" (...) Ontem a Serra Leoa, / A guerra, a caça ao leão, /O sono dormindo à toa / Sob a tenda da amplidão.../ Hoje o porão negro, fundo, /Infecto, apertado, imundo, / Tendo a peste por jaguar... / e os sono sempre cortado / Pelo arranco de um finado, / E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade... / A vontade de poder... / Hoje... cúm’lo de maldade!... / Nem são livres pra... morrer... / Prende-os a mesma corrente / - Férrea, lúgubre serpente - / Nas roscas da escravidão... / E assim roubados à morte / Dança a lúgubre corte / Ao som do açoute...Irrisão!...". Castro Alves em abril / 1868

muiá ma muiê

O filme de Spielberg Amistad, assim como o poema de Castro Alves, é uma obra capaz de suscitar uma questão não muito bem digerida ainda pela humanidade e, mais especificamente, poderíamos dizer pelo próprio Brasil.

A escravidão de negros africanos pode ser entendida por alguns, conformados ou até dissimulados, como mais uma amostra do quão desumano pode o homem ser em nome de poder e riquezas, mas, na verdade, é ainda um tema pouco debatido na nossa sociedade – brasileira – e minimizada por um discurso demagogo duma suposta "harmonia" entre as raças no Brasil. Amistad traz a tona, através de uma produção forte e emocionante, o debate sobre a "ferida" da África e dos povos africanos. Esta "chaga", como falou Fernando Conceição, que é conseqüência direta do desenvolvimento de inúmeros países europeus, do próprio Estados Unidos e da ganância de "homens" brancos que se justificam através de uma suposta superioridade racial e cultural.

Por volta de 1840 o navio Amistad é interceptado e sua "carga" – os negros comprados na Fortaleza de Lomboko, Serra Leoa – aprisionada até o julgamento da questão: a quem pertencem os negros do Amistad? A partir daí toda a trama do filme se desenrola mostrando, vez por outra, características dos povos ( membros de várias tribos ) africanos, toda forma de tortura e humilhação por que passavam os negros durante sua penosa viagem nos navios negreiros e o julgamento do caso pela Corte Norte Americana.

A discriminação racial nos Estados Unidos, questão muito próxima da nossa realidade, em meados dos século XIX, era ainda mais acirrada. Os negros eram, em sua maioria, ainda escravos, mas um ou outro já possuía certa liberdade e, poderíamos dizer até, certo espaço para a formação de uma comunidade negra organizada. O que acontece logo que a escravidão é abolida a partir de 1866 com a criação da 13a emenda da Constituição Norte Americana. "Separate but equal", esta é a lei.

Já havia, por exemplo, um grupo de alfabetizados no idioma inglês tanto que no filme aparece uma redação que se ocupa de duas edições do mesmo jornal, uma para brancos que noticia o fato como "O massacre no mar" e outra para negros, com a manchete "Luta pela liberdade no mar".

No Brasil pode-se o slogan é outro : "Juntos, mas diferentes". A organização duma comunidade negra consciente de seu papel social, não aconteceu no Brasil até hoje. Os poucos negros que assumem sua etnia são considerados minoria no país, portanto privados normalmente dos seus direitos como cidadão, agravando-se ainda mais a desigualdade e a injustiça que impera sobre a maioria, afrodescendentes, da população.

Apesar de racistas, os Estados Unidos eram contra o tráfico de escravos, portanto cria-se neste episódio um tremendo impasse. Mesmo não ficando claro no filme, é a questão econômica o pilar daquela Corte. Isto diz respeito ao posicionamento também da Espanha, que reclamava a posse dos escravos, pois se tratava de um navio espanhol, e dos ingleses que naquela época expandia seu mercado consumidor tendo os negros trabalhadores como alvo dos seus negócios. A questão da escravidão no filme ainda relacionar-se com a guerra civil americana apenas no tocante dos grandes escravocratas sulistas que lucravam muitíssimo com a mão de obra escrava. Sendo o norte a favor da Corte Suprema e contra o sul, naturalmente, este julgamento deve ter afetado ainda mais o decrépito relacionamento entre as duas regiões.

Durante o julgamento, o advogado de acusação acaba questionando a legitimidade da escravidão. Ele coloca que os africanos, assim como os europeus e americanos sempre utilizaram desta arma contra os mais fracos e em benefício próprio em guerras ou como pagamento de dívidas. Ora, este fato está correto. Em toda história ouviu-se falar em trabalho forçado, servidão, etc., o que não justifica nem autoriza moralmente um ato tão cruel como este.

É inadmissível legitimar a escravidão de um povo, muito menos por práticas econômicas que os resumiam a simples e barata mercadoria. Isto, no entanto, não deve ser apenas umas palavras de ordem, deve ser um profundo aprendizado. Amistad tem um final triste, mas não terminou ainda... muiá ma muiê...era um canto que os negros entoavam tanto nas derrotas quanto nas vitórias. muiá ma muiê!

Tatiane Souza


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