Resenha

> HQs aculturadas

Os quadrinhos deveriam refletir um universo lúdico da sociedade na qual são produzidos. No Brasil, as HQs de humor e infantis fazem isso perfeitamente, mas Tio Combo - mestre dos Combo Rangersparece que nas histórias de heróis essa consciência ainda não foi tomada. A maioria delas é ambientada nos EUA (Godless, UFO Team) ou se passa em lugares imaginados (Holy Avenger, Victory, Combo Rangers, Quebra-Queixo). No caso especial dos universos inventados, isso é completamente válido, pois às vezes essas sociedades fora da realidade são necessárias para o próprio desenvolvimento da história, seja o mundo mágico medieval de Holy Avenger ou o futuro crítico-apocalíptico de Quebra-Queixo, sem contar que isso também pode criar uma possibilidade crítica à nossa realidade, mesmo não sendo tão explícito.
Mas a revista UFO Team, por exemplo, tem uma grande história, com um desenho que impressiona, mas peca por a trama se passar nos EUA. Por que será que a história, mesmo sendo produzida nacionalmente, não é ambientada no Brasil? Temos cidades que poderiam muito bem servir de pano de fundo como Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador, com grandes totens que ressaltam a brasilidade e que poderiam ser caracterizados nas revistas (Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Elevador Lacerda) mas que não são aproveitados. Em seu lugar, eles preferem colocar o Deserto Mojave. Seja por questões ideológicas (achar que o brasileiro não gosta de se ver nas HQs ou que uma história de heróis passada no Brasil seria incoerente) ou comerciais (por pretenderem lançar a revista no mercado americano).
Os produtores de revistas brasileiras de heróis deveriam ter como objetivo maior, acabar com a idéia de que o brasileiro não se vê com seriedade (afinal a maioria das personagens são infantis ou anti-heróis). E deveriam criar um super-herói eminentemente brasileiro, que combatesse o mal com orgulho e dignidade, e defendesse os fracos e oprimidos desta terra, que precisa, e muito, de alguém que olhe por nós.

Darlan Muniz, 10 de julho de 2001

 

Produzido por Darlan Muniz e Leonardo Costa
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