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Entrevista com Antonio Dias - Professor - antigo Vice-diretor da Escola Biblioteconomia / Comunicação.

Samantha Marinho - Quando e como o Senhor ingressou na equipe de Professores da FACOM ?
Antonio Dias - Eu ingressei como professor na faculdade de Comunicação em 1979, mas eu já tinha concluído o curso em 1978 só que nessa época os concursos eram muito demorados e havia a categoria do professor colaborador, foi então que em 79 eu fui convidado a ensinar como professor colaborador, sendo que no ano seguinte eu fiz o concurso.

Samantha Marinho - Porquê todos os diretores eram do departamento de Biblioteconomia ?
Antonio Dias - Nós pertencíamos à Escola de Biblioteconomia e Comunicação, e nessa época pela norma da universidade cada escola deveria ter pelo menos dois departamentos. No nosso caso tinha o departamento de Comunicação e de Biblioteconomia, foi feito um acordo que cada gestão seria de um departamento, ou seja que os dois departamentos deveriam ter um tempo para administrar a escola, no entanto as mulheres de Biblioteconomia deram o golpe, elas nunca aceitaram a alternância, por isso ficamos 17 anos sob o domínio das mulheres de Biblioteconomia.

Samantha Marinho - O fato do curso de Comunicação ter ficado 17 anos sob o domínio do departamento de Biblioteconomia teve algum impacto negativo para o curso ?
Antonio Dias - Sem dúvida, isso teve repercussões sérias para o nosso curso, a pesquisa na escola de um modo geral não desenvolvia, os professores não eram estimulados, faltavam muito as aulas, não havia equipamentos e ficamos sem conseguir dar passos porque tivemos menos apoio, então resolvemos tomar um posição.

Samantha Marinho - Sabemos que foi através do Senhor que tomou-se a decisão de ocupar o prédio do canela. Porque isso aconteceu ?
Antonio Dias - Na verdade, nós estimulamos a ocupação do prédio, mas a decisão principal de invadir foi dos estudantes, nós apoiamos e demos incentivação para que isso acontecesse. Isso aconteceu, porque no 2o. semestre de 78,79 eu era coordenador do curso de colegiado de comunicação, deparei que a situação do curso era difícil e nós tomamos a decisão de abrir um processo, pedindo ao reitor oficialmente a criação da faculdade. Daí aproveitamos o momento que o Professor Ailton Caires de Comunicação substitui a diretora durante dez dias, formalizamos o pedido e naquela circunstância foi aprovada a separação, mas para obrigar a reitoria tomar a deliberação de oficializar a criação da faculdade de Comunicação, Instituição decidimos ocupar o prédio.

Samantha Marinho - A manifestação contra a separação e consequente ocupação do prédio, só foi da Comissão de vestibular ou não ?
Antonio Dias - Não porque a reforma universitária, criou várias escolas pequenas e não admitia de forma alguma que elas se reagrupassem, por exemplo a escola de música era inicialmente música, dança e teatro e nunca se entenderam, e aí nós fomos os pioneiros a ter ousadia de dividir, então como o conselho universitário era dominantemente conservador, estavamos no tempo da ditadura, não aceitava essa idéia, fui procurado por vários professores para desistir, tentando me convencer dizendo que eu era jovem e tinha futuro na universidade, mas na verdade nós estavamos firmes porque precisavamos de espaço para crescer e naquela condição nós não tinhamos e aí mantivemos a nossa posição e ficamos vários meses sem receber apoio do reitor.

Samantha Marinho - Quais foram os constrangimentos que essa situação de instabilidade trouxe, para o curso de Comunicação ?
Antonio Dias - Essa situação, se agravou sem o apoio do reitor e os problemas que existiam estavam justamente ligado à questãoda estrutura física. As aulas eram dadas debaixo das árvores, não tinha cadeiras, sentava-mos no chão, teve dias que paravamos o trânsito na frente da Facom, nós ficamos seis meses nessa situação até que foi nomeado um novo Reitor, Professor Germano Tamakov, e instalamos no prédio onde as condições eram péssimas para trabalhar, não havia cadeiras suficiente, não tinha papel higienico, não tinha nada e nós combinamos convidar a imprensa, deixar as portas abertas para que todo mundo visse, então se sentia o mau cheiro no ar, as máquinas todas quebradas, sem mínimas condições para trabalhar e eu fiquei o dia inteiro na faculdade para receber a imprensa e expor a situação.

Samantha Marinho - Que medidas vocês tomaram na tentativa de solucionar esses probllemas, tão graves que afetava o Curso de Comunicação, a quando da ocupação do prédio do canela ?
Antonio Dias - Nós organizamos uma passeata, no dia da páscoa da universidade, nem sabiamos dessa data em direção ao palácio da reitoria, onde estava reunida todo o conselho, e administração superior da universidade, chegamos na reitoria, bloqueamos a porta do auditório, o salão nobre, estavam presentes o Professor Otto, Sonia, Aloisio, Albino Rubim, Professoras Sonia Serra e Linda Rubim, e quando terminou a reunião não deixamos o reitor sair antes de ouvir as nossas reivindicações, e assim foram atendidas e passamos a contar com o apoio do reitor Germano Tamakov, que também estava sensibilizado com a situação angustiante que nós estavamos.

Samantha Marinho - Desconsiderando um pouco os problemas que existiam na época, qual a comparação que o Senhor faz do estudante de Comunicação de ontem e hoje ?
Antonio Dias - Eu acho que o grau de investimento intelectual do estudante de hoje é maior, são mais voltado aos livros; mais aplicados porque há pesquisa na faculdade, ajuda muito e a pós-graduação é muito importante para o desenvolvimento intelectual da comunidade. Mas naquela época havia mais mobilização do que hoje, os estudantes eram muito mais participativos, nas palestras, Assembléias e mesmo na assistência às aulas, isso tudo sabendo que os estudantes não tinham quase nada.

Samantha Marinho - O Senhor não acha que há um certo egoísmo, na forma como as coisas acontecem nas faculdades, cada um voltado para si, para o seu talento, sua profissionalização ?
Antonio Dias - Acho que sim, mas é uma característica do nosso tempo, um certo individualismo que é próprio das pessoas, cada um volta para a especialização, competição eu acho que a pós-graduação nesse sentido, ela tem-se revelado importante, e tem contribuido para melhorar o nível intelectual dos estudantes e preparando-os melhor para a vida profissional.

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