"Qual
é a melhor guitarra do mundo?". Se você é guitarrista, certamente já deve
ter se perguntado isso. Esta dúvida assola principalmente os iniciantes. Porém,
dentro de todo o leque de opções de guitarras possíveis, geralmente a disputa
acaba promovendo como finalistas os dois mais tradicionais modelos de guitarra
do mundo: a Fender Stratocaster e a Gibson Les Paul.
Antes de mais nada, vale ressaltar que ambos os modelos são magníficos, o que não será constestado pelo autor deste site puramente pelo fato de ele ter dedicado este espaço todo para falar da Stratocaster. Responder qual é a melhor guitarra do mundo, a meu ver, é uma incoerência. Não dá para se estabelecer uma e pronto, principalmente porque uma análise deste tipo deve levar em conta algumas considerações como, por exemplo, o gosto pessoal do guitarrista e o tipo de som que ele pretende extrair da guitarra. Além disso, deve-se pensar que Stratocaster e Les Paul são, antes de mais nada, referências de som, havendo ainda no mundo milhares de modelos de guitarras que optaram por utilizar de misturas destas características para produzir uma sonoridade própria. Desta forma, este comparativo se dará muito mais no sentido de apontar as características e peculiaridades dos modelos, sem, no entanto, tentar elevar uma das duas guitarras ao posto de melhor ou de pior. Então vamos às diferenças:
A
primeira característica que distingue a Strato da Les Paul está em seus captadores.
No modelo Stratocaster original são três single-coil. Este tipo de captador
apresenta seis imãs independentes, e sua sonoridade é bastante estalada, com
agudos penetrantes e grande emissão de harmônicos. É bastante indicada para
timbres suingados e bases limpas. Uma grande desvantagem deste tipo de captador
é a sua alta emissão de ruídos. A Les Paul, por sua vez, salvo algumas exceções,
apresenta dois captadores tipo humbucker, também conhecidos (erradamente,
pois trata-se de um único captador) como captadores duplos. Este tipo
de captador tem o imã maior e mais pesado que os single coil, de forma que
sua sonoridade é mais robusta e encorpada. Há os que chamem o som dos
humbucker de "mais gordo". Em outras palavras, um humbucker é
um captador mais potente. Um outro ponto positivo deste tipo de captador é
que ele não emite os ruídos característicos dos single-coil. Por estas e outras,
é usado largamente em guitarras modernas, como as Ibanez e as Jackson, chegando
a equipar também alguns modelos de Statocaster mais recentes.
Por
apresentar três captadores, e também pela sua grande possibilidade de chaveamentos
e combinações de captadores, a Strato é uma guitarra muito mais versátil que
a Les Paul, sendo desta forma utilizada por músicos de vários estilos diferentes.
Um fator positivo da Les Paul, no entanto, é o seu grande potencial de controle
de som, tendo ela controles de tom e de volume independentes para cada um
dos captadores. Além disto, ela possui uma chave seletora de três posições
de captadores. A Les Paul tem como característica sonora uma maior sustentação
da nota, o que, aliado aos seus captadores, a torna uma guitarra mais recomendada
para o uso de distorção, sendo largamente utilizada em vários segmentos do
rock. Mas, devido a estas características, é uma guitarra muito pesada, o
que é um agravante para seu uso contínuo.
No quesito anatomia, a Stratocaster dá um banho. Com seus cortes chanfrados e design mais ergonômico e leve, é mais confortável de ser tocada. A Les Paul, por sua vez, é menos anatômica, e em decorrência disto, menos confortável, porém tem um braço bastante macio e leve de tocar. Alguns guitarristas, como é o caso de Ritchie Blackmore, escalopavam (escavavam) o braço das suas guitarras Strato a fim de realizar algumas técnicas como ligaduras e bends com mais facilidade.
A versatilidade da Stratocaster está presente também em seu desenho. Por sua anatomicidade, e também por sua facilidade de "ser envenenada", é a guitarra mais vendida e copiada do mundo. Para se ter uma idéia, para conseguir características sonoras efetivas numa Strato, basta trocar seus captadores. Há inclusive captadores como o modelo Hot Rails, da Seymour Duncan, que funcionam como um humbucker ocupando o espaço de um single-coil. Por outro lado, é muito difícil ver guitarras Gibson equipadas com single-coils, ou com características sonoras semelhantes às de uma Strato (a não ser pelo uso de defasadores, como os sistemas push-pull, a exemplo do usado por Jimmy Page, do Led Zeppelin).
Em
suma, ambas as guitarras apresentam características bem diferentes, o que
torna impossível uma comparação justa, até porque não estão sozinhas no mundo;
apenas vieram primeiro, indicando o caminho para todas as outras guitarras
que estavam por vir. Não podemos esquecer que há guitarras excelentes
(e caras) como as PRS(Paul Reed Smith), por exemplo, que conseguem reproduzir
muito bem timbre tanto de um Stratocaster quanto de uma Les Paul numa única
guitarra. Nem por isto, estas guitarras se tornam unanimidade entre músicos.
Aliás, como já diziam os sábios, toda unanimidade é burra. Tudo depende do
guitarrista, e do que ele procura. Eddie Van Halen, guitarrista que revolucionou
o mundo da guitarra com suas técnicas e inovações para o instrumento, ao explicar
o modelo de guitarra que utilizava em 1978, quando sua banda estourou, definiu:
"Eu queria um som de Gibson, mas com o vibrato da Strato". O próprio guitarrista
que aqui vos escreve, embora não seja lá grandes coisas, passou por uma situação
destas. Minha primeira guitarra foi uma Squier Stratocaster que, embora a
marca engane um pouco, era excelente, pois se tratava de um modelo comemorativo
dos 50 anos da Fender, e era toda bonitinha e bem acabada, além de
ser do modelo Standard, diferente daquela Squier Affinity lixo, que é
a mais conhecida por aqui. Me desfiz da guitarra (com um aperto enorme no
coração), pois seu som não era muito exatamente o que eu queria:
estava atrás de mais peso, mais sustain, aquele som gordo "que só
uma Gibson podia me dar". Desta forma, troquei minha guitarra por uma
Washburn, que tem o visual parecido com o da Strato e que tinha dois captadores
single e um humbucker na ponte. Troquei o single do braço por um Hot Rails,
da Seymour Duncan, e o humbucker por um outro SD, um JB-Trembucker, que tem
o som mais seco (não entenda por isto pior) que uma Gibson, porém
mais claro e nítido que o meu humbucker anterior. Atualmente a guitarra
tem uma característica timbral bem do jeito que eu gosto, coisa que não conseguia
com uma Strato normal, porém sem abrir mão do conforto do corpo,
e ainda com a vantagem de ter aquele "suingue" do captador médio
da Strato, que uma Gibson normal não tem.
Eu sei que não me propus a dar um ultimato nesta seção, e de fato não o vou fazer, mas ainda assim vou dar meu ponto positivo (relembrando que isto é apenas uma opinião pessoal) para a Strato, e vou usar a declaração de um guitarrista que admiro para sustentar isso. Ritchie Blackmore certa vez declarou o seguinte sobre a sua transição de uma Gibson para uma Strato: "Gostava do som dela. Rolava muito bem com um wah-wah, porque era bem agudo. Mas tive muitas dificuldades nos dois primeiros anos na transição da Gibson para a Fender. Com uma Gibson, você apenas corre para cima e para baixo, mas com a Fender, você tem que fazer cada nota cantar, ou ela não funciona. É mais gratificante - com a Gibson, ninguém tem uma identidade."