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A HISTÓRIA DO ÁLCOOL NO MUNDO
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As mais antigas provas arqueológicas do uso das bebidas alcoólicas possuem quase oito mil anos. Tal característica provavelmente associa-se ao fato da fermentação, que transforma o açúcar em álcool, ocorrer espontaneamente nas frutas em contato com o ar. Desta forma, a fabricação do vinho e da cerveja se desenvolve simultaneamente a agricultura. No início das civilizações o álcool tinha diversas funções. Documentos comprovam que entre os sumérios o vinho e a cerveja eram usados com fins medicinais. De fato, sabe-se que a cerveja é nutritiva e tem forte ação diurética, podendo ser utilizada para expelir cálculos renais. Sabe-se também que os açucares da cerveja e do vinho possuem virtudes medicinais. A glicirrizina, por exemplo, é utilizada, atualmente, para prolongar a vida de aidéticos e para tratar de infecções nas vias digestivas e respiratórias. Apesar dos benefícios, os médicos sumérios já afirmavam que as poções alcoólicas devem ser utilizadas em pequenas doses, sob a pena de "perderem o poder curativo e se transformarem em veneno" se consumidas em excesso. Além do uso em benefício da saúde, o álcool era consumido nos ritos e cerimônias religiosas. Festas de honra aos deuses da agricultura no Egito e na Assíria incluíam bebedeiras coletivas que duravam diversos dias. De acordo com os egípcios, o deus Osíris, teria ensinado os homens a cultivar a videira e a cevada para fabricação de bebidas capazes de inspirar a alma dos homens que as usassem com moderação.
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Os Egípcios
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| Os Gregos | ||
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Na Grécia Antiga, a primeira bebida a se tornar popular foi o hidromel, obtido através da fermentação do mel diluído em água. Seu reinado, no entanto, durou pouco, sendo logo substituído pelo vinho das parreiras locais. Semelhante aos povos vizinhos, os gregos usaram o vinho com finalidades medicinais, religiosas e hedonísticas. Documentos arqueológicos demonstram que o vinho e a embriaguez mística são uma constante no período da Grécia arcaica (civilização Egeu-cretense) e da formação da mitologia grega (1500 a. C.), a qual inspirou lendas como a de Édipo, o homem que ama a própria mãe, a de Electra, mulher que se apaixona pelo pai e a de Cronos, pai que devorou os filhos. Durante esse período, um antigo relato conta, que numa das cidades-estado gregas, o casal considerado mais belo pela coletividade era sacrificado anualmente. A moça e o rapaz desfilavam nus pela cidade e por vários dias se embebedavam em honra à Dionísio, deus da embriaguez. Após alguns dias, os adolescentes eram sacrificados em praça pública e seus corpos e sangue eram espalhados pelos campos de cereais e troncos das videiras, para impregná-los da alma e da energia daquele que era considerado o mais belo casal humano. Na Grécia clássica, o grande desenvolvimento das ciências, da filosofia e da política impôs a moderação e o fim dos sacrifícios humanos. Nessa época, o uso do vinho passa a fazer parte dos hábitos de hospitalidade e da vida social grega. As bebedeiras ficam reservadas a algumas ocasiões especiais. Uma das mais famosas cerimônias comemorava o primeiro porre de uma criança de 14 anos. Tal evento era o pretexto para uma noite de festa e animados diálogos, inspirados por uma ou duas taças de vinho com baixo teor alcoólico. Tratava-se de um rito de passagem. É certo, porém, que o abuso do álcool em Atenas preocupava as autoridades da época clássica e era duramente criticado por filósofos como Sócrates e Platão. Para eles, "o uso imoderado do álcool e de qualquer outro elemento da vida causava a desarmonia e a perda da luz do espírito". Alexandre, o Grande, um dos maiores gênios militares de todos os tempos foi possivelmente um alcoólatra. Tendo uma mãe devota a Dionísio e um pai que embriagava-se com freqüência, as bebedeiras de Alexandre eram famosas, principalmente, quando se realizavam ao fim de cada batalha vitoriosa. Há indícios de que sua morte prematura, aos 33 anos, esteja ligada a uma noite de excessos, quando ele convalescia de uma doença.
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| Os Judeus | ||
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Os judeus, provavelmente, conhecem o vinho durante seu cativeiro no Egito. Enquanto escravos, o alcoolismo é uma constante em seu povo. Com a chegada de Maomé e conseqüente libertação do Egito, os judeus atravessam o deserto, alcançando a Terra Prometida, local onde edificaram a cidade de Jerusalém.Os judeus, então, passam a ser moderados no uso do vinho. Velhos patriarcas, líderes de algumas tribos, impõe à abstinência do álcool à sua família e a seus comandos. Essa hostilidade à embriaguez pode ser observada em episódios do Antigo Testamento. Dentre eles, podemos citar os relatos em que o álcool induziu homens e mulheres a cometer graves pecados, como o incesto e o assassinato. O Livro dos Provérbios condena também "o amor ao vinho", dizendo que ele pode levar os homens à pobreza e à aniquilação. Em 586 a.C. os judeus são novamente conquistados e, desta vez, escravizados pelos babilônicos. Nesse período, entretanto, os judeus observam à ruína da Babilônia devido ao abuso generalizado de bebidas alcoólicas por parte do povo e do exército. Conta-se que os persas atacaram e facilmente venceram, pois os babilônios estavam enfraquecidos por uma noite de orgia coletiva. Com o retorno dos judeus à Palestina, o vinho voltou a fazer parte de cerimônias e comemorações religiosas. Regras sobre o correto uso do alcool, porém, foram copiladas em livros sagrados, como o Talmute.
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| Os Romanos | ||
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Introduzida na Península Itálica por colonizadores gregos, a viticultura romana foi responsável pela substituição do vinho grego nas rotas de comércio da Antiguidade, assim como, fez da exportação do vinho uma das mais lucrativas atividades do Império, estando ao lado das conquistas militares e da administração das colônias. Os romanos foram também responsáveis pela disseminaração de sofisticadas técnicas de fabricação de vinho por diversas regiões (Espanha, França, Grã-Betanha e Alemanha). Nesse período, o alcoolismo chegou a ser um problema social nas grandes cidades.
O alcoolismo, na época do esplendor, afetou desde plebeus aos patrícios. O imperador Calígula, por exemplo, ficou famoso pelas orgias que promovia, distribuindo vinho e cerveja ao povo as custas do erário público.
Aos poucos, no entanto, o Império Romano foi perdendo sua força. Como reação o culto à sobriedade passou a caracterizar imperadores como Marco Aurélio e seus sucessores. O cristianismo se difundiu, dando um maior apoio a esta nova concepção. O resgate da sobriedade, porém, não foi capaz de salvar Roma da ruína econômica e da fraqueza política herdada dos excessos cometidos nos tempos de glória. Ao substituir as religiões pagãs gregas e romanas, o cristianismo impôs moderação ao álcool. Apesar de não condenar o seu uso, os cristãos criticavam o seu excesso. A utilização equilibrada, por sua vez, contava com o apoio do Evangelho Cristão, pois além do primeiro milagre realizado por Jesus Cristo ter-se constituído na transformação da água para o vinho, o fato de Jesus consumir esta bebida durante as refeições é demonstrado na Última Ceia. Embora os Evangelhos recomendem a moderação, era comum entre os cristãos primitivos, festas e bebedeiras em honra de mártires considerados santos. No começo da Idade Média, o contato com os celtas, germânicos e anglo-saxões diversificou as bebidas e difundiu entre os cristãos a cerveja, a cidra e o hidromel.
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| Idade Média | ||
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Com o triunfo do cristianismo, os monastérios passam a ser repositórios das técnicas de fermentação e fabricação de vinho do mundo antigo. Além de produzir esta bebida para a celebração de missas, os conventos possuíam extensas plantações de videiras e fabricavam vinho para trocá-los por outras mercadorias. Muitas das fórmulas de bebidas criadas na Antiguidade foram guardadas e testadas nos monastérios. Durante quase 1300 anos as melhores vinícolas do mundo pertenceram a ordens religiosas cristãs. Na França, os monges desenvolveram os vinhos da Borgonha, de Bordeaux e muitos dos champanhes que alegravam as mesas dos castelos dos senhores feudais. Na Alemanha, eles criaram o Mosel e o Reno. Os religiosos cristãos também foram responsáveis pela difusão do vinho nas Américas. Assim como aconteceu na Antiguidade, os abusos e o vício passaram a ser um problema em muitas ordens religiosas. Autoridades eclesiásticas chegaram a combater e punir monges alcoólatras, embora o vinho continuasse sendo servido nos conventos. No fim da Idade Media, o cultivo da cevada e do lúpulo no norte da Europa tornou famosas as cervejas das seguintes regiões: Inglaterra, Alemanha, Holanda, Polônia e Rússia. Com a difusão das técnicas destilação, incrementadas pelos árabes, o leque de novas bebidas se ampliou bastante. Nesse período, o professor de medicina, médico alquimista e pioneiro da farmacologia Arnaldo de Villanova chamou as bebidas destiladas de água da vida, atribuindo-lhes propriedades de fortalecer o corpo e prolongar a vida, quando usadas com moderação. Como Villanova, muitas pessoas acreditaram que poções alcoólicas usadas como tônicos fortaleciam o corpo contra doenças e infecções, funcionavam como anti-reumáticos, estimulantes e analgésico contra a dor. Sem contar, nas propriedades de melhoria das energias e rendimento no trabalho.
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| Idade Moderna | ||
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No começo do século XVII, a descrição dada pelos viajantes das diversas bebidas e os variados modos de beber já relatavam situações e fatos muito semelhantes aos que ocorrem hoje em dia. Em 1618, por exemplo, o viajante inglês Gynes Moryson notou que seus conterrâneos e os franceses bebiam pouco se comparados aos alemães, irlandeses e escoceses, os quais bebiam em excesso. De 1600 a 1750 a Europa conheceu grande crescimento do consumo de cerveja, vinho, destilados e licores. As melhorias na agricultura, o aperfeiçoamento das técnicas de fermentação e o desenvolvimento das destilarias com equipamentos cada vez mais aprimorados foram em grande parte responsáveis pela disseminação dos hábitos de beber em toda a Europa. Durante este período, a bebida que mais se popularizou foi o gim, sobretudo, na Inglaterra, quando o rei britânico Guilherme III proibiu a importação dos vinhos franceses e do brandy, estimulando, desta forma, a produção do gim doméstico em pequenas destilarias locais.
Durante esta fase, era comum os patrões fornecerem bebidas de graça aos seus empregados, para deixa-los mais contentes e fazer o trabalho render. Alguns ricos patrões britânicos chegaram a afirmar que "a bebida era útil para calar a boca dos operários rebeldes e eliminar os homens mais fracos e imoderados numa época de excesso de mão de obra". No século XVIII eram freqüentes também, as festas nas cortes da França e de outros países, as quais incluíam bebedeiras e orgias sexuais. A embriaguez passava a ocorrer na população feminina. A exemplo do que ocorrera no clero e na Antiguidade, o vício do álcool passou a ser o maior problema social da Europa. Acidentes de trabalho eram constantes, assim como casos de loucura e autodestruição. Documentos da época revelam que muitos operários franceses gastavam seus salários no consumo de álcool. Gente com mais dinheiro consumia um licor alucinógeno chamado absinto, que no decorrer da historia, irá se tornar a droga preferida dos artistas e escritores parisienses
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| Idade Contemporânea | ||
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No começo do século XX, o abuso generalizado do álcool nas grandes cidades da Europa e das Américas provocou a reação de religiosos, médicos e estadistas, a qual culminou na proibição da manufatura e da venda de bebidas alcoólicas em países como os Estados Unidos, Finlândia, Bélgica, Islândia, Noruega, Grã-Betanha e Rússia. Nos anos 30, no entanto, essas leis já haviam sido revogadas por serem ineficazes no controle do tráfico clandestino e gerarem grande violência, como também poderosas redes de gângsteres. Provavelmente o caso mais expressivo tenha sido o da Lei Seca, que vigorou nos Estados Unidos, de 1919 a 1933. Inspirada numa concepção puritana, tal lei foi amplamente burlada por bandos de mafiosos (um deles liderado por Al Capone) que fabricavam e vendiam a bebida clandestinamente. Além da onda de violência gerada, tal medida motivou um ciclo de literatura policial e de film noir que ainda não se esgotou, como demonstram os romances de Dashiel Hammett e filmes como Os Intocáveis. Observação - Este texto é uma síntese do capitulo I (A droga mais antiga) do livro "Tudo Sobre Drogas - Alcoolismo", de Ross Fishman, editora Nova Cultura, 1998. |