AS NOVAS CONFIGURAÇÕES DA POLÍTICA
NA IDADE MÍDIA:
OS NEO-ZAPATISTAS
Antonio
Albino Canelas Rubim*
Dotados de uma enorme capacidade de adaptação às circunstâncias,
os indígenas sublevados vieram modificando também sua própria
proposta em uma guerra de papel e eletrônica sem precedentes nos
movimentos armados dos anos anteriores (...) e que, às vezes,
faz esquecer que estamos em todo caso no curso de uma guerra,
que a qualquer momento pode desencadear-se sob formas de violência
mais evidentes.
Antonio Garcia
de Léon
O estatuto da política na contemporânea sociedade midiática emerge como
uma das questões essenciais da atualidade. O mal-estar que hoje
contamina a sociedade, deixando-a sem parâmetros e modelos, também
atingiu a política, envolvendo-a em crise significativa. Por todos
os lugares sociais circulam questionamentos, quando não objeções
contundentes, aos modos de concretude da política.
A crise profunda - mas não terminal como querem muitos pensadores pós-modernos
- aparece como indício suficiente para sugerir ressonâncias midiáticas
significantes sobre o campo da política. Agora os pós-modernos
têm perspicácia e razão plena ao acreditar que a comunicação,
em nossa atualidade, não pode ser compreendida como complemento
meramente instrumental da política ou ser simplesmente silenciada,
como ainda hoje fazem boa parcela dos cientistas políticos.
Ao invés de superestimar ou esquecer os múltiplos e complexos enlaces
e repercussões entre mídia e política, realizando em ambos os
casos aligeirada resolução de uma questão ainda sem soluções confiáveis,
este texto opta por uma trajetória que supõe a problemática emergência,
para o bem ou para o mal, de uma complexidade de novas configurações
expressivas do fazer política, informadas e formatadas pela modalidade
midiática de sociabilidade. Antes de apressadas respostas, cabe
então analisar e compreender, mantendo-se atento aos frágeis e
sutis detalhes, estas novas formatações políticas.
Tornou-se quase senso comum percorrer este itinerário analítico ancorado
nas noções "espetáculo", "espetacularidade"
e "espetacularização". A política, através do acionamento
destas categorias, passaria a habitar a sociedade midiática, mas,
como estas noções comportam acentuada conotação negativa, ela
inevitavelmente seria domesticada pela inexorável lógica da mídia,
perdendo sua seiva singular. Despolitizando-se, enfim.
Mais uma vez o itinerário se afasta desta traiçoeira trilha, pois, nem
se acredita que a política necessariamente habita a contemporaneidade
em feição sempre espetacularizada, nem se compactua com uma inevitável
versão corrosiva da categoria "espetáculo" e similares.
Sugeriu-se já em outro texto que a noção deve ser formulada, sem
mais, como potencialização e/ou radicalidade expressiva aplicada
à política. Ainda que muitas vezes esta potência expressiva tenha
capturado a política, subsumindo-a a imperativos "estrangeiros",
nada impede que a política realize suas finalidades, recorrendo
e subordinando o espetacular.
Buscar e estudar exemplos políticos possíveis parece ser um dos caminhos
pertinentes ao esclarecimento do tema, à desconstrução da concepção
"negativa" da noção de "espetáculo" e aparentados,
à afirmação da produção do sentido da categoria como realizada
em um campo de forças não pré-determinado e, por fim, à evocação
de novas alternativas de interação entre os campos da política
e da mídia na atualidade.
O Greenpeace, de imediato, apresenta-se
como um dos exemplos mais expressivos para a investigação hodierna
dos enlaces entre mídia e política. Com 950 funcionários em 45
escritórios localizados em mais de 30 países e com um orçamento
anual de 150 milhões de dólares arrecadados de quatro milhões
de contribuintes (pessoas físicas), esta organização prefigura
e já se locomove como importante entidade da sociedade civil mundial,
de que fala Octávio Ianni em A
Sociedade Global.
Desde a sua origem há 25 anos nos Estados Unidos, passando por sua expansão
européia e posterior globalização nos anos 80, o Greenpeace tem utilizado a política
da ação espetacular, impregnada
por cultivados efeitos
de mídia,
ainda que esta face mais visível de sua atuação represente apenas
parcela reduzida de suas iniciativas e gastos. Toda a intervenção
contra os testes nucleares franceses no Atol de Mururoa consumiu
apenas 1% do orçamento anual da entidade para 1996.
O acionamento de ações espetaculares, de acordo com Roberto Kishianami,
diretor executivo no Brasil, através da exposição de conflitos
e de tornar manifesta a espetacularidade existente na realidade
- malgrado possíveis críticas ao não desenvolvimento
de uma consciência ecológica e à ausência de participação das
comunidades envolvidas -, permitiu, por exemplo, ao Greenpeace significativos resultados políticos em suas lutas pela
preservação das baleias, contra o afundamento da plataforma da
transnacional Shell no Mar do Norte e principalmente com o Acordo
Internacional para Banimento dos Testes Nucleares, coroamento
da luta mais antiga e inauguradora da entidade há 25 anos. Com
se pode perceber a ação espetacular não desnutriu
a política, antes foi agente potencializador eficaz de sua realização,
em moldes atualíssimos.
Como se assinalou anteriormente, os exemplos desta nova política inspirada
na sociabilidade midiática não devem se deter em sua modalidade
espetacular, por mais que esta seduza com sua visibilidade. Esta
nova presença da relação mídia/política tem sido percebida em
territórios nacionais como a Itália de Berlusconi, o Brasil de
Collor e FHC e países latino-americanos como a Venezuela e mais
recentemente a Colombia.
O México igualmente tendo sido protagonista de um movimento exemplar pelos
seus contrastes e potencialidades. Um movimento de "luta
armada" e "libertação nacional", instalado em uma
região "subdesenvolvida" de um país de "Terceiro
Mundo", evocando "índios, camponeses e Emiliano Zapata"
parece destinado a ser algo quixotesco e totalmente fora de moda.
Mera ilusão como sugere Manuel Castells: "o exemplo dos zapatistas é impressionante: como um movimento
nascido do fundo da miséria e da marginalização dos indígenas
salta para o Internet e interatua diretamente com os integrantes
dos diversos grupos de apoio internacional, com que conta o movimento".
Tem-se aqui apenas o lado mais visível da luta.
UMA GUERRILHA SUI GENERIS
A novidade da insurreição neo-zapatista começa em sua temporalidade "defasada".
Em um tempo de queda do muro, fim do "socialismo real",
declínio do marxismo e das guerrilhas por ele inspiradas emerge
em 1 de janeiro de 1994 no estado de Chiapas (México) o Exército
Zapatista de Libertação Nacional. Mas a filiação do EZLN - inclusive
histórica ao marxismo com a instalação no ano de 1983 em Chiapas
de 12 guerrilheiros das Forças de Libertação Nacional - não impediu
que ele se diferenciasse e se apresentasse "... como uma guerrilha inédita, tanto pela sua organização e
táticas como pelas suas demandas, que não seguem a tradição marxista
dos grupos guerrilheiros que floresceram na América Latina".
Aliás o próprio sub-comandante Marcos - "codinome" escolhido
em homenagem a de um guerrilheiro morto dez anos antes - ressalta
a complexa definição ideológica dos neo-zapatistas: "Assim, quando me perguntam:
‘vocês são o que?, marxistas, leninistas, castristas, maoistas,
o que? Não sei. Realmente não sei. Somos o produto de um híbrido,
de um confronto, de um choque, em que, felizmente, creio eu, perdemos".
A sociedade globalizada assiste ao fim da luta armada de verniz marxista
e, simultaneamente, faz emergir novos conflitos, muitos deles
armados. Estes movimentos - étnicos, de nacionalidades, religiosos,
etc - indicam a admirável e perigosa emergência contemporânea
do local em meio ao processo de globalização do mundo pós-muro.
Uma inquietante e interessante revalorização de identidades localizadas
torna-se outra das marcas da atualidade.
Parece assim ter sentido escrever que: "o EZLN talvez seja o primeiro grupo guerrilheiro da era da
globalização".
Mas os neo-zapatistas rapidamente explodem tal prisão/localização.
Em resposta às propostas do governo, eles afirmaram taxativamente:
" Nenhum
indígena nem camponês digno de Chiapas está disposto a tolerar
que esse diálogo fique reduzido apenas a concessões para a região
de Chiapas, em menosprezo dos direitos e interesses de todos nossos
irmãos e irmãs indígenas, camponeses e grupos marginalizados da
Nação toda...".
Em diversas outras ocasiões e através de suas reivindicações, o EZLN tem
reafirmado seu caráter político abrangente. Exemplo típico desta
postura aparece no comunicado acerca do 502
aniversário do descobrimento da América, no qual depois
de se dizer contra "a
raça e a linguagem do dinheiro", acrescenta: "pelos indígenas é que lutamos.
Mas nem só por eles, também pelos camponeses sem terra, pelos
assalariados rurais, pelos trabalhadores das cidades, pelas mulheres
humilhadas, pelos velhos esquecidos, pelas crianças sem futuro,
pelos desempregados, pelo professorado, pelos estudantes, pelas
donas de casa, por todos os que têm a pobreza como presente e
a dignidade como futuro".
O ineditismo dos neo-zapatistas se alimentou ainda da forte reação da
sociedade mexicana à instalação de uma possível espiral da violência
em lugar da luta política. Todos os periódicos de México publicaram
em seus editoriais uma nota de repúdio à violência.
Este (quase) consenso contra a violência não impediu que segmentos
sociais significativos paulatinamente tivessem abertura para compreender
a situação paradoxal que se instalava. O ensaísta José Carlos
Castañeda expressou bem esta perplexidade: "Todos estamos de acordo em que a chamada via armada
na luta contra as injustiças não é uma boa opção. Julgamos que
a violência é antidemocrática, e ao mesmo tempo
estamos diante do paradoxo de que os atos violentos do Exército
Zapatista de Liberação Nacional vem abrindo um caminho de transição
do México para a democracia".
Por duas vezes, pelo menos, as manifestações expressivas de parcelas significativas
da sociedade civil e da mídia conseguiram barrar o conflito armado:
em janeiro de 1994, logo no início do levante neo-zapatista e
em fevereiro de 1995, quando o governo tentou uma escalada bélica
contra os chefes, simpatizantes e os territórios sob controle
do EZLN. No dia 19 de fevereiro, uma pesquisa de opinião realizada
pelo jornal Reforma mostrava que 58% dos mexicanos estavam em desacordo com a
atitude do presidente Ernesto Zedillo, 64% era a favor que o governo
retirasse suas tropas do território rebelde e 71% se diziam favoráveis
a negociações entre o governo e a guerrilha. Só 26% colocaram-se
em defesa de uma atitude belicosa.
Os neo-zapatistas reconhecem este papel da mídia e da sociedade civil:
"Repetimos hoje o que sempre falamos: não foi nem a bondade
e inteligência do governo superior, como estupidamente se vangloriou
o governo federal, nem a habilidade política e a maturidade do
Exército Zapatista de Liberação Nacional, como alguns analistas
pretendem, as que abriram passo ao diálogo: foram a informação
e a mobilização do povo mexicano, sem distinção de classe, raça,
religião ou gênero, que fecharam momentaneamente as portas da
guerra...” Ou ainda: “Informação verídica e mobilização civil
conseguiram abortar (...) as tentativas de solução militar do
conflito".
Raúl Trejo Delarbre, na sua análise fortemente crítica - apesar de sua
espinha dorsal equivocada - da cobertura da mídia sobre os acontecimentos
de Chiapas, igualmente percebeu o cerne da atuação da mídia: " Os meios
de comunicação cumpriram importantíssimo papel na promoção de
uma consciência nacional contra uma solução armada do conflito
em Chiapas. A preocupação social diante da eventualidade de uma
solução de força apareceu resgatada e refletida nos meios de comunicação
de massa. Foi essa uma das contribuições mais básicas dos meios
e dos seus agentes...".
O bloqueio da luta armada propiciou outra das características mais peculiares
do EZLN: " Essa estranha guerrilha que levou 10 anos de preparação,
12 dias de combate e 2 anos de ação política desde posições de
paz armada".
Em nenhum outro movimento guerrilheiro latino-americano a trégua
durou muito mais tempo que a confrontação militar.
Deste modo, uma cronologia da existência do EZLN pode ser fixada
nos seguintes números: 1983/dezembro de 1994 - implantação em
Chiapas e preparação; 1 a 12 de janeiro de 1994 - insurreição
armada; 12 de janeiro - cessar fogo; 12 de janeiro até hoje, com
um pequeno lapso em fevereiro de 1995 - luta política e negociações
em situação de paz armada.
Este deslocamento dos lugares e modalidades de luta, dentre outros fatores
potenciais, exigiu da guerrilha recolocar as relações entre atuação
armada e política. Igor Fuser, no seu interessante livro México em transe, sustenta mesmo que: "A grande
novidade do zapatismo é a maneira como o movimento relaciona a
insurreição e a luta política legal".
Diferentemente dos movimentos armados anteriores, os neo-zapatistas não
acreditam de modo unilateral na força das armas. Marcos, em 1994,
afirmou lapidar aos jornalistas: "Vemos a luta armada não
no sentido clássico das guerrilhas anteriores, quer dizer, a luta
armada como único caminho, como uma única verdade todo-poderosa
em torno da qual se aglutinava tudo".
Assim eles não propõem nenhuma apologia às armas, nem pretendem impor
este caminho como único legitimo, sequer o mais adequado para
muitos. Em um texto intitulado "Outras formas de luta", publicado na imprensa
em 25 de janeiro de 1994, escrevem: "A nossa não é a única
forma de luta, talvez para muitos seja a adequada. Existem outras,
e de grande valor. A nossa organização não é a única, talvez nem
seja a desejável para muitos. Existem, e de grande valor, outras
organizações honestas, progressistas e independentes".
Em verdade, o EZLN pensa que "... a mudança revolucionária
no México não será produto da ação em uma só direção. Isto é,
não será, estritamente, uma revolução armada ou uma revolução
pacífica".
Antes, segundo eles, será uma combinatória de diversas formas
de luta e agentes, de compromissos e participações necessariamente
distintos, objetivando a constituição de um espaço público para
resolução da confrontação de diversas propostas políticas, sendo
premissas deste espaço a democracia, a justiça e a liberdade.
A luta armada, além de não ser o único modo de luta, deve estar subordinada
à política. Marcos, neste sentido, enfatizou: " O decisivo
em uma guerra não é o enfrentamento militar senão a política que
nessa guerra entra em jogo...". Em outro momento,
o sub-comandante reafirmou que uma guerra não é uma questão de
armas ou de grande número de homens armados, senão de política.
Apesar do enraizamento dos neo-zapatistas entre os indígenas e camponeses
de Chiapas, parece não haver dúvida, inclusive para eles mesmos,
da disparidade militar entre as forças do exército federal e da
guerrilha. A fragilidade do estado mexicano longe de ser militar,
manifesta-se em seu desgaste político. Daí porque "... A comunidade política nacional, em resumo, condicionou e anulou o
uso legítimo da coação física que, caso fosse empregada, teria
virado, paradoxal e fatalmente, ilegítima".
Sensível a esta fragilidade, o EZLN tem buscado sempre a destruição
político-simbólica da legitimidade estatal. Esta perspectiva parece
condizente com a observação de Manoel Castells: " Na atualidade, a luta política
tem como centro destruir a credibilidade do inimigo".
Mais que isto, o EZLN reconheceu que, como já assinalada anteriormente:
"Para esta virada do conflito o decisivo não foi nem só a
vontade política do Executivo federal, nem as gloriosas ações
militares dos nossos combatentes. Decisivas foram as diversas
manifestações públicas - nas ruas, nas montanhas, nos meios de
comunicação - das mais diferentes organizações e pessoas honestas
e independentes, que fazem parte da chamada sociedade civil mexicana".
A sensibilidade neo-zapatista para aprender com as circunstâncias merece
destaque nesta conjuntura. O EZLN, não só continuou seu enfrentamento
com o poder político instituido, agora principalmente por meios
políticos, como passou a considerar a sociedade civil e a mídia
interlocutores políticos privilegiados.
Com relação à mídia, os neo-zapatistas enfatizaram a necessidade de contatar
"meios de informação que digam a verdade" e a produção
de amplo material para a imprensa.
Mais essencial que isto, eles parecem ter percebido a significação
política da mídia. Indagado se os neo-zapatistas não fizeram uma
guerra para a mídia, Marcos ponderou: " A gente viu nos meios de comunicação a possibilidade
de abrir outro caminho...".
A percepção da guerrilha não se circunscreve ao contexto mexicano, mas
deriva mesmo do caráter da contemporaneidade. A importância da
mídia para a guerra, por exemplo, tornou-se manifesta. Em inúmeras
insurreições, as emissoras de televisão e rádio tornaram-se alvos
imediatos a serem conquistados. Em situações bélicas, os adversários
cada vez mais preocupam-se em fornecer material para a imprensa.
Na recente guerra do Golfo, o Pentágono distribuiu imagens em
todo o mundo. Entre os objetivos prioritários do EZLN no levante
de janeiro estava a ocupação dos estúdios da rádio XEOCH, a mais
importante da região. Por volta das cinco da manhã, eles colocaram
no ar cosignas e comunicados em língua indígena (tzeltal), intercalados
de música.
A instantaneidade na publicização dos conflitos, possibilitada pelas tecnologias
midiáticas, transforma-se em arma estratégica nas guerras atuais,
pois a surpresa, dentre outras potencialidades, sempre foi importante
elemento tático. A desterritorialização inscrita na mídia, por
sua vez, permite que o sub-comandante Marcos, com o EZLN cercado
nas montanhas de Chiapas, esteja presente ao Zócalo, no centro
da cidade do México, em imenso telão. " Milagres
da tecnologia são capazes de romper todos os cercos".
A instantaneidade e a desterritorialização iluminam o caráter complexo
e compósito da sociabilidade atual: intrincada composição de convivências
e televivências em permanente intercâmbio. Indicam também o acionamento
de uma outra "guerra", simbólica. Esta " guerra de nosso tempo", que mobiliza corações
e mentes, está " longe das nossas mortes reais, mas perto das consciências
e amarguras dos habitantes da aldeia global (ou seja, dos telespectadores".
Ou como perspicazmente observou Mariclaire Acosta, presidente
da Comissão Mexicana de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos,
acerca do conflito de Chiapas: "Esta é uma verdadeira guerra
pós-moderna, no sentido de que a informação é a mais potente das
munições".
GUERRILHA MIDIÁTICA
A sensibilidade e a percepção da importância política da comunicação e
da mídia expressa-se de muitas maneiras e em vários materiais
dos neo-zapatistas. Eles, por exemplo, denunciam o aval político
dado ao governo e ao partido no poder desde a Revolução Mexicana
pelos monopólios de comunicação, bem como sua íntima convivência
e troca de "favores".
Dentre estes "favores" destaca-se a instituição das
concessões. " Seja para conseguir novas concessões, seja para não perder
as atuais, os empresários da palavra, da imagem e do som, fecham
fileiras em torno do PRI". O desigual
acesso à mídia (‘por assim dizer, à opinião pública’) durante
as campanhas eleitorais - no México não existe nada próximo sequer
ao horário eleitoral gratuito - também faz parte do elenco de
denúncias do EZLN no referente ao enlace da comunicação e da política
mexicanas.
Este despudorado uso político da comunicação tem, em diversas conjunturas,
repercussões significativas sobre a população. Escrevendo sobre
o período pós-eleitoral, os neo-zapatistas afirmaram que os governantes:
"...aproveitam o aturdimento, a impotência e a frustração que
a manipulação dos meios de comunicação produziram no povo. Repetir
uma mentira, afirmá-la uma e outra vez, até ela, pela magia da
imagem e do som, ficar parecida com uma verdade.
A operação política dos meios acontece igualmente no contexto de levante
armado. " Hoje o governo superior tenta nos amedrontar e nos
ameaça com dezenas de milhares de soldados, com seus tanques e
seus aviões, com suas bombas, com seus jornais, televisões e rádios".
No estudo realizado por Raúl Delarbre acerca da cobertura dos acontecimentos
de janeiro e fevereiro de 1994 pode-se constatar o contraste entre
comportamento dos meios de produção e difusão simbólicas. Enquanto
a concorrência existente entre os jornais e revistas garantiu
uma cobertura pluralista, o monopólio dos meios eletrônicos praticamente
silenciou o conflito. Nas palavras de Delarbre: "Não houve guerra ou ficou minimizada na TV, mas os
mexicanos procurávamos toda noite as informações sobre um conflito
que sabíamos ou adivinhávamos maquiado para sua apresentação nas
emissoras, mas que desejávamos ver em imagens e a toda cor".
O monopólio da Televisa - que além de ter a maior audiência, controla
as quatro principais redes do país e portanto concentra poder
de modo anti-democrático - permitiu negar existência social ao conflito. Isto é, torná-lo
público e, por conseguinte, existente,
porque compartilhado pela população mexicana. Aliás, pesquisa
realizada pelo jornal Reforma
confirmou a ampla predominância da televisão como principal mídia
acionada pelos mexicanos, inclusive para se informar sobre o conflito
de Chiapas. Dos entrevistados 82% se informavam pela televisão,
34% pela imprensa escrita, 32% pelo rádio e 7% em conversas com
parentes e amigos.
Como o campo da mídia, na sociedade contemporânea, detém de modo crescente
o poder de conferir ou negar existência social, publicizando ou
silenciando acontecimentos e atores, seu espaço virtual transforma-se
em uma das arenas essenciais da luta política na atualidade. As
estratégias elaboradas para este embate midiático tornam-se assim
imprescindíveis.
A guerra de Chiapas, cujos combates se realizaram talvez mais nas páginas
e telas que nas selvas, sem dúvida, está inscrita no interior
desta lógica contemporânea. Cabia aos neo-zapatistas ocupar posições
neste embate e eles souberam fazê-lo. Delarbre, em seu insuspeito
estudo, porque não perfilado com os guerrilheiros, escreveu: " Existia uma vocação do EZLN, com
habilidades específicas, para sustentar a guerra de Chiapas através
dos meios de comunicação".
A sensibilidade dos neo-zapatistas não se esgota na percepção e denúncia
do uso político da mídia pelos dominantes, mas possibilita uma
visão aberta e atualizada acerca da indispensável operação com
a mídia. Esta sensibilidade foi anotada por vários escritores
e jornalistas. O escritor Julián Andrade Jardí escreveu: " Quem entendeu curiosamente o poder
e a efetividade dos meios de comunicação - para além da objetividade
- foi o comandante Marcos". Delarbre também
observou: "A presença iconográfica e documental de Marcos não
é resultado casual. Ele, independentemente da sua verdadeira origem,
tem o manuseio intencional dos meios de comunicação próprio de
quem está por dentro".
A sintonia fina com os meios transforma-se em certa capacidade organizativa.
Depois de receber um comunicado por fax do EZLN, o radialista
José Gutiérrez Vivó comentou: "Os senhores deste exército estão
bastante organizados em matéria de comunicação". A cerimonia
de libertação do general Absalón Castellanos, preso pelos neo-zapatistas,
exigiu a instalação de antenas parabólicas para sua transmissão
ao vivo desde a selva Lacandona”.
A aparência de pré-modernidade, configurada, por exemplo, na situação
de miséria de Chiapas, na sua denúncia pelo EZLN através de um
discurso carregado de figuras ancestrais e no seu armamento, por
vezes, rústico e rudimentar, contrasta com este acionamento atualíssimo
de tecnologias de comunicação, o qual dá aos neo-zapatistas "...
uma notável
capacidade propagandística que lhe permitia alçar-se como interlocutor
dos principais meios de comunicação dentro e fora do México ".
Não por acaso, parte da mídia intenta reduzir as novidades e inclusive
os equívocos da guerrilha e "compreendê-la" através
do mote "poucas armas e muito marketing".
Recorrer a expressão "marketing" para nomear toda a complexa
e, às vezes, polêmica intervenção do EZLN no campo das comunicações
constitui-se, no mínimo, uma operação empobrecedora e inadequada
a um movimento que, saído do coração da selva, tem conseguido
colocar seus comunicados e proposições no centro do debate político
mexicano, ou, em outra hipótese, mero preconceito com intervenções
que objetivem fazer o movimento habitar a dimensão pública, engendrada
pelos meios. Televivência, como foi constatada, essencial para
a realização da política na atualidade.
Certamente os neo-zapatistas têm uma deliberada intenção de, ao publicizar
amplamente suas ações e convicções, freqüentar esta dimensão de
televivência, fundamental para a sociabilidade hoje. Esta "política
de dar a connhcer claramente suas posições ao povo mexicano"
aparece enfatizada em diversos comunicados do EZLN e encontra-se
ressaltada por estudiosos. Como observou Raúl Delarbre: " Mesmo os dirigentes desse grupo tiveram particular
cuidado de propagar suas exigências, e sua própria existência,
através dos meios de comunicação mexicanos e também estrangeiros. Tornar a política uma atividade cada vez mais
pública, além de intentar democratizá-la por sua ampliação social,
também parece ter uma relação íntima como a nova concepção de
política reivindicada pelo EZLN, a qual obedece a lógica de confronto
com uma política restrita aos conchavos da elite e de “políticos
profissionais”.
O ato de publicizar suas convicções
e ações integra-se a uma dialéctica de luta na mídia por ocupação
do espaço virtual expressa através de uma formulação de tom missionário
do Comitê Clandestino Revolucinário Indígena - Comando Geral do
EZLN: " Precisa
que digamos nossa palavra e que os outros a escutem. Se não o
fizermos já, outros tomarão nossa voz e a mentira , sem a gente
querer, sairá da nossa boca”.
Esta determinação, de sonoridade
quase ancestral, dirigida ao sub-comandante Marcos, realiza-se
em vocação cosmopolita e contemporânea: “ao menos para saber aproveitar
espaços na imprensa e
na televisão de todo o mundo”. Ancestralidade e (pós)modernidade encontram-se,
outra vez, em combinatória algo surpreendente e eficaz.
A política de publicização
e de ocupação do espaço virtual traduz-se em uma política de meios
e de imprensa, por diversas vezes referida nos documentos do EZLN. Em junho de 1994, por exemplo, em um dos proliferantes comunicados
neo-zapatistas está escrito: “O CCRI-CG do EZLN agradece a todos
os meios de comunicação honestos e independentes sob empenho em
conhecer a verdade e em dá-la a conhecer ao povo mexicano sem
se importar com ameaças,
prisões e chantagens. Pedimos
desculpas públicas se, em nossa torpe política de meios, os ferimos
ou desconfiamos de seu profissionalismo.
Esperamos que compreendam que nunca antes havíamos feito
uma revolução e que estamos aprendendo”.
Certamente os neo-zapatistas
não dispõem de um verdadeiro “departamento de prensa”, como indicado
em um comunicado de 5 de janeiro de 1994, menção logo depois sempre
esquecida. Mas sua inexistência não tem impedido o estabelecimentos
de uma relação privilegiada entre a guerrilha e a imprensa.
Tal relação alimenta-se em boa medida da compulsão epistolar
de Marcos, desenvolvida desde os tempos de preparação quando ele
era solicitado a escrever cartas para noivas de companheiros do
movimento analfabetos. De janeiro de 1994 até setembro de 1995, somente
computando os comunicados e documentos neo-zapatistas, a imprensa
mexicana publicou por volta de 250 materiais enviados pelo EZLN,
reunidos depois em dois livros de 800 páginas aproximadamente. Se se acrescentar entrevistas, notícias, reportagens, colunas, artigos
etc. acerca dos guerrilheiros têm-se um universo invejável de
espaço conquistado na imprensa escrita pelo rebeldes.
Em sua política de imprensa,
o EZLN diz buscar uma democratização das oportunidades dos meios. Em suas próprias palavras: “...nós preferimos
que a democracia e a igualdade de oportunidades sejam também para
todos os meios de comunicação e
não só para os poderosos”. Esta postura geral, no entanto, não impede
que o EZLN, em várias situações, tenha imposto restrições ao transito
da imprensa, em momentos que eles consideravam perigosos, devido
a combates, ameaças de retorno do conflito armado ou até sua segurança
enquanto grupo guerrilheiro.
Também não tem impedido que
os neo-zapatistas, em determinadas circunstâncias, selecionem
ou imponham limites a alguns meios de produção e divulgação de
bens simbólicos. Quando do inicio das negociações em fevereiro
1994, por exemplo, a guerrilha publicou um comunicado-convite
aos meios para cobrir o diálogo com o governo. Em um trecho do documento pode-se ler o seguinte:
“Portanto, o CCRI-CG do EZLN declara que toda a imprensa escrita,
sem importar filiação política, partidária ou orientação ideológica,
pode, por parte do EZLN, cobrir o evento do diálogo pela paz e
a reconciliação. Quanto aos meios televisivos, o EZLN só vetaria
a assistência das televisões privadas nacionais Televisa e Televisão
Azteca. A primeira porque
não necessita buscar notícias, pois as inventa e maquia a seu
gosto e conveniência. A segunda porque seus repórteres
têm demonstrado falta de profissionalismo ao oferecer dinheiro
a nossos combatentes para que façam declarações.
O resto dos meios televisivos nacionais e estrangeiros
serão creditados sem problema pelo EZLN”.
Um outro texto, voltado especificamente
para a questão da imprensa, Marcos esclarece que os neo-zapatistas
acreditam naqueles meios, “...cujo afã de saber a verdade do que
se passa seja maior que o medo dos riscos de encontrá-la”. Mas este relacionamento aparentemente tão bem
formulado, queda-se, por vezes, capturado por uma sedução narcisista
de aparecer através da imprensa.
Delarbre relata um destes casos: “O maior Mario se dedicou
a dar entrevistas a quantos pôs em sua frente e a posar para as
câmaras de quantos fotógrafos cruzaram em seu caminho”.
ATUAÇÃO MIDIATICA
Para publicizar suas atitudes e opiniões Marcos e o EZLN têm utilizado
os mais diferenciados meios e nesta compulsão midiática, sem dúvida,
são ajudados pelos inúmeros materiais que se debruçam sobre o
tema neo-zapatista. Com
vídeos invade-se o Zócalo e as telas, em quantidade já impresionante. Em um artigo intitulado “O zapatismo em cinta magnética”, publicado
na revista Nexos de
janeiro de 1995, Naief Yehya faz um balanço dos mais de dez vídeos
produzidos em um ano acerca do tema. Neste número, Nexos, através de várias resenhas avalia pelo menos seis livros já
publicados sobre o conflito e anuncia outros mais. Acionando a Internet, invade-se o cyberspace. Cartuns e até
romance de autor italiano fazem hoje parte do baú temático neo-zapatista. O jornal La
Jornada, com sua cobertura simpática aos guerrilheiros dobra
sua tiragem, hoje a maior do México.
O veículo televisão, apesar
dos limites impostos pelo maior controle monopolista, sofre alguma
invasão do Exército Zapatista.
Marcos aparece em várias televisões estrangeiras, dando
entrevistas, inclusive na cadeia CBS americana, falando em inglês.
Na reportagem-entrevista,
“Marcos busca cuidar de sua imagem e formular respostas atrativas
para um público estrangeiro”.
Mesmo a televisão mexicana,
em algumas oportunidades, tem seus espaços ocupados pelos movimentos
ágeis dos neo-zapatistas. No
início do levante foi a surpresa e inusitado da guerra que abriram
amplos espaços na televisão e na imprensa em geral, nacional ou
estrangeira. Estes demorados espaços iniciais devem ter
se convertido em uma armadilha para o intentado silenciamento
posterior, pois terminam por agenciar o tema e definir a pauta
vigente na “ecologia” dos meios.
Um segundo momento de invasão do espaço televisivo acontece
no dia do início do diálogo, quando: “Em transmissão ao vivo pela
TV, em horário nobre, um indígena de um metro e meio de altura
agarra um microfone e lê, para todo o território nacional, um
manifesto contra o governo. O
título do manifesto tem a marca inconfundível do subcomandante
Marcos: ‘Para todos, tudo; nada para nós”.
Este agendamento, em plano
internacional, pode ser medido de modo aproximado, recorrendo-se
a alguns dados contidas no estudo de Maria Nazareth Ferreira acerca
da cobertura da imprensa internacional destinada à América Latina.
No noticiário italiano, o México estava em quarto lugar,
com 89 notícias, sendo 73% delas dedicadas ao conflito de Chiapas
e seus protagonistas. Se
se considera que o ano de 1994 foi, dentre outras coisas, ano
das eleições presidenciais no México, pode-se ter uma idéia desta
repercussão.
A ressonância neo-zapatista
não tem sua origem e determinantes apenas no senso de oportunidade
e timing.
As modalidades não convencionais de atuação midiática também
têm sua responsabilidade pelo acesso e presença dos guerrilheiros
nas imagens, sons e páginas da mídia.
Aliás a articulação de elementos imagéticos e narrativos
desempenha significativo lugar na configuração destas modalidades
de atuação.
A simbologia do EZLN tem se
ancorado principalmente nas imagens, largamente divulgadas pela
imprensa mundial, das máscaras de cor negra que cobrem toda cabeça
com exceção dos olhos ("pasamontañas"), semelhantes
às utilizadas pelos esquiadores, e dos lenços sobre o nariz e
a boca ("paliacates"), como se fossem bandidos do "faroeste".
Em um lugar secundário e costumeiro aparece o outro elemento componente
da simbólica dos neo-zapatistas: sua bandeira vermelha e preta
com um estrela.
Em um trecho do comunicado
intitulado "As setes com que o comandante Tacho entrega a
Marcos, em nome do CCRI, o bastão de comando no aniversário do
EZLN", os neo-zapatistas atribuem sentido a sua bandeira:
"Nesta estrela de cinco pontas vai a figura do ser humano:
a cabeça, as mãos e os dois pés, o coração vermelho que une as
cinco partes e as faz una. Somos seres humanos e isso quer dizer
que temos dignidade. Esta é a bandeira da dignidade. Recorda sempre
que nossa luta é pelo homem".
Os "pasamontañas"
e os "paliates" têm seguramente a finalidade de proteger
os neo-zapatistas da repressão, pois muitos deles vivenciam a
guerrilha e transitam a qualquer momento desta atividade para
a vida cotidiana em suas comunidades indígenas. Sem rostos, eles
podem manter esta permanente troca de identidades que certamente
desorienta as forças de repressão. Eles mesmos compartilham desta
explicação: "O uso do pasamontañas e outros meios para ocultar
nosso rosto obedece a elementares medidas de seguridade e como
vacina contra o caudilismo".
Para além da segurança, os
"pasamontañas" e os "paliates" adquirem já
outras finalidades. O negro do "pasamontañas" evoca
"o do tição apagado do fogo, do fogo que termina e do que
apenas se inicia".
O próprio sub-comandante Marcos,
cujo "pasamontañas" tem propiciado amplos jogos e polêmicas
mesmo depois da suposta descoberta de sua identidade pelo governo
mexicano, escreveu com ironia e humor: "Não sei quantos argumentos
diferentes e contraditórios foram dados sobre o uso de pasamontañas.
Agora recordo: o frio, a segurança, o anti-caudilismo (paradoxalmente),
a homenagem ao deus negro do velho Antonio, a diferença estética,
a feiura vergonhosa. Provavelmente nenhum dos argumentos seja
verdade. O caso é que, agora, o pasamontañas é um símbolo de rebeldia.
Apenas ontem, era um símbolo de criminalidade ou terrorismo. Por quê? Certamente não porque nós nos tenhamos
proposto".
O "pasamontañas",
principalmente, e os "paliates" transformaram-se de
tal modo símbolos da guerrilha neo-zapatista, que tornou-se impossível
concebê-la sem eles. Sua identidade está irremediavelmente colada
e expressa nestes símbolos. Ou como se observou sobre o sub-comandante:
"Marcos sem pasamontañas não é admissível, não é fotografável,
não é a legenda viva".
Idêntida assertiva vale, sem tirar nem por, para o EZLN.
Por mais marcantes que sejam
as imagens neo-zapatistas dos “pasamontañas” e dos “paliates”,
elas não esgotam o arsenal acionado pela guerrilha midiática.
O EZLN e Marcos, em particular, transitam com desenvoltura
em espaços midiáticos inesperados, como, por exemplo, os cartuns
ou o video-clip.
Criações surpreendentes marcam
igualmente a guerrilha midiática plasmada nas montanhas de Chiapas. Em 8 de agosto de 1995, o EZLN utilizou mais
um artifício midiático para publicizar sua política, se colocar
na cena política mexicana e agendar a mídia.
Em vários telões na capital e em San Cristobal de Las Casas,
em cinema e em televisão, foi exibido um vídeo, em duas versões
(uma com 30 minutos e outro mais longo, com 80 minutos), no qual
o encapuzado Marcos conversa com um simpático besouro chamado
Durito. Marcos - que se
diz escudeiro de Dom Durito, como Sancho Pança era de Dom Quixote
- funciona como uma espécie
de tradutor dos sonhos do besouro, interlocutor de conversas sobre
temas como neo-liberalismo, propostas de EZLN, etc.
Durito convoca todos os mexicanos - “homens, mulheres e
gays”, com ele diz - para participar de um plebiscito (consulta)
realizado pelos neo-zapatistas.
Outro personagem também produzido pela imaginação dos rebeldes
tem o nome de Chibó: uma aranha que representa o tentacular sistema
de Estado mexicano. O vídeo se intitula “A Consulta Nacional pela paz e democracia”.
Cartuns, vídeo clip, criação
de “astros” etc aparecem como dispositivos midiáticos acionados
para transitar na televivência, engendrada pela atual sociabilidade,
e realizar a política nesta dimensão.
As narrativas escritas aparecem
impregnadas de novidade e tradição.
A figura mítico-real do Velho Antonio torna-se um personagem
presente em vários textos do EZLN.
Através dele transmitem-se lições e lendas.
Nele está estocada a sabedoria de tradição indígena, sempre
reivindicada e valorada nos escritos neo-zapatistas.
Em um pós-escrito do comunicado “os zapatistas não se rendem”,
Marcos, porta-voz do EZLN, relata: “No Comitê estivemos discutindo
toda a tarde. Buscamos a palavra na língua para dizer ‘RENDER-SE’
e não a encontramos. Não
tem tradução em tzotzil nem em tzeltal, ninguém recorda que a
palavra exista em tojolabal ou em chol.
Levam horas buscando equivalentes (...)
Em silêncio se aproxima o velho Antonio, tossindo a tuberculose,
e me disse ao ouvido: ‘Essa palavra não existe em língua verdadeira,
por isso os nossos nunca se rendem e melhor que morram, porque
nossos mortos mandam que as palavras que não andam não sejam
vividas.’ Depois se faz o fogo para espantar o medo e
o frío. Conto a Ana Maria,
ela me olha com ternura e me recorda que o velho Antonio já está
morto...” .
O recurso as tradições procura
reforçar a auto-estima indígena, base social “original” do EZLN,
reinventar a história mexicana, criar uma cultura política neo-zapatista
e legitimar a guerrilha. A
busca da “...palavra nova que é velha” encontra admirável exemplo
na reinterpretação da lenda maia dos homens de milho.
Novamente Marcos emerge como narrador: “me contou o velho
Antonio que as pessoas
de ouro eram os ricos, os de pele branca, e que as pessoas de
madeira eram os pobres,
os de pele morena, que trabalham para os ricos e os carregavam
sempre e que as pessoas de ouro e as pessoas de madeira esperam
a chegada das pessoas de milho, as primeiras com medo e as segundas
com esperança. Perguntei ao velho Antonio de que cor era a
pele das pessoas de milho e ele me ensinou vários tipos de milho,
de cores diversas, e me disse que eram de todas as peles, mas
ninguém sabia bem, porque as pessoas de milho, os homens e mulheres
verdadeiros, não tinham rosto...”.
As narrativas mítico-ancestrais
- citadas longamente para deixar sentir seu sabor e sua sabedoria primordial - combinam-se de
maneira desconcertante com um frescor antisolene, insolente mesmo,
de uma linguagem perpassada pelo recurso do humor, de irreverência
e da ironia. Rápido exemplo: no comunicado escrito à Ernesto
Zedillo, no momento de sua posse como novo presidente mexicano,
aparece escrito “Benvindo ao pesadelo”.
Esta linguagem, habitada pela
tradição, torna-se nova ao romper com outras tradições, aquelas
referentes a uma esquerda estatísta ou fundamentalista.
Ela “...não fala do imperialismo yanque ou da burguesia,
não aborrece com essa cantinela, suas palavras são novas, são
jovens, avançam”.
A diferença não se circunscreve
às fronteiras da política de esquerda.
O escritor Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura de 1990,
crítico feroz do EZLN, reconhece méritos ao estilo de seu porta-voz
e o distingue da retórica política tradicional: “A linguagem dos
líderes do PRI é uma linguagem de funcionários (...); o sub-comandante
Marcos, ainda que desigual e cheio de subidas e caídas como tobogam
de montanha russa, é imaginativo e vivaz...”. Outro famoso escritor, o peruano Vargas Llosa,
insuspeito de alinhamentos à esquerda, “...chegou a comparar os
arrazoados duritianos com os de William Shakespeare. Coisas de escritores pós-modernos”.
Acionar e transitar intensamente
na mídia, exigências políticas da contemporaneidade, apresentam
inúmeros e imensos riscos. O
estar no ar, com sua acelerada e voraz lógica de atualização e
novidades, pode descolar o movimento de sua terra firme.
Este deslocamento entre a selva, a montanha, a comunidade,
a praça, a rua; enfim o mundo da convivência e a tela, com sua
“vivência” à distância, pode ser fatal, pois torna a intervenção
política na mídia sem substrato e, por conseguinte, presa frágil
do devorador aparato sócio-tecnológico do campo da mídia”.
Outro risco chama-se personalização.
Ela se alimenta da convergência no México de dois processos
supranacionais. A tendência à personalização da política induzida
pela lógica narcísica da mídia, considerada por alguns autores
como irreversível, em decorrência da batalha política que ocorre
entre os meios. A outra tendência, de dimensão geográfica mais
delimitada, provém da tradição caudilhesca da política latino-americana.
Relembrando esta tradição,
José Blanco, em seu artigo “Caudillos y Democracia”, considera
que: “...o subcomandante é um caudilho de recente fatura”. Raúl Delarbre atribui às limitações da cultura
política mexicana a popularidade entre mística e milenarista do
“caudilhismo mascarado”.
Para este autor já não se trata
de um risco, mas efetivamente de um dado dilacerador do movimento
guerrilheiro. Dentro de
uma postura altamente crítica ao EZLN e, em especial, a Marcos,
Delarbre escreve: “Apesar da variedade de significados e incluse
de discursos nos versáteis comunicados e nos assíduos comparecimentos
midiáticos do subcomandante Marcos, não deixam de chamar a atenção
duas vertentes nas mensagens do EZLN. Por um lado, se encontram as demandas, as urgências
e até as misérias dos camponeses indígenas que estariam constituindo
as bases do grupo armado. Por
outro, se encontra o líder, um só, que se destaca notavelmente dentro do grupo dirigente, de tal sorte que pode ser identificado
como algo mais que porta-voz. O
‘pasamontañas’ de
Marcos adquire uma definição, uma notoriedade, mais intensa que
os ‘paliacates’ dos camponeses indígenas.”
A crucial questão que emerge
diz sentido não à existência de diferenciações, inevitáveis em
uma sociedade tão desigual, mas aos graus de ruptura e às articulações
em curso com a finalidade de encontrar um ponto de equilíbrio
que permita manter a integridade e a força do movimento.
Com os dados disponíveis hoje parece improvável fazer um
minucioso e rigoroso olhar incidir sobre o problema de modo a
iluminá-lo satisfatoriamente. A prudência nesta situação sugere apenas afirmar
o risco como aquele de mais perigoso potencial, dentre os muitos
existentes.
Na contramão destes riscos,
trafegam constatações que indicam ou possibilitam a realização
do político. A criação
de alternativas políticas para a nação e a não submissão a uma
agenda política neo-liberal, hegemônica na mídia mexicana e internacional,
apontam neste sentido.
A crença e a efetividade da
atribuição de sentidos aos símbolos, se usados no momento oportuno
e com a formatação e ênfase adequados, parece subtrair forças
ao processo de evaporação de sentidos e valores da atualidade.
Sobre Marcos foi escrito: “Com Marcos o simbólico, tão
acossado pela pós-modernidade, cobra para muitíssimos o sentido
transparente de que alguma vez dispôs”.
Afirmar os sentidos do simbólico
e uma possível positividade e dignidade de política tornam-se
veios de manutenção e alargamento de intervenção pacífico-militar
dos neo-zapatistas. Consignas
enfaticamante publicizadas como “Democracia, Justiça e Liberdade”,
que adquirem concretude, e outras inauguradas pelo EZLN - “Para
todos tudo, nada para nós” e “Governar, obedecendo” - atingem
o alvo composto de problemas ético-políticos essenciais da atualidade:
a corrupção e a representação, os quais retiram credibilidade
e dignidade à política. Respeitar
o bem público e ser dirigido pelos interesses públicos dos cidadãos
devem ser meios de reinventar as possibilidades do “bom governo”,
horizonte almejado pela reforma política pleiteada pelos neo-zapatistas,
que aposta na sociedade civil, no desmantelamento do sistema mexicano
de indissociabilidade Estado/partido (PRI) e na democracia.
Para conquistar e aprofundar
a democracia não cabe apenas travar a guerrilha “virtual” e “real”
- ou seja, articulada nas dimensões de convivência e televivência
da atualidade -, mas trata-se de, para além de mera utilização
instrumental, compreender as essenciais conexões hoje existentes
entre processo de democratização da sociedade e da comunicação
e informação.
O EZLN tem formulações perspicazes
acerca desta temática. Em
sua proposta para o programa da Convenção Nacional Democrática,
articulação política plural incentivada pelos neo-zapatistas,
eles sugerem: “O direito à informação, livre e sem contrapontos,
que inclua todos os meios de comunicação e os coloque a serviço da maioria
e os obrigue a fazer da verdade seu maior compromisso”.
Na fase inicial das negociações
com o governo, só recentemente concluída, a primeira mesa de diálogo
era constituída por seis grupos de trabalhos, um deles nomeava-se
“Aceso a Los Medios de Comunicación.”
As proposições levadas pelo EZLN são abrangentes e específicas,
complexas e simples, enfim, surpreendentes por sua envergadura
e consistência. O enlace
entre comunicação e cultura aparece insistentemente lembrado,
assim como seu imbricamento com a democraticação.
Os exemplos podem ser múltiplos: “Exigimos garantir o acesso
à informação e o direito à livre expressão.
Ele implica garantir o diálogo intercultural.
É direito da sociedade nacional ter acesso às vozes de
todos aqueles que a integram.
É direito da sociedade comunicar-se tanto com o mundo exterior
como com o interior”. Para isto ser alcançado, eles consideram”...
indispensável a democratização dos
meios de comunicação e das instâncias de decisão que os
regem.”
A formulação efetiva de um programa para a política de comunicação
enriquece, sem mais, a atuação midiática da guerrilha.
POLÍTICA MIDIATIZADA
A inscrição da política nas
telas e páginas e a formulação de propostas de políticas não esgotam
as articulações entre mídia e política no mundo atual. A política se faz de outros atos que, pelo menos em sua origem,
aparecem como exteriores ao espaço midiático.
Estes atos, respondem a demandas de lugares sociais outros,
mas podem em um momento subseqüente transitar na mídia, sob a
modalidade de notícias ou traduzidos em outras conformações (editoriais,
artigos, colunas etc.).
A percepção das marcas distintivas
da sociabilidade contemporânea, em especial seu inusitado amálgama
de convivência e televivência, tem possibilitado a inauguração
de uma nova modalidade de conceber estes atos públicos, instalados
em lugares convivenciados, em sintonia fina com esta compósita
sociabilidade, desde seu momento de concepção mesma.
Pensadas nesta perspectiva, os atos não adquirem sentido
apenas por seus efeitos políticos imediatos no espaço circunscrito
de um lugar de convivências, mas intencionalmente calculam e tentam
agregar a este sentido primeiro um outro produzido pelo acesso
e transito buscados do ato, traduzido em linguagem, na mídia.
O sentido global deste ato resulta, por conseguinte, da
síntese entre efeito primário e efeito de mídia.
Tal procedimento, cada dia mais presente, ainda que muitas
vezes efetivado de modo intuitivo, poderia ser nomeado como “midiatização
de política”.
Os guerrilheiros neo-zapatistas,
em sua sintonia com o lugar e o global, não desconhecem tal procedimento.
Mais uma vez recorre-se às palavras de Raúl Delarbre: “Talvez
ninguém haja reconhecido com maior claridade um dos rasgos predominantes
nos gestos e nos textos de Marcos, que, para fazer política, tem
feito espetáculo. O ‘pasamontañas’ pode ter razões de discreção
e até climatológicas como em algum momento se pensou, porém suas
consequências foram notáveis e eficazmente propagandísticas. Cada gesto, cada frase, pareciam estar calculados
não só em seus significados revolucionários senão, fundamentalmente,
no efeito que causariam nos meios de comunicação.” Malgrado o olhar insensível às exigências da
sociabilidade atual, tomadas de modo sempre negativo, através
do recurso à noção de espetáculo, o trecho percebe o “efeito de
mídia” pretendido pelo ELZN e seu porta-voz.
O caráter intencional da intervenção
político-midiatizada de Marcos e companheiros aparece outras vezes
demasiadamente radicalizada.
Guilhermo Ochoa, radialista, comentou: “Os comunicados
do subcomandante Marcos revelam um homem que maneja perfeitamente
o idioma. Às
vezes dramático, em ocasiões seco, em outras
poético e quase sempre com sentido do humor.
Não parece haver nada casual nas suas palavras.
É evidente que ele
e a sua equipe estão a par de todos os meios informativos e realizam
uma análise completa de conteúdo antes de qualquer nova comunicação.”
De imediato, a investigação
deve se locomover para os já lembrados “atos espetaculares”, pois
neles estariam inscritos, presume-se, mais facilmente, os “efeitos
de mídia”. Não há estranhamentos entre estes atos e os
neo-zapatistas. Marcos,
em entrevista, ao falar do levante de 1 de janeiro, disse:
“Necessitávamos uma ação espectacular...” Em um texto retrospectivo, o EZLN, referindo-se
à tomada de cidades e ao posterior regresso planejado de suas
tropas entre 2 e 6 de janeiro às montanhas, afirma ter cumprido
“...o objetivo de dar a conhecer ao povo do México e aos
povos do mundo as justas causas que animaram nosso andar
de fogo...”
A publicização da existência do movimento - seus determinantes
e reivindicações - foi, em suma, o objetivo de ação político-militar
de ocupar espetacular e temporariamente cidades.
Outra ação espetacular, que
facilmente adquire destaque dentre o turbilhão de iniciativas
neo-zapatistas, passou a ser conhecida como Aguascalientes.
Em verdade, o EZLN convocou e organizou de 6 a 9 de agosto,
duas semanas antes de eleição presidencial mexicana, a Convenção
Nacional Democrática, ampla e plural reunião de seis mil convidados
de centenas de entidades da sociedade civil, personalidades -
como os escritores Carlos Fuentes e Elena Poniatowska, partidos
e lideranças políticas - como Cuauhtémoc Cárdenas, então candidato
à presidência pelo PRD.
A convenção exigiu para a sua
realização a construção de uma formidável infra-estrutura em uma
clareira aberta na selva. Foram,
conforme os neo-zapatistas, 28 dias de trabalho, 14 horas diárias,
600 homens e mulheres trabalhando por hora, 60 milhões de pesos
velhos gastos para a construção em território dominado pela guerrilha,
nas proximidades de Guadalupe Tepeyac, de uma biblioteca, 20 alojamentos,
14 fogões comunitários, estacionamento para 100 veículos e um
enorme anfiteatro ao ar livre, com uma tribuna de honra em forma
de barco. O local foi
nomeado Aguascalientes, em homenagem à cidade que sediou a Convenção
Constituinte de 1914, acontecida na Revolução Mexicana.
Nesta Convenção os zapatistas originais eram a força dominante.
Aguascalientes - como disse
Marcos em seu discurso na Convenção - representa “...a Arca de
Noé, a Torre de Babel, o barco selvático de Fizcarraldo, o delírio
do neo-zapatismo, o navio pirata”.
O EZLN participou do encontro com 20 delegados com direito
a voto e não aceitou presidí-lo, pois “...Ésta é a convenção da
busca pacífica da mudança, não deve de maneira alguna ser presidida por gente armada.”
Com a realização de fantástica
Convenção, o EZLN buscava efetivar diversos objetivos conectados.
A Convenção tentava criar um clima de diálogo no interior
da sociedade mexicana, em especial da sociedade civil, visando
colocá-la como sujeito privilegiado das transformações democráticas
pela via pacífica no México.
Com sua realização, os neo-zapatistas deslocavam o eixo
de seu diálogo, buscando um novo e prioritário interlocutor, pois
pouco antes tinham decidido suspender as negociações com o governo,
mas não reiniciar a guerra.
A Convenção serviu para superar
o relativo isolamento e silêncio sobre os neo-zapatistas decorrentes
do avanço do processo eleitoral, que tomava conta da agenda político
nacional, ao tempo em que os reintroduziu nesta agenda, demonstrando
sua força social e sua capacidade político-moral e organizativa
na política mexicana.
Fica nítido então que estas
ações espetaculares - a invasão das cidades em 1 de janeiro e
a Convenção de Aguascalientes - longe de se esgotarem ao assumirem
o papel de condutores de forte “efeito de mídia”, elas desencadearam
processos sóciopolíticos que passaram a perpassar a sociabilidade
mexicana e sua história. As ações espetaculares não se esvaíram ante
um foco de luz midiático, brilhante e momentâneo.
A busca de inscrever os atos
e falas políticos simultaneamente nas dimensões sociais de convivência
e televivência não se circunscreve às ações espetaculares, antes
transpassam inúmeras intervenções neo-zapatistas.
Já foi lembrado que, ao libertar o general e ex-governador
de Chiapas Absalón Castellanos, o EZLN preparou toda uma cerimônia,
transmitida da selva por antenas parabólicas especialmente instaladas
com esta finalidade.
A continuada produção de falas
e atos políticos objetiva criar alternativas políticas, mobilizar
e organizar permanentemente militantes, simpatizantes e sociedade
civil e manter o EZLN habitando o espaço virtual da sociedade,
publicizando sua presença e demandas.
As comemorações dos aniversários do levante de janeiro
e da formação do EZLN, a realização de comícios e manifestações
em datas significativas (descobrimento de América, morte de Zapata,
Primeiro de Maio, etc.), a organização de encontros, a exemplo
do Fórum Nacional Indígena, dentre outros, fazem parte de uma
política de presença e ocupação de espaços sócio-políticos, inclusive
virtuais.
A incorporação da mídia como
componente político essencial hoje não acontece somente pela via
de produção de “efeito de mídia”.
A imaginação e abertura neo-zapatistas presentificam-se
em novos modos de fazer política. Durante o processo de negociação com o governo,
a população foi chamada a opinar sobre os possíveis pontos de
acordo nas mesas de sociedade civil através da resposta de questionários,
da elaboração de textos livres - também para entidades - e de
debates. Em um balanço, efetuado em junho de 1994, acerca
de uma destas rodadas de negociação foram ouvidas 64.712 opiniões
provenientes de variados segmentos sociais (48% de indígenas e
camponeses; 37% ligados ao setor popular; 6% de operários e empregados;
3% de mexicanos no exterior; 2% de meninos e também de partidos
políticos; 1,9% de artistas e intelectuais; etc) e diversas localidades
de todo o México (com o predomínio dos estados do Sul, Sudeste
e Península de Yucatán - 40%, dos estados do Golfo e do centro
do país - 20% cada) e de, pelo menos, 19 países, sendo 80% dos
Estados Unidos e Canadá, 18% da Europa, 1,3% da América Latina,
etc).
A atividade de maior repercussão
aconteceu em 27 de agosto de 1995: a Consulta Nacional pela Paz
e Democracia. Esta consulta,
sob a forma de enquete, englobou seis perguntas sobre as principais
demandas do povo mexicano, a necessidade de união das forças democratizadoras,
as exigências de uma reforma política profunda, a participação
eqüitativa de mulheres e, em particular, se o EZLN deveria se
constituir em força política nova ou unir-se a outras formando
uma organização política. Convocada em junho e acontecido em agosto,
a consulta atingiu um milhão e 300 mil pessoas, sendo possível
dela participar de qualquer parte do país e do mundo, inclusive
via Internet.
As consultas inventam formas
de participação, no plano dos atos e das idéias, que não se regulam
mais pelas fronteiras nítidas entre movimento e sociedade e por
sua realização possível apenas na dimensão de convivências.
Na sociabilidade complexa contemporânea as limitações dos
lugares caem ante sua lógica globalizadora e a exclusividade dos
militantes e simpatizantes próximos como avaliadores do poder
do movimento deixa de ter plena validade diante da crescente força
oriunda da “opinião pública”.
As consultas tornam-se dispositivos desta incorporação
da “opinião pública” ao fazer política, não a modo difuso como
faz reclame a mídia, mas de maneira orgânica e ativa.
A articulação do local e global, de convivência e televivência
agrega poder, neste caso, sob a modalidade de representatividade
e legitimidade.
O sociólogo francês Yvon Le
Bot, analisando o neo-zapatismo, escreveu:
“Nesta guerra, posterior à queda do Muro de Berlim, os
símbolos importam mais do que as armas, a comunicação mais do
que a correlação de forças.” Esquece ele
que sem o acionamento da comunicação e seu perpassar nos atos
e falas políticas não existe hoje em sentido largo construção
de correlação de forças e, por conseqüência, deslocamentos de
poder.
Este novo e complexo “campo
de forças”, onde localiza-se hoje a comunicação e a mídia, não
pode prescindir de alguns componentes de base da política, ao
contrário tende a realçá-los em sua interação com as operações
midiáticas. O sentido
de realidade para analisar o campo de forças e saber se locomover
politicamente nele, por exemplo.
Impressiona que o EZLN, estando isolado na selva, tenha
um sentido tão forte de realidade e consiga influenciar a vida
política mexicana.
Outra característica fundamental
de política, o senso de oportunidade, foi otimizado em algumas
intervenções importantes dos neo-zapatistas.
O próprio levante de 1 de janeiro de 1994 aparece como
exemplar. Um analista do jornal La Jornada assinalou:
“Teve que produzir-se un aldeamento militar, precisamente no momento
político de maior oportunidade,
para que essa voz alcançasse todos os confins do mundo, e para
que sua ressonância mobilizasse toda a sociedade em torno de suas
demandas.”
Cabe lembrar que aquela data marcava o inicio de funcionamento
do Tratado Livre Comércio (NAFTA), assinado com os Estados Unidos
e Canadá, com o qual as elites mexicanas imaginavam chegar ao
Primeiro Mundo. Justo
neste dia, os neo-zapatistas obrigaram o mundo e o próprio país
a se lembrar incomodamente do México terceiro mundista.
Talvez por isto e pelo clima
de festas do final de ano, todos - inclusive o governo e mídia
- foram tomados de surpresa, este outro componente significativo
da luta política. A surpresa impediu o Governo de utilizar de
imediato recursos de repressão, inclusive no patamar simbólico
como a censura e a propaganda, e abriu um inusitado espaço político
e midiático para o EZLN. Surpresa
e organização, pois os neo-zapatistas estiveram entre os nove
mil indígenas que, anos antes, em 12 de outubro de 1992 praticamente
invadiram San Cristóbal de Las Casas em impressionante passeata,
filmada por Marcos e Daniel, e terminaram por destruir a estátua
de bronze do conquistador Diego de Mazariegos, fundador da cidade
em 1528.
O exercício de imaginação também
torna-se mais exigente. Criar
sempre alternativas e intervenções faz parte desta dinâmica política
atual. Em carta ao escritor Eduardo Galeano, o porta-voz neo-zapatista
disse: “Somos um exército de sonhadores, por isso somos invencíveis,
como não ganhar com esta imaginação, transformando tudo, não podemos
perder, ou melhor dito não merecemos perder.”
A perda de capacidade de imaginar,
bem como de sua sensibilidade à realidade e às oportunidades,
impedindo a organização e a surpresa da inovação trazem risco
da repetição e banalização, tanto na política, quanto na mídia,
esta máquina devoradora de novidades.
Uma fala de Marcos parece entrever este perigo: “..o que
busca o Governo é ganhar tempo e buscar o desgaste do ELZN na
imagem pública, no manejo dos meios.”
OBSERVAÇÕES FINAIS
“É a esperança que obriga a buscar
novas formas de lutar,isto é, novas formas de ser políticos, de
fazer política. Uma nova
política, uma nova moral política, uma nova ética política é
não só um desejo,mas a única possibilidade de avançar,
de brincar do outro lado.”
“Deve você saber que o sistema político que você representa (...) tem
prostituido até tal ponto a linguagem que hoje, ‘política’ é sinônimo
de mentira, de crime, de traição.
Eu só digo o que milhões de mexicados quiseram dizer: não
cremos.”
Este texto, ao passear por
itinerários neo-zapatistas, não pretende uma análise geral de
sua trajetória, mas tão somente busca compreender a específica
intervenção de política e de mídia do EZLN e sugerir uma
possível interpretação, que inscreva esta intervenção nas mutações
experimentadas pela sociedade e política da idade mídia.
Não importa a este texto que
a atuação política e midiática do EZLN tenha sido nestas dimensões
plenamente adequada. Antes,
elas emergem, compreendidas, como modalidades embrionárias - talvez
frágeis e fugazes - de um novo fazer político.
Tais ressalvas não eliminam,
entretanto, a necessidade
de responder, ainda que provisoriamente, a questão da efetividade
ou não política dos neo-zapatistas.
Ou, colocando a questão de modo cristalino: o acionamento
dos dispositivos político-midiáticos assinalados no texto possibilitou
ao EZLN que resultados políticos? Cabe recordar que os objetivos essenciais de
política podem ser sintetizados em: exercer o poder político concentrado
no Estado e/ou atuar na correlação de forças na sociedade, buscando
alternativamente ter condições de governabilidade ou torna-se
governo ou intervir nas decisões do governo, obrigando-o ou impossibilitando-o
de realizar determinados programas e/ou projetos específicos.
O EZLN, além de aparentemente ter consolidado suas
bases indígenas e camponesas em Chiapas, tornou-se um movimento
político-militar-midiático de dimensões nacionais e internacional,
considerado ator e interlocutor indispensável de cena política
mexicana, através de seus atos, falas e de sua imagem pública.
Com sua irrupção abriu-se uma fissura no quase monolítico agendamento
neo-liberal do México atual. A modernidade pretensamente atingida através
do neo-liberalismo, com primeiro de janeiro de 1994 como data
símbolo e entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio, fazia
esquecer e esconder um outro México: complexo e profundamente
desigual. A emergência
deste México profundo, onde milhões vivem e morrem, e o posterior
debacle da política econômica desmascararam a modernidade neo-liberal
e alteraram fortemente a agenda política mexicana. “O zapatismo trouxe à tona o país real e seu chocante contraste
com o país de faz-de-conta do triunfalismo oficial.”
Com isto, a atmosfera política
igualmente se modificou. Um
popular, ouvido pelo jornal Voz Pública, observou: “A grande
vitória dos zapatistas é nos ter obrigado a pensar, a reanalisar
nossa situação e nos ter inquietado. Em um país de apáticos e
incrédulos, isto é quase um milagre.” Tal alteração de clima teve ressonâncias profundas
no ritmo dos acontecimentos: sem “...o Exército Zapatista não
se haveria avançado tanto em uns quantos meses.
Eles deram pressa à vontade de mudanças.”
O impacto causado pela irrupção
do levante, pelo debacle financeiro posterior, pela emergência
do EZLN como ator e interlocutor políticos, pela redefinição da
agenda temática e pela alteração da atmosfera político-social
modificou de modo significativo o cenário político, aprofundando
a crise do PRI e do Estado mexicano.
Para além e certamente por
conseqüências destas acentuadas transformações, o EZLN como
resultado mais imediato, chegou a um primeiro acordo com o governo,
o qual prevê, dentre outras medidas, uma maior autonomia à população
indígena em assuntos econômicos, políticos, culturais e judiciais. A possibilidade de novos acordos continua a
ser debatido em mesas de negociação.
A concretização de acordos
faz retomar com urgência a questão de como irão se locomover e
se organizar os neo-zapatistas neste novo cenário de paz possivelmente
desarmada. Nos últimos meses, o EZLN colocou no eixo central
de suas preocupações a velha questão do que fazer. Novamente o debate não está sendo feito como
algo apenas interno, mas se realiza interpelando a sociedade civil. Fernanda Navarro escreveu em La Jornada:
“Desde primeiro de janeiro de 1996, o EZLN nos lança outro desafio:
questionar nossos proprios esquemas ideológicos, organizativos
e mentais, ao oferecer uma alternativa, uma nova forma de fazer
política.” Fernanda Navarro se refere especialmente a
supreendente (?) proposição neo-zapatista de se organizar como
frente ou movimento político nacional, mas não participar de eleições.
Se as alternativas de mudança
estão em debate, o mesmo não ocorre com a urgência das transformações
do EZLN. Em 9 de janeiro,
Marcos falou: “Nossa vantagem é agora nosso limite.
O que chamou atenção, o ‘pasamontañas’, as armas, são o
limite. As pessoas não podem relacionar-se conosco
senão como simpatizante.”
O novo desafio colocado para
e pelo EZLN aparece bem sintetizado nas palavras de Enrique Semo:
“O grande problema é como
conservar esta excepcionalidade e ao mesmo tempo adquirir uma
identidade igual a de outras forças de esquerda: as já conhecidas,
já provadas, já trilhadas movimento popular ou partido
político que têm exibido
todas suas virtudes e limitações.”
Qual que seja sua opção, os
neo-zapatistas parecem ter alguns trunfos: suas bases sociais,
sua imagem pública, sua imaginação política e “...talento em utilizar
todas as formas de linguagem em apoio à sua causa, desde as mensagens
pela Internet até as histórias infantis, como a série de contos
em que Marcos retrata a si mesmo conversando com um besouro chamado
Durito.”