|
A COMUNICAÇÃO E A POLÍTICA DOS NEO-ZAPATISTAS *
Antonio
Albino Canelas Rubim
Dotados de uma enorme
capacidade de adaptação às circunstâncias, os indígenas sublevados
vieram modificando também sua própria proposta em uma guerra de
papel e eletrônica sem precedentes nos movimentos armados dos anos
anteriores.
Antonio
Garcia de Léon [1]
O México tendo sido protagonista de um
movimento exemplar pelos seus contrastes e potencialidades. Um movimento
de "luta armada" e "libertação nacional", instalado
em uma região "subdesenvolvida" de um país de "Terceiro
Mundo", evocando "índios, camponeses e Emiliano Zapata"
parece destinado a ser algo quixotesco e totalmente fora de moda.
Mera ilusão como sugere Manuel Castells: "o
exemplo dos zapatistas é impressionante: como um movimento nascido
do fundo da miséria e da marginalização dos indígenas salta para
o Internet e interatua diretamente com os integrantes dos diversos
grupos de apoio internacional, com que conta o movimento".[2] Tem-se aqui apenas
o lado mais visível da luta desta guerrilha “sui generis”.
A novidade neo-zapatista começa em sua temporalidade "defasada".
Em um tempo de queda do muro, fim do "socialismo real",
declínio do marxismo e das guerrilhas por ele inspiradas emerge
em 1 de janeiro de 1994 no estado de Chiapas (México) o Exército
Zapatista de Libertação Nacional. Mas a filiação do EZLN - inclusive
histórica ao marxismo com a instalação em Chiapas em 1983 de 12
guerrilheiros das Forças de Libertação Nacional - não impediu que
ele se diferenciasse e se apresentasse "... como
uma guerrilha inédita, tanto pela sua organização e táticas como
pelas suas demandas, que não seguem a tradição marxista dos grupos
guerrilheiros que floresceram na América Latina".[3]
Aliás o próprio sub-comandante Marcos
- "codinome" escolhido em homenagem a de um guerrilheiro
morto dez anos antes - ressalta a complexa definição ideológica
dos neo-zapatistas: "Assim, quando me perguntam: ‘vocês são o que?, marxistas,
leninistas, castristas, maoistas, o que’, sei não. Realmente não
sei. Somos o produto de um híbrido, de um confronto, de um choque,
em que, felizmente, acho, a gente perdeu".[4]
A sociedade globalizada assiste ao fim
da luta armada de verniz marxista e, simultaneamente, faz emergir
novos conflitos, muitos deles armados. Estes movimentos - étnicos,
de nacionalidades, religiosos, etc - indicam a admirável e perigosa
emergência contemporânea do local em meio ao processo de globalização
do mundo pós-muro. Uma inquietante e interessante revalorização
de identidades localizadas torna-se outra das marcas da atualidade.
Parece assim ter sentido escrever que: "o EZLN talvez seja o primeiro
grupo guerrilheiro da era da globalização".[5]
Mas os neo-zapatistas rapidamente explodem tal prisão/localização.Em
diversas outras ocasiões e através de suas reivindicações, o EZLN
tem reafirmado seu caráter político abrangente. O comunicado acerca
do 502 aniversário do descobrimento da América, depois de se dizer
contra "a raça e a linguagem do dinheiro", acrescenta:
"pelos indígenas
é que lutamos. Mas nem só por eles, também pelos camponeses sem
terra, pelos assalariados rurais, pelos trabalhadores das cidades,
pelas mulheres humilhadas, pelos velhos esquecidos, pelas crianças
sem futuro, pelos desempregados, pelo professorado, pelos estudantes,
pelas donas de casa, por todos os que têm a pobreza como presente
e a dignidade como futuro".[6]
O ineditismo dos neo-zapatistas se alimentou ainda da forte reação da
sociedade mexicana à instalação de uma possível espiral da violência
em lugar da luta política. Todos os periódicos de México publicaram
em seus editoriais uma nota de repúdio à violência.[7] Este (quase) consenso contra a violência
não impediu que segmentos sociais significativos paulatinamente
tivessem abertura para compreender a situação complexa que se instalava.
O ensaísta José Carlos Castañeda expressou bem esta perplexidade:
"Todos estamos de acordo em que a chamada via armada na luta
contra as injustiças não é uma boa opção. Julgamos que a violência
é antidemocrática, e ao mesmo tempo estamos diante do paradoxo de
que os altos violentos do EZLN vem abrindo um caminho de transição
do México para a democracia".[8]
Por duas vezes, pelo menos, as manifestações expressivas de parcelas
da sociedade civil e da mídia conseguiram barrar o conflito armado:
em janeiro de 1994, logo no início do levante neo-zapatista e em
fevereiro de 1995, quando o governo tentou uma escalada bélica contra
os seus chefes, simpatizantes e territórios sob seu controle. No
dia 19 de fevereiro, uma pesquisa de opinião realizada pelo jornal
Reforma mostrava que 58% dos mexicanos estavam em desacordo
com a atitude do presidente Ernesto Zedillo, 64% era a favor que
o governo retirasse suas tropas do território rebelde e 71% se diziam
favoráveis a negociações entre o governo e a guerrilha. Só 26% colocaram-se
em defesa de uma atitude belicosa.[9]
Os neo-zapatistas reconhecem este papel
da mídia e da sociedade civil: "Repetimos
hoje o que sempre falamos: não foi nem a bondade e inteligência
do governo superior, como estupidamente se vangloriou o governo
federal, nem a habilidade política e a maturidade do EZLN, como
alguns analistas pretendem, as que abriram passo ao diálogo: foram
a informação e a mobilização do povo mexicano, sem distinção de
classe, raça, religião ou gênero, que fecharam momentaneamente as
portas da guerra...” Ou ainda: “Informação verídica e mobilização
civil conseguiram abortar (...) as tentativas de solução militar
do conflito".[10]
Raúl Trejo Delarbre, na sua análise fortemente
crítica - apesar de sua espinha dorsal equivocada - da cobertura
da mídia sobre os acontecimentos de Chiapas, igualmente percebeu
o cerne da atuação da mídia: " Os meios de comunicação cumpriram
importantíssimo papel na promoção de uma consciência nacional contra
uma solução armada do conflito em Chiapas. A preocupação social
diante da eventualidade de uma solução de força apareceu resgatada
e refletida nos meios de comunicação de massa. Foi essa uma das
contribuições mais básicas dos meios e dos seus agentes...".[11]
O bloqueio da luta armada propiciou outra
das características mais peculiares do EZLN: "
Essa estranha guerrilha que levou 10 anos de preparação, 12 dias
de combate e 2 anos de ação política desde posições de paz armada".[12]
Em nenhum outro movimento guerrilheiro latino-americano a trégua
durou muito mais tempo que a confrontação militar.[13] Deste modo, uma
cronologia da existência do EZLN pode ser fixada nos seguintes números:
1983/dezembro de 1994 - implantação em Chiapas e preparação; 1 a
12 de janeiro de 1994 - insurreição armada; 12 de janeiro - cessar
fogo; 12 de janeiro até hoje, com um pequeno lapso em fevereiro
de 1995 - luta política e negociações em situação de paz armada.[14]
Este deslocamento dos lugares e modalidades de luta exigiu da guerrilha
recolocar as relações entre atuação armada e política. Igor Fuser,
no seu interessante livro México em transe,
sustenta mesmo que: "A grande novidade do zapatismo é a maneira
como o movimento relaciona a insurreição e a luta política legal".[15]
Os neo-zapatistas não acreditam de modo unilateral na força das armas.
Marcos, em 1994, afirmou lapidar aos jornalistas: "Vemos a
luta armada não no sentido clássico das guerrilhas anteriores, quer
dizer, a luta armada como único caminho, como uma única verdade
todo-poderosa em torno da qual se aglutinava tudo".[16]
Assim eles não propõem nenhuma apologia
às armas, nem pretendem impor este caminho como único legitimo,
sequer o mais adequado para muitos. Em um texto, publicado em 25
de janeiro de 1994, intitulado "Outras formas de luta", escrevem:
"A nossa não é a única forma de luta, talvez para muitos seja
a adequada. Existem outras, e de grande valor. A nossa organização
não é a única, talvez nem seja a desejável para muitos. Existem,
e de grande valor, outras organizações honestas, progressistas e
independentes".[17]
Em verdade, o EZLN pensa que "... a mudança revolucionária no México não será produto
da ação em uma só direção. Isto é, não será, estritamente, uma revolução
armada ou uma revolução pacífica".[18]
Antes, segundo eles, será uma combinatória de diversas formas de
luta e agentes, de compromissos e participações necessariamente
distintos, objetivando a constituição de um espaço público para
resolução da confrontação de diversas propostas políticas, sendo
premissas deste espaço a democracia, a justiça e a liberdade.
A luta armada, além de não ser o único
modo de luta, deve estar subordinada à política. Marcos, neste sentido,
enfatizou: " O decisivo em uma guerra não é o
enfrentamento militar senão a política que nessa guerra entra em
jogo...".[19] Em outro momento, o sub-comandante reafirmou que
uma guerra não é uma questão de armas ou de grande número de homens
armados, senão de política.[20]
Apesar do enraizamento dos neo-zapatistas
entre os indígenas e camponeses de Chiapas, parece não haver dúvida,
inclusive para eles mesmos, da disparidade militar entre as forças
do exército federal e da guerrilha. A fragilidade do estado mexicano
longe de ser militar, manifesta-se em seu desgaste político. Daí
porque "... A comunidade política nacional, em resumo,
condicionou e anulou o uso legítimo da coação física que, caso fosse
empregada, teria virado, paradoxal e fatalmente, ilegítima".[21] Sensível a esta
fragilidade, o EZLN tem buscado sempre a destruição político-simbólica
da legitimidade estatal. Esta perspectiva parece condizente com
a observação de Manoel Castells: " Na atualidade, a luta política tem
como centro destruir a credibilidade do inimigo".[22]
Mais que isto, o EZLN reconheceu que:
"Para esta virada do conflito o decisivo
não foi nem só a vontade política do Executivo Federal, nem as gloriosas
ações militares dos nossos combatentes, foram sim decisivas as diversas
manifestações públicas - nas ruas, nas montanhas, nos meios de comunicação
- das mais diferentes organizações e pessoas honestas e independentes,
que fazem parte da chamada sociedade civil mexicana".[23]
A sensibilidade neo-zapatista para aprender
com as circunstâncias merece destaque nesta conjuntura. O EZLN,
não só continuou seu enfrentamento com o poder político instituido,
agora principalmente por meios políticos, como passou a considerar
a sociedade civil e a mídia interlocutores políticos privilegiados.
Com relação à mídia, os neo-zapatistas enfatizaram a necessidade de contatar
"meios de informação que digam a verdade" e a produção
de amplo material para a imprensa.[24] Mais essencial que isto, eles
parecem ter percebido a significação política da mídia. Indagado
se os neo-zapatistas não fizeram uma guerra para a mídia, Marcos
ponderou: "
A gente viu nos meios de comunicação a possibilidade de abrir outro
caminho...".[25]
A percepção da guerrilha não se circunscreve ao contexto mexicano, mas
deriva mesmo do caráter da atualidade. A importância da mídia para
a guerra, por exemplo, tornou-se manifesta. Em inúmeras insurreições,
as emissoras de televisão e rádio tornaram-se alvos imediatos a
serem conquistados. Em situações bélicas, os adversários cada vez
mais preocupam-se em fornecer material para a imprensa. Na guerra
do Golfo, o Pentágono distribuiu imagens em todo o mundo. Entre
os objetivos prioritários do EZLN no levante de janeiro estava a
ocupação dos estúdios da rádio XEOCH, a mais importante da região.
Por volta das cinco da manhã, eles colocaram no ar cosignas e comunicados
em língua indígena (tzeltal), intercalados de música.
A instantaneidade na publicização dos
conflitos, possibilitada pelas tecnologias midiáticas transforma-se
em arma estratégica nas guerras atuais, pois a surpresa, dentre
outras potencialidades, sempre foi importante elemento tático. A
desterritorialização inscrita na mídia, por sua vez, permite que
o sub-comandante Marcos, com o EZLN cercado nas montanhas de Chiapas,
esteja presente ao Zócalo, no centro da cidade do México, em imenso
telão. " Milagres da tecnologia são capazes
de romper todos os cercos".[26]
A instantaneidade e a desterritorialização
iluminam o caráter complexo e compósito da sociabilidade atual:
intrincada composição de convivências e televivências em permanente
intercâmbio. Indicam também o acionamento de uma outra "guerra",
simbólica. Esta " guerra de nosso tempo", que mobiliza corações e mentes, está "
longe das nossas mortes reais mas perto das consciências e amarguras
dos habitantes da aldeia global (ou seja, dos telespectadores)".[27]
Ou como perspicazmente observou Mariclaire Acosta, presidente da
Comissão Mexicana de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, acerca
do conflito de Chiapas: "Esta é uma verdadeira guerra pós-moderna,
no sentido de que a informação é a mais potente das munições".[28]
GUERRILHA MIDIÁTICA
A sensibilidade e a percepção da importância política da comunicação
e da mídia expressa-se de muitas maneiras e em vários materiais
dos neo-zapatistas. Eles, por exemplo, denunciam o aval político
dado ao governo e ao partido no poder pelos monopólios de comunicação,
bem como sua íntima convivência e troca de "favores".[29] Dentre estes "favores"
destaca-se a instituição das concessões. "
Seja para conseguir novas concessões, seja para não perder as atuais,
os empresários da palavra, da imagem e do som, fecham fileiras em
torno do PRI".[30] O desigual acesso à mídia (“ou melhor, à opinião
pública’) durante as campanhas eleitorais - no México não existe
nada próximo sequer ao horário eleitoral gratuito - também faz parte
das denúncias do EZLN.
Como o campo da mídia, na sociedade contemporânea, detém de modo crescente
o poder de conferir ou negar existência social, publicizando ou
silenciando acontecimentos e atores, seu espaço virtual transforma-se
em uma das arenas essenciais da luta política na atualidade. As
estratégias elaboradas para este embate midiático tornam-se assim
imprescindíveis.[31]
A guerra de Chiapas, cujos combates se
realizaram mais nas páginas e telas que nas selvas, sem dúvida,
está inscrita no interior desta lógica contemporânea. Cabia aos
neo-zapatistas ocupar posições neste embate e eles souberam fazê-lo.
Delarbre, em seu insuspeito estudo, porque não perfilado com os
guerrilheiros, escreveu: " Existia uma vocação do EZLN, com habilidades específicas,
para sustentar a guerra de Chiapas através dos meios de comunicação".[32]
A sensibilidade dos neo-zapatistas não
se esgota na percepção e denúncia do uso político da mídia pelos
dominantes, mas possibilita uma visão aberta e atualizada acerca
da indispensável operação com a mídia. Esta sensibilidade foi anotada
por vários escritores e jornalistas. O escritor Julián Andrade Jardí
disse: " Quem entendeu curiosamente o poder e a efetividade dos meios
de comunicação - para além da objetividade - foi o comandante Marcos".[33] Delarbre também observou: "A
presença iconográfica e documental de Marcos não é resultado casual.
Ele, independentemente da sua verdadeira origem, tem o manuseio
intencional dos meios de comunicação, próprio de quem está por dentro".[34]
A aparência de pré-modernidade, configurada,
por exemplo, na situação de miséria de Chiapas, na sua denúncia
pelo EZLN através de um discurso carregado de figuras ancestrais
e no seu armamento, por vezes, rústico e rudimentar, contrasta com
este acionamento moderno de tecnologias de comunicação, o qual dá
aos neo-zapatistas "... uma
notável capacidade propagandística que lhe permitia alçar-se como
interlocutor dos principais meios de comunicação dentro e fora do
México ".[35]
Não por acaso, parte da mídia intenta reduzir as novidades e inclusive
os equívocos da guerrilha e "compreendê-la" através do
mote "poucas armas e muito marketing".[36]
Recorrer a expressão "marketing"
para nomear toda a complexa e, às vezes, polêmica intervenção do
EZLN no campo das comunicações constitui-se, no mínimo, uma operação
empobrecedora e inadequada a um movimento que, saído do coração
da selva, tem conseguido colocar seus comunicados e proposições
no centro do debate político mexicano, ou em outra hipótese, mero
preconceito com intervenções que objetivem fazer o movimento habitar
a dimensão pública, engendrada pelos meios. Televivência aliás essencial
para a realização da política na atualidade.
O ato de publicizar suas convicções e ações integra-se
a uma dialéctica de luta na mídia por ocupação do espaço virtual
expressa através de uma formulação de tom missionário do “Comité
Clandestino Revolucinario Indígena - Comandancia General do EZLN”:
" Precisa que digamos nossa palavra
e que os outros a escutem. Se não o fizermos já, outros tomarão
nossa voz e a mentira , sem a gente querer, sairá da nossa boca”.[37]
Esta determinação, de sonoridade quase ancestral, dirigida ao sub-comandante
Marcos, realiza-se em vocação cosmopolita e contemporânea. Ancestralidade
e (pós)modernidade encontram-se, outra vez, em combinatória algo
surpreendente e eficaz.
A política de publicização e de ocupação
do espaço virtual traduz-se em uma política de meios e de imprensa,
por diversas vezes referida nos documentos do EZLN. Em junho de
1994, por exemplo, em um dos proliferantes comunicados neo-zapatistas
está escrito: “O CCRI-CG do EZLN agradece a todos os meios de comunicação
honestos e independentes sob empenho em conhecer a verdade e em
dá-la a conhecer ao povo mexicano sem se importar com ameaças,
prisões e chantagens. Pedimos desculpas públicas se, em nossa torpe
política de meios, os ferimos ou desconfiamos de seu profissionalismo.
Esperamos que compreendam que nunca antes havíamos feito uma revolução
e que estamos aprendendo”.[38]
A relação entre o EZLN e a mídia alimenta-se
em boa medida da compulsão epistolar de Marcos, desenvolvida desde
os tempos de preparação quando ele era solicitado a escrever cartas
para noivas de companheiros do movimento analfabetos.[39] De janeiro de
1994 até setembro de 1995, somente computando os comunicados e documentos
neo-zapatistas, a imprensa mexicana publicou por volta de 250 materiais
enviados pelo EZLN, reunidos depois em dois livros de 800 páginas
aproximadamente. Se se acrescentar entrevistas, notícias, reportagens,
colunas, artigos etc acerca dos rebeldes têm-se um universo invejável
de espaço conquistado.
Para publicizar suas atitudes
e opiniões, Marcos e o EZLN têm utilizado os mais diferenciados
meios e nesta compulsão midiática, sem dúvida, são ajudados pelos
inúmeros materiais que se debruçam sobre o tema neo-zapatista.
Com vídeos invade-se o Zócalo e as telas, em quantidade já impresionante.
Em um artigo intitulado “O zapatismo em cinta magnética”, publicado
na revista Nexos de janeiro de 1995, Naief Yehya faz um balanço
dos mais de dez vídeos produzidos em um ano acerca do tema.[40] Neste número, Nexos, através de várias
resenhas avalia pelo menos seis livros já publicados sobre o conflito
e anuncia outros mais. Acionando a Internet, invade-se o cyberspace.
Cartuns e até romance de autor italiano fazem hoje parte do baú
temático neo-zapatista. O jornal La Jornada, com sua cobertura
simpática aos guerrilheiros dobra sua tiragem, hoje a maior do México.[41]
O veículo televisão, apesar dos limites
impostos pelo maior controle, sofre alguma invasão do Exército Zapatista.
Marcos aparece em várias televisões estrangeiras, dando entrevistas,
inclusive na cadeia CBS americana, falando em inglês. Na reportagem-entrevista,
“Marcos busca cuidar de sua imagem e formular respostas atrativas
para um público estrangeiro”.[42]
Mesmo a televisão mexicana, em algumas
oportunidades, tem seus espaços ocupados pelos movimentos ágeis
dos neo-zapatistas. No início do levante foi a surpresa e inusitado
da guerra que abriram amplos espaços na televisão e na imprensa
em geral, nacional ou estrangeira.[43] Estes demorados
espaços iniciais devem ter se convertido em uma armadilha para o
intentado silenciamento posterior, pois terminaram por agendar o
tema e definir a pauta vigente na “ecologia” dos meios. Uma segunda
invasão do espaço televisivo acontece no dia do início do diálogo,
quando: “Em transmissão ao vivo pela TV, em horário nobre, um indígena
de um metro e meio de altura agarra um microfone e lê, para todo
o território nacional, um manifesto contra o governo. O título
do manifesto tem a marca inconfundível do subcomandante Marcos:
‘Para todos, tudo; nada para nós”.[44]
Este agendamento, em plano internacional,
pode ser medido de modo aproximado, recorrendo-se a alguns dados
contidas no estudo de Maria Nazareth Ferreira acerca da cobertura
da imprensa internacional destinada à América Latina. No noticiário
italiano, o México estava em quarto lugar, com 89 notícias, sendo
73% delas dedicadas ao conflito de Chiapas e seus protagonistas.
Se se considera que o ano de 1994 foi, dentre outras coisas, ano
das eleições presidenciais no México, pode-se ter uma dimensão desta
repercussão.[45]
A ressonância neo-zapatista não tem
seus determinantes apenas no senso de oportunidade e timing.
A atuação midiática não convencional também têm sua responsabilidade
pelo acesso e presença deles nas imagens, sons e páginas da mídia.
A simbologia do EZLN tem se ancorado principalmente
nas imagens, largamente divulgadas pela imprensa mundial, das máscaras
de cor negra que cobrem toda cabeça com exceção dos olhos ("pasamontañas"),
semelhantes às utilizadas pelos esquiadores, e dos lenços sobre
o nariz e a boca ("paliacates").
Os "pasamontañas" e os "paliates"
têm seguramente a finalidade de proteger os neo-zapatistas da repressão,
pois muitos deles vivenciam a guerrilha e transitam desta atividade
para a vida cotidiana em suas comunidades indígenas. Sem rostos,
eles podem manter esta permanente troca de identidades que certamente
desorienta as forças de repressão. Eles mesmos compartilham desta
explicação: "O uso do ‘pasamontañas’ e outros meios para ocultar
nosso rosto obedece a elementares medidas de seguridade e como vacina
contra o caudilismo".[46]
O próprio sub-comandante Marcos, cujo
"pasamontañas" tem propiciado amplos jogos e polêmicas,
mesmo depois da suposta descoberta de sua identidade pelo governo
mexicano, escreveu com ironia e humor: "Não sei quantos argumentos
diferentes e contraditórios foi dado sobre o uso de ‘pasamontañas’.
Agora recordo: o frio, a segurança, o anti-caudilismo (paradoxalmente),
a homenagem ao deus negro do velho Antonio, a diferença estética,
a feiura vergonhosa. Provavelmente nenhum dos argumentos seja verdade.
O caso é que, agora, o ‘pasamontañas’ é um símbolo de rebeldia.
Apenas ontem, era um símbolo de criminalidade o terrorismo. Por
quê? Certamente não porque nós nos tenhamos proposto".[47]
O "pasamontañas", principalmente,
e os "paliates" transformaram-se de tal modo símbolos
da guerrilha neo-zapatista, que tornou-se impossível concebê-la
sem eles. Sua identidade está irremediavelmente colada e expressa
nestes símbolos. Pode-se dizer que: "Marcos sem ‘pasamontañas’
não é admissível, não é fotografável, não é a legenda viva".[48] Idêntida assertiva
vale, sem tirar nem por, para o EZLN.
Criações surpreendentes marcam igualmente
a guerrilha midiática plasmada nas montanhas de Chiapas. Em 8 de
agosto de 1995, o EZLN utilizou mais um artifício midiático para
publicizar sua política, se colocar na cena política mexicana e
agendar a mídia. Em vários telões na capital e em San Cristobal
de Las Casas, em cinema e em televisão, foi exibido um vídeo, em
duas versões (uma com 30 minutos e outro mais longo, com 80 minutos),
no qual o encapuzado Marcos conversa com um simpático besouro chamado
Durito. Marcos - que se diz escudeiro de Dom Durito, como Sancho
Pança era de Dom Quixote - funciona como uma espécie de tradutor
dos sonhos do besouro, interlocutor de conversas sobre temas como
neo-liberalismo, propostas de EZLN, etc. Durito convoca todos os
mexicanos - “homens, mulheres e gays”, com ele diz - para participar
de um plebiscito (consulta) realizado pelos neo-zapatistas. Outro
personagem também produzido pela imaginação dos rebeldes tem o nome
de Chibó: uma aranha que representa o tentacular sistema de Estado
mexicano.[49]
As narrativas escritas aparecem impregnadas
de novidade e tradição. A figura mítico-real do Velho Antonio torna-se
um personagem presente em vários textos do EZLN. Nele está estocada
a sabedoria de tradição indígena, em lições e lendas, sempre reivindicadas
e valoradas nos escritos neo-zapatistas. Em um pós-escrito do comunicado
“os zapatistas não se rendem”, Marcos relata: “No Comitê estivemos
discutindo toda a tarde. Buscamos a palavra na língua para dizer
‘RENDER-SE’ e não a encontramos. Não tem tradução em tzotzil
nem em tzeltal, ninguém recorda que essa palavra exista em
tojolabal ou em chol. Levamos horas buscando equivalentes
(...) Em silêncio se aproxima o velho Antonio, tossindo a tuberculose,
e me disse ao ouvido: ‘Essa palavra não existe em língua verdadeira,
por isso os nossos nunca se rendem, antes morrem, porque nossos
mortos mandam que não se vivam as palavras que não andam.’ Depois
se faz o fogo para espantar o medo e o frío. Conto a Ana María,
ela me olha com ternura e me recorda que o velho Antonio já está
morto...” .[50]
O recurso as tradições procura reforçar
a auto-estima indígena, base social “original” do EZLN, reinventar
a história mexicana, criar uma cultura política neo-zapatista e
legitimar a guerrilha. A busca da “...palavra nova que é velha”
encontra admirável exemplo na reinterpretação da lenda maia dos
homens de milho. Novamente Marcos emerge como narrador: “me conta
o velho Antonio que as pessoas do ouro eram os ricos, os de pele
branca, e que as pessoas de madeira eram os pobres, os de pele morena,
que trabalham para os ricos e os carregava sempre e que as pessoas
do ouro e as pessoas de madeira esperam a chegada das pessoas de
milho, as primeiras com medo e as segundas com esperança. Perguntei
ao velho Antonio de que cor era a pele das pessoas de milho e me
ensinou vários tipos de milho, de cores diversas, e me disse que
eram de todas as peles, mas ninguém sabia bem, porque as pessoas
de milho, os homens e mulheres verdadeiros, não tinham rosto...”.[51]
As narrativas mítico-ancestrais - citadas
longamente para deixar sentir seu sabor - e sua sabedoria primordial
combinam-se de maneira desconcertante com um frescor antisolene,
insolente mesmo, de uma linguagem perpassada pelo recurso do humor,
de irreverência e da ironia. Rápido exemplo: na carta à Ernesto
Zedillo, em sua posse como novo presidente mexicano, aparece escrito
“Benvindo ao pesadelo”.[52]
Esta linguagem, habitada pela tradição,
torna-se nova ao romper com outras tradições, aquelas referentes
a uma esquerda estatísta ou fundamentalista. Ela “...não fala do
imperialismo ianque ou da burguesia, não abona com essa cantinela,
suas palavras são novas, são jovens, avançam”.[53]
A diferença não se circunscreve às
fronteiras da política de esquerda. O escritor Octavio Paz, Prêmio
Nobel de Literatura de 1990, crítico feroz do EZLN, reconhece méritos
ao estilo de seu porta-voz e o distingue da retórica política tradicional:
“A linguagem dos líderes do PRI é uma linguagem de funcionários
(...); o sub-comandante Marcos, ainda que desigual e cheio de subidas
e caídas como tobogam de montanha russa, é imaginativo e vivaz...”.[54] Outro famoso escritor, o peruano
Vargas Llosa, insuspeito de alinhamentos à esquerda, “...chegou
a comparar os arrazoados duritianos com os de William Shakespeare.
Coisas de escritores pós-modernos”.[55]
Acionar e transitar intensamente na
mídia, exigências políticas da contemporaneidade, apresentam inúmeros
e imensos riscos. O estar no ar, com sua acelerada e voraz lógica
de atualização e novidades, pode descolar o movimento de sua terra
firme. Este deslocamento entre a selva, a montanha, a comunidade,
a praça, a rua; enfim o mundo da convivência e a tela, com sua “vivência”
à distância, pode ser fatal, pois torna a intervenção política na
mídia sem substrato e, por conseguinte, presa frágil do devorador
aparato sócio-tecnológico do campo da mídia”.[56]
Outro risco chama-se personalização.
Ela se alimenta da convergência no México de dois processos supranacionais.
A tendência à personalização da política induzida pela lógica narcísica
da mídia, considerada por alguns autores como irreversível. A outra
tendência, de dimensão geográfica mais delimitada, provém da tradição
caudilhesca da política latino-americana.
Relembrando esta tradição, José Blanco,
em seu artigo “Caudillos y Democracia”, considera que: “...o subcomandante
é um caudilho de recente fatura”.[57] Raúl Delarbre
atribui às limitações da cultura política mexicana a popularidade
entre mística e milenarista do “caudilhismo mascarado”. Para este
autor já não se trata de um risco, mas efetivamente de um dado dilacerador
do movimento guerrilheiro. Dentro de uma postura altamente crítica
ao EZLN e, em especial, a Marcos, Delarbre escreve: “ O ‘pasamontañas’
de Marcos adquire uma definição, uma notoriedade, mais intensa que
os ‘paliacates’ dos camponeses indígenas.”[58]
Na contramão destes riscos, trafegam
constatações que indicam ou possibilitam a realização do político.
A criação de alternativas políticas para a nação e a não submissão
a uma agenda política neo-liberal, hegemônica na mídia mexicana
e internacional, apontam neste sentido.[59]
A crença e a efetividade da atribuição
de sentidos aos símbolos, se usados no momento oportuno e com a
formatação e ênfase adequados, parece subtrair forças ao processo
de evaporação de sentidos e valores da atualidade. Sobre Marcos
foi escrito: “Com Marcos o simbólico, tão acossado pela pós-modernidade,
cobra para muitíssimos o sentido transparente de que alguma vez
dispôs”.[60]
Afirmar os sentidos do simbólico e
uma possível positividade e dignidade de política tornam-se veios
de manutenção e alargamento de intervenção pacífico-militar dos
neo-zapatistas. Consignas enfaticamante publicizadas como “Democracia,
Justiça e Liberdade” e outras inauguradas pelo EZLN - “Para todos
tudo, nada para nós” e “Governar, obedecendo” - atingem o alvo de
problemas ético-políticos essenciais da atualidade: a corrupção
e a representação, as quais retiram credibilidade e dignidade à
política. Respeitar o bem público e ser dirigido pelos interesses
públicos dos cidadãos devem ser meios de reinventar as possibilidades
do “bom governo”, horizonte almejado pela reforma política pleiteada
pelos neo-zapatistas, que aposta na sociedade civil, no desmantelamento
do sistema mexicano de indissociabilidade Estado/partido (PRI) e
na democracia.
Para conquistar e aprofundar a democracia não cabe apenas
travar a guerrilha “virtual” e “real” - articulando as dimensões
de convivência e televivência da atualidade -, mas trata-se de,
para além de mera utilização instrumental, compreender as conexões
hoje existentes entre ela e a democratização da comunicação e da
informação.
O EZLN tem formulações perspicazes
acerca desta temática. Na fase inicial das negociações com o governo,
só recentemente concluída, a primeira mesa de diálogo era constituída
por seis grupos de trabalhos, um deles nomeava-se “Acesso aos Meios
de Comunicação.” As proposições levadas pelo EZLN surpreendem por
sua envergadura e consistência: “Exigimos garantir o acesso à informação
e o direito à livre expressão. Ele implica garantir o diálogo intercultural.
É direito da sociedade nacional ter acesso às vozes de todos aqueles
que a integram. É direito da sociedade comunicar-se tanto com o
mundo exterior como com o interior”. Para isto ser alcançado, eles
consideram”... indispensável a democratização dos meios de comunicação
e das instâncias de decisão que os regem.”[61]
POLÍTICA
MIDIATIZADA
A inscrição da política nas telas e
páginas e a formulação de propostas de políticas não esgotam as
articulações entre mídia e política no mundo atual. A política
se faz de outros atos que, pelo menos em sua origem, aparecem como
exteriores ao espaço midiático. A percepção das marcas distintivas
da contemporaneidade, em especial seu inusitado amálgama de convivência
e televivência, tem possibilitado a inauguração de uma nova modalidade
de conceber estes atos públicos, instalados em lugares convivenciados,
em sintonia fina com esta compósita sociabilidade, desde seu momento
mesmo de concepção. Pensados nesta perspectiva, os atos não adquirem
sentido apenas por seus efeitos políticos imediatos no espaço circunscrito
de um lugar convivencial, mas intencionalmente calcula e tenta agregar
a este sentido primeiro um outro produzido pelo transito na mídia.
O sentido global deste ato resulta, por conseguinte, da síntese
entre efeito primário e efeito de mídia. Tal procedimento, cada
dia mais presente, ainda que muitas vezes efetivado de modo intuitivo,
poderia ser nomeado como “midiatização de política”.
Os guerrilheiros neo-zapatistas, sintonizados
com o lugar e o global, não desconhecem tal procedimento. Mais
uma vez recorre-se às palavras de Raúl Delarbre: “Talvez ninguém
haja reconhecido com maior claridade um dos rasgos predominantes
nos gestos e nos textos de Marcos que, para fazer política, tem
feito espetáculo. O ‘pasamontañas’ pode ter razões de discreção
e até climatológicas como em algum momento se pensou, porém suas
consequências foram notáveis e eficazmente propagandísticas. Cada
gesto, cada frase, pareciam estar calculados não só em seus significados
revolucionários senão, fundamentalmente, no efeito que causariam
os meios de comunicação.”[62] Malgrado o olhar insensível às
exigências da sociabilidade atual, tomadas de modo sempre negativo,
através do recurso à noção de espetáculo, o trecho percebe o “efeito
de mídia” pretendido pelo ELZN e seu porta-voz.
De imediato, a análise deve se locomover
para os já lembrados “atos espetaculares”, pois neles estariam inscritos,
presume-se, mais facilmente, os “efeitos de mídia”. Não há estranhamentos
entre estes atos e os neo-zapatistas. Marcos, em entrevista, ao
falar do levante de 1 de janeiro, disse: “Necessitávamos uma ação
espetacular...”[63] Em um texto retrospectivo,
o EZLN, referindo-se à tomada de cidades e ao posterior regresso
planejado de suas tropas entre 2 e 6 de janeiro às montanhas, afirma
ter cumprido “...o objetivo de dar a conhecer ao povo do México
e aos povos do mundo as justas causas que animaram nosso andar
de fogo...”[64]
A publicização da existência do movimento, seus determinantes e
reivindicações, foi, em suma, o objetivo de ação político-militar
de ocupar espetacular e temporariamente cidades.
Outra ação espetacular que facilmente
adquire destaque dentre o turbilhão de iniciativas neo-zapatistas,
passou a ser conhecida como Aguascalientes. Em verdade, o EZLN
convocou e organizou de 6 a 9 de agosto, duas semanas antes de eleição
presidencial mexicana, a Convenção Nacional Democrática, ampla e
plural reunião de seis mil convidados de centenas de entidades da
sociedade civil, personalidades - como os escritores Carlos Fuentes
e Elena Poniatowska, partidos e lideranças políticas - como Cuauhtémoc
Cárdenas, candidato à presidência pelo PRD.
A convenção exigiu para a construção
de uma formidável infra-estrutura em uma clareira aberta na selva.
Foram, conforme os neo-zapatistas, 28 dias de trabalho, 14 horas
diárias, 600 homens e mulheres trabalhando por hora, 60 milhões
de pesos velhos gastos para a construção em território dominado
pelo guerrilha, nas proximidades de Guadalupe Tepeyac, de uma biblioteca,
20 alojamentos, 14 fogões comunitários, estacionamento para 100
veículos e um enorme anfiteatro ao ar livre, com uma tribuna de
honra em forma de barco. O local foi nomeado Aguascalientes, em
homenagem à cidade que sediou a Convenção Constituinte de 1914,
acontecida na Revolução Mexicana. Nesta Convenção os zapatistas
originais eram a força dominante.
Aguascalientes - como disse Marcos
em seu discurso na Convenção - representa “...a Arca de Noé, a Torre
de Babel, o barco selvático de Fizcarraldo, o delírio do neozapatismo,
o navio pirata”. O EZLN participou do encontro apenas com 20 delegados
com direito a voto e não aceitou presidí-lo.
Com a realização de fantástica Convenção,
o EZLN buscava efetivar diversos objetivos conectados. A Convenção
tentava criar um clima de diálogo no interior da sociedade mexicana,
em especial da sociedade civil, visando colocá-la como sujeito privilegiado
das transformações democráticas pela via pacífica no México. Com
sua realização, os neo-zapatistas deslocavam o eixo de seu diálogo,
buscando um novo e prioritário interlocutor, pois pouco antes havia
decidido suspender as negociações com o governo, mas não reiniciar
a guerra.[65]
A Convenção serviu para superar o relativo isolamento
e silêncio sobre os neo-zapatistas decorrentes do avanço do processo
eleitoral, que tomava conta da agenda político nacional, ao tempo
em que os reintroduziu nesta agenda, demonstrando sua força social
e sua capacidade político-moral e organizativa na cena mexicana.
Fica nítido então que estas ações espetaculares,
longe de se esgotarem enquanto meros “efeitos de mídia”, desencadearam
processos sóciopolítico que perpassaram a sociabilidade mexicana
e sua história. As ações espetaculares assim não se esvaíram ante
um foco de luz midiático, brilhante e momentâneo.
A busca de inscrever os atos e falas nas dimensões sociais
contemporâneas não se circunscreve às ações espetaculares, antes
transpassa as intervenções neo-zapatistas. No ato de libertação
do general e ex-governador de Chiapas Absalón Castellanos, o EZLN
preparou toda uma cerimônia, transmitida da selva por antenas parabólicas,
especialmente instaladas com esta finalidade.
A continuada produção de atos e falas
políticas objetiva criar alternativas políticas, mobilizar e organizar
permanentemente militantes, simpatizantes e sociedade civil e manter
o EZLN habitando o espaço virtual da sociedade, publicizando sua
presença e demandas. As comemorações dos aniversários do levante
de janeiro e da formação do EZLN, a realização de comícios e manifestações
em datas significativas (descobrimento de América, morte de Zapata,
primeiro de maio, etc.), a organização de encontros, a exemplo do
Fórum Nacional Indígena, dentre outros, fazem parte de uma política
de presença e ocupação de espaços sócio-políticos, convivenciais
e virtuais.
A incorporação da mídia como componente
político essencial hoje não acontece somente pela via de produção
de “efeito de mídia”. A imaginação e abertura neo-zapatistas presentificam-se
em novos modos de fazer política. Durante o processo de negociação
com o governo, a população foi chamada a opinar sobre os possíveis
pontos de acordo nas mesas da sociedade civil através da resposta
de questionários, da elaboração de textos livres - também para entidades
- e de debates.[66]
A atividade de maior repercussão aconteceu
em 27 de agosto de 1995: a Consulta Nacional pela Paz e Democracia.
Esta consulta, sob a forma de enquete, englobou seis perguntas sobre
as principais demandas do povo mexicano, a necessidade de união
das forças democratizadoras, as exigências de uma reforma política
profunda, a participação eqüitativa de mulheres e, em particular,
se o EZLN deveria se constituir em força política nova ou unir-se
a outras formando uma organização política.[67] Convocada em junho
e acontecido em agosto, ela atingiu um milhão e 300 mil pessoas,
instaladas no país e no mundo, através do uso de variadas redes,
inclusive Internet.[68]
As consultas inventam formas de participação,
no plano dos atos e das idéias, que não se orientam mais por fronteiras
nítidas entre o movimento e a sociedade ou o local e o global. Na
sociabilidade complexa contemporânea as limitações dos lugares caem
ante lógicas inovadoras. A exclusividade dos militantes e simpatizantes
próximos como avaliadores de força do movimento deixa de ter plena
validade ante a crescente força oriunda da “opinião pública”. As
consultas tornam-se dispositivos desta incorporação da “opinião
pública” ao fazer política, não a modo difuso como faz reclame a
mídia, mas de maneira orgânica e ativa. A articulação do local
e global, de convivência e televivência agrega poder, neste caso,
sob a modalidade de representatividade e legitimidade.
Este novo e complexo “campo de forças”,
onde localiza-se hoje a comunicação e a mídia, não pode prescindir
de alguns componentes de base da política, ao contrário tende a
realçá-los em sua interação com as operações midiáticas. O sentido
de realidade para analisar o campo de forças e saber se locomover
politicamente nele, por exemplo. Impressiona que o EZLN, estando
isolado na selva, tenha um sentido tão forte de realidade e consiga
influenciar a vida política mexicana.[69]
Outra característica fundamental de
política, o senso de oportunidade, foi otimizado em algumas intervenções
importantes dos neo-zapatistas. O próprio levante de 1 de janeiro
de 1994 aparece como exemplar. Um analista do jornal La Jornada
assinalou: “Teve que produzir-se um levante militar, precisamente
no momento político de maior oportunidade, para que essa voz alcançasse
todos os confins do mundo, e para que sua ressonância mobilizasse
toda a sociedade em torno de suas demandas.”[70]
Cabe lembrar que aquela data marcava o inicio de funcionamento do
Tratado Livre Comércio (NAFTA), assinado com os Estados Unidos e
Canadá, com o qual as elites mexicanas imaginavam chegar ao Primeiro
Mundo. Justo neste dia, os neo-zapatistas obrigaram o mundo e o
próprio país a se lembrar incomodamente do México terceiro mundista.[71]
Talvez por isto e pelo clima de festas
do final de ano, todos - inclusive o governo e mídia - foram tomados
de surpresa, este outro componente significativo da luta política.
A surpresa impediu o Governo de utilizar de imediato recursos de
repressão, inclusive no patamar simbólico como a censura e a propaganda,
e abriu um inusitado espaço político e midiático para o EZLN. Surpresa
e organização, pois os neo-zapatistas estiveram entre os nove mil
indígenas que, anos antes, em 12 de outubro de 1992 praticamente
invadiram San Cristóbal de Las Casas em impressionante passeata,
filmada por Marcos e Daniel, e terminaram por destruir a estátua
de bronze do conquistador Diego de Mazariegos, fundador da cidade
em 1528.[72]
O exercício de imaginação também torna-se
mais exigente. Criar sempre alternativas e intervenções faz parte
desta dinâmica política atual. Em carta ao escritor Eduardo Galeano,
o sub-comandante disse: “Somos um exército de sonhadores, por isso
somos invencíveis, como não ganhar com esta imaginação (...), não
podemos perder, ou melhor dito não merecemos perder.”[73]
A perda de capacidade de imaginar,
bem como de sua sensibilidade à realidade e às oportunidades, impedindo
a organização e a surpresa da inovação trazem risco da repetição
e da banalização, tanto na política, quanto na mídia, esta máquina
devoradora de novidades. Uma fala de Marcos parece entrever este
perigo: “o que busca o Governo é ganhar tempo e buscar o desgaste
do EZLN na imagem pública, através do manejo dos meios”.[74]
OBSERVAÇõES FINAIS
“É a esperança a que obriga a buscar
novas formas de lutar, isto é, novas formas de ser políticos, de
fazer política. Uma nova política, uma nova moral política, uma
nova ética política é não só um desejo ,é a única possibilidade
de avançar, de brincar do outro lado.”[75]
“Você deve saber que o sistema que
você representa (...) tem prostituido a tal ponto a linguagem que
hoje, ‘política’ é símbolo de mentira, de crime, de traição. Eu
digo o que milhões de mexicanos querem dizer-lhe: não o acreditamos.”[76]
Este texto não pretende uma análise
geral da trajetória dos neo-zapatistas, mas tão somente busca compreender
e sugerir uma interpretação a sua específica intervenção político-comunicacional.
Ela deve ser compreendida como modalidade embrionária - talvez
frágil e fugaz - do fazer política na idade mídia.
Tais ressalvas não eliminam a necessidade
de responder, mesmo provisoriamente, a questão da efetividade ou
não política dos neo-zapatistas. Explicitando a questão: o acionamento
dos dispositivos político-midiáticos possibilitou que resultados
ao EZLN? Cabe recordar os objetivos primordiais da política: exercer
o poder político concentrado no Estado e/ou atuar na correlação
de forças na sociedade, buscando alternativamente ter condições
de governabilidade, torna-se governo ou intervir nas decisões do
governo, obrigando-o ou impossibilitando-o de realizar determinados
programas e/ou projetos específicos.
O EZLN,
além de ter consolidado suas bases indígenas e camponesas em Chiapas,
tornou-se um movimento político-militar-midiático de dimensões nacional
e internacional, sendo hoje ator indispensável de cena política,
através de seus atos, falas e de sua imagem pública. Com sua irrupção
abriu-se uma fissura no quase monolítico agendamento neo-liberal
do México. A modernidade pretensamente atingida fazia esquecer
e esconder o país: complexo e desigual. A emergência deste México
profundo, onde milhões vivem e morrem, e o posterior crise econômica
desmascararam a modernidade neo-liberal e alteraram o agenda política.
“O zapatismo trouxe à tona o país real e seu chocante contraste
com o país de faz-de-conta do triunfalismo oficial.” [77]
Com isto, a atmosfera política igualmente
se modificou. Um popular, ouvido pelo jornal Voz Pública,
observou: “O grande êxito dos zapatistas é nos ter obrigado a pensar
(...) em um país de apáticos e incrédulos, isto é quase um milagre.”[78] Tal alteração de clima político
teve ressonâncias importantes, pois “eles deram pressa à vontade
de transformações.”[79]
O impacto causado pela irrupção do levante, pelo debacle financeiro
posterior, pela emergência do EZLN como ator e interlocutor políticos,
pela redefinição da agenda temática e pela alteração da atmosfera
político-social modificou o cenário político, aprofundando a crise
do PRI e do Estado mexicano.
Para além e certamente por conseqüências
destas transformações, o EZLN como resultado mais imediato, chegou
a um acordo com o governo, o qual prevê, dentre outras medidas,
uma maior autonomia à população indígena em assuntos econômicos,
políticos, culturais e judiciais.[80]
Neste possível contexto de paz desarmada,
o EZLN colocou no eixo central de suas preocupações a velha questão
de o que fazer. O debate novamente interpela a sociedade
civil. Fernanda Navarro escreveu em La Jornada: “Desde o
primeiro de janeiro de 1996, o EZLN nos lança outro desafio: questionar
nossos proprios esquemas ideológicos, organizativos e mentais, ao
oferecer uma alternativa, uma nova forma de fazer política.”[81] Ela se refere a supreendente (?) proposição de
se organizar como frente ou movimento nacional, mas não participar
de eleições.
O novo desafio colocado para e pelo
EZLN aparece bem sintetizado nas palavras de Enrique Semo: “O grande
problema é como conservar esta excepcionalidade e ao mesmo tempo
adquirir uma identidade igual a de outras forças de esquerda: as
já conhecidas, já provadas, já trilhadas movimento popular
ou partido político que tem exibido todas as suas virtudes
e limitações.”[82] Qualquer que seja
sua opção, os neo-zapatistas parecem ter alguns trunfos: suas bases
sociais, sua imagem pública, sua imaginação e sua atualíssima intervenção
político-midiática.
* Versão resumida do texto “Configurações da Política na Idade Mídia: o Neo-Zapatismo”
apresentado na V Encontro Anual da Associação Nacional de Programas
de Pós-Graduação em Comunicação - COMPÓS. SP, maio de 1996.
[1] LÉON, Antonio García
de. “Prólogo. Redes de transición, selva de símbolos”. In: _____.(org.)
EZLN. Documentos y Comunicados 2. México, Edicones Era,
1995. p. 16.
[4]MARCOS, “Historia de Marcos y de los hombres de la noche”
(entrevista). In: GILLY, Adolfo, MARCOS e GINZBURG, Carlo. Discusión
sobre la historia. México, Taurus, 1995, p. 139. Ver também:
SEMO, Enrique”. EZLN: Cambio de piel”. In: Processo. México,
(1002): 38, 15 de janeiro de 1996.
[5] OLIVEIRA,
Renan Antunes de. “Ser ou não ser rebelde.” In: Isto é.
São Paulo, (1352): 96-98, 30 de agosto de 1995.
[7] DÍAZ,
Carlos Tello. “La rebelión de las Cañadas”. In: Nexos México,
(205): 50, janeiro de 1995. Ver tambén: DELARBRE, Raúl Trejo.
(org.) Chiapas la guerra de las ideas. México, Diana, 1994.
Este livro reune, em particular, textos publicados na imprensa
com posição contrária à violência.
[10] MARCOS.
“Aniversario de la formación del EZLN”. In: LEÓN, A. (org.) ob.
cit. p. 133.
[11] DELARBRE,
Raúl Trejo. Chiapas. La comunicación enmascarada. México,
Diana, 1994 p. 369.
[13] REBOLLEDO,
Adolfo. “Chiapas y nuevo enero”. In: Nexos. México, (205):
14 de janeiro de 1995.
[15] FUSER,
I. ob.cit. p. 239.
[16] FUSER,
I. ob.cit. p. 239/240
[17] CCRI do EZLN. “Otras
formas de lucha”. In: LEÓN, Antonio Garcia de. EZLN. Documentos
y Comunicados.México, Ediciones Era, 1994 p. 103. Também:
SEMO, E. ob.cit. p. 38
[19] YEHYA, Naief. “El
zapatismo en cinta magnética”. In: Nexos. México, (205):
89, janeiro de 1995.
[21] MERINO, Mauricio.
“Chiapas: el axioma de Hermann Heller”. In: Nexos. México,
(205): 52, janeiro de 1995.
[22] CASTELLS,
M. ob. cit. p. 30
[23] CCRI do EZLN.
“Otras formas de lucha”...p.102/103.
[26] MORENO,
Octavio. “Marcos en el Zócaro”. In: Motivos. México, 11.08.1995,
p. 3.
[28] ROBBERSON,
Tod. “Zapatistas ‘combatem’ via Internet”. In: Jornal do Brasil.
Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1995, p. 7.
[29] CCRI-CG
do EZLN. “Alerta roja de las tropas zapatistas en todo el territorio”.
In: LEÓN, A. (org.). EZLN. Documentos y Comunicados 2 ...p.46.
[30] MARCOS.
“La larga travesía del dolor a la esperanza”. In: LEÓN, A. (org.).
EZLN. Documentos y Comunicados 2...p.62 e 63.
[33] JARDÍ, Julián.
“Chiapas: la sombra y las máscaras”. In: Nexos. México,
(250):78, janeiro de 1995.
[35] DELARBRE,
R. ob.cit. p. 37.
[37] MARCOS.
“Carta de Marcos sobre la prensa”...p.118.
[39] MARCOS.
“Historia de Marcos y de los hombres de la noche”...p. 132.
[40] ROBBERSON, T. ob.cit.
p. 7. Ver “Historietas”. Suplemento semanal do La Jornada.
México, 28 de janeiro de 1996 (cartuns e desenhos) e PONCE, Roberto.
“Mario Balsamo, el italiano que escribio su novela historica sobre
la revuelta zapatista, em México.” In: Proceso México,
(1002): 62, 15 de janeiro de 1996.
[41] FUSER,
I. ob. cit. p. 74.
[42] DELARBRE,
R. ob. cit. p. 344/345.
[44] FUSER,
I. ob.cit. p. 63.
[45] FERREIRA,
M. N. ob.cit. p. 94 a 96.
[46] CCRI-CG
do EZLN. “Composición del EZLN y condiciones para el diálogo”.
In: LEÓN, A. (org.). EZLN. Documentos y comunicados...p.
74.
[48] MONSIVÁIS,
Carlos. “Crónica de una Convención (que no fue tanto) y de un
acontecimiento muy significativo”. In: LÉON, A. (org.). EZLN.
Documentos y comunicado...p. 323
[54] PAZ,
Octavio apud DELARBRE, R. ob. cit. p. 98.
[55] OLIVEIRA,
R. A. ob. cit. p. 98.
[57] BLANCO,
José. “Caudillos y democracia”. In: DELARBRE, R. (org.). ob.cit.p.363.
[60] MONSIVÁIS,
C. ob.cit. p. 320-321.
[61] Ver revistas Ce-Acatl
México, (73): 1-64, 17 de novembro de 1995, quase totalmente
dedicadas à temática. As citações encontram-se na página 92 do
número 74/75 e fazem parte do texto “Documento de lso asesores
e invitados del EZLN”.
[62] DELARBRE,
R. ob. cit. p. 336.
[64] MARCOS.
“Aniversario de la formación del EZLN”. In: LEÓN, A.(org) EZLN.
Documentos y comunicados 2...p. 132.
[65] MARCOS.
“Aniversario de la formación del EZLN”...p. 134.
[66] CASTILHO, Pedro.
“El pueblo tomó la palabra”. In: Y qué Mexico, 92):30,
11 de abril de 1994 e MENESES, Juan Anzaldo. “Presentación”. In:
Ce-Acatl México, (74/75):3, 17 de dezembro de 1995.
[67] CCRI-CG
do EZLN. “Convoca el EZLN a ‘una grand consulta nacional”. In:
LEÓN, A. (org). EZLN. Documentos y comunicados...p. 360-364.
[68] Os neo-zapatistas
afirmaram que o número de consultados era um triunfo e que susrpreendia
a todos, em primeiro lugar, eles mesmos, pois aconteceu um boicote
de mídia televisiva. MARCOS. “Fin de la consulta nacional”. In:
LEÓN, A. (org). EZLN. Documentos y comunicados...p. 453.
A revista Isto é diz que eles esperavam dois milhões de “votantes”.
RENAN, A. ob. cit.p. 96. Ver também: MONSIVÁIS, C. ob. cit. p.
467-472.
[69] BALSAMO,
Mario apud PONCE, R. ob.cit. p. 62 e FUSER, I.. ob. cit.p.240.
[70] CONCHA,
Miguel. “Resultados” .In: La Jornada. México,03.02.1996,
p. 11.
[71] RIVAS,
Lorenzo. “Despertó o México bronco”. In: Y qué México,
(1):23, 28 de março de 1994.
[72] DÍAS,
C. T.. ob.cit.
[73] MARCOS
apud VÁSQUEZ, C. ob.cit. p. 5.
[74] LÓPEZ,
J. C. ob. cit. p. 30.
[77] FUSER,
I. ob. cit. p. 60.
[78] GALLO,
Carolina. “El Frente Zapatista, llamado por la unión”. In: Voz
Pública México, 8 a 14 de janeiro de 1996 p. 5.
[79] MONSIVÁIS,
C. ob. cit. p. 4.
[80] “Zapatistas e Governo
fazem primeiro acordo”. In: Folha de São Paulo. São Paulo,
17 de fevereiro de 1996. p. 2-109. Ver também CONCHA, M.ob.cit.
[81] NAVARRO,
Fernanda. “I a pensar de otra manera! El reto zapatista.” In:
La Jornada. México, 21 de janeiro de 1996 p. 14.
|