfico, por serem essas pessoas na maior parte negra?

 

A suposta criminalidade negra

Analisemos com cuidado essa questão: Há todo um complexo histórico que outrora fizera escola, que comprovou uma suposta inclinação assassina dos negros. Nina Rodrigues no seu livro Os Africanos no Brasil, dedicou o último capítulo ao tema, onde ele realça a contaminação psíquica ruim que viria sofrer o Brasil por ter acolhido tantos negros vindos da África.

Com isso, podemos ver que existiram estudos que legitimavam práticas racistas no Séc. passado. Mas é bom realçar que estudos mais recentes deitaram por terra essas teorias, e que qualquer pressuposto que entre em choque com essas últimas verdades é alvo de questionamentos e julgamentos. Ainda mais quando essas práticas partem de fazedores da opinião ou em conivência com os mesmos.

"Um detalhe importante levantado pelo delegado Seixas poderá ajudar a polícia em investigações futuras sobre assassinatos de homossexuais. No Barra Flat, quando ouviu alguns funcionários, ficou sabendo que os tipos procurados por homossexuais estrangeiros em Salvador são facilmente identificados. São negros fortes, malhados e mal-encarados. Principalmente mal encarados como "Bicudo", que se presume seja autor da morte de outros homossexuais, principalmente de casos ainda não esclarecidos".( A Tarde, 20/3/99)

No presente caso, é legítimo perguntar para o jornalista que escreveu a matéria, o que quer dizer mal encarado. Ser negro forte e malhado é sinônimo de mal encarado? Existiria um mal encarado branco, ou não? Como seria, caso existisse? Infere-se a partir da citação acima, e de outros fatos constatados ao longo deste trabalho que a mídia baiana contribui de uma forma sistemática para subestimar a imagem do negro, mais ainda do que ela é e foi, por conta da sua condição anterior de escravo, e hoje, descendente dos mesmos.

Além de índole violenta, são muitos os estereótipos que atingem o negro. Tudo isso, conseqüência de um etnocentrismo exacerbado de pesquisadores que tiveram dificuldade, de aceitar o outro como diferente. Os estudos clássicos que existem sobre o negro no Brasil são predominantemente comparativos entre África - Brasil, cujos preceitos foram basicamente detectar níveis de inteligência e estágios de civilização alcançados por eles em espaços diferentes. Ou seja, esses estudos abdicaram de uma análise ou previsão da situação do negro pós - escravo - o negro como cidadão brasileiro.

 

"O jornalismo não pode lidar apenas com "as coisas belas da vida", mas precisa tratar da crescente complexidade humana e dos conflitos sociais". ( Francisco José, 1997)

O problema do negro, no Brasil, não merece o tratamento devido, como deveria. E, em vez disso, presenciamos silêncios em relação a isso, para não dizer pouco caso, inclusive por parte de profissionais da imprensa que deveriam ter o papel de informar formando em uma sociedade. De quando em vez são veiculados casos de racismo e alguns dados estatísticos que mostram as condições de vida precária da maioria da população negra do Brasil - matérias frias. "Os postos de ocupação em cargos de direção e planejamento, comparando-se com os de execução e apoio, são bons exemplos da disparidade entre as raças. Os brancos representam 29,2% e os negros, apenas 8,9% na direção e planejamento das empresas da Região Metropolitana de Salvador. Nos postos de execução não - qualificados, a relação é invertida: 16,8% são negros e 5,8%, brancos. "A maior parte das mulheres negras, por exemplo, trabalha em empregos domésticos", argumenta a economista. Só para se ter uma idéia, a relação é de uma mulher branca para cada grupo de quatro negras domésticas". (A Tarde, 13/5/99)

Quando se lê essas matérias, a impressão que fica é que se está a falar de negros de qualquer outro planeta, nunca das enormes favelas das principais cidades brasileiras, onde se concentra grande contigente negro. "O jornalista não pode deixar de ser crítico, de traduzir a diversidade e conflitos. Isso só seria possível se escondêssemos a humanidade de si mesma e a cotidianeidade de todos nós". (Francisco José, 1997)

Em sua edição do dia 15 de março, o jornal americano The New York Times dedicou 206 cm por coluna falando dos casos de assassinato de Amy Watkins e Marvin Watson que tiveram, segundo o jornal, tratamento diferenciados pelos meios de comunicação de Nova Iorque, sabendo que os dois foram mortos nas mesmas condições. Amy viera de uma cidade pequena para Nova York, com o objetivo de ser assistente social e Marvin era um emigrante jamaicano. Ambos trabalhadores honestos, segundo consta, a única diferença era a cor: Amy branca e Marvin negro. A matéria foi importante, denunciando tal ato.

Segundo o jornalista tcheco Vladimir Hudec, "o jornalista compromete-se sempre, no exercício de sua profissão, com a classe a que pertence". Será por isto que temas relacionados com a questão negra são tão descompromissadamente veiculados na mídia baiana? Em Salvador - a maior cidade negra fora da África - os brancos e não negros são maioria nas redações jornalísticas e nas emissoras de TV.


Bibliografia

KARAN, Francisco José. Jornalismo, Ética e Liberdade. São Paulo: Summus, 1997.

RODRIGUES, Nina. Os Africanos no Brasil. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1988.

SODRÉ, Muniz. "Uma genealogia das imagens do racismo". In folha de São Paulo, 1995.

Jornais A tarde - 20/3/99 e 13/5/99 e New York Times - 15/3/99


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