AS NOVAS CONFIGURAÇÕES DA POLÍTICA NA IDADE MÍDIA:

OS NEO-ZAPATISTAS

                                                              Antonio Albino Canelas Rubim*

Dotados de uma enorme capacidade de adaptação às circunstâncias, os indígenas sublevados vieram modificando também sua própria proposta em uma guerra de papel e eletrônica sem precedentes nos movimentos armados dos anos anteriores (...) e que, às vezes, faz esquecer que estamos em todo caso no curso de uma guerra, que a qualquer momento pode desencadear-se sob formas de violência mais evidentes.

                                                   Antonio Garcia de Léon [1]

 

O estatuto da política na contemporânea sociedade midiática emerge como uma das questões essenciais da atualidade. O mal-estar que hoje contamina a sociedade, deixando-a sem parâmetros e modelos, também atingiu a política, envolvendo-a em crise significativa. Por todos os lugares sociais circulam questionamentos, quando não objeções contundentes, aos modos de concretude da política.

A crise profunda - mas não terminal como querem muitos pensadores pós-modernos - aparece como indício suficiente para sugerir ressonâncias midiáticas significantes sobre o campo da política. Agora os pós-modernos têm perspicácia e razão plena ao acreditar que a comunicação, em nossa atualidade, não pode ser compreendida como complemento meramente instrumental da política ou ser simplesmente silenciada, como ainda hoje fazem boa parcela dos cientistas políticos.[2]

Ao invés de superestimar ou esquecer os múltiplos e complexos enlaces e repercussões entre mídia e política, realizando em ambos os casos aligeirada resolução de uma questão ainda sem soluções confiáveis, este texto opta por uma trajetória que supõe a problemática emergência, para o bem ou para o mal, de uma complexidade de novas configurações expressivas do fazer política, informadas e formatadas pela modalidade midiática de sociabilidade. Antes de apressadas respostas, cabe então analisar e compreender, mantendo-se atento aos frágeis e sutis detalhes, estas novas formatações políticas.

Tornou-se quase senso comum percorrer este itinerário analítico ancorado nas noções "espetáculo", "espetacularidade" e "espetacularização". A política, através do acionamento destas categorias, passaria a habitar a sociedade midiática, mas, como estas noções comportam acentuada conotação negativa, ela inevitavelmente seria domesticada pela inexorável lógica da mídia, perdendo sua seiva singular. Despolitizando-se, enfim[3].

Mais uma vez o itinerário se afasta desta traiçoeira trilha, pois, nem se acredita que a política necessariamente habita a contemporaneidade em feição sempre espetacularizada, nem se compactua com uma inevitável versão corrosiva da categoria "espetáculo" e similares. Sugeriu-se já em outro texto que a noção deve ser formulada, sem mais, como potencialização e/ou radicalidade expressiva aplicada à política. Ainda que muitas vezes esta potência expressiva tenha capturado a política, subsumindo-a a imperativos "estrangeiros", nada impede que a política realize suas finalidades, recorrendo e subordinando o espetacular.

Buscar e estudar exemplos políticos possíveis parece ser um dos caminhos pertinentes ao esclarecimento do tema, à desconstrução da concepção "negativa" da noção de "espetáculo" e aparentados, à afirmação da produção do sentido da categoria como realizada em um campo de forças não pré-determinado e, por fim, à evocação de novas alternativas de interação entre os campos da política e da mídia na atualidade.

O Greenpeace, de imediato, apresenta-se como um dos exemplos mais expressivos para a investigação hodierna dos enlaces entre mídia e política. Com 950 funcionários em 45 escritórios localizados em mais de 30 países e com um orçamento anual de 150 milhões de dólares arrecadados de quatro milhões de contribuintes (pessoas físicas), esta organização prefigura e já se locomove como importante entidade da sociedade civil mundial, de que fala Octávio Ianni em A Sociedade Global.[4]

Desde a sua origem há 25 anos nos Estados Unidos, passando por sua expansão européia e posterior globalização nos anos 80, o Greenpeace tem utilizado a política da ação espetacular, impregnada por cultivados efeitos de mídia, ainda que esta face mais visível de sua atuação represente apenas parcela reduzida de suas iniciativas e gastos. Toda a intervenção contra os testes nucleares franceses no Atol de Mururoa consumiu apenas 1% do orçamento anual da entidade para 1996.

O acionamento de ações espetaculares, de acordo com Roberto Kishianami, diretor executivo no Brasil, através da exposição de conflitos e de tornar manifesta a espetacularidade existente na realidade -  malgrado possíveis críticas ao não desenvolvimento de uma consciência ecológica e à ausência de participação das comunidades envolvidas -, permitiu, por exemplo, ao Greenpeace significativos resultados políticos em suas lutas pela preservação das baleias, contra o afundamento da plataforma da transnacional Shell no Mar do Norte e principalmente com o Acordo Internacional para Banimento dos Testes Nucleares, coroamento da luta mais antiga e inauguradora da entidade há 25 anos. Com se pode perceber a ação espetacular não desnutriu a política, antes foi agente potencializador eficaz de sua realização, em moldes atualíssimos.[5]

Como se assinalou anteriormente, os exemplos desta nova política inspirada na sociabilidade midiática não devem se deter em sua modalidade espetacular, por mais que esta seduza com sua visibilidade. Esta nova presença da relação mídia/política tem sido percebida em territórios nacionais como a Itália de Berlusconi, o Brasil de Collor e FHC e países latino-americanos como a Venezuela e mais recentemente a Colombia. [6]

O México igualmente tendo sido protagonista de um movimento exemplar pelos seus contrastes e potencialidades. Um movimento de "luta armada" e "libertação nacional", instalado em uma região "subdesenvolvida" de um país de "Terceiro Mundo", evocando "índios, camponeses e Emiliano Zapata" parece destinado a ser algo quixotesco e totalmente fora de moda. Mera ilusão como sugere Manuel Castells: "o exemplo dos zapatistas é impressionante: como um movimento nascido do fundo da miséria e da marginalização dos indígenas salta para o Internet e interatua diretamente com os integrantes dos diversos grupos de apoio internacional, com que conta o movimento".[7] Tem-se aqui apenas o lado mais visível da luta.

 

UMA GUERRILHA SUI GENERIS

A novidade da insurreição neo-zapatista começa em sua temporalidade "defasada". Em um tempo de queda do muro, fim do "socialismo real", declínio do marxismo e das guerrilhas por ele inspiradas emerge em 1 de janeiro de 1994 no estado de Chiapas (México) o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Mas a filiação do EZLN - inclusive histórica ao marxismo com a instalação no ano de 1983 em Chiapas de 12 guerrilheiros das Forças de Libertação Nacional - não impediu que ele se diferenciasse e se apresentasse "... como uma guerrilha inédita, tanto pela sua organização e táticas como pelas suas demandas, que não seguem a tradição marxista dos grupos guerrilheiros que floresceram na América Latina".[8]

Aliás o próprio sub-comandante Marcos - "codinome" escolhido em homenagem a de um guerrilheiro morto dez anos antes - ressalta a complexa definição ideológica dos neo-zapatistas: "Assim, quando me perguntam: ‘vocês são o que?, marxistas, leninistas, castristas, maoistas, o que? Não sei. Realmente não sei. Somos o produto de um híbrido, de um confronto, de um choque, em que, felizmente, creio eu, perdemos".[9]

A sociedade globalizada assiste ao fim da luta armada de verniz marxista e, simultaneamente, faz emergir novos conflitos, muitos deles armados. Estes movimentos - étnicos, de nacionalidades, religiosos, etc - indicam a admirável e perigosa emergência contemporânea do local em meio ao processo de globalização do mundo pós-muro. Uma inquietante e interessante revalorização de identidades localizadas torna-se outra das marcas da atualidade.

Parece assim ter sentido escrever que: "o EZLN talvez seja o primeiro grupo guerrilheiro da era da globalização".[10] Mas os neo-zapatistas rapidamente explodem tal prisão/localização. Em resposta às propostas do governo, eles afirmaram taxativamente: " Nenhum indígena nem camponês digno de Chiapas está disposto a tolerar que esse diálogo fique reduzido apenas a concessões para a região de Chiapas, em menosprezo dos direitos e interesses de todos nossos irmãos e irmãs indígenas, camponeses e grupos marginalizados da Nação toda...".[11] 

Em diversas outras ocasiões e através de suas reivindicações, o EZLN tem reafirmado seu caráter político abrangente. Exemplo típico desta postura aparece no comunicado acerca do 502   aniversário do descobrimento da América, no qual depois de se dizer contra "a raça e a linguagem do dinheiro", acrescenta: "pelos indígenas é que lutamos. Mas nem só por eles, também pelos camponeses sem terra, pelos assalariados rurais, pelos trabalhadores das cidades, pelas mulheres humilhadas, pelos velhos esquecidos, pelas crianças sem futuro, pelos desempregados, pelo professorado, pelos estudantes, pelas donas de casa, por todos os que têm a pobreza como presente e a dignidade como futuro".[12]

O ineditismo dos neo-zapatistas se alimentou ainda da forte reação da sociedade mexicana à instalação de uma possível espiral da violência em lugar da luta política. Todos os periódicos de México publicaram em seus editoriais uma nota de repúdio à violência.[13] Este (quase) consenso contra a violência não impediu que segmentos sociais significativos paulatinamente tivessem abertura para compreender a situação paradoxal que se instalava. O ensaísta José Carlos Castañeda expressou bem esta perplexidade: "Todos estamos de acordo em que a chamada via armada na luta contra as injustiças não é uma boa opção. Julgamos que a  violência é antidemocrática, e ao mesmo tempo estamos diante do paradoxo de que os atos violentos do Exército Zapatista de Liberação Nacional vem abrindo um caminho de transição do México para a democracia".[14]

Por duas vezes, pelo menos, as manifestações expressivas de parcelas significativas da sociedade civil e da mídia conseguiram barrar o conflito armado: em janeiro de 1994, logo no início do levante neo-zapatista e em fevereiro de 1995, quando o governo tentou uma escalada bélica contra os chefes, simpatizantes e os territórios sob controle do EZLN. No dia 19 de fevereiro, uma pesquisa de opinião realizada pelo jornal Reforma mostrava que 58% dos mexicanos estavam em desacordo com a atitude do presidente Ernesto Zedillo, 64% era a favor que o governo retirasse suas tropas do território rebelde e 71% se diziam favoráveis a negociações entre o governo e a guerrilha. Só 26% colocaram-se em defesa de uma atitude belicosa.[15]

Os neo-zapatistas reconhecem este papel da mídia e da sociedade civil: "Repetimos hoje o que sempre falamos: não foi nem a bondade e inteligência do governo superior, como estupidamente se vangloriou o governo federal, nem a habilidade política e a maturidade do Exército Zapatista de Liberação Nacional, como alguns analistas pretendem, as que abriram passo ao diálogo: foram a informação e a mobilização do povo mexicano, sem distinção de classe, raça, religião ou gênero, que fecharam momentaneamente as portas da guerra...” Ou ainda: “Informação verídica e mobilização civil conseguiram abortar (...) as tentativas de solução militar do conflito".[16]

Raúl Trejo Delarbre, na sua análise fortemente crítica - apesar de sua espinha dorsal equivocada - da cobertura da mídia sobre os acontecimentos de Chiapas, igualmente percebeu o cerne da atuação da mídia: " Os meios de comunicação cumpriram importantíssimo papel na promoção de uma consciência nacional contra uma solução armada do conflito em Chiapas. A preocupação social diante da eventualidade de uma solução de força apareceu resgatada e refletida nos meios de comunicação de massa. Foi essa uma das contribuições mais básicas dos meios e dos seus agentes...".[17]

O bloqueio da luta armada propiciou outra das características mais peculiares do EZLN: " Essa estranha guerrilha que levou 10 anos de preparação, 12 dias de combate e 2 anos de ação política desde posições de paz armada".[18] Em nenhum outro movimento guerrilheiro latino-americano a trégua durou muito mais tempo que a confrontação militar.[19] Deste modo, uma cronologia da existência do EZLN pode ser fixada nos seguintes números: 1983/dezembro de 1994 - implantação em Chiapas e preparação; 1 a 12 de janeiro de 1994 - insurreição armada; 12 de janeiro - cessar fogo; 12 de janeiro até hoje, com um pequeno lapso em fevereiro de 1995 - luta política e negociações em situação de paz armada.[20]

Este deslocamento dos lugares e modalidades de luta, dentre outros fatores potenciais, exigiu da guerrilha recolocar as relações entre atuação armada e política. Igor Fuser, no seu interessante livro México em transe, sustenta mesmo que: "A grande novidade do zapatismo é a maneira como o movimento relaciona a insurreição e a luta política legal".[21]

Diferentemente dos movimentos armados anteriores, os neo-zapatistas não acreditam de modo unilateral na força das armas. Marcos, em 1994, afirmou lapidar aos jornalistas: "Vemos a luta armada não no sentido clássico das guerrilhas anteriores, quer dizer, a luta armada como único caminho, como uma única verdade todo-poderosa em torno da qual se aglutinava tudo".[22]

Assim eles não propõem nenhuma apologia às armas, nem pretendem impor este caminho como único legitimo, sequer o mais adequado para muitos. Em um texto intitulado "Outras formas de luta", publicado na imprensa em 25 de janeiro de 1994, escrevem: "A nossa não é a única forma de luta, talvez para muitos seja a adequada. Existem outras, e de grande valor. A nossa organização não é a única, talvez nem seja a desejável para muitos. Existem, e de grande valor, outras organizações honestas, progressistas e independentes".[23]

Em verdade, o EZLN pensa que "... a mudança revolucionária no México não será produto da ação em uma só direção. Isto é, não será, estritamente, uma revolução armada ou uma revolução pacífica".[24] Antes, segundo eles, será uma combinatória de diversas formas de luta e agentes, de compromissos e participações necessariamente distintos, objetivando a constituição de um espaço público para resolução da confrontação de diversas propostas políticas, sendo premissas deste espaço a democracia, a justiça e a liberdade.

A luta armada, além de não ser o único modo de luta, deve estar subordinada à política. Marcos, neste sentido, enfatizou: " O decisivo em uma guerra não é o enfrentamento militar senão a política que nessa guerra entra em jogo...".[25] Em outro momento, o sub-comandante reafirmou que uma guerra não é uma questão de armas ou de grande número de homens armados, senão de política.[26]

Apesar do enraizamento dos neo-zapatistas entre os indígenas e camponeses de Chiapas, parece não haver dúvida, inclusive para eles mesmos, da disparidade militar entre as forças do exército federal e da guerrilha. A fragilidade do estado mexicano longe de ser militar, manifesta-se em seu desgaste político. Daí porque "... A  comunidade política nacional, em resumo, condicionou e anulou o uso legítimo da coação física que, caso fosse empregada, teria virado, paradoxal e fatalmente, ilegítima".[27] Sensível a esta fragilidade, o EZLN tem buscado sempre a destruição político-simbólica da legitimidade estatal. Esta perspectiva parece condizente com a observação de Manoel Castells: " Na atualidade, a luta política tem como centro destruir a credibilidade do inimigo".[28]

Mais que isto, o EZLN reconheceu que, como já assinalada anteriormente: "Para esta virada do conflito o decisivo não foi nem só a vontade política do Executivo federal, nem as gloriosas ações militares dos nossos combatentes. Decisivas foram as diversas manifestações públicas - nas ruas, nas montanhas, nos meios de comunicação - das mais diferentes organizações e pessoas honestas e independentes, que fazem parte da chamada sociedade civil mexicana".[29]

A sensibilidade neo-zapatista para aprender com as circunstâncias merece destaque nesta conjuntura. O EZLN, não só continuou seu enfrentamento com o poder político instituido, agora principalmente por meios políticos, como passou a considerar a sociedade civil e a mídia interlocutores políticos privilegiados.

Com relação à mídia, os neo-zapatistas enfatizaram a necessidade de contatar "meios de informação que digam a verdade" e a produção de amplo material para a imprensa.[30] Mais essencial que isto, eles parecem ter percebido a significação política da mídia. Indagado se os neo-zapatistas não fizeram uma guerra para a mídia, Marcos ponderou: " A gente viu nos meios de comunicação a possibilidade de abrir outro caminho...".[31]

A percepção da guerrilha não se circunscreve ao contexto mexicano, mas deriva mesmo do caráter da contemporaneidade. A importância da mídia para a guerra, por exemplo, tornou-se manifesta. Em inúmeras insurreições, as emissoras de televisão e rádio tornaram-se alvos imediatos a serem conquistados. Em situações bélicas, os adversários cada vez mais preocupam-se em fornecer material para a imprensa. Na recente guerra do Golfo, o Pentágono distribuiu imagens em todo o mundo. Entre os objetivos prioritários do EZLN no levante de janeiro estava a ocupação dos estúdios da rádio XEOCH, a mais importante da região. Por volta das cinco da manhã, eles colocaram no ar cosignas e comunicados em língua indígena (tzeltal), intercalados de música.

A instantaneidade na publicização dos conflitos, possibilitada pelas tecnologias midiáticas, transforma-se em arma estratégica nas guerras atuais, pois a surpresa, dentre outras potencialidades, sempre foi importante elemento tático. A desterritorialização inscrita na mídia, por sua vez, permite que o sub-comandante Marcos, com o EZLN cercado nas montanhas de Chiapas, esteja presente ao Zócalo, no centro da cidade do México, em imenso telão. " Milagres da tecnologia são capazes de romper todos os cercos".[32]

A instantaneidade e a desterritorialização iluminam o caráter complexo e compósito da sociabilidade atual: intrincada composição de convivências e televivências em permanente intercâmbio. Indicam também o acionamento de uma outra "guerra", simbólica. Esta " guerra de nosso tempo", que mobiliza corações e mentes, está " longe das nossas mortes reais, mas perto das consciências e amarguras dos habitantes da aldeia global (ou seja, dos telespectadores".[33] Ou como perspicazmente observou Mariclaire Acosta, presidente da Comissão Mexicana de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, acerca do conflito de Chiapas: "Esta é uma verdadeira guerra pós-moderna, no sentido de que a informação é a mais potente das munições".[34]

 

GUERRILHA MIDIÁTICA

A sensibilidade e a percepção da importância política da comunicação e da mídia expressa-se de muitas maneiras e em vários materiais dos neo-zapatistas. Eles, por exemplo, denunciam o aval político dado ao governo e ao partido no poder desde a Revolução Mexicana pelos monopólios de comunicação, bem como sua íntima convivência e troca de "favores".[35] Dentre estes "favores" destaca-se a instituição das concessões. " Seja para conseguir novas concessões, seja para não perder as atuais, os empresários da palavra, da imagem e do som, fecham fileiras em torno do PRI".[36] O desigual acesso à mídia (‘por assim dizer, à opinião pública’) durante as campanhas eleitorais - no México não existe nada próximo sequer ao horário eleitoral gratuito - também faz parte do elenco de denúncias do EZLN no referente ao enlace da comunicação e da política mexicanas.

Este despudorado uso político da comunicação tem, em diversas conjunturas, repercussões significativas sobre a população. Escrevendo sobre o período pós-eleitoral, os neo-zapatistas afirmaram que os governantes: "...aproveitam o aturdimento, a impotência e a frustração que a manipulação dos meios de comunicação produziram no povo. Repetir uma mentira, afirmá-la uma e outra vez, até ela, pela magia da imagem e do som, ficar parecida com uma verdade.[37]

A operação política dos meios acontece igualmente no contexto de levante armado. " Hoje o governo superior tenta nos amedrontar e nos ameaça com dezenas de milhares de soldados, com seus tanques e seus aviões, com suas bombas, com seus jornais, televisões e rádios".[38]

No estudo realizado por Raúl Delarbre acerca da cobertura dos acontecimentos de janeiro e fevereiro de 1994 pode-se constatar o contraste entre comportamento dos meios de produção e difusão simbólicas. Enquanto a concorrência existente entre os jornais e revistas garantiu uma cobertura pluralista, o monopólio dos meios eletrônicos praticamente silenciou o conflito. Nas palavras de Delarbre: "Não houve guerra ou ficou minimizada na TV, mas os mexicanos procurávamos toda noite as informações sobre um conflito que sabíamos ou adivinhávamos maquiado para sua apresentação nas emissoras, mas que desejávamos ver em imagens e a toda cor".[39]

O monopólio da Televisa - que além de ter a maior audiência, controla as quatro principais redes do país e portanto concentra poder de modo anti-democrático -  permitiu negar existência social ao conflito.[40] Isto é, torná-lo público e, por conseguinte, existente, porque compartilhado pela população mexicana. Aliás, pesquisa realizada pelo jornal Reforma confirmou a ampla predominância da televisão como principal mídia acionada pelos mexicanos, inclusive para se informar sobre o conflito de Chiapas. Dos entrevistados 82% se informavam pela televisão, 34% pela imprensa escrita, 32% pelo rádio e 7% em conversas com parentes e amigos.[41]

Como o campo da mídia, na sociedade contemporânea, detém de modo crescente o poder de conferir ou negar existência social, publicizando ou silenciando acontecimentos e atores, seu espaço virtual transforma-se em uma das arenas essenciais da luta política na atualidade. As estratégias elaboradas para este embate midiático tornam-se assim imprescindíveis.[42]

A guerra de Chiapas, cujos combates se realizaram talvez mais nas páginas e telas que nas selvas, sem dúvida, está inscrita no interior desta lógica contemporânea. Cabia aos neo-zapatistas ocupar posições neste embate e eles souberam fazê-lo. Delarbre, em seu insuspeito estudo, porque não perfilado com os guerrilheiros, escreveu: " Existia uma vocação do EZLN, com habilidades específicas, para sustentar a guerra de Chiapas através dos meios de comunicação".[43]

A sensibilidade dos neo-zapatistas não se esgota na percepção e denúncia do uso político da mídia pelos dominantes, mas possibilita uma visão aberta e atualizada acerca da indispensável operação com a mídia. Esta sensibilidade foi anotada por vários escritores e jornalistas. O escritor Julián Andrade Jardí escreveu: " Quem entendeu curiosamente o poder e a efetividade dos meios de comunicação - para além da objetividade - foi o comandante Marcos".[44] Delarbre também observou: "A presença iconográfica e documental de Marcos não é resultado casual. Ele, independentemente da sua verdadeira origem, tem o manuseio intencional dos meios de comunicação próprio de quem está por dentro".[45]

A sintonia fina com os meios transforma-se em certa capacidade organizativa. Depois de receber um comunicado por fax do EZLN, o radialista José Gutiérrez Vivó comentou: "Os senhores deste exército estão bastante organizados em matéria de comunicação". A cerimonia de libertação do general Absalón Castellanos, preso pelos neo-zapatistas, exigiu a instalação de antenas parabólicas para sua transmissão ao vivo desde a selva Lacandona”.[46]

A aparência de pré-modernidade, configurada, por exemplo, na situação de miséria de Chiapas, na sua denúncia pelo EZLN através de um discurso carregado de figuras ancestrais e no seu armamento, por vezes, rústico e rudimentar, contrasta com este acionamento atualíssimo de tecnologias de comunicação, o qual dá aos neo-zapatistas "... uma notável capacidade propagandística que lhe permitia alçar-se como interlocutor dos principais meios de comunicação dentro e fora do México ".[47] Não por acaso, parte da mídia intenta reduzir as novidades e inclusive os equívocos da guerrilha e "compreendê-la" através do mote "poucas armas e muito marketing".[48]

Recorrer a expressão "marketing" para nomear toda a complexa e, às vezes, polêmica intervenção do EZLN no campo das comunicações constitui-se, no mínimo, uma operação empobrecedora e inadequada a um movimento que, saído do coração da selva, tem conseguido colocar seus comunicados e proposições no centro do debate político mexicano, ou, em outra hipótese, mero preconceito com intervenções que objetivem fazer o movimento habitar a dimensão pública, engendrada pelos meios. Televivência, como foi constatada, essencial para a realização da política na atualidade.

Certamente os neo-zapatistas têm uma deliberada intenção de, ao publicizar amplamente suas ações e convicções, freqüentar esta dimensão de televivência, fundamental para a sociabilidade hoje. Esta "política de dar a connhcer claramente suas posições ao povo mexicano" aparece enfatizada em diversos comunicados do EZLN e encontra-se ressaltada por estudiosos. Como observou Raúl Delarbre: " Mesmo os dirigentes desse grupo tiveram particular cuidado de propagar suas exigências, e sua própria existência, através dos meios de comunicação mexicanos e também estrangeiros.[49]  Tornar a política uma atividade cada vez mais pública, além de intentar democratizá-la por sua ampliação social, também parece ter uma relação íntima como a nova concepção de política reivindicada pelo EZLN, a qual obedece a lógica de confronto com uma política restrita aos conchavos da elite e de “políticos profissionais”.

O ato de publicizar suas convicções e ações integra-se a uma dialéctica de luta na mídia por ocupação do espaço virtual expressa através de uma formulação de tom missionário do Comitê Clandestino Revolucinário Indígena - Comando Geral do EZLN: " Precisa que digamos nossa palavra e que os outros a escutem. Se não o fizermos já, outros tomarão nossa voz e a mentira , sem a gente querer, sairá da nossa boca”.[50]

Esta determinação, de sonoridade quase ancestral, dirigida ao sub-comandante Marcos, realiza-se em vocação cosmopolita e contemporânea: “ao menos para saber aproveitar espaços na imprensa  e na televisão de todo o mundo”.[51]  Ancestralidade e (pós)modernidade encontram-se, outra vez, em combinatória algo surpreendente e eficaz.

A política de publicização e de ocupação do espaço virtual traduz-se em uma política de meios e de imprensa, por diversas vezes referida nos documentos do EZLN.  Em junho de 1994, por exemplo, em um dos proliferantes comunicados neo-zapatistas está escrito: “O CCRI-CG do EZLN agradece a todos os meios de comunicação honestos e independentes sob empenho em conhecer a verdade e em dá-la a conhecer ao povo mexicano sem  se importar com  ameaças, prisões e chantagens.  Pedimos desculpas públicas se, em nossa torpe política de meios, os ferimos ou desconfiamos de seu profissionalismo.  Esperamos que compreendam que nunca antes havíamos feito uma revolução e que estamos aprendendo”.[52]

Certamente os neo-zapatistas não dispõem de um verdadeiro “departamento de prensa”, como indicado em um comunicado de 5 de janeiro de 1994, menção logo depois sempre esquecida.[53]  Mas sua inexistência não tem impedido o estabelecimentos de uma relação privilegiada entre a guerrilha e a imprensa.  Tal relação alimenta-se em boa medida da compulsão epistolar de Marcos, desenvolvida desde os tempos de preparação quando ele era solicitado a escrever cartas para noivas de companheiros do movimento analfabetos.[54]  De janeiro de 1994 até setembro de 1995, somente computando os comunicados e documentos neo-zapatistas, a imprensa mexicana publicou por volta de 250 materiais enviados pelo EZLN, reunidos depois em dois livros de 800 páginas aproximadamente.  Se se acrescentar entrevistas, notícias, reportagens, colunas, artigos etc. acerca dos guerrilheiros têm-se um universo invejável de espaço conquistado na imprensa escrita pelo rebeldes.

Em sua política de imprensa, o EZLN diz buscar uma democratização das oportunidades dos meios.  Em suas próprias palavras: “...nós preferimos que a democracia e a igualdade de oportunidades sejam também para todos os meios de comunicação e  não só para os poderosos”.[55]  Esta postura geral, no entanto, não impede que o EZLN, em várias situações, tenha imposto restrições ao transito da imprensa, em momentos que eles consideravam perigosos, devido a combates, ameaças de retorno do conflito armado ou até sua segurança enquanto grupo guerrilheiro.

Também não tem impedido que os neo-zapatistas, em determinadas circunstâncias, selecionem ou imponham limites a alguns meios de produção e divulgação de bens simbólicos. Quando do inicio das negociações em fevereiro 1994, por exemplo, a guerrilha publicou um comunicado-convite aos meios para cobrir o diálogo com o governo.  Em um trecho do documento pode-se ler o seguinte: “Portanto, o CCRI-CG do EZLN declara que toda a imprensa escrita, sem importar filiação política, partidária ou orientação ideológica, pode, por parte do EZLN, cobrir o evento do diálogo pela paz e a reconciliação.  Quanto aos meios televisivos, o EZLN só vetaria a assistência das televisões privadas nacionais Televisa e Televisão Azteca.  A primeira porque não necessita buscar notícias, pois as inventa e maquia a seu gosto e  conveniência.  A segunda porque seus repórteres  têm demonstrado falta de profissionalismo ao oferecer dinheiro a nossos combatentes para que façam declarações.  O resto dos meios televisivos nacionais e estrangeiros serão creditados sem problema pelo EZLN”.[56]

Um outro texto, voltado especificamente para a questão da imprensa, Marcos esclarece que os neo-zapatistas acreditam naqueles meios, “...cujo afã de saber a verdade do que se passa seja maior que o medo dos riscos de encontrá-la”.[57]  Mas este relacionamento aparentemente tão bem formulado, queda-se, por vezes, capturado por uma sedução narcisista de aparecer através da imprensa.  Delarbre relata um destes casos: “O maior Mario se dedicou a dar entrevistas a quantos pôs em sua frente e a posar para as câmaras de quantos fotógrafos  cruzaram em seu caminho”.[58]

 

ATUAÇÃO MIDIATICA

Para publicizar suas atitudes e opiniões Marcos e o EZLN têm utilizado os mais diferenciados meios e nesta compulsão midiática, sem dúvida, são ajudados pelos inúmeros materiais que se debruçam sobre o tema neo-zapatista.  Com vídeos invade-se o Zócalo e as telas, em quantidade já impresionante.  Em um artigo intitulado “O zapatismo em cinta magnética”, publicado na revista Nexos de janeiro de 1995, Naief Yehya faz um balanço dos mais de dez vídeos produzidos em um ano acerca do tema.[59]  Neste número, Nexos, através de várias resenhas avalia pelo menos seis livros já publicados sobre o conflito e anuncia outros mais.  Acionando a Internet, invade-se o cyberspace.  Cartuns e até romance de autor italiano fazem hoje parte do baú temático neo-zapatista.  O jornal La Jornada, com sua cobertura simpática aos guerrilheiros dobra sua tiragem, hoje a maior do México.[60]

O veículo televisão, apesar dos limites impostos pelo maior controle monopolista, sofre alguma invasão do Exército Zapatista.  Marcos aparece em várias televisões estrangeiras, dando entrevistas, inclusive na cadeia CBS americana, falando em inglês.[61]  Na reportagem-entrevista, “Marcos busca cuidar de sua imagem e formular respostas atrativas para um público estrangeiro”.[62]

Mesmo a televisão mexicana, em algumas oportunidades, tem seus espaços ocupados pelos movimentos ágeis dos neo-zapatistas.  No início do levante foi a surpresa e inusitado da guerra que abriram amplos espaços na televisão e na imprensa em geral, nacional ou estrangeira.[63]  Estes demorados espaços iniciais devem ter se convertido em uma armadilha para o intentado silenciamento posterior, pois terminam por agenciar o tema e definir a pauta vigente na “ecologia” dos meios.  Um segundo momento de invasão do espaço televisivo acontece no dia do início do diálogo, quando: “Em transmissão ao vivo pela TV, em horário nobre, um indígena de um metro e meio de altura agarra um microfone e lê, para todo o território nacional, um manifesto contra o governo.  O título do manifesto tem a marca inconfundível do subcomandante Marcos: ‘Para todos, tudo; nada para nós”.[64]

Este agendamento, em plano internacional, pode ser medido de modo aproximado, recorrendo-se a alguns dados contidas no estudo de Maria Nazareth Ferreira acerca da cobertura da imprensa internacional destinada à América Latina.  No noticiário italiano, o México estava em quarto lugar, com 89 notícias, sendo 73% delas dedicadas ao conflito de Chiapas e seus protagonistas.  Se se considera que o ano de 1994 foi, dentre outras coisas, ano das eleições presidenciais no México, pode-se ter uma idéia desta repercussão.[65]

A ressonância neo-zapatista não tem sua origem e determinantes apenas no senso de oportunidade e timing.  As modalidades não convencionais de atuação midiática também têm sua responsabilidade pelo acesso e presença dos guerrilheiros nas imagens, sons e páginas da mídia.  Aliás a articulação de elementos imagéticos e narrativos desempenha significativo lugar na configuração destas modalidades de atuação.[66]

A simbologia do EZLN tem se ancorado principalmente nas imagens, largamente divulgadas pela imprensa mundial, das máscaras de cor negra que cobrem toda cabeça com exceção dos olhos ("pasamontañas"), semelhantes às utilizadas pelos esquiadores, e dos lenços sobre o nariz e a boca ("paliacates"), como se fossem bandidos do "faroeste". Em um lugar secundário e costumeiro aparece o outro elemento componente da simbólica dos neo-zapatistas: sua bandeira vermelha e preta com um estrela.

Em um trecho do comunicado intitulado "As setes com que o comandante Tacho entrega a Marcos, em nome do CCRI, o bastão de comando no aniversário do EZLN", os neo-zapatistas atribuem sentido a sua bandeira: "Nesta estrela de cinco pontas vai a figura do ser humano: a cabeça, as mãos e os dois pés, o coração vermelho que une as cinco partes e as faz una. Somos seres humanos e isso quer dizer que temos dignidade. Esta é a bandeira da dignidade. Recorda sempre que nossa luta é pelo homem".[67]

Os "pasamontañas" e os "paliates" têm seguramente a finalidade de proteger os neo-zapatistas da repressão, pois muitos deles vivenciam a guerrilha e transitam a qualquer momento desta atividade para a vida cotidiana em suas comunidades indígenas. Sem rostos, eles podem manter esta permanente troca de identidades que certamente desorienta as forças de repressão. Eles mesmos compartilham desta explicação: "O uso do pasamontañas e outros meios para ocultar nosso rosto obedece a elementares medidas de seguridade e como vacina contra o caudilismo".[68]

Para além da segurança, os "pasamontañas" e os "paliates" adquirem já outras finalidades. O negro do "pasamontañas" evoca "o do tição apagado do fogo, do fogo que termina e do que apenas se inicia".[69]

O próprio sub-comandante Marcos, cujo "pasamontañas" tem propiciado amplos jogos e polêmicas mesmo depois da suposta descoberta de sua identidade pelo governo mexicano, escreveu com ironia e humor: "Não sei quantos argumentos diferentes e contraditórios foram dados sobre o uso de pasamontañas. Agora recordo: o frio, a segurança, o anti-caudilismo (paradoxalmente), a homenagem ao deus negro do velho Antonio, a diferença estética, a feiura vergonhosa. Provavelmente nenhum dos argumentos seja verdade. O caso é que, agora, o pasamontañas é um símbolo de rebeldia. Apenas ontem, era um símbolo de criminalidade ou terrorismo.  Por quê? Certamente não porque nós nos tenhamos proposto".[70]

O "pasamontañas", principalmente, e os "paliates" transformaram-se de tal modo símbolos da guerrilha neo-zapatista, que tornou-se impossível concebê-la sem eles. Sua identidade está irremediavelmente colada e expressa nestes símbolos. Ou como se observou sobre o sub-comandante: "Marcos sem pasamontañas não é admissível, não é fotografável, não é a legenda viva".[71] Idêntida assertiva vale, sem tirar nem por, para o EZLN.

Por mais marcantes que sejam as imagens neo-zapatistas dos “pasamontañas” e dos “paliates”, elas não esgotam o arsenal acionado pela guerrilha midiática.  O EZLN e Marcos, em particular, transitam com desenvoltura em espaços midiáticos inesperados, como, por exemplo, os cartuns ou o video-clip.[72]

Criações surpreendentes marcam igualmente a guerrilha midiática plasmada nas montanhas de Chiapas.  Em 8 de agosto de 1995, o EZLN utilizou mais um artifício midiático para publicizar sua política, se colocar na cena política mexicana e agendar a mídia.  Em vários telões na capital e em San Cristobal de Las Casas, em cinema e em televisão, foi exibido um vídeo, em duas versões (uma com 30 minutos e outro mais longo, com 80 minutos), no qual o encapuzado Marcos conversa com um simpático besouro chamado Durito.  Marcos - que se diz escudeiro de Dom Durito, como Sancho Pança era de Dom Quixote - funciona  como uma espécie de tradutor dos sonhos do besouro, interlocutor de conversas sobre temas como neo-liberalismo, propostas de EZLN, etc.  Durito convoca todos os mexicanos - “homens, mulheres e gays”, com ele diz - para participar de um plebiscito (consulta) realizado pelos neo-zapatistas.  Outro personagem também produzido pela imaginação dos rebeldes tem o nome de Chibó: uma aranha que representa o tentacular sistema de Estado mexicano.  O vídeo se intitula “A Consulta Nacional pela paz e democracia”.[73]

Cartuns, vídeo clip, criação de “astros” etc aparecem como dispositivos midiáticos acionados para transitar na televivência, engendrada pela atual sociabilidade, e realizar a política nesta dimensão.

As narrativas escritas aparecem impregnadas de novidade e tradição.  A figura mítico-real do Velho Antonio torna-se um personagem presente em vários textos do EZLN.  Através dele transmitem-se lições e lendas.  Nele está estocada a sabedoria de tradição indígena, sempre reivindicada e valorada nos escritos neo-zapatistas.  Em um pós-escrito do comunicado “os zapatistas não se rendem”, Marcos, porta-voz do EZLN, relata: “No Comitê estivemos discutindo toda a tarde.  Buscamos a palavra na língua para dizer ‘RENDER-SE’ e não a encontramos.  Não tem tradução em tzotzil nem em tzeltal, ninguém recorda que a palavra exista em tojolabal ou em chol.  Levam horas buscando equivalentes (...)  Em silêncio se aproxima o velho Antonio, tossindo a tuberculose, e me disse ao ouvido: ‘Essa palavra não existe em língua verdadeira, por isso os nossos nunca se rendem e melhor que morram, porque nossos mortos mandam que as palavras que não andam não sejam  vividas.’  Depois se faz o fogo para espantar o medo e o frío.  Conto a Ana Maria, ela me olha com ternura e me recorda que o velho Antonio já está morto...” .[74]

O recurso as tradições procura reforçar a auto-estima indígena, base social “original” do EZLN, reinventar a história mexicana, criar uma cultura política neo-zapatista e legitimar a guerrilha.  A busca da “...palavra nova que é velha” encontra admirável exemplo na reinterpretação da lenda maia dos homens de milho.  Novamente Marcos emerge como narrador: “me contou o velho Antonio que as  pessoas de ouro eram os ricos, os de pele branca, e que as pessoas de madeira  eram os pobres, os de pele morena, que trabalham para os ricos e os carregavam sempre e que as pessoas de ouro e as pessoas de madeira esperam a chegada das pessoas de milho, as primeiras com medo e as segundas com esperança.  Perguntei ao velho Antonio de que cor era a pele das pessoas de milho e ele me ensinou vários tipos de milho, de cores diversas, e me disse que eram de todas as peles, mas ninguém sabia bem, porque as pessoas de milho, os homens e mulheres verdadeiros, não tinham rosto...”.[75]

As narrativas mítico-ancestrais - citadas longamente para deixar sentir seu sabor  e sua sabedoria primordial - combinam-se de maneira desconcertante com um frescor antisolene, insolente mesmo, de uma linguagem perpassada pelo recurso do humor, de irreverência e da ironia.  Rápido exemplo: no comunicado escrito à Ernesto Zedillo, no momento de sua posse como novo presidente mexicano, aparece escrito “Benvindo ao pesadelo”.[76]

Esta linguagem, habitada pela tradição, torna-se nova ao romper com outras tradições, aquelas referentes a uma esquerda estatísta ou fundamentalista.  Ela “...não fala do imperialismo yanque ou da burguesia, não aborrece com essa cantinela, suas palavras são novas, são jovens, avançam”.[77]

A diferença não se circunscreve às fronteiras da política de esquerda.  O escritor Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura de 1990, crítico feroz do EZLN, reconhece méritos ao estilo de seu porta-voz e o distingue da retórica política tradicional: “A linguagem dos líderes do PRI é uma linguagem de funcionários (...); o sub-comandante Marcos, ainda que desigual e cheio de subidas e caídas como tobogam de montanha russa, é imaginativo e vivaz...”.[78]  Outro famoso escritor, o peruano Vargas Llosa, insuspeito de alinhamentos à esquerda, “...chegou a comparar os arrazoados duritianos com os de William Shakespeare.  Coisas de escritores pós-modernos”.[79]

Acionar e transitar intensamente na mídia, exigências políticas da contemporaneidade, apresentam inúmeros e imensos riscos.  O estar no ar, com sua acelerada e voraz lógica de atualização e novidades, pode descolar o movimento de sua terra firme.  Este deslocamento entre a selva, a montanha, a comunidade, a praça, a rua; enfim o mundo da convivência e a tela, com sua “vivência” à distância, pode ser fatal, pois torna a intervenção política na mídia sem substrato e, por conseguinte, presa frágil do devorador aparato sócio-tecnológico do campo da mídia”.[80]

Outro risco chama-se personalização.  Ela se alimenta da convergência no México de dois processos supranacionais.  A tendência à personalização da política induzida pela lógica narcísica da mídia, considerada por alguns autores como irreversível, em decorrência da batalha política que ocorre entre os meios.[81]  A outra tendência, de dimensão geográfica mais delimitada, provém da tradição caudilhesca da política latino-americana.

Relembrando esta tradição, José Blanco, em seu artigo “Caudillos y Democracia”, considera que: “...o subcomandante é um caudilho de recente fatura”.[82]  Raúl Delarbre atribui às limitações da cultura política mexicana a popularidade entre mística e milenarista do “caudilhismo mascarado”.[83]

Para este autor já não se trata de um risco, mas efetivamente de um dado dilacerador do movimento guerrilheiro.  Dentro de uma postura altamente crítica ao EZLN e, em especial, a Marcos, Delarbre escreve: “Apesar da variedade de significados e incluse de discursos nos versáteis comunicados e nos assíduos comparecimentos midiáticos do subcomandante Marcos, não deixam de chamar a atenção duas vertentes nas mensagens do EZLN.  Por um lado, se encontram as demandas, as urgências e até as misérias dos camponeses indígenas que estariam constituindo as bases do grupo armado.  Por outro, se encontra o líder, um só, que se destaca notavelmente  dentro do grupo dirigente, de tal sorte que pode ser identificado como algo mais que porta-voz. O   ‘pasamontañas’  de Marcos adquire uma definição, uma notoriedade, mais intensa que os ‘paliacates’ dos camponeses indígenas.”[84]

A crucial questão que emerge diz sentido não à existência de diferenciações, inevitáveis em uma sociedade tão desigual, mas aos graus de ruptura e às articulações em curso com a finalidade de encontrar um ponto de equilíbrio que permita manter a integridade e a força do movimento.  Com os dados disponíveis hoje parece improvável fazer um minucioso e rigoroso olhar incidir sobre o problema de modo a iluminá-lo satisfatoriamente.  A prudência nesta situação sugere apenas afirmar o risco como aquele de mais perigoso potencial, dentre os muitos existentes.

Na contramão destes riscos, trafegam constatações que indicam ou possibilitam a realização do político.  A criação de alternativas políticas para a nação e a não submissão a uma agenda política neo-liberal, hegemônica na mídia mexicana e internacional, apontam neste sentido.[85]

A crença e a efetividade da atribuição de sentidos aos símbolos, se usados no momento oportuno e com a formatação e ênfase adequados, parece subtrair forças ao processo de evaporação de sentidos e valores da atualidade.  Sobre Marcos foi escrito: “Com Marcos o simbólico, tão acossado pela pós-modernidade, cobra para muitíssimos o sentido transparente de que alguma vez dispôs”.[86]

Afirmar os sentidos do simbólico e uma possível positividade e dignidade de política tornam-se veios de manutenção e alargamento de intervenção pacífico-militar dos neo-zapatistas.  Consignas enfaticamante publicizadas como “Democracia, Justiça e Liberdade”, que adquirem concretude, e outras inauguradas pelo EZLN - “Para todos tudo, nada para nós” e “Governar, obedecendo” - atingem o alvo composto de problemas ético-políticos essenciais da atualidade: a corrupção e a representação, os quais retiram credibilidade e dignidade à política.  Respeitar o bem público e ser dirigido pelos interesses públicos dos cidadãos devem ser meios de reinventar as possibilidades do “bom governo”, horizonte almejado pela reforma política pleiteada pelos neo-zapatistas, que aposta na sociedade civil, no desmantelamento do sistema mexicano de indissociabilidade Estado/partido (PRI) e na democracia.

Para conquistar e aprofundar a democracia não cabe apenas travar a guerrilha “virtual” e “real” - ou seja, articulada nas dimensões de convivência e televivência da atualidade -, mas trata-se de, para além de mera utilização instrumental, compreender as essenciais conexões hoje existentes entre processo de democratização da sociedade e da comunicação e informação.

O EZLN tem formulações perspicazes acerca desta temática.  Em sua proposta para o programa da Convenção Nacional Democrática, articulação política plural incentivada pelos neo-zapatistas, eles sugerem: “O direito à informação, livre e sem contrapontos, que inclua  todos os meios de comunicação e os coloque a serviço da maioria e os obrigue a fazer da verdade seu maior compromisso”.[87]

Na fase inicial das negociações com o governo, só recentemente concluída, a primeira mesa de diálogo era constituída por seis grupos de trabalhos, um deles nomeava-se “Aceso a Los Medios de Comunicación.”  As proposições levadas pelo EZLN são abrangentes e específicas, complexas e simples, enfim, surpreendentes por sua envergadura e consistência.  O enlace entre comunicação e cultura aparece insistentemente lembrado, assim como seu imbricamento com a democraticação.  Os exemplos podem ser múltiplos: “Exigimos garantir o acesso à informação e o direito à livre expressão.  Ele implica garantir o diálogo intercultural.  É direito da sociedade nacional ter acesso às vozes de todos aqueles que a integram.  É direito da sociedade comunicar-se tanto com o mundo exterior como com o interior”.  Para isto ser alcançado, eles consideram”... indispensável a democratização dos  meios de comunicação e das instâncias de decisão que os regem.”[88] A formulação efetiva de um programa para a política de comunicação enriquece, sem mais, a atuação midiática da guerrilha.

 

POLÍTICA MIDIATIZADA

A inscrição da política nas telas e páginas e a formulação de propostas de políticas não esgotam as articulações entre mídia e política no mundo atual.  A política se faz de outros atos que, pelo menos em sua origem, aparecem como exteriores ao espaço midiático.  Estes atos, respondem a demandas de lugares sociais outros, mas podem em um momento subseqüente transitar na mídia, sob a modalidade de notícias ou traduzidos em outras conformações (editoriais, artigos, colunas etc.).

A percepção das marcas distintivas da sociabilidade contemporânea, em especial seu inusitado amálgama de convivência e televivência, tem possibilitado a inauguração de uma nova modalidade de conceber estes atos públicos, instalados em lugares convivenciados, em sintonia fina com esta compósita sociabilidade, desde seu momento de concepção mesma.  Pensadas nesta perspectiva, os atos não adquirem sentido apenas por seus efeitos políticos imediatos no espaço circunscrito de um lugar de convivências, mas intencionalmente calculam e tentam agregar a este sentido primeiro um outro produzido pelo acesso e transito buscados do ato, traduzido em linguagem, na mídia.  O sentido global deste ato resulta, por conseguinte, da síntese entre efeito primário e efeito de mídia.  Tal procedimento, cada dia mais presente, ainda que muitas vezes efetivado de modo intuitivo, poderia ser nomeado como “midiatização de política”.

Os guerrilheiros neo-zapatistas, em sua sintonia com o lugar e o global, não desconhecem tal procedimento.  Mais uma vez recorre-se às palavras de Raúl Delarbre: “Talvez ninguém haja reconhecido com maior claridade um dos rasgos predominantes nos gestos e nos textos de Marcos, que, para fazer política, tem feito espetáculo. O ‘pasamontañas’ pode ter razões de discreção e até climatológicas como em algum momento se pensou, porém suas consequências foram notáveis e eficazmente propagandísticas.  Cada gesto, cada frase, pareciam estar calculados não só em seus significados revolucionários senão, fundamentalmente, no efeito que causariam nos meios de comunicação.”[89]  Malgrado o olhar insensível às exigências da sociabilidade atual, tomadas de modo sempre negativo, através do recurso à noção de espetáculo, o trecho percebe o “efeito de mídia” pretendido pelo ELZN e seu porta-voz.

O caráter intencional da intervenção político-midiatizada de Marcos e companheiros aparece outras vezes demasiadamente radicalizada.  Guilhermo Ochoa, radialista, comentou: “Os comunicados do subcomandante Marcos revelam um homem que maneja perfeitamente o idioma.  Às  vezes dramático, em ocasiões seco, em outras  poético e quase sempre com sentido do humor.  Não parece haver nada casual nas suas palavras.  É evidente que  ele e a sua equipe estão a par de todos os meios informativos e realizam uma análise completa  de conteúdo antes de qualquer nova comunicação.” [90]

De imediato, a investigação deve se locomover para os já lembrados “atos espetaculares”, pois neles estariam inscritos, presume-se, mais facilmente, os “efeitos de mídia”.  Não há estranhamentos entre estes atos e os neo-zapatistas.  Marcos, em entrevista, ao falar do levante de 1 de janeiro, disse:  “Necessitávamos uma ação espectacular...”[91]  Em um texto retrospectivo, o EZLN, referindo-se à tomada de cidades e ao posterior regresso planejado de suas tropas entre 2 e 6 de janeiro às montanhas, afirma ter cumprido “...o objetivo de dar a conhecer ao povo do México e aos  povos do mundo as justas causas que animaram nosso andar de fogo...”[92] A publicização da existência do movimento - seus determinantes e reivindicações - foi, em suma, o objetivo de ação político-militar de ocupar espetacular e temporariamente cidades.

Outra ação espetacular, que facilmente adquire destaque dentre o turbilhão de iniciativas neo-zapatistas, passou a ser conhecida como Aguascalientes.  Em verdade, o EZLN convocou e organizou de 6 a 9 de agosto, duas semanas antes de eleição presidencial mexicana, a Convenção Nacional Democrática, ampla e plural reunião de seis mil convidados de centenas de entidades da sociedade civil, personalidades - como os escritores Carlos Fuentes e Elena Poniatowska, partidos e lideranças políticas - como Cuauhtémoc Cárdenas, então candidato à presidência pelo PRD.

A convenção exigiu para a sua realização a construção de uma formidável infra-estrutura em uma clareira aberta na selva.  Foram, conforme os neo-zapatistas, 28 dias de trabalho, 14 horas diárias, 600 homens e mulheres trabalhando por hora, 60 milhões de pesos velhos gastos para a construção em território dominado pela guerrilha, nas proximidades de Guadalupe Tepeyac, de uma biblioteca, 20 alojamentos, 14 fogões comunitários, estacionamento para 100 veículos e um enorme anfiteatro ao ar livre, com uma tribuna de honra em forma de barco.  O local foi nomeado Aguascalientes, em homenagem à cidade que sediou a Convenção Constituinte de 1914, acontecida na Revolução Mexicana.  Nesta Convenção os zapatistas originais eram a força dominante.

Aguascalientes - como disse Marcos em seu discurso na Convenção - representa “...a Arca de Noé, a Torre de Babel, o barco selvático de Fizcarraldo, o delírio do neo-zapatismo, o navio pirata”.  O EZLN participou do encontro com 20 delegados com direito a voto e não aceitou presidí-lo, pois “...Ésta é a convenção da busca pacífica da mudança, não deve de  maneira alguna ser presidida por gente armada.”[93]

Com a realização de fantástica Convenção, o EZLN buscava efetivar diversos objetivos conectados.  A Convenção tentava criar um clima de diálogo no interior da sociedade mexicana, em especial da sociedade civil, visando colocá-la como sujeito privilegiado das transformações democráticas pela via pacífica no México.  Com sua realização, os neo-zapatistas deslocavam o eixo de seu diálogo, buscando um novo e prioritário interlocutor, pois pouco antes tinham decidido suspender as negociações com o governo, mas não reiniciar a guerra.[94]

A Convenção serviu para superar o relativo isolamento e silêncio sobre os neo-zapatistas decorrentes do avanço do processo eleitoral, que tomava conta da agenda político nacional, ao tempo em que os reintroduziu nesta agenda, demonstrando sua força social e sua capacidade político-moral e organizativa na política mexicana.

Fica nítido então que estas ações espetaculares - a invasão das cidades em 1 de janeiro e a Convenção de Aguascalientes - longe de se esgotarem ao assumirem o papel de condutores de forte “efeito de mídia”, elas desencadearam processos sóciopolíticos que passaram a perpassar a sociabilidade mexicana e sua história.  As ações espetaculares não se esvaíram ante um foco de luz midiático, brilhante e momentâneo.

A busca de inscrever os atos e falas políticos simultaneamente nas dimensões sociais de convivência e televivência não se circunscreve às ações espetaculares, antes transpassam inúmeras intervenções neo-zapatistas.  Já foi lembrado que, ao libertar o general e ex-governador de Chiapas Absalón Castellanos, o EZLN preparou toda uma cerimônia, transmitida da selva por antenas parabólicas especialmente instaladas com esta finalidade.

A continuada produção de falas e atos políticos objetiva criar alternativas políticas, mobilizar e organizar permanentemente militantes, simpatizantes e sociedade civil e manter o EZLN habitando o espaço virtual da sociedade, publicizando sua presença e demandas.  As comemorações dos aniversários do levante de janeiro e da formação do EZLN, a realização de comícios e manifestações em datas significativas (descobrimento de América, morte de Zapata, Primeiro de Maio, etc.), a organização de encontros, a exemplo do Fórum Nacional Indígena, dentre outros, fazem parte de uma política de presença e ocupação de espaços sócio-políticos, inclusive virtuais.

A incorporação da mídia como componente político essencial hoje não acontece somente pela via de produção de “efeito de mídia”.  A imaginação e abertura neo-zapatistas presentificam-se em novos modos de fazer política.  Durante o processo de negociação com o governo, a população foi chamada a opinar sobre os possíveis pontos de acordo nas mesas de sociedade civil através da resposta de questionários, da elaboração de textos livres - também para entidades - e de debates.[95]  Em um balanço, efetuado em junho de 1994, acerca de uma destas rodadas de negociação foram ouvidas 64.712 opiniões provenientes de variados segmentos sociais (48% de indígenas e camponeses; 37% ligados ao setor popular; 6% de operários e empregados; 3% de mexicanos no exterior; 2% de meninos e também de partidos políticos; 1,9% de artistas e intelectuais; etc) e diversas localidades de todo o México (com o predomínio dos estados do Sul, Sudeste e Península de Yucatán - 40%, dos estados do Golfo e do centro do país - 20% cada) e de, pelo menos, 19 países, sendo 80% dos Estados Unidos e Canadá, 18% da Europa, 1,3% da América Latina, etc).[96]

A atividade de maior repercussão aconteceu em 27 de agosto de 1995: a Consulta Nacional pela Paz e Democracia.  Esta consulta, sob a forma de enquete, englobou seis perguntas sobre as principais demandas do povo mexicano, a necessidade de união das forças democratizadoras, as exigências de uma reforma política profunda, a participação eqüitativa de mulheres e, em particular, se o EZLN deveria se constituir em força política nova ou unir-se a outras formando uma organização política.[97]  Convocada em junho e acontecido em agosto, a consulta atingiu um milhão e 300 mil pessoas, sendo possível dela participar de qualquer parte do país e do mundo, inclusive via Internet.[98]

As consultas inventam formas de participação, no plano dos atos e das idéias, que não se regulam mais pelas fronteiras nítidas entre movimento e sociedade e por sua realização possível apenas na dimensão de convivências.  Na sociabilidade complexa contemporânea as limitações dos lugares caem ante sua lógica globalizadora e a exclusividade dos militantes e simpatizantes próximos como avaliadores do poder do movimento deixa de ter plena validade diante da crescente força oriunda da “opinião pública”.  As consultas tornam-se dispositivos desta incorporação da “opinião pública” ao fazer política, não a modo difuso como faz reclame a mídia, mas de maneira orgânica e ativa.  A articulação do local e global, de convivência e televivência agrega poder, neste caso, sob a modalidade de representatividade e legitimidade.

O sociólogo francês Yvon Le Bot, analisando o neo-zapatismo, escreveu:  “Nesta guerra, posterior à queda do Muro de Berlim, os símbolos importam mais do que as armas, a comunicação mais do que a correlação de forças.”[99]  Esquece  ele que sem o acionamento da comunicação e seu perpassar nos atos e falas políticas não existe hoje em sentido largo construção de correlação de forças e, por conseqüência, deslocamentos de poder.

Este novo e complexo “campo de forças”, onde localiza-se hoje a comunicação e a mídia, não pode prescindir de alguns componentes de base da política, ao contrário tende a realçá-los em sua interação com as operações midiáticas.  O sentido de realidade para analisar o campo de forças e saber se locomover politicamente nele, por exemplo.  Impressiona que o EZLN, estando isolado na selva, tenha um sentido tão forte de realidade e consiga influenciar a vida política mexicana.[100]

Outra característica fundamental de política, o senso de oportunidade, foi otimizado em algumas intervenções importantes dos neo-zapatistas.  O próprio levante de 1 de janeiro de 1994 aparece como exemplar.  Um analista do jornal La Jornada assinalou: “Teve que produzir-se un aldeamento militar, precisamente no momento político de maior  oportunidade, para que essa voz alcançasse todos os confins do mundo, e para que sua ressonância mobilizasse toda a sociedade em torno de suas demandas.”[101] Cabe lembrar que aquela data marcava o inicio de funcionamento do Tratado Livre Comércio (NAFTA), assinado com os Estados Unidos e Canadá, com o qual as elites mexicanas imaginavam chegar ao Primeiro Mundo.  Justo neste dia, os neo-zapatistas obrigaram o mundo e o próprio país a se lembrar incomodamente do México terceiro mundista.[102]

Talvez por isto e pelo clima de festas do final de ano, todos - inclusive o governo e mídia - foram tomados de surpresa, este outro componente significativo da luta política.  A surpresa impediu o Governo de utilizar de imediato recursos de repressão, inclusive no patamar simbólico como a censura e a propaganda, e abriu um inusitado espaço político e midiático para o EZLN.  Surpresa e organização, pois os neo-zapatistas estiveram entre os nove mil indígenas que, anos antes, em 12 de outubro de 1992 praticamente invadiram San Cristóbal de Las Casas em impressionante passeata, filmada por Marcos e Daniel, e terminaram por destruir a estátua de bronze do conquistador Diego de Mazariegos, fundador da cidade em 1528.[103]

O exercício de imaginação também torna-se mais exigente.  Criar sempre alternativas e intervenções faz parte desta dinâmica política atual. Em carta ao escritor Eduardo Galeano, o porta-voz neo-zapatista disse: “Somos um exército de sonhadores, por isso somos invencíveis, como não ganhar com esta imaginação, transformando tudo, não podemos perder, ou melhor dito não merecemos perder.”[104]

A perda de capacidade de imaginar, bem como de sua sensibilidade à realidade e às oportunidades, impedindo a organização e a surpresa da inovação trazem risco da repetição e banalização, tanto na política, quanto na mídia, esta máquina devoradora de novidades.  Uma fala de Marcos parece entrever este perigo: “..o que busca o Governo é ganhar tempo e buscar o desgaste do ELZN na imagem pública, no manejo dos meios.”[105]

 

OBSERVAÇÕES FINAIS

“É a esperança  que obriga a buscar novas formas de lutar,isto é, novas formas de ser políticos, de fazer política.  Uma nova política, uma nova moral política, uma nova ética política é  não só um desejo,mas a única possibilidade de avançar, de brincar do outro lado.”[106]

“Deve você saber que o sistema político que você representa (...) tem prostituido até tal ponto a linguagem que hoje, ‘política’ é sinônimo de mentira, de crime, de traição.  Eu só digo o que milhões de mexicados quiseram dizer: não cremos.”[107]

Este texto, ao passear por itinerários neo-zapatistas, não pretende uma análise geral de sua trajetória, mas tão somente busca compreender a específica intervenção  de política e de mídia do EZLN e sugerir uma possível interpretação, que inscreva esta intervenção nas mutações experimentadas pela sociedade e política da idade mídia.

Não importa a este texto que a atuação política e midiática do EZLN tenha sido nestas dimensões plenamente adequada.  Antes, elas emergem, compreendidas, como modalidades embrionárias - talvez frágeis e fugazes - de um novo fazer político.

Tais ressalvas não eliminam, entretanto, a necessidade de responder, ainda que provisoriamente, a questão da efetividade ou não política dos neo-zapatistas.  Ou, colocando a questão de modo cristalino: o acionamento dos dispositivos político-midiáticos assinalados no texto possibilitou ao EZLN que resultados políticos?  Cabe recordar que os objetivos essenciais de política podem ser sintetizados em: exercer o poder político concentrado no Estado e/ou atuar na correlação de forças na sociedade, buscando alternativamente ter condições de governabilidade ou torna-se governo ou intervir nas decisões do governo, obrigando-o ou impossibilitando-o de realizar determinados programas e/ou projetos específicos.

O EZLN, além de aparentemente ter consolidado suas bases indígenas e camponesas em Chiapas, tornou-se um movimento político-militar-midiático de dimensões nacionais e internacional, considerado ator e interlocutor indispensável de cena política mexicana, através de seus atos, falas e de sua imagem pública. Com sua irrupção abriu-se uma fissura no quase monolítico agendamento neo-liberal do México atual.  A modernidade pretensamente atingida através do neo-liberalismo, com primeiro de janeiro de 1994 como data símbolo e entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio, fazia esquecer e esconder um outro México: complexo e profundamente desigual.  A emergência deste México profundo, onde milhões vivem e morrem, e o posterior debacle da política econômica desmascararam a modernidade neo-liberal e alteraram fortemente a agenda política mexicana.  “O zapatismo trouxe à tona o país real e seu chocante contraste com o país de faz-de-conta do triunfalismo oficial.” [108]

Com isto, a atmosfera política igualmente se modificou.  Um popular, ouvido pelo jornal Voz Pública, observou: “A grande vitória dos zapatistas é nos ter obrigado a pensar, a reanalisar nossa situação e nos ter inquietado. Em um país de apáticos e incrédulos, isto é quase um milagre.”[109]   Tal alteração de clima teve ressonâncias profundas no ritmo dos acontecimentos: sem “...o Exército Zapatista não se haveria avançado tanto em uns quantos meses.  Eles deram pressa à vontade de mudanças.”[110]

O impacto causado pela irrupção do levante, pelo debacle financeiro posterior, pela emergência do EZLN como ator e interlocutor políticos, pela redefinição da agenda temática e pela alteração da atmosfera político-social modificou de modo significativo o cenário político, aprofundando a crise do PRI e do Estado mexicano.

Para além e certamente por conseqüências  destas acentuadas transformações, o EZLN como resultado mais imediato, chegou a um primeiro acordo com o governo, o qual prevê, dentre outras medidas, uma maior autonomia à população indígena em assuntos econômicos, políticos, culturais e judiciais.[111]  A possibilidade de novos acordos continua a ser debatido em mesas de negociação.

A concretização de acordos faz retomar com urgência a questão de como irão se locomover e se organizar os neo-zapatistas neste novo cenário de paz possivelmente desarmada.  Nos últimos meses, o EZLN colocou no eixo central de suas preocupações a velha questão do que fazer.  Novamente o debate não está sendo feito como algo apenas interno, mas se realiza interpelando a sociedade civil.  Fernanda Navarro escreveu em La Jornada: “Desde primeiro de janeiro de 1996, o EZLN nos lança outro desafio: questionar nossos proprios esquemas ideológicos, organizativos e mentais, ao oferecer uma alternativa, uma nova forma de fazer política.”[112]  Fernanda Navarro se refere especialmente a supreendente (?) proposição neo-zapatista de se organizar como frente ou movimento político nacional, mas não participar de eleições.

Se as alternativas de mudança estão em debate, o mesmo não ocorre com a urgência das transformações do EZLN.  Em 9 de janeiro, Marcos falou: “Nossa vantagem é agora nosso limite.  O que chamou atenção, o ‘pasamontañas’, as armas, são o limite.  As pessoas não podem relacionar-se conosco senão como simpatizante.” [113]

O novo desafio colocado para e pelo EZLN aparece bem sintetizado nas palavras de Enrique Semo: “O grande  problema é como conservar esta excepcionalidade e ao mesmo tempo adquirir uma identidade igual a de outras forças de esquerda: as já conhecidas, já provadas, já trilhadas movimento popular ou partido político que têm  exibido todas suas virtudes e limitações.”[114]

Qual que seja sua opção, os neo-zapatistas parecem ter alguns trunfos: suas bases sociais, sua imagem pública, sua imaginação política e “...talento em utilizar todas as formas de linguagem em apoio à sua causa, desde as mensagens pela Internet até as histórias infantis, como a série de contos em que Marcos retrata a si mesmo conversando com um besouro chamado Durito.”[115]


* Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Presidente da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em  Comunicação - COMPÓS. Pesquisador do CNPq.

[1] LÉON, Antonio García de. “Prólogo. Redes de transición, selva de símbolos”.  In: _____.(org.) EZLN. Documentos y Comunicados 2. México, Edicones Era, 1995. p. 16. 

[2] Em  pesquisa   realizada  na   Revista  Mexicana  de  Ciências  Políticas  y  Sociales de

   julho/setembro   de   1975   até    janeiro/março    de   1995    a   temática  dos  enlaces

   contemporâneos entre política e comunicação/mídia é praticamente silenciado.

[3] Ver, por exemplo, sobre a noção de espetáculo: DEBORD, Guy.  A Sociedade do espetáculo. Lisboa, Edições Afrodite, 1972; DEBORD, Guy. Commentaires sur la societé du spectacle. Paris, Éditions Gérard Lebovic, 1988; SCHWARTZENBERG, Roger-Gérard. O estado espetáculo. São Paulo, Nobel, 1990 e ALBUQUERQUE, Afonso de.  “O conceito de espetáculo político”.  In: ECO. Rio de Janeiro, (s): 9-27, 1992, para uma visão alternativa a usual.

[4] IANNI, Octávio. A sociedade global. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1992.

[5] KISHINAMI, Roberto. “Entidades ambientalistas e política do espetáculo”.  Palestra

          realizada no seminário “Comunicação, Mídia e Ecologia”.  Salvador, 25 e 26 de

          março de 1996. Promoção: Faculdade de Comunicação de UFBA e Instituto

          Goethe/Bahia.

[6] ZALDÚA, Josetxo.    “Los medios, actores en la crises colombiana”.    In: La Jornada.

          México, 28 de janeiro de 1996, p. 1 e 54.

[7]CASTELLS, Manuel. “Los medios, el espacio donde se decide el poder: Castells”. In:

           La Jornada. México, 23 de janeiro de 1996, p. 30.

 

[8] GIL, Teresa. “Hablaron las armas: Basta ya!”. In: Y Quí. México, (1): (25), 28 de março de 1994.  Ver ainda: FUSER, Igor. México em transe. São Paulo, Scritta, 1995, p. 107.      Sobre a história do EZLN,  consultar:   DÍAS, Carlos Tello. La rebélión de las Cañadas. México, Cal y Arena, 1995 e ROVIRA, Guiomar. I Zapata vive! México, Virus Editorial, 1994.

 

[9]MARCOS, “Historia de Marcos y de los hombres de la noche” (entrevista). In: GILLY, Adolfo, MARCOS e GINZBURG, Carlo. Discusión sobre la historia. México, Taurus, 1995, p. 139. Ver também: SEMO, Enrique”. EZLN: Cambio de piel”. In: Processo. México, (1002): 38, 15 de janeiro de 1996.

[10] OLIVEIRA, Renan Antunes de. “Ser ou não ser rebelde.” In: Isto é. São Paulo, (1352): 96-98, 30 de agosto de 1995.

[11] EZLN. “Grititos de baja intensidad”. In: Ce-Acatl. México, (74/75):101, 17 de dezembro de 1995.

[12] CCRI-CG del EZLN. “En el 502° aniversario del descubrimiento de América”. In:

             LEÓN, Antonio García de (org.). ob. cit. p. 102.

 

[13] DÍAZ, Carlos Tello. “La rebelión de las Cañadas”. In: Nexos México, (205): 50, janeiro de 1995. Ver tambén: DELARBRE, Raúl Trejo. (org.) Chiapas la guerra de las ideas. México, Diana, 1994. Este livro reune, em particular, textos publicados na imprensa com posição contrária à violência.

 

[14] CASTAÑERA, José  Carlos.    “Tras  los  huellos  de l EZLN”.    In:  Nexos.  México,

             (205):83, janeiro de 1995.

 

[15] FUSER, Igor. ob.cit. p. 186.

 

[16] MARCOS. “Aniversario de la formación del EZLN”. In: LEÓN, Antonio García de. (org.) ob. cit. p. 133. Em outro trecho do documento tem-se: “La actitud honesta y comprometida con la verdad por parte de buen número de trabajadores de los medios de comunicación masiva...”

 

[17] DELARBRE, Raúl Trejo. Chiapas. La comunicación enmascarada. México, Diana, 1994 p. 369.

 

[18] SEMO, Enrique. ob. cit. p. 38.

 

[19] REBOLLEDO, Adolfo. “Chiapas y nuevo enero”. In: Nexos. México, (205): 14 de janeiro de 1995.

 

[20] Ver  cronologias   do  EZLN  em:     “De las armas al  Frente Zapatista de Liberación

             Nacional”.   In: Voz pública.  México, 8 a 14 de janeiro de 1996. p. 8 e 9. Para

             uma cronologia  dos acontecimentos do conflito em janeiro e fevereiro de 1994,

             consultar: GALVÁN, Ana. “Cronologia”. In: DELARBRE, Raúl (org.) ob.cit.

             p.  369-430.

 

[21] FUSER, Igor. ob.cit. p. 239.

 

[22] FUSER, Igor. ob.cit. p. 239/240

 

[23] CCRI do EZLN. “Otras formas de lucha”. In: LEÓN, Antonio Garcia de. EZLN. Documentos y Comunicados.México, Ediciones Era, 1994 p. 103.  Também: SEMO, Enrique. ob.cit. p. 38

 

[24] MARCOS. “Presentación de Marcos a  cuatro comunicados”...p. 97/98.

 

[25] YEHYA, Naief. “El  zapatismo  en  cinta magnética”. In: Nexos. México, (205): 89, janeiro de 1995.

 

[26] MARCOS.    “Presentación   de   Marcos  a  seis  comunicados”.   In: LEÓN, Antonio

             García de (org.) EZLN. Documentos y Comunicados ...p. 70/71

 

[27] MERINO, Mauricio.  “Chiapas:  el axioma de Hermann Heller”. In: Nexos. México, (205): 52, janeiro de 1995.

 

[28] CASTELLS, Manuel ob. cit. p. 30

 

[29] CCRI  do  EZLN.   “Otras   formas     de lucha”...p.102/103.

 

[30] MARCOS. “ Carta de Marcos sobre la prensa”. In: LEÓN, Antonio García de. (org.)

            EZLN. Documentos y Comunicados...p. 137.

 

[31] LÓPES, Júlio César.     “Marcos, dolido por lo del ‘atardecer’:   ‘Nos han declarado

            muertos  y  desaparecidos  una  y  otra  vez,  y  una y otra vez hemos vuelto”. In:

            Proceso... p. 30.

[32] MORENO, Octavio. “Marcos en el Zócaro”. In: Motivos. México, 11 de agosto de 1995 p. 3.

 

[33] YEHYA, Naief. ob.cit. p. 91.

 

[34] ROBBERSON, Tod. “Zapatistas ‘combatem’ via Internet”. In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1995, p. 7.

 

[35] CCRI-CG do EZLN. “Alerta roja de las tropas zapatistas en todo el territorio”. In: LEÓN, Antonio García de (org.). EZLN. Documentos y Comunicados 2 ...p.46. Ver tb. FUSER, Igor. ob. cit. p. 23.

 

[36] MARCOS. “La larga travesía del dolor a la esperanza”. In: LEÓN, Antonio Garcia (org.). EZLN. Documentos y Comunicados 2...p.62 e 63. Ver ainda FUSER, Igor. ob. cit.. p.31.

 

[37] MARCOS. “No se entendió el mensaje de enero”. In: LEÓN, Antonio Garcia de (org) EZLN.Documentos y Comunicados 2. ...p. 37.

 

[38] CCRI-CG do EZLN. “Comunicado sobre el festejo de independencia”. In: LEÓN, A.G. de (org.) EZLN. Documentos y Comunicados 2 ...p. 42/43

 

[39] DELARBRE, Raúl ob. cit. p. 39.

 

[40] FUSER, Igor. ob. cit. p. 70.

 

[41] DELARBRE, Raúl ob.cit. p. 80.

 

[42] Ver:    RUBIM,   Antonio   Albino   Canelas.    “Comunicação, política e sociabilidade

contemporânea”.    In: ______(org).   Idade mídia.  Salvador, Editora da UFBA, 1995. p. 107-146 e RUBIM, Antonio Albino Canelas. “Media, política e democracia”. In: Textos de Cultura e Comunicação. Salvador, (31/32): 75-96, 1994.

 

[43] DELARBRE, Raúl. ob.cit.p.38.

 

[44] JARDÍ,  Julián.   “Chiapas: la sombra y las máscaras”. In: Nexos. México, (250):78, janeiro de 1995.

 

[45] DELARBRE, Raúl. ob. cit. p. 338/339.

 

[46] DELARBRE, Raúl. ob. cit. p. 38 e 37.

 

[47] DELARBRE, Raúl. ob.cit. p. 37.

 

[48] OLIVEIRA, Renan. ob. cit. p. 96.

 

[49] CCRI-CG do EZLN. “Por qué se requiere otra constitución y un gobierno de transición”. In: LEÓN, Antonio Garcia de. EZLN. Documentos y Comunicados. p. 295. Ver ainda: DELARBRE, Raúl. ob.cit. p. 16.

 

 

 

[50] MARCOS. “Carta de Marcos sobre la prensa”...p.118.

 

[51] DELARBRE, Raúl. ob.cit. p.38.

 

[52] CCRI-CG do EZLN.    “Resultado  de  la  Consulta”.      In:  LEÓN, Antonio García de.

          (org.). EZLN. Documentos y Comunicados ...p.259-259.

 

[53] CCRI-CG do EZLN.  “Lo ocurrido a la Cruz Roja y a la prensa”. In: LEÓN, Antonio Garcia de (org) EZLN. Documentos y comunicados...p. 69.

 

[54] MARCOS. “Historia de Marcos y de los hombres de la noche”...p. 132.

 

[55] MARCOS.        “Presentación de Marcos a siete cartas del CCRI-CG”.       In:  LEÓN,

         Antonio Garcia de (org.) EZLN. Documentos y comunicados...p. 128.

 

[56] CCRI-CG do EZLN. “Medios que están invitados a cubrir el diálogo”. In: LEÒN, Antonio Garcia de (org.).  EZLN. Documentos y comuniados...138.  Entre os meios convidados estão: The New York Times, The Washington Post, Los Angeles Times, Los Angeles Times, Le Monde, Houston Chronicle, CNN, Multivisión, etc.  Também aparecem como convidadas as agencias noticiosas: AP. UPI, AFP, Reuter e Prensa Latina.

 

[57] DELARBRE, Raúl ob.cit. p. 77.

 

[58] YEHYA, Naief. ob.cit. p. 87/91

 

 

[59] ROBBERSON, Tod. ob.cit. p. 7. Ver “Historietas”.  Suplemento semanal do La Jornada. México, 28 de janeiro de 1996 (cartuns e desenhos) e PONCE, Roberto. “Mario Balsamo, el italizano que escribio su novela historica sobre la revuelta zapatista, em México.”  In: Proceso México, (1002): 62, 15 de janeiro de 1996. 

 

[60] FUSER, Igor. ob. cit. p. 74.

 

[61] DELARBRE, Raúl ob. cit. p. 345.

 

[62] DELARBRE, Raúl ob. cit. p. 344/345.

 

[63] DELARBRE,  Raúl.  ob.  cit.  p. 65 (televisão)     e     FERREIRA, Maria Nazareth.

          A Comunicação     (des)integradora    na    América     Latina.       Os    contrastes

 do neoliberalismo. São Paulo, CBELA/EDICON, 1995 p. 67/68  (“O jornalista  o  El

           Espectador   afirma  que  publicaram   40  notícias   sobre  Chiapas,   porque   este

           movimento é novo no México: “Chiapas surpreendeu o mundo”).

 

[64] FUSER, Igor, ob.cit. p. 63.

 

[65] FERREIRA, Maria Nazareth. ob.cit. p. 94 a 96.

 

[66] Delarbre chega ao exagero de falar de duas políticas de imagem,uma para os meios audio-visuais e outra para a imprensa escrita. Ver DELARBRE, Raúl.ob.cit.p. 347.

 

[67] CCRI-CG do EZLN. “Los siete mensajes con que el comandante Tacho entrega a Marcos, a nombre del CCRI, el bastón de mando en el anivers´rio del EZLN”. In: LEÓN, Antonio García de. (org.).  EZLN. Documentos y comunicados 2...p.139.

 

[68] CCRI-CG do EZLN. “Composición del EZLN y condiciones para el diálogo
“. In: LEÓN, Antonio Garcia de (org.). EZLN. Documentos y comunicados...p. 74.

 

[69] LEÓN, Antonio García de. “El escenario.” In: ______(org). EZLN. Documentos y comunicados...p. 31.

 

[70] MARCUS. “carta a Adolgo Gilly”...p. 21.

 

[71] MONSIVÁIS, Carlos. “Crónica de una Convención (que no fue tanto) y de un acontecimiento muy significativo”. In: LÉON, Antonio García de (org.). EZLN. Documentos y comunicado...p. 323

 

 

[72] Ver, por exemplo,    o suplemento semanal “Historietas” (La Jornada, 28 de janeiro de 1996) que, além de  publicar  desenhos do próprio Marcos, dedica quase toda a edição a pequenas historietas e tiras) sobre o sub-comandante cartunista.  Sobre o experimento do video-clip,   Carolina   Vásquez   escreveu:   “Ao  finalizar  a  mesagem,  o  sub,  enviado especial  da televisão Zapatista, improvisou  um vídeo-clip  que bem poderiamos chamar ‘Zapata vivi!...e fuma cachimbo”.      VÁSQUEZ,   Carolina.   “Zapata fuma pipa...”.   In: Motivos. México, 11 de agosto de 1995 p. 5.

 

[73] “Um besouro zapatista”.   In:  Jornal do Brasil.    Rio de Janeiro,  10 de agosto de l995 p.12  (1º caderno)  e   OLIVEIRA, Renan A. de   Isto é.   São Paulo, (1352): 96-98, 30 de agosto de 1995.

 

 

 

[74] MARCOS. “Los zapatistas no se riden”. In: LEÓN, Antonio Garcia de. (org.) EZLN. Documentos y comunicados...p. 268.      Sob a  formatação  de  “Guia de Turismo”,   o “Departamento de Prensa y Propaganda - EZLN” publicou “Chiapas: el sureste en dos vientos: una tormenta y una profecía!” .    In: LEÓN, Antonio García de (org.).   EZLN. Documentos y comunicados...p. 49 - 66).

 

[75] MARCOS. “Los arroyois cuando bajan”. In: LEÓN, Antonio Garcia de (org.). EZLN.

          Documentos y comunicados...p. 240. a idéia de “...uma palavra nova que é velha”

          aparece em MARCOS. História de Marcos y de los hombres de la noche”... p.

          138.

 

[76] MARCOS. “A Ernesto Zedillo”.      In:  LEÓN,  Antonio  García  de  (org.).    EZLN. Documentos y comunicados 2. ..p. 141. Ironia e irreverência são vistos como pontos de contatos nas linguagens de Marcos  e  Rafael  Sebastian  Guillén  Vicente, acusado pelo governo mexicano de esconder-se sob a máscara de Marcos. Alberto Híjar, professor e presidente da comissão de  exame da  tese  de  conclusão de curso de Sebastian,   disse: “Guillén possuia uma característica que está muito presente nos comunicados assinados pelo subcomandante Marcos: a irreverência e a ironia ao tratar de assuntos relacionados ao poder”  IN: Folha de São Paulo. São Paulo, 23 de abril de 1995 p. 1-24.

 

[77] PONIATOWSKA, Elena. “La CND: de naves mayores a menores”. In: LEÓN,

          Antonio Garcia de (org.). EZLN. Documentos y comunicados...p. 324-325.

 

[78] PAZ, Octavio apud DELARBRE, Raúl ob. cit. p. 98.

 

[79] OLIVEIRA, Renan Antunes de . ob. cit. p. 98.

 

[80] Sobre a tela e a rua, a praça e a platéia, ver:      RUBIM, Antonio Albino Canelas. “De Fernando a Fernando (II): caleidoscópio mediático-eleitoral 1994.” In: Textos de Cultura e Comunicação Salvador, (33): 9, primeiro semestre de 1995  e   MATA, Maria Cristina. “Política y comunicación: entre la plaza y la platea”. In: Comunicação & Política. Rio de Janeiro, 1(1): 191-200, agosto/novembro de 1994.

 

[81] CASTELLS, Manuel ob. cit. p. 7.

 

[82] BLANCO, José. “Caudillos y democracia”. In: DELARBRE, Raúl (org.). ob.cit.p.363.

 

[83] DELARBRE, Raúl. ob. cit. p. 344-370.

 

[84] DELARBRE, Raúl. ob. cit p. 367;

 

[85] LEÓN,   Antonio    García.    “Prólogo”.      In: ______(org).      EZLN. Documentos y

         comunicados ...p. 13.       Ver também:     JOSÉ, Emiliano.    “A guerrilha midiática

         mexicana”. In: Tribuna de Bahia. Salvador, 12 de abril de 1995.

 

[86] MONSIVÁIS, Carlos. ob.cit. p. 320-321.

 

[87] CCRI-CG do EZLN. “Propone programa a la CND”. In: LEÓN, Antonio García de (org.) EZLN. Documentos y comunicados...p. 95.

 

[88] Ver revistas Ce-Acatl México, (73): 1-64, 17 de novembro de 1995, quase totalmente dedicadas à temática.  As citações encontram-se na página 92 do número 74/75 de revista e fazem parte do texto “Documento de lso asesores e invitados del EZLN”.

 

[89] DELARBRE, Raúl ob. cit. p. 336.

 

[90] OCHOA, Guillermo apud DELARBRE, Raúl ob.cit. p. 327.

 

[91] MARCOS. “Historia de Marcos y de los hombres e la noche”...p. 141.

 

[92] MARCOS. “Aniversario de la formación del EZLN”. In: LEÓN, Antonio García de (org) EZLN. Documentos y comunicados 2...p. 132.

 

[93] MARCOS. “Discurso del subcomandante marcos ante la CND”. In: LEÓN, Antonio García de (org) EZLN. Documentos y comunicados ...p. 305 e 309.

 

[94] MARCOS. “Aniversario de la formación del EZLN”...p. 134.

 

[95] CASTILHO,  Pedro.  “El pueblo tomó la palabra”. In: Y qué Mexico, 92):30, 11 de abril de 1994 e MENESES, Juan Anzaldo. “Presentación”. In: Ce-Acatl México, (74/75):3, 17 de dezembro de 1995.

 

[96] CCRI-CG do EZLN. “Resultados de la consulta nacional”. In:  LEÓN, Antonio García de (org). EZLN. Documentos y comunicados ...p. 250-251.

 

[97] CCRI-CG do EZLN. “Convoca el EZLN a ‘una grand consulta nacional”. In: LEÓN, Antonio García de (org). EZLN. Documentos y comunicados...p. 360-364.

 

 

[98] Os neo-zapatistas afirmaram que o número de consultados era um triunfo e que surpreendia a todos, em primeiro lugar, eles mesmos, pois aconteceu um boicote de mídia televisiva.  MARCOS. “Fin de la consulta nacional”. In: LEÓN, Antonio García de (org). EZLN. Documentos y comunicados...p. 453.  A revista Isto é diz que eles esperavam dois milhões de “votantes”. RENAN, Antunes de Oliveira. ob. cit.p. 96. Ver também: MONSIVÁIS, Carlos ob. cit. p. 467-472.

 

[99] LE BOT, Yvon apud FUSER, Igor ob.cit. p. 240.

 

[100] BALSAMO, Mario apud PONCE, Roberto ob.cit. p. 62 e FUSER, Igor. ob. cit.p.240.

 

[101] CONCHA, Miguel. “Resultados”. In: La Jornada. México, 03 de fevereiro de 1996, p. 11.

 

[102] RIVAS, Lorenzo. “Despertó o México bronco”. In: Y qué México, (1):23, 28 de março de 1994.

 

[103] DÍAS, Carlo Tello. ob.cit.

 

[104] MARCOS apud VÁSQUEZ, Caroline ob.cit. p. 5.

 

[105] LÓPEZ, Júlio César ob. cit. p. 30.

 

[106] MARCOS/CCRI-CG do EZLN. “La larga travesía del dolor a la esperanza”.  In:

          LÉON, Antonio Garcá de (org). EZLN. Documentos y comunicados 2...p. 68.

 

[107] MARCOS. “A Ernesto Zedillo” ...p. 140.

[108] FUSER, Igor ob. cit. p. 60.

 

[109] GALLO, Carolina. “El Frente Zapatista, llamado por la unión”. In: Voz Pública México, 8 a 14 de janeiro de 1996 p. 5.

 

[110] MONSIVÁIS, Carlos. ob. cit. p. 4.

 

[111] “Zapatistas e Governo fazem primeiro acordo”. In: Folha de São Paulo.  São Paulo, 17 de fevereiro de 1996. p. 2-109. Ver também CONCHA, Miguel ob.cit.

 

[112] NAVARRO, Fernando. “I a pensar de otra manera! El reto zapatista.” In: La Jornada. México, 21 de janeiro de 1996 p. 14.

 

[113] MARCOS apud CORREA, Guilhermo e LÓPES, Júlio César. “El MLN, un frente opositor que dejaría atrás el sectarismo de la izquierda radical”. In: Proceso. México, (1002): 28, 15 de janeiro de 1996.

 

[114] SEMO, Enrique. ob. cit. p. 38.

 

[115] FUSER, Igor ob. cit. p. 240.