Trabalho apresentado ao professor Leandro Colling para a disciplina Comuni-cação e Política.
SALVADOR, 22
DE OUTUBRO DE 2002.
4.1. A espetacularização dos personagens políticos
4.2. Presença dos artistas na campanha como um reforço ao espetacular
4.3. A valorização da imagem visual
4.4. A imagem visual dos candidatos na construção de sua imagem conceitual
4.5. A ênfase na vida íntima dos candidatos
4.6. A vida familiar dos candidatos como enfoque
4.7. A imagem visual dos candidatos na construção de sua imagem conceitual
4.8. Rita Camata: sucesso na revista Caras
O presente trabalho tem como objetivo analisar o tratamento dado à política por duas publicações aparentemente alheias a este universo, durante o período da campanha presidencial de 2002. Os materiais escolhidos foram as revistas semanais Caras e Quem Acontece, coletados entre os meses de agosto e setembro do ano corrente.
A revista Caras é uma publicação da editora Abril, veiculada em todo o território nacional, e apresenta um estilo bastante consagrado e consumido em diversos países. Com textos curtos e abundância de fotos, a Caras firmou-se no espaço editorial brasileiro com uma proposta de trazer para o público a intimidade de artistas e pessoas públicas em geral. Já a revista Quem Acontece é editada pela Globo e tem a mesma periodicidade da Caras. O conteúdo é bastante similar àquele apresentado pela Caras, sendo que o seu enfoque tende dar mais espaço aos artistas da emissora televisiva que pertence ao mesmo grupo de comunicação. A escolha desses dois objetos de estudo pode, à primeira vista, parecer afastada do tema proposto. Afinal, tais publicações apresentam como conteúdo básico informações, entretenimento, entrevistas e fotos da classe artística e alta sociedade, além de não ser possível exigir delas o mesmo tratamento dado à política por revistas consideradas jornalísticas.
No entanto, após a observação do desenvolvimento das campanhas na eleição 2002, a decisão por essas revistas pareceu bastante adequada, pois o enfoque espetacular que lhes é comum coincidiu com uma tendência cada vez mais perceptível: a inserção da política num universo de glamour típico dos artistas. A política, que sempre foi considerada como uma atividade eminentemente argumentativa, cada vez mais se vê também inserida num espaço de exposição e visibilidade, originário dos mass media, que privilegia, sobretudo, a imagem.
Em sentido inverso, nesta campanha, pôde-se ainda observar que os artistas estiveram presentes na esfera da política, causando um maior imbricamento entre esses dois universos. Embora não seja um fenômeno recente, a utilização de artistas em Horário Eleitoral Gratuito, comícios e propagandas eleitorais foi, sem dúvida, acentuada nessas eleições. Este fato reforça a idéia de uma espetacularização da política na atual campanha presidencial e ajuda a entender a opção pela análise destas revistas.
Ao início da pesquisa, optamos por não definir hipóteses, para que as constatações finais não sofressem interferência de juízo anterior. Para a realização deste trabalho, primeiro adotou-se uma metodologia quantitativa e depois, qualitativa. Cada matéria foi individualmente analisada, identificando as interpretações de sentido, repetição de imagens conceituais, importância dada à imagem visual, para depois definir o enquadramento de tais publicações. Após esta análise, definiram-se alguns pontos centrais, sobre os quais nos debruçamos. Assim, uma mesma matéria pode ser observada priorizando diferentes aspectos e sendo utilizadas como exemplo por mais de uma vez.
Antes de partirmos para a observação empírica do nosso objeto de estudo, será traçado um percurso teórico pelos principais conceitos que rodeiam o tema. A noção de Framing será utilizada para comprovar o enquadramento dado à política por esses meios e o conceito de Agenda-Setting servirá na observação acerca da presença do tema Política. A idéia de Esfera Pública será suscitada, na medida em que é necessário avaliar se o universo de trabalho dessas revistas está distante ou não de um ideal argumentativo de esfera pública.
A noção de Espetáculo, central para o presente trabalho, também servirá para análise do tema, já que, como foi dito, é inerente às publicações em questão. Por fim, o conceito de CR-P ajudará no entendimento do contexto em que se desenrolou a campanha eleitoral de 2002.
A conceituação e análise do enquadramento servirão para fundamentar a elaboração do presente trabalho. A escolha desta sistemática decorre do fato de que o enquadramento é parte constitutiva da unidade de veiculação midiática, podendo ser verificado em qualquer matéria jornalística. Faz parte, portanto, da unidade mínima de análise, que é a matéria jornalística isolada. O enquadramento é o enfoque do texto, a maneira como determinada situação é apresentada ao leitor. Em primeiro lugar, cabe retirar qualquer juízo valorativo sobre este conceito. O enquadramento é inerente ao jornalismo, que tem como característica essencial a seleção de informações. Inevitavelmente, o jornalista manipula – tomando este verbo também num sentido neutro axiologicamente - as informações, já que ele invariavelmente seleciona alguns dados e descarta outros. Há maneiras sistemáticas de observar qual foi o enquadramento utilizado no texto: observar as palavras-chaves, as imagens recorrentes, a escolha dos dados, a situação apresentada, o ator ou motivo causador, a solução e a personalização do problema (se houver) são algumas delas.
Outra constatação deve ser feita a respeito do enquadramento: ele não é necessariamente intencional. Acreditar que cada texto apresenta um direcionamento proposital é recair em teorias conspiratórias acerca deste conceito. “Pode muito bem ser o resultado da absorção inconsciente de pressuposições acerca do mundo social no qual a notícia tende ser embutida de modo a ser inteligível para o seu público pretendido” (Hackett apud Colling, 2002, p. 10). Neste ponto, é possível estabelecer uma relação entre enquadramento e os conceitos de imaginário social e cultura política[1]. A cultura política, assim como o imaginário social, é um sistema simbólico verificável nos indivíduos de uma sociedade. Desta forma, o jornalista, como indivíduo desta sociedade, também é influenciado pelo imaginário coletivo e pela cultura política. Ao desenvolver um texto, o jornalista não expõe suas convicções isento de influências, e sim reflete uma série de fatores, os quais ele próprio não controla.
“(...) existem vários elementos que, embora presentes na mídia, têm origem anterior a ela, vale dizer, elementos que existem no nosso imaginário social e em nossa cultura política muito antes da existência de uma centralidade da mídia na sociedade brasileira” (Lima, 2001, p.196).
Ora, se o jornalista está inserido na sociedade, ele sofre influência de tais “traços permanentes” (Lima, 2001, p.197), que, por sua vez, modificam, em diferentes medidas, o enquadramento que dará a uma notícia. É ainda necessário chamar atenção para as rotinas produtivas dos jornalistas que, muitas vezes, exigem a reprodução das definições daqueles que, por possuírem acesso às informações, são tidos pelos media como “fontes acreditadas”. Assim, os mass media estariam numa posição secundária (definidores secundários), reproduzindo a ideologia daqueles que detêm o poder, sem estar necessariamente a seu serviço (Hall apud Colling, 2002, p.10). Ademais, Entman lembra que, embora o enquadramento implique um efeito comum numa larga faixa de receptores, não tem efeito universal. Se mais interpretações forem feitas desafiando o framing dominante, menos pessoas tendem a segui-lo e menos obscura a informação será, o que muitos autores consideram fundamental para o estabelecimento de uma efetiva democracia na atualidade. Apesar dessas ressalvas ao alcance do enquadramento, não se pode subestimar o seu poder, pois como ressalta Entman (apud Colling, 2002, p.8), ele acaba ascendendo como uma das maiores funções inseridas sobre o poder político.
Aliado ao conceito de framing, verifica-se a noção de agendamento. Da mesma forma que o enquadramento, o agendamento pressupõe escolhas. No agendamento, selecionam-se os temas a serem noticiados. Através de critérios de noticiabilidade, é possível escolher as situações que serão noticiadas e excluir outras. O enquadramento também presume escolhas. Entretanto, estas ocorrem sobre o enfoque. Enquanto uma única matéria jornalística já possui um enquadramento, o agendamento presume uma análise global, que leva em conta todas ou boa parte das matérias veiculadas pelo meio de comunicação durante um lapso de tempo. Afinal, para confirmar o agendamento de determinado tema, deve haver uma periodicidade na sua veiculação. É verdade que os enquadramentos podem se repetir, mas esta ocorrência não é necessária. Colling, ao relacionar enquadramento e agendamento, afirma:
“Os mais recentes
estudos sobre agendamento têm concluído que a mídia não tem apenas o poder de
nos oferecer o leque de assuntos pelos quais iremos nos preocupar e conversar.
Além de estabelecer esta agenda interpessoal, os meios de comunicação também
teriam o poder de nos dizer como devemos pensar os temas existentes na agenda
da mídia. Os pesquisadores têm explicado isso através do conceito de framing ou
enquadramento” (Colling, 2002,
p.7).
Ainda sobre a questão do agendamento, seu conceito se identifica à idéia de que “a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida, por empréstimo, pela mídia” (Shaw apud Colling, 2002, p. 5). Assim, ressalta a importância do papel desempenhado pelos meios de comunicação, sem, contudo, ignorar os outros atores, instituições e dimensões do processo político, na definição dos significados, valores, idéias e assuntos mais importantes. A formulação clássica do conceito de agenda-setting defende que “em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e de outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos” (Shaw apud Colling, 2002, p. 5). Embora não seja apenas o jornalismo que agende os temas públicos, cabe ainda detalhar a noção de critério de noticiabilidade. Através da utilização destes critérios, é possível, para o jornalista, selecionar o que deve ser pautado.
A noticiabilidade relaciona-se com a não ocorrência, com a importância e com tudo mais que ocupa um lugar de destaque ante o comum. De maneira simplificada, é notícia o acontecimento que se sobrepõe ao ordinário, aos eventos cotidianos. Não se quer dizer que estes últimos não sejam noticiados. Mas sem dúvida, o incomum ocupa um espaço muito maior nas agendas mediáticas. A partir desta observação, se estabelece um elo entre agendamento e espetáculo. Este elo não se dá apenas pela configuração mediática atual, mas antes pela essência dos dois conceitos. Afinal, como atenta Rubim, “O espetáculo remete também à esfera do sensacional, do surpreendente, do excepcional, do extraordinário” (Rubim, 2002, p. 7). Logo, a espetacularização pode servir de meio para atingir a noticiabilidade. Um evento espetacularizado, exagerado em suas dimensões, tende a ser mais noticiado que um evento comum. Assim, aquilo que é espetacular possui espaço reservado nas agendas dos media. A espetacularização facilita, portanto, a noticiabilidade. Esta facilitação é intensificada com o papel de destaque assumido pela imagem visual, já que o espetáculo é por natureza um grandioso que encanta e seduz os sentidos através de apelos e dispositivos plástico-estéticos, especialmente os relativos ao registro da visão. A plasticidade visual, componente essencial, tem uma relevante incidência na atração da atenção, na realização do caráter público e na produção das simbologias e dos sentidos pretendidos com o espetáculo (Rubim, 2002, p. 7). Em alguns casos, a imagem torna-se tão ou mais importante que o texto, e a encenação e a exacerbação, recursos presentes no espetáculo, possuem maior efeito quando veiculados visualmente. “A visão (...) afirma-se como sentido condutor, por excelência do espetáculo” (Rubim, pg. 6).
É por sua capacidade de tornar visíveis alguns dos temas que serão discutidos pelo público e por potencializar o espetacular, que alguns autores já admitem o importante papel ocupado pela mídia. Muitos deles já têm dedicado atenção fundamental para as alterações e a afirmação de novas configurações sociais na contemporaneidade. Venício Lima (2001), por exemplo, defende que a mídia tem se tornado cada vez mais central nas vidas humanas, seja como fonte de entretenimento, de informação ou como instrumento de trabalho. Segundo ele,
“a convergência tecnológica entre telecomunicações, mass media e informática, gestada pela ‘era digital’, colocou a mídia como elemento fundamental da engrenagem da globalização econômica e cultural e como o setor mais dinâmico da economia internacionalizada” (Lima, 2001, p. 175).
No entanto, é Albino Rubim em seu texto “Comunicação e Política” quem melhor aprofunda a questão ao definir a nova circunstância societária como uma “Idade Mídia”, estruturada e ambientada pela comunicação. O caráter estruturante da comunicação remete a superação da definição marxista de comunicação que insiste em sua inscrição apenas “supraestrutural”. Para Rubim, essa definição já não dá mais conta, pois a mídia deixou de ser apenas mero “aparelho ideológico” – produtor e divulgador da ideologia – para tornar-se também um importante “ator econômico” e ocupar um estatuto de componente “infra-estrutural” porque indispensável ao capitalismo.
Essa já então inevitável associação da mídia com o desenvolvimento capitalista é o que tem levado alguns autores a pensar equivocadamente a sociedade contemporânea sempre numa perspectiva negativista. Incluído nesse grupo, Guy Debord (apud Rubim, 2002), ao atribuir numa conotação negativa a condição de “Sociedade do Espetáculo” à sociabilidade atual, aponta como um dos motivos a expressão de uma situação histórica em que “a mercadoria ocupou totalmente a vida social” (Debord apud Rubim, 2002, p. 1). Em sua perspectiva, espetáculo, mercadoria e capitalismo estariam intrinsecamente ligados, não existindo nenhum outro meio de realização do espetáculo à parte de uma lógica capitalista. A Sociedade do Espetáculo seria então uma sociedade de capitalismo avançado.
Ao defender o caráter estrutural da mídia, Albino Rubim (2000) faz nada mais do que concordar que a sociabilidade atual insere um modo de vida capitalista, onde a comunicação midiática é uma das indústrias mais significativas e a informação um bem precioso. No entanto, abstém-se de qualquer valoração. Assim também ao defender o caráter de ambiência mediática contemporânea, comprovada pela “onipresença tentacular dessa infra-estrutura de comunicação e sua imanente exposição através da permanente fabricação e mediação de sentidos pela mídia” (Rubim, 2000, p. 34). A constatação dessa onipresença se daria, segundo Rubim (2000), não só através dos conteúdos e representações que a mídia é capaz de gerar, mas também como realidade efetiva: expansão quantitativa e diversidade dos media, aumento nos gastos com itens de comunicação e na geração de empregos na área. Assim a idéia de ambiência não pode ser compreendida como mero falseamento.
É essa nova realidade que se insere no mundo atual que tem mobilizado grande número de estudiosos, sobretudo, na medida em que solicita novos requisitos e modalidades de compreensão da relação entre comunicação e política. Angulações teóricas críticas e renovadoras tornaram-se essenciais, pois a comunicação não é mais vista como um mero instrumento e sim “(re)constitui-se como mônada gravitacional específica, como esfera de poder especializado que se defronta com outros poderes e, dentre eles, a política” (Rubim, 2000, p. 27-28). Com isso não se quer atribuir à comunicação uma carga desmedida de poder, pelo contrário, descarta-se a predominância unilateral de ambas as partes para afirmar a disputa de predomínios em situações dadas. Ainda segundo Rubim (2000), é nessa nova configuração de “Idade Mídia” que a política se vê afetada por novas possibilidades de realização, “novas possibilidades de espaços, formatos e ingredientes” (Rubim, 2000, p. 46).
Dentre as atuais possibilidades da política emergem os novos espaços de sociabilidade fabricados pela mídia. Como sugere Rubim (2000), eles não se limitam mais e apenas aos espaços geográficos, aos espaços locais e que permitem uma convivência direta e imediata. Surgem também espaços eletrônicos, globalizados e que permitem uma televivência, burlando restrições temporais e espaciais. Nessas circunstâncias, “a mera existência física já não assegura um existir social” (Rubim, 2000, p. 41-42). Uma existência publicizada requer que ao existir físico seja agregada uma existência vivida na telerrealidade – dimensão pública mediatizada. Essa necessidade de visibilidade mediática faz com que a dimensão plástica da sociabilidade assuma cada vez mais relevância. Com a política não poderia ser diferente. Isso tem levado diversos autores a considerar que “a chamada política mediática é organizada segundo a lógica dominante nos próprios media, transformando-se, portanto, numa política espetacular, organizada segundo princípios de sedução, escassamente argumentativa, teatral” (Gomes, 1999b, p. 205).
Assim como a inaugural reflexão de Guy Debord (apud Rubim, 2002) sobre o espetáculo em sintonia com a sociabilidade atual, a análise desses autores também tende, quase sempre, a uma conotação negativista. Para muitos deles, “a espetacularização do poder político e da política se define pela assunção, sem mais, de uma inevitável lógica produtiva da mídia, sempre impregnada e comandada pelo entretenimento, sobre a política, desvirtuando seu ser” (Rubim, 2002, p. 4). O poder político e a política seriam levados a uma “despolitização” por serem dirigidos por dinâmicas gestadas na mídia-entretenimento. Procurando mostrar um novo olhar possível para a questão, Albino Rubim, em seu texto “Espetáculo, Política e Mídia”, defende que há muito o espetáculo está ligado ao exercício do poder político, seja como afirmação sintuosa do poder, mas também como modo de sensibilização, visando a disputa do poder, e como construtor de legitimidade política. Como aponta Rubim:
“A ágora grega, o senado romano, a coroação do rei, o parlamento moderno, a posse do presidente, as manifestações de rua, as eleições, enfim, toda e qualquer manifestação política, anterior ou posterior a nova circunstância societária, supõe sempre encenação, ritos, etc. A mudança acontecida não diz respeito à dimensão estética ou espetacular da política, mas a potência e a modalidade de seu acionamento em uma nova formação social” (Rubim, 2002, p.5).
Rubim (2002) procura demonstrar que política sempre foi uma combinação de dimensões emocionais, cognitivas e valorativas, estéticas e argumentativas, o que muda é a potência e modalidade de acionamento dessas dimensões. A estética do espetacular não pode ser desconsiderada principalmente na atual circunstância social em que a visibilidade adquiriu suma importância e a mídia tornou-se o lugar primordial de fabricação do espetacular. E admite até que “a mídia ou, com mais precisão, a rede de mídias institui, a rigor, uma nova dimensão pública, própria da sociabilidade contemporânea” (Rubim, 2002, p. 12). Essa nova dimensão pública poderia ser associada ao que Wilson Gomes, em seu texto “Esfera Pública Política e Media - II”, caracteriza como a atual constituição de uma esfera de visibilidade pública mediática. “O âmbito da publicidade social que podemos nomear esfera de visibilidade pública é a cena ou proscênio social, aquela dimensão da vida social (...) que é visível, acessível, disponível ao conhecimento e domínio públicos” (Gomes, 1999b, p. 211). Enquanto tal não é necessariamente algo novo, mas sim como cena pública “mediática”, que disponibiliza novos meios e reorganiza até mesmo a atividade política.
A disputa política tradicional através de diferenciadas interpretações do real não dá mais conta numa sociabilidade em que a dimensão midiática assume cada vez mais relevância. Na eleição de 1989 isso já era perceptível, tanto que James Brooke, correspondente do The New York Times, chega a declarar: “estamos na idade dos medias. Nos Estados Unidos todos os senadores são bonitinhos. Se você quer falar com o povo, você tem que fazer isso. E Collor sabe como” (apud Lima, 1990, p. 33). As eleições presidenciais de 2002 são ainda melhor exemplo, na medida em que exigiram o título de mais midiatizada dentre as disputas para presidência do Brasil. Nesse sentido, como defende Rubim (texto inédito, 2002), agora a disputa também, e principalmente, dá-se na tentativa do candidato se constituir enquanto sujeito político público.
Nessa disputa da construção pública de um determinado candidato, ou como prefere Wilson Gomes (1999a), na formação de sua imagem pública contribuem: “o que ele diz ou o que é dito sobre ele, o que ele faz, da sua capacidade reconhecida de fazer e o que dele é feito e, enfim, o modo como ele se apresenta: roupas, logos, símbolos, emblemas, posturas corporais, aparência exterior” (Gomes, 1999a, p. 161). Imagem pública, no sentido defendido por Gomes, é um conceito cognitivo que se forma principalmente através de ações e discursos. Para ele, configurações expressivas que incluem elementos visuais e plásticos podem ser mais uma contribuição para a formação de uma imagem apenas quando se submetam a uma conversão em indícios, pistas, sintomas de inferências lógicas. “Assim, se Fernando Henrique veste-se de tal forma é porque é sofisticado” (Gomes, 1999a, p.150).
No entanto, como Rubim (2002) faz questão de realçar, atribuir à lógica da mídia, na circunstância atual, o princípio organizador da vida política, parece superestimar o impacto do espetáculo no mundo contemporâneo. Nem sempre a mera vinculação de algo na cena pública mediática confere-lhe o estatuto de espetacular. Midiatização não é o mesmo que espetacularização, processo de acionamento de recursos e dispositivos espetaculares. É partindo desses inevitáveis pressupostos que Wilson Gomes, ainda em seu texto “Esfera Pública Política e Media – II”, procura sustentar a possibilidade de existência de uma esfera pública política argumentativa coerente, racional e aberta, nos termos iniciais pensados por Jürgen Habermas, em face da cena política contemporânea, quase integralmente mediática, voltada para o entretenimento, frívola e espetacular. Como afirma, “na sociedade contemporânea, não há espaço de exposição, de exibição, de visibilidade e, ao mesmo tempo, de discurso, de discussão e debate que se compare em volume, importância, disseminação e universalidade com o sistema dos mass media” (Gomes, 1999b, p. 204).
Para confirmar seus argumentos, Wilson Gomes (1999b) começa por afirmar que, na verdade, a expressão “esfera pública” pode ser aplicada de forma adequada aos dois fenômenos da publicização social: à esfera de visibilidade pública ou “cena pública” e à esfera de discussão pública ou “debate público”. Mas eles não são a mesma coisa. Na esfera de discussão pública se mantém como fundamental a idéia de exposição, visibilidade, mas é também e principalmente argumentação. Nela não se expõe apenas para provocar um mero conhecimento, mas para que possam nela intervir. Assim,
“‘Esfera Pública’ é uma fórmula condensada para expressar a idéia de esfera da argumentação pública. E a argumentação pública possui certos requisitos que a cena mediática integralmente não é capaz de atender. A cena pública mediática não consegue ser nem integralmente nem universalmente esfera pública” (Gomes, 1999b, p. 210).
No entanto, ao contrário do que possa levar a entender, não se quer dizer que é impossível haver debate na esfera de visibilidade pública, mas sim que ela é constituída, sobretudo, por exibição e exposição. Como Gomes (1999b) faz questão de enfatizar, o fato de grande parte da esfera pública política ocorrer fora dos medias não deve subestimar o papel argumentativo da cena pública mediática. Os materiais informativos expressos pela mídia, por exemplo, são insumos para o debate público e, dentre eles, o tipo de discurso argumentativo é capaz de gerar esfera pública. Além disso, mesmo os materiais que não constituem de fato esfera pública nos media podem ser editados e vivenciados enquanto tal. A cena pública também é fundamental em alguns casos para a esfera pública por permitir exatamente como ninguém a exposição e a visibilidade para a discussão de temas públicos. Sem esquecer de sua capacidade de produzir e não apenas representar a opinião pública. Afinal “cena pública é justamente o sistema expressivo formado pelo conjunto da emissão dos media (...) disponibilizando para público, ou para o sistema dos seus fruidores ou apreciadores, uma espécie de quadro do mundo” (Gomes, 1999b, p. 216). Essa “fuidez fundamental das sociedades contemporâneas que faz com que temas situados na cena mediática entrem e saiam dos media provenientes da esfera pública ou dos sujeitos sociais e destinados aos sujeitos sociais e à esfera pública” (Gomes, 1999b, p. 220) é o tornaria possível, segundo Gomes, a convivência atual entre uma esfera pública política e uma cena pública mediática.
Também Venício Lima, em seu texto “Cenário de Representação da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política”, tenta contribuir para o reconhecimento da mídia como palco de disputa pelo poder político na atualidade. Por sua capacidade de produzir conteúdos e representações da realidade, a mídia constituiria “Cenários de Representação – CR”, onde são construídas publicamente as significações. Mas, como ressalta Lima (2001), representação significa não só representar a realidade, mas também constituí-la. Assim, “as representações que a mídia faz da realidade (media representation) passam a constituir a própria realidade” (Lima, 2001, p. 186). Este seria o fundamento também para a hipótese de um Cenário de Representação da Política – CR-P, construído na e pela mídia, definindo e delimitando o próprio espaço da realidade política no mundo contemporâneo.
“O CR-P é o espaço específico de representação da política nas ‘democracias representativas’ contemporâneas, constituído e constituidor; lugar e objeto da articulação hegemônica total, construído em processos de longo prazo, na mídia e pela mídia, sobretudo na e pela televisão” (Lima, 2001, p. 182).
O CR-P dominante, construído na e pela mídia, demarca os limites dentro dos quais as idéias e conflitos se desenrolam e são resolvidos. O agendamento e enquadramento, por sua vez, enquanto elementos presentes nos media, estão relacionados ao Cenário de Representação da Política. Da mesma maneira que, como integrantes do processo midiático, eles interferem no CR-P, também podem decorrer dele. Lavareda, citado por Venício A. de Lima, afirma que “a estrutura dos mass media (...) tem sido unanimemente apontada como causa importante da modificação das relações entre os indivíduos e a cena política”. (Lavareda apud Lima, 2001, p. 192). Ora, se o enquadramento e agendamento são intrínsecos aos media, também são fatores que modificam esta relação. Ao mesmo tempo, estes conceitos também são influenciados pelo Cenário de Representação da Política. Se um dos pressupostos básicos do CR-P, colocado por Venício A. de Lima é a “existência de uma hegemonia”, esta define, como já dito, uma série de atores, tais como as fontes oficiais, por exemplo, que estão insertas na hegemonia dominante. Desta maneira, as fontes influenciam tanto no enquadramento e no agendamento de quaisquer veículos e, conseqüentemente, no Cenário de Representação da Política. Afinal, ele é composto, em parte, pelo conjunto de espaços midiáticos nos quais a política é, de alguma maneira, representada.
Vale ressaltar, por fim, que esses espaços tendem cada vez mais a serem considerados de maneira ampla. Como lembra Mauro Porto, “uma das tendências mais recentes e importantes nos estudos da comunicação política tem sido exatamente a ‘expansão’ das categorias de mensagens que são consideradas políticas, ultrapassando as concepções centradas apenas na campanha eleitoral” (Nimmo e Swandon apud Porto, 1995, p.56). E completa “os estudos culturais ingleses demonstraram que qualquer preocupação com a influência dos media na construção da cultura política teria que operar com uma definição mais ampla dos tipos de textos considerados relevantes, não se limitando aos noticiários e programas explicitamente políticos”.
Nesse tópico pretendemos analisar a quantidade de
vezes em que os personagens políticos da campanha presidencial de 2002 foram
noticiados. Antes de mais nada, é importante relembrar que as revistas Caras e
Quem Acontece são duas publicações de circulação nacional nas quais o tema
política é pouco recorrente. Nessas revistas, a quase totalidade das matérias
ou notas refere-se ao universo de artistas, sobretudo aqueles televisivos, em
festas ou eventos onde se destaca o lado do glamour. A política, apesar de, no
imaginário das pessoas, ocorrer fora desse circuito, apareceu nas páginas
dessas revistas nos meses que precederam o 1º turno das eleições presidenciais
de 2002. Cabe ressaltar, porém, que o tema esteve mais presente enquanto
referência aos personagens políticos.
De
início, é importante citar que a revista Caras noticiou, em duas páginas, o
debate entre os candidatos à presidência organizado pela TV Bandeirantes
(Caras, 9 de agosto). Nesta ocasião,
apenas Serra teve direito a fala. A foto não deu destaque a um candidato em
detrimento dos outros. O debate dos
candidatos a vice-presidência (Caras, 23 de agosto), apesar de ocupar as mesmas
duas páginas da sessão “momentos” de uma outra edição, recebeu outro
tratamento. Neste, a foto reunindo os quatro candidatos em disputa presidencial
e o apresentador é 25% menor que a foto de Rita Camata, que ocupou mais de uma
página da revista.
Rita
Camata, candidata à vice-presidência de José Serra, apareceu na Caras em outras
sete ocasiões: as matérias foram fartamente acompanhadas de imagens da
candidata, sendo que apenas uma delas limitou-se a uma única foto. Camata
esteve também presente, indiretamente, em duas matérias (com uma e duas
páginas) que tratavam de sua filha, Enza Camata. Apesar de não aparecer de
forma direta (não há fotos ou depoimentos), Rita Camata acaba sempre se
sobressaindo. Cabe ressaltar que todas as aparições da candidata ocorreram na
revista Caras. A Quem Acontece não a noticiou. Já José Serra esteve presente em
duas fotos, mesmo assim, dentro de uma matéria de Caras na qual o personagem
principal era Rita Camata (“Rita Camata em encontro para mulheres”). A filha do
candidato do PSDB também obteve uma aparição, junto ao marido, através de uma
foto tirada no casamento do cantor Paulo Ricardo. (Caras, 9 de agosto). É
importante ressaltar que esta foto é a maior dentre as demais estampadas na
matéria, que traziam personalidades como Astrid Fontenelle, Angelita Feijó e
Marcos Mion, além dos filhos dos noivos.
Já Luís Inácio Lula da Silva apareceu reunido com artistas em uma matéria de duas páginas com uma foto grande ocupando quase todo o espaço e mais duas menores, nas quais o candidato aparece beijando artistas famosos (Caras, 6 de setembro). Por sua vez, Ciro Gomes apareceu apenas na revista Quem Acontece (16 de agosto) em uma foto pequena, juntamente com sua mulher, a atriz Patricia Pillar, no Fortal, carnaval fora de época realizado em Fortaleza, Ceará. Já Patrícia Pillar apareceu mais duas vezes nas edições analisadas, uma na Caras e outra na Quem Acontece, ambas datadas de 9 de agosto. Mesmo assim, não foi atrelada ao candidato Ciro Gomes.
4.1. A espetacularização dos personagens políticos
Após a análise do conteúdo das revistas Caras e Quem Acontece, pôde-se perceber a presença do espetáculo, em basicamente dois sentidos: em primeiro lugar, estas publicações noticiaram fatos espetaculares nos quais os candidatos ou pessoas a eles vinculadas estiveram presentes. Celebrações, solenidades e festas foram as ocasiões em que os atores políticos mais foram noticiados. Neste sentido, as revistas serviram como mediadoras do que já é essencialmente espetacular. Afinal, as situações acima apresentadas são naturalmente espetaculares, na medida em que se localizam na esfera do excepcional, do extraordinário. Num outro sentido, a Caras, através do enquadramento e da construção de textos e imagens, espetacularizou muitos acontecimentos: ora exacerbou o que já tendia ao espetacular, ora trouxe elementos espetaculares a fatos que não o são, através do enquadramento utilizado. Esta mesma conclusão não pode ser feita sobre a revista Quem Acontece, que não apresentou textos sobre os candidatos, mas apenas pequenas fotos.
Como já foi dito, os candidatos foram constantemente noticiados em eventos festivos, integrantes ou não da campanha presidencial. Houve uma espetacularização em torno dos personagens políticos, mas não da política em si. Na revista Quem Acontece do dia 16 de agosto, por exemplo, o candidato Ciro Gomes apareceu numa foto ao lado de Patrícia Pillar, durante o carnaval antecipado de Fortaleza, o Fortal. Outro exemplo pôde ser verificado na revista Caras do dia 9 de agosto, em que FHC apareceu, em foto, numa solenidade em Manaus. Já na Caras do dia 6 de setembro, pode-se discorrer sobre duas matérias: a primeira delas, sob a manchete “Todas as estrelas de Lula sob o céu carioca”. O texto da matéria privilegia a reunião de 400 artistas e intelectuais. Ora, este é um fato excepcional, espetacular: há, no acontecimento, uma exacerbação das dimensões constitutivas. A presença da classe artística no evento reforça a espetacularização e é um importante fator de noticiabilidade numa revista como a Caras. O candidato foi agendado pela revista ou a agendou pelo fato de estar numa comemoração e por ter reunido artistas.
Ainda na edição de 9 de agosto, outro exemplo deve ser citado. “Lucília Diniz abre mansão para vips em SP”, ocasião em que Rita Camata esteve presente. Assim como na matéria sobre Lula, há presença de artistas e colunáveis. Além disso, o número de convidados é também ressaltado, uma maneira de apresentar ao leitor a dimensão do acontecimento. Noticiar o número de presentes é uma forma, nestes dois casos, de valorizar os eventos, apresentando-os como grandiosos ao público.
Há outras maneiras que a Caras se utilizou para exacerbar os eventos: arrolar os artistas que estiveram presentes, detalhar a decoração do local, seja através de imagens ou textos e dedicar uma especial atenção às roupas utilizadas. É comum ver matérias ou legendas de fotos ressaltando o estilista da peça. Em geral assinadas por grifes de renome, tais vestes não estão ao alcance de boa parte das leitoras de Caras. Mais uma maneira, portanto, de espetacularizar os acontecimentos, tirando-os da órbita do cotidiano. Cabe ressaltar, todavia, que estas características estiveram presentes em boa parte dos textos da revista, e não apenas nas matérias que havia personalidades políticas. Estas formas de exacerbar os eventos, portanto, são características à revista, que não se limita aos atores políticos. Entretanto, chama atenção quando ocorre nestes casos.
Calha, neste momento, falar sobre uma característica constante da revista Caras: a importância dada às condições econômicas do noticiado[2]. Como já foi dito, a revista sempre encontra meios de auferir a riqueza de sua fonte, seja através da roupa que usa, das viagens feitas e da quantidade de jóias. Nada mais lógico, já que, tornando a ostentação uma virtude, consegue-se fazer os leitores sonharem ante a impossibilidade de viverem com tamanha abundância. Todavia, a situação se torna um pouco mais complicada quando se tratam de atores políticos, preferencialmente candidatos. A ostentação, na publicação aqui analisada, continua sendo vista como um fato positivo. Mesmo entre os políticos, que idealmente devem defender a justiça e igualdade social, é melhor o político que é rico. A revista do dia 27 de setembro, por exemplo, relata a visita da filha de Rita Camata à designer que preparou jóias exclusivas para sua mãe. Isto revela o poder aquisitivo da candidata a vice-presidência, e soa como um elogio. Na página anterior, a matéria ressalta que Rita Camata mora num duplex. Em publicações como Folha de São Paulo, Veja, dentre muitas outras, a situação “ter alto poder aquisitivo” pode adquirir um enquadramento negativo. Foi o que ocorreu com Lula em relação aos seus ternos Armani e ao apartamento de cobertura em que mora ou ainda à quantidade de sapatos e de taillers de Marta Suplicy.
Há ainda muitos fatos noticiados pela revista Caras que nada têm de espetacular. É o caso da queda de bicicleta de Rita Camata, publicada na revista do dia 30 de agosto, ou da Caras do dia 27 de setembro, em que Rita Camata aparece brincando com seu filho caçula. Ora, tais fatos são presentes na vida cotidiana de quaisquer pessoas. Não são exacerbados em suas dimensões nem possuem as demais características do espetáculo. O fato em que se funda a segunda matéria (“Em plena campanha, Rita Camata se reencontra com o filho, Bruno”) vai de encontro aos critérios de noticiabilidade dos veículos tidos como essencialmente jornalísticos. Mesmo assim, a redação e as fotos veiculadas buscam reforçar aspectos superdimensionados: expressões como “no seu duplex” ou “conhecer as jóias desenhadas exclusivamente para a mãe” denotam que Rita Camata apresenta uma condição muito superior à média da população brasileira. É, portanto, um aspecto pouco comum, que chama atenção, uma espécie de espetacularização na construção do texto.
Outro aspecto intimamente relacionado ao espetáculo é a presença de artistas nas campanhas presidenciais. Deve-se observar como se procedeu a vinculação dos candidatos a estrelas da televisão ou da música. Em primeiro lugar, esta campanha presidencial teve como característica a utilização de artistas populares, com o objetivo de angariar votos. Ao lado de Serra, havia a banda KLB, Elba Ramalho, Chitãozinho e Xororó, dentre outros. Ao lado de Lula, estavam Zezé de Camargo e Luciano, e Ciro contava com o apoio de sua mulher, a atriz Patrícia Pillar.
Ao analisar as publicações, procuramos observar em que medida a vinculação a estas personalidades tornaria os candidatos noticiáveis para as revistas. Concluiu-se, surpreendentemente, que o atrelamento aos artistas não foi o fator que mais possibilitou o acesso dos candidatos a estas publicações. Na grande maioria dos casos, eles apareceram pelo que são, e não por contarem com apoio. Os debates dos candidatos à presidência e à vice–presidência foram noticiados pela Caras. Rita Camata obteve presença constante, independente de suas companhias. Como exceção, tem-se que a única aparição direta de Lula se deu quando ele estava vinculado a artistas.
Em sentido inverso, os artistas atrelados às campanhas presidenciais também não foram vinculados aos seus candidatos. Elba Ramalho, por exemplo, não esteve relacionada ao candidato Serra ou mesmo à política em nenhuma de suas aparições. A banda KLB nem sequer foi noticiada nas edições analisadas. Patrícia Pillar foi fotografada junto a Ciro, como já foi dito, no Fortal, mas não chegou a ser gancho para maior noticiabilidade do candidato. Por fim, houve uma entrevista com Zezé de Camargo e Luciano, em que a única pergunta relacionada à campanha de Lula foi: “Fazer showmícios não atrapalha a divulgação do CD?”. Conclui-se, portanto, que na maioria dos casos, os artistas não serviram de ponte para que os candidatos alcançassem a agenda da Caras.
Ao analisar as revistas Caras e Quem Acontece foi possível também observar uma valorização da imagem visual dos personagens políticos, que é conseqüência quase direta de um tratamento espetacular dispensado por parte de tais publicações. Afinal, o espetáculo busca o encantamento e o grandioso através da sedução dos sentidos, especialmente a visão. A julgar pela quantidade e tamanho das fotos que são publicadas e ainda pelo cuidado e precisão com que são retratados os ambientes e as pessoas noticiadas, Caras e Quem Acontece exacerbam, como nenhum outro tipo de publicação, as dimensões visuais constitutivas dos eventos ou atos espetaculares: os corpos, as expressões faciais, o vestuário, os cenários, as performances. Evitando qualquer juízo de valor, o que não as isenta de eventuais efeitos, o privilégio das informações visuais é característica nata nestas publicações. Com os personagens políticos desta eleição não foi diferente, apesar das características plásticas, visuais e estéticas não serem as principais armas em jogo durante uma campanha.
Outra matéria da Caras que também demonstra uma atenção especial dedicada à imagem visual dos personagens políticos desta eleição é sobre a manifestação feita por 400 artistas e intelectuais ao candidato do PT à presidência da República, Luis Inácio Lula da Silva. A Caras noticia o “evento”, ressaltando seu panorama, sem destrinchar sua principal razão, as propostas culturais do candidato. Aliás, quase não há texto. A fotografia principal, que ocupa a maior parte da página, mostra os artistas em torno de Lula, ostentando três estrelas vermelhas. Lula ainda aparece, em fotos pequenas, beijando Marieta Severo e abraçando Zezé de Camargo. Há, portanto, um apelo visual, que condiz com a noção de espetáculo, na medida em que “chama atenção do olhar”. Ao lado da esposa, Marisa, “com novo visual – loira, de cabelos curtos e muito elegante, de terno branco”, Lula recebe as estrelas, numa clara analogia ao símbolo de sua campanha.
Vale ressaltar, porém, que o fato da Caras ter dedicado mais atenção aos personagens políticos do que a revista Quem Acontece não deve levar a entender que tenha se preocupado mais em fornecer elementos para a discussão de questões essenciais para a disputa política em questão. Tanto na Caras como na Quem Acontece, a valorização da imagem visual permite concluir uma certa oposição à argumentação, que parece ser escolha mesmo desse tipo de publicação. O fato de serem gestadas por dinâmicas próprias da mídia-entretenimento deixa transparecer uma “despolitização”, que é responsável, muitas vezes, pela taxação destas revistas como banais e fúteis. Sem intentar qualquer valoração, é fato que uma esfera argumentativa, discursiva e racional é deixada de lado em favor de dimensões emocionais, plásticas e estéticas, como aconteceu no tratamento dispensado as eleições de 2002. Ao noticiar o primeiro debate dos candidatos à presidência da República, por exemplo, a revista Caras traz na seção Momentos, do dia 9 de agosto, uma foto que de longe já se mostra bem maior que o texto e, nele, ainda pouco se fala nas diferentes propostas dos candidatos.
Há ainda outros exemplos típicos como o encontro organizado para introduzir o candidato José Serra no ambiente feminino de sua vice-presidente Rita Camata. A começar, o evento em si nada tem de político. E para completar, o enquadramento da matéria não sugere o contrário. Sem mencionar qualquer informação a respeito das intenções políticas dos candidatos, a ênfase da matéria ficou nos “cuidados” com o jantar e nas qualidades estéticas da “bela” vice. “(...) Em todas as rodas de conversa ela (Rita Camata) fez questão de frisar que não quer ser apenas um rosto bonito no Planalto. ‘Sou bonita sim. Antigamente a beleza me incomodava muito, mas hoje em dia não. Aprendi a tirar vantagem disso para lutar pelas boas causas’, confessou Rita Camata”. Assim, ao contrário de uma combinação entre cena pública mediática e uma esfera de discussão pública, viu-se em Caras e Quem Acontece um privilégio e um alargamento das dimensões estéticas e visuais dos personagens políticos. Os materiais informativos de tipo argumentativo muito pouco se encontraram presentes nestas publicações com relação à eleição 2002. As “notícias” da Caras e Quem Acontece se definiram melhor enquanto materiais destinados ao entretenimento, encaixando-se, portanto, numa esfera de visibilidade pública, sem intenção de fornecer elementos para a discussão pública. Isso não impede, porém, que sirvam insumos para conversas ou comentários do dia-a-dia, que nada têm de argumentativos.
Mas, como já vimos, não é possível exigir dessas revistas outro tipo de tratamento. Além de uma característica própria, a preferência por dimensões plástico-visuais parece ter como base também a ambiência midiática contemporânea, que traz com ela a capacidade de tornar visíveis alguns dos temas que serão discutidos pelo público. Visíveis, literalmente, quando se trata do surgimento e hegemonia, nos dias atuais, de meios eletrônicos como a televisão, cujo diferencial é a imagem. Para não ficar atrás nesse universo de valorização do visual, nada mais evidente do que a tentativa por parte dessas revistas em se apoiar na força da mensagem icônica, principalmente como artifício de sedução e desejo. Para se ter uma noção, mesmo em matérias cujas fotos já foram publicadas em outros meios, elas merecem, por exemplo, destaque por parte da revista Caras. Na edição do dia 30 de agosto, no registro do tombo de Rita Camata no Ibirapuera, as fotos da Agência Estado, que já haviam sido publicadas na maioria dos jornais diários, dispensam ainda de atenção especial da Caras, ocupando quase as duas páginas dedicadas ao assunto.
A imagem no sentido plástico-visual foi o principal elemento de que se utilizaram as revistas Caras e Quem Acontece para a construção da imagem pública conceitual dos candidatos, já que em análises anteriores concluímos a ausência de informações políticas (atos e discursos) nessas publicações. É o fato mesmo de não estar realizando atos políticos que é notícia para Caras e Quem Acontece. Em matéria publicada na edição de 23 de agosto, numa rara ocasião em que noticia um ato político, ou seja, o debate dos candidatos à vice-presidência da República, a revista Caras não enfoca o ato político em si, mas a presença, “classe e charme” da candidata Rita Camata. Acompanhada de uma foto da mesma, que ocupa uma página inteira e metade de outra, a matéria tem como manchete “A candidata Rita Camata exibe todo o seu charme”. Ao avaliá-la, seria mais provável que a candidata estivesse num salão de beleza ou desfilando numa passarela. E não pára por aqui, “exibindo muito charme, uma de suas marcas registradas, ela (Rita Camata) enfrentou os adversários com a classe que sempre teve”.
Pouco espaço é reservado às propostas políticas dos candidatos, enquanto que na matéria que aparece logo em seguida, a filha de Rita Camata “encanta São Paulo”. Apenas em um trecho dessa matéria conjugada já é possível perceber a riqueza de detalhes visuais com que Caras retrata Enza Camata e, ao mesmo tempo, Rita Camata. “Ela tem a quem puxar. Filha de Rita Camata (41), a musa da política nacional candidata à vice-presidência da República, Enza Rafaela Paste Camata (16) chama atenção pela beleza e elegância. Com 1m70 de altura e olhos azuis, a moça que herdou os cabelos escuros do pai....”. A valorização plástica é perceptível e inegável, tanto que a candidata à vice-presidência da República, que na adolescência sonhava em ser modelo, chegou a ser veiculada muito mais vezes, no período de análise, do que o próprio candidato à presidência de sua chapa. Enquanto Rita Camata é noticiada andando de bicicleta “com a classe de sempre”, “José Serra cumpre compromissos de campanha”. Esse aspecto parece bem interessante, pois como veremos, Rita Camata se encaixa melhor nos padrões ou critérios de noticiabilidade da Caras do que José Serra, que teoricamente teria mais importância política. E ainda contribui para a formação de uma opinião pública favorável a seu respeito. Ora, ao exacerbar a beleza - neste caso não associada à falta de inteligência - classe, elegância, charme, somente uma imagem conceitual que beneficia Rita Camata é possível.
O exibicionismo das posses e poder aquisitivo de alguns candidatos – muitas vezes percebido visualmente através de fotos, como já foi visto no item “A espetacularização dos personagens políticos” – é outro aspecto que pôde, principalmente na revista Caras, ter contribuído para formação de uma imagem conceitual. Ao lado dessa ostentação vista como positiva, houve também a valorização do acesso à alta sociedade, festividades, classe artística. Circular nesse meio e deixar ser fotografado constantemente nele foi mais um dos tratamentos dados pelas revistas aos candidatos, considerando suas dimensões plásticas e visuais. Num jantar para 300 pessoas, noticiado pela Caras, estrelas de diversos setores estiveram reunidas, dentre elas a candidata à vice-presidência Rita Camata, que aparece em diversas fotos. Já as duas páginas da matéria abrem com uma delas, na qual Rita Camata encontra-se ao lado de artistas como Hebe Camargo e socialites como Lucília Diniz, num clima de amizade e intimidade. Nas páginas que se seguem, novas fotos demonstram o mesmo sentido. Quanto a esse aspecto, vale ressaltar, que a força da mensagem icônica é tão grande que, para muitas pessoas, a imagem que, por exemplo, essas revistas constroem passa a constituir a própria realidade.
4.5. A ênfase na vida íntima dos candidatos
O enfoque na vida íntima dos candidatos também se encontra entre os enquadramentos percebidos nas revistas Caras e Quem Acontece. Isso não é necessariamente novo enquanto tratamento dispensado, há muito, a artistas e celebridades do mundo da fama. Por sua natureza, a carreira de artista desperta fascínio em torno não só da vida pública, mas também da vida privada. Diríamos até que os aspectos íntimos e pessoais dos artistas são uma boa contribuição para o seu sucesso. Com a política, porém, o fato é inusitado por ser ela uma atividade reconhecidamente pública, onde as argumentações essenciais não são da esfera do privado. Embora guarde uma dimensão privada, a disputa tradicional do político é, geralmente, fazer que sua interpretação da realidade torne-se pública. Na atualidade, a proporção é bem maior, como já vimos, pela existência midiatizada, que exige principalmente do político que se constitua enquanto sujeito público.
O fato de revistas como Caras e Quem Acontece privilegiarem nessa construção da imagem pública dos candidatos sua intimidade e vida particular segue então uma tendência contemporânea, mas não deixa de levantar mais uma vez a questão a respeito dos limites entre o público e o privado. Até que ponto “noticiar” a intimidade dos candidatos é de interesse para uma disputa eleitoral? Ou até que ponto a vida privada de pessoas políticas tem critérios de relevância para a sociedade? Esse é um limite ainda confuso em toda a mídia, principalmente numa época em que surgem novos meios para difusão de informações, acirrando a concorrência e aumentando as pressões da sociedade por respeito aos direitos privados. No caso das revistas Caras e Quem Acontece, as fronteiras parecem não ser extrapoladas no sentido da difamação. De todas as notícias analisadas, nenhuma delas apresentou qualquer informação que pudesse ser considerada como tal. O que parece caracterizar essas revistas é justamente o contrário: bons momentos, elogios, exaltação de qualidades, ostentação positiva.
Lendo essas publicações é possível ter a sensação de estar vivendo num mundo de entretenimento, em que o requisito para noticiabilidade é freqüentar festas, pertencer à classe artística ou à alta sociedade. Com os políticos a situação é essa: estão ali por causa da política, no entanto em situações não políticas. Um bom exemplo é a já citada matéria da Caras “Em plena campanha, Rita Camata se reencontra com o filho, Bruno”. Nela há demonstrações claras de que o interesse da revista é tornar público um momento íntimo da candidata. “Depois da movimentada semana (...), Rita Camata (40), vice-presidente na chapa de José Serra (60), teve um momento afastada da política. (...) A parlamentar não esconde a felicidade de trocar, ainda que por algumas horas, a agitação dos palanques pelo aconchego de seu lar”. A fala da candidata, que enfatiza ainda mais esse aspecto íntimo, merece destaque por parte da revista: “A política me afasta de casa. Mas a família nunca fica longe da minha vida”.
O clima de intimidade fica ainda por conta de termos como “caçulinha” e de informações sobre “o auxílio da irmã Denilza Paste (49) – que sai de Vitória para passar pelo menos duas semanas por mês em Brasília – e de mais duas babás” no cuidado com o filho Bruno. Um fato nas revistas Caras e Quem Acontece merece ainda atenção: as citações de pessoas vêm sempre acompanhadas de suas respectivas idades, o que também parece ser indício de pessoalidade. Na revista Quem Acontece, um exemplo bem evidente do privilégio dado a situações não políticas encontra-se na seção “Quem é Notícia” da edição do dia 6 de setembro. Colocada na mesma lista de artistas de tevê, Ruth Cardoso, primeira-dama do país, é noticiada através de um comentário que fez à atriz Regina Duarte: “Ai, Regina, assisti ao último capítulo da novela (Desejos de Mulher) no sábado. Não entendi nada, mas você estava bonitinha”. Embora não se trate de candidatos em campanha eleitoral, Ruth Cardoso é uma figura política, que, no entanto, só é noticiada nesta situação.
Na tendência de enfatizar momentos não políticos, outro aspecto também se fez presente nas revistas analisadas. A amizade dos candidatos com artistas, intelectuais, socialites, comprovada, sobretudo, através de fotografias, enfocou na maioria das ocasiões noticiadas uma atmosfera de inclusão e pertencimento. Como já vimos na matéria sobre a manifestação de apoio ao candidato Luís Inácio Lula da Silva, a revista Caras publicou fotos em que ele aparece claramente num clima de intimidade com artistas como Marieta Severo e Zezé de Camargo. Em outro momento publicado na edição do dia 20 de setembro da revista Caras, Zezé de Camargo, ao lado do irmão, deixa novamente sobressair a admiração e respeito ao candidato Lula, sem procurar demonstrar a relação profissional existente entre eles. “Estamos na campanha do Lula pois acreditamos nele”. Neste quesito, porém, nenhum candidato, mesmo à presidência, ganha, em número, da candidata a vice-presidente Rita Camata. Só para citar, na revista Caras do dia 27 de setembro, Rita Camata aparece em duas fotos, num clima amigável, ao lado de artistas, numa seção que tem como objetivo noticiar as presenças estreladas de determinadas festas. Cabe ressaltar, que essa proximidade pode ainda trazer muitos benefícios à imagem dos candidatos, visto que artistas, intelectuais, vips são pessoas que, geralmente, dispõe de grande carisma e admiração da sociedade.
4.6. A vida familiar dos candidatos como enfoque
A ênfase na vida familiar dos candidatos, observada nas publicações em questão, tem uma óbvia ligação com o enfoque em sua vida íntima. Assim como a vida particular, as qualidades pessoais, as amizades e os momentos privados, também a vida familiar e as relações de parentesco parecem ter constituído uma opção dessas revistas na tentativa de enfocar a intimidade dos políticos. Os exemplos parecem sugerir uma característica mesma destas revistas, principalmente com relação a Caras. Nela, cabe destacar a presença notável dos parentes de alguns personagens políticos como uma maneira de agenda-los, mesmo que indiretamente. O exemplo da Caras do dia 30 de agosto, que traz uma matéria com Eduardo Suplicy pode ser observado, mesmo que o senador não esteja de fato em campanha nestas eleições. No material analisado, percebeu-se que matérias com os seus filhos, Supla e João Suplicy, foram, muitas vezes, gancho para falar também do político. Isso não excluiu, porém, que, em outros casos, o papel público do político tenha contribuído para o agendamento dos filhos. Sem limitar a questão, é fato que, mesmo em matérias que tratavam dos artistas Supla e João Suplicy, recorreu-se ao senador Eduardo Suplicy, mostrando-o no convívio familiar, principalmente na função de pai e não na de político. “O senador abre um sorriso: ‘hoje sou um pai que fica muito contente em ver que a opção dos filhos está dando certo’ ”.
Este exemplo do senador Eduardo Suplicy ainda pode se justificar através de critérios de noticiabilidade, afinal seus filhos são de fato artistas, que constituem fontes fundamentais deste tipo de publicação. Vale ressaltar, no entanto, a presença constante dos filhos de Rita Camata na revista Caras. Embora Bruno Camata e Enza Camata, por si, não constituam nenhuma importância pública, enquanto filhos de Rita Camata eles se tornaram noticiáveis para a revista. Como já citado, o encontro com o filho Bruno serve de base para uma matéria com a candidata, enfocando seu lado cuidadoso e maternal. Na mesma matéria há um gancho para a próxima, onde a vez é de Enza Camata. Bela e elegante como Rita Camata, a filha representa a mãe, conferindo jóias exclusivas. “Em Brasília, a jovem visitou a designer Carla Amorim, 37, para conhecer as jóias desenhadas exclusivamente para Rita, mais uma vez envolvida com os compromissos da campanha presidencial”. O texto é bastante sintomático, na medida que transparece a verdadeira razão do agendamento de Enza Camata: sua relação de parentesco com Rita Camata.
Enza Camata é ainda noticiada mais uma vez. Em um evento no Rio de Janeiro, Rita Camata, “anfitriã” da festa, mostra também seu lado de mãe. Enza Camata, portanto, já é citada nesta matéria. Seu destaque, porém, fica por conta da matéria: “Enza Rafaela, filha de Rita Camata, encanta SP” (Caras, 23 de agosto). A revista Caras traça, com este texto, um paralelo entre mãe e filha, exaltando as qualidades plásticas e estéticas de ambas, além, é claro, de revelar a atmosfera ou universo familiar. “(Enza Camata) também encontrou-se com a mãe, que estava em campanha na cidade. A filha coruja adora acompanhar os pais políticos”. Seria apropriado observar ainda que a impressão de “álbum de família”, passada principalmente pela revista Caras, traduz-se também numa valorização da tradicional noção do núcleo familiar. Termos como “herdeiro”, “primogênito”, repetidos por diversas vezes, manifestam uma visão clássica das relações entre familiares, além de fornecer uma avaliação financeira, que em nada caracteriza qualidades políticas.
A constatação mais surpreendente feita após a análise da revista Caras foi a repetida presença da candidata a vice, Rita Camata. Ela apareceu em uma foto pequena e em seis matérias que podem ser tidas como grandes na revista (matérias com fotos, textos e duas páginas ou mais). Além disso, foi noticiada indiretamente, através de duas matérias sobre sua filha. Obteve, portanto, muito mais destaque que qualquer dos outros candidatos. Além disso, se sobrepôs a personalidades típicas a este meio, como Hebe, Angélica, Elba Ramalho e Patrícia Pillar, por exemplo. Já na revista Quem Acontece, Rita Camata não apareceu uma única vez. Isto demonstra uma diferença nos critérios de noticiabilidade: ser ator político não influiu para a revista Quem Acontece.
Cabe, a partir de então, vislumbrar uma explicação para todas estas aparições em uma revista cujas fontes costumam ser pessoas do meio artístico. Fica claro que um dos critérios de noticiabilidade para a constante presença de Rita Camata na Caras foi o fato da candidata ser um personagem político. Entretanto, este jamais pode ser tido como único critério, pois não explicaria o fato de nenhum outro candidato – mesmo à presidência – ter tido o mesmo destaque de Rita Camata. Podemos concluir que ser um personagem político não foi o único nem o mais importante critério de noticiabilidade justificador da presença de Camata, embora tenha sido um fator considerável.
Analisaremos então o segundo critério de noticiabilidade que norteou as aparições da candidata: sua beleza e classe. Estes dois itens possibilitam constantes aparições neste tipo de publicação. Camata possui a classe e beleza típicas dos outros noticiáveis da revista. E a imagem, como vimos, é um aspecto essencial nestes veículos comunicacionais. Rita Camata tem, portanto, características que a tornam fonte. Assim, podemos concluir que os critérios “ser um ator político” e “ter beleza e classe” foram essenciais para tantas aparições. Em sentido inverso, na Revista Quem Acontece, “ser um ator político” não foi um critério de noticiabilidade norteador da agenda. Não se pode negar, entretanto, que o critério “beleza” é um dos mais importantes nesta revista, assim como na Caras.
Fica claro que a conjunção destes dois critérios foi responsável pela cobertura noticiosa que privilegiou esta candidata. Por ser um personagem político, Rita Camata conseguiu aparecer mais que muitos personagens já habituais da revista. Um nítido exemplo foi a Caras do dia 6 de setembro, que noticiou uma festa organizada por Lucília Diniz, com convidados famosos, como Hebe Camargo. Após a leitura da matéria e de uma observação sobre a disposição das fotos, pode-se perceber que o enquadramento utilizado foi, na verdade, a presença de Rita Camata na Festa, como é notável na seguinte declaração: “Faço jantares para grupos de até cem amigos, mas desta vez quis reunir um número maior de pessoas. Assim, muitas puderam aproveitar a presença da Rita, que considero um exemplo a ser seguido”. Para completar, a matéria que se segue trata da filha da candidata. Ou seja, a matéria anterior serviu como gancho para noticiar Enza Camata.
Por
outro lado, por ser tida como bela, ela obteve muito mais destaque que os
demais personagens políticos. Em uma matéria sobre o debate dos vices, cuja
manchete é “A candidata Rita exibe todo o seu charme”. Rita Camata é
nitidamente privilegiada, tanto pelo texto como na disposição das fotos. A
maior parte do texto é dedicada à candidata e suas idéias caso chegue ao
governo. Em seguida, os demais candidatos espremem-se, cada um com uma proposta
rápida. Como já foi visto, as fotos privilegiam Rita Camata. Uma delas mostra
todos os debatedores e a outra, de uma página inteira, mostra Rita Camata. Para
completar, a matéria termina com a frase: “a candidata ainda arrumou tempo para
mimar sua primogênita, Enza (16), que cumpria compromissos em SP”, servindo
mais uma vez de gancho para a filha de Rita Camata.
4.8. Rita Camata: sucesso na revista Caras
Partiremos para um aprofundamento no conteúdo das edições da Caras que noticiaram Rita Camata. Deve-se analisar em que medida e com que elementos a revista contribuiu para a formação de uma imagem pública em torno da candidata. Obviamente, um veículo de comunicação não constrói, isoladamente, uma imagem pública. Esta é formada por uma série de elementos, como declarações, atos e imagens visuais. Desta maneira, calha verificar em que medida a Caras participou da construção da imagem conceitual de Rita Camata.
Em primeiro lugar, cabe apontar uma situação que, sem dúvida norteou algumas aparições de Rita Camata: o fato de ela ser mulher. A partir desta situação, pôde-se perceber enquadramentos no sentido de ambientar o leitor na vida da candidata, ressaltando dois pontos: o apego ao lar e a maternidade. Estes dois temas estão fortemente relacionados ao universo feminino. Logo, por Rita Camata ser mulher, foi possível destacar estes aspectos. É como se a mulher, além de suas obrigações políticas, tivesse que cumprir com as suas obrigações domésticas, como cuidar dos filhos, por exemplo. Como o público da revista Caras é predominantemente feminino, este enquadramento provavelmente causou uma identificação entre as leitoras a referida personagem política e foi mais uma favor para o seu sucesso noticioso, que ocorreu tanto pela quantidade de matérias publicadas ao seu respeito como nos enquadramentos a seu favor que obteve.
Nas matérias que trataram da candidata a vice, outra constante deve ser ressaltada: o charme e a beleza de Rita Camata. Esta característica, componente da sua imagem pública, não foi originada na Caras, e sim reforçada. Quando Rita Camata foi escolhida para vice, muito se especulou acerca desta opção, tida como uma possível estratégia de marketing: o charme de deputada atrairia votos, e tornaria a chapa, por assim dizer, mais simpática. Pode-se constatar, desde já, que a beleza é uma característica que já fazia parte da imagem pública desta personagem política, e foi abordada em diversos veículos de comunicação, e não apenas na revista aqui analisada, que sem dúvida salientou este aspecto.
Em boa parte das matérias que tratavam de Rita Camata, havia adjetivos como “charme”, “elegância”, que chamavam atenção ao leitor para a imagem visual da candidata. Ou seja, mesmo no texto, esta característica eminentemente visual foi explicitada. Se houvesse apenas as fotos, sem tais adjetivos nas matérias, o próprio leitor poderia fazer um juízo individual sobre a beleza de Rita Camata. Todavia, este juízo, que na verdade é relativo, por depender do gosto individual, já estava dado pela revista. Mesmo em matérias que não tratavam diretamente de Rita Camata, a sua beleza era evidenciada – como na Caras do dia 23 de agosto, sobre sua filha: “Ela tem a quem puxar. Filha de Rita Camata (41), a musa da política nacional candidata à vice-presidência da República, Enza Rafaela Paste Camata (16) chama atenção pela beleza e elegância”.
Outro exemplo em que se percebe um enquadramento positivo a Rita Camata é a matéria do dia 30 de agosto, que tratou da queda de bicicleta da candidata. Diante de um acontecimento que poderia ser visto como ridículo, ou ao menos engraçado, a revista ressaltou o seu charme e a beleza, contraditórias a uma queda de bicicleta. Como consta na frase: “Foi só um susto. Com a classe de sempre, marca registrada da bela, ela se levantou, sacudiu a poeira, checou se a bicicleta estava em ordem e, com a ajuda dos colegas, embarcou na magrela para seguir o percurso”.
Além da beleza, outra característica bastante ressaltada foi a felicidade familiar de Rita Camata, em especial a questão da maternidade, como já foi visto no capítulo anterior do presente trabalho. Sobre este tema, pode-se perceber que a candidata foi tratada pela revista como uma excelente mãe, protetora e bastante ligada aos seus filhos. Assim, a revista reforça a estabilidade familiar em que vive Rita Camata, com filhos bons e bonitos, como a mãe.
Nesta parte do trabalho, foram analisados questionários (ver anexo) aplicados no mês de outubro sobre a presença e tratamento da política nas revistas Caras e Quem Acontece percebidos pelo seu público. Longe de realizar uma análise conclusiva e aprofundada sobre a recepção destas publicações, a avaliação desses questionários serviu para ilustrar algumas das constatações presentes neste trabalho. Os freqüentadores de salões de beleza e academias de ginástica constituíram o universo de amostragem, uma vez que esses ambientes costumam oferecer a seus clientes acesso a tais publicações.
Dentre aqueles que perceberam claramente a presença da política, chamou-nos atenção o fato de que os entrevistados ressaltaram a ausência de fatos políticos, não obstante a aparição de personagens políticos. Além disso, quando questionados sobre o desejo de ver mais matérias sobre o tema, a quase totalidade do universo de amostragem expressou objeção e demonstrou ter a clara noção que este não é o objetivo dessas revistas (“Essas revistas trabalham bem o seguimento a que pertencem”). Ao menos intencionalmente, os entrevistados percebem que Caras e Quem Acontece não são publicações das quais se pode tirar informações completas ou seguras a respeito da política, até porque grande maioria disse optar por outro tipo de revista como Veja e Isto É. Tomemos como exemplo um depoimento sintomático: “Não é do estilo dessas revistas abordar o tema ‘política’. Para saber mais sobre este assunto, devo procurar outras revistas”.
Obviamente, mesmo os leitores afirmando que não têm Caras e Quem Acontece como leitura preferencial, isto não quer dizer que, inconscientemente, essas publicações não influenciem na construção da imagem dos candidatos ou mesmo no Cenário de Representação da Política. Embora 1/3 dos entrevistados digam não ler revistas como Caras e Quem Acontece, os 2/3 restantes afirmam incluir materiais dessas publicações em suas conversas do dia-a-dia, mas sempre relacionadas aos momentos de descontração. “Caras e Quem Acontece é para relaxar”. “Utilizo quando estou numa roda de amigos”, “Na hora de jogar conversa fora e fofocar” ou “Para contestar a idade de pessoas de quem sabemos com certeza a idade real”.
Uma dos pontos do questionário referiu-se ao tratamento dado a questões políticas. O aspecto mais ressaltado foi a vida íntima dos políticos. Em contrapartida, os entrevistados constataram a ausência de propostas de governo dos candidatos. Com relação a vida íntima: “Percebo apenas o que representa glamour”. “Casamentos, festas, aniversários, etc”. “Divulgação da vida social”. “Famílias, filhos, avós, marido ou esposa e mostram um pouco de como e onde vivem”. “Estas revistas entram realmente na vida íntima e material dos políticos e outros famosos, falando de suas conquistas materiais, face ao sucesso alcançado”. Já em relação à presença de propostas de governo dos candidatos, quase todos responderam negativamente, a exemplo de: “Jamais vi a proposta de alguém”. “Quase não aparece”. “Não vi nenhuma reportagem deste tipo”.
6.
CONCLUSÃO
Após a análise das revistas Caras e Quem Acontece, nos meses propostos, ficou evidente a maior presença de personagens políticos em contraposição a matérias sobre fatos ou propostas políticas dos candidatos. Dentre as duas publicações, aquela que deu mais destaque a figuras políticas foi, sem dúvida, a revista Caras. Isso, porém, não excluiu que, em diversas situações, ambas apresentassem o mesmo enquadramento. O tratamento espetacular dispensado por tais revistas já era perceptível na cobertura da vida de astros e estrelas. Nesta análise, concluímos que esta mesma maneira de lidar com as notícias foi estendida aos personagens políticos em campanha eleitoral. Assim como os artistas, que são as fontes principais para a Caras e Quem Acontece, os candidatos foram noticiados, muitas vezes, durante eventos, festas e comemorações. Vale ressaltar, que como essas ocasiões costumam reunir diversos personagens da classe artística e alta sociedade, os candidatos foram associados a este universo glamourizado e espetacular.
A espetacularização também esteve presente no noticiar de fatos cotidianos da vida dos candidatos. Percebemos que mesmo os momentos mais íntimos ou corriqueiros dos personagens políticos serviram de pauta para Caras e Quem Acontece. Essas situações demonstram que o enfoque não era a atividade política em si. Apesar de comparecerem à agenda dessas publicações como políticos e atrelados ao cargo que ocupam, os candidatos eram mostrados dissociados dessa esfera. Sem intentar qualquer juízo de valor, das poucas vezes em que o tema política compareceu às revistas, não o foi de forma aprofundada. Momentos de descontração no lar, de convívio com artistas ilustres e, ainda, de intimidade familiar foram algumas das principais situações retratadas. Nessas ocasiões, é importante salientar que sempre houve enquadramentos positivos para as suas fontes. Obviamente, um leitor pode tirar uma conclusão negativa acerca de um fato colocado na revista, como no caso de achar que, se um político tem uma casa linda, é porque é corrupto. Mas tais posicionamentos situam-se no plano da recepção, que não são priorizados neste trabalho. O fato é que o enquadramento utilizado em todas as matérias destas publicações foi positivo. Assim, o prejuízo de um candidato pode ocorrer por uma ausência na agenda, mas nunca por uma matéria que deponha contra ele.
Um dos pontos mais incisivos que percebemos na análise das publicações trata justamente de uma valorização das qualidades estéticas e plásticas dos candidatos. Isso pôde ser comprovado através da observação da grande quantidade e destaque dado às fotografias e também do detalhamento na descrição dos ambientes, vestuário e posses dos personagens políticos. Todas matérias foram ricamente ilustradas com imagens que chamavam atenção para tais enfoques. Em relação ao aspecto físico e exibicionismo de posses, uma das figuras de destaque na revista Caras foi a candidata à vice-presidência da chapa de José Serra, Rita Camata. A ela foram sempre associados atributos como “beleza”, “charme” e “elegância”. Também foi valorizado na “musa da política nacional” seu lado feminino e, sobretudo, materno. A exacerbação das relações de parentesco, aliás, foi percebido como mais um dos enfoques dado, principalmente pela Caras, no tratamento dispensado aos políticos. Essa foi uma forma utilizada pela revista para prolongar o agendamento, mesmo que indiretamente, dos candidatos. Um exemplo disso pôde ser comprovado na presença dos filhos de Rita Camata em algumas matérias, especialmente como extensão daquelas relacionadas à candidata.
Não é objetivo desse trabalho concluir em que medida os leitores foram influenciados por tais enquadramentos. No entanto, podemos afirmar que a imagem visual, exaltada pelas revistas Caras e Quem Acontece, pode contribuir para a construção de uma imagem conceitual pública dos candidatos. Na medida em que valorizaram aspectos plásticos e estéticos, essas revistas reafirmam elementos na disputa política que não são tradicionalmente associados aos políticos e, com isso, também contribuem para a formação de uma opinião pública a seu respeito. Cabe ressaltar ainda que esses conceitos contribuem para a formação de um Cenário de Representação da Política, que exige dos candidatos um ajuste de sua imagem pública e demarca os limites dentro dos quais a disputa política se desenrola.
COLLING, Leandro. Agenda-setting e framing: reafirmando os efeitos limitados. Texto Inédito, 2002.
GOMES, Wilson da Silva. A Política da Imagem. Revista Fronteiras – estudos midiáticos, v. I, n. 1, p. 145-175, dez. 1999a.
GOMES, Wilson da Silva. Esfera Pública Política e Media – II. In: RUBIM, A., BENTZ, I., PINTO, M. J. (organizadores). Práticas discursivas na cultura contemporânea. São Leopoldo, RS, 1999b, p. 203-231.
LIMA, Venício A. de. Cenário de Representação da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política. In: Mídia, Teoria e Política. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 175-212.
LIMA, Venício A. de. Televisão e Política: hipótese sobre a eleição presidencial de 1989. In: Comunicação e Política. São Paulo: 1990, p. 29-54.
PORTO, Mauro P. Telenovelas e Políticas: o CR-P da eleição presidencial de 1994. In: Comunicação e Política. Rio de Janeiro: v. I, n. 3, 1995, p. 55-75.
RUBIM, Antonio A. Canelas. Das visibilidades das eleições 2002. (Texto apresentado no VII Seminário de Pesquisa da FACOM / UFBA, realizado de 9 a 11 de outubro de 2002).
RUBIM, Antonio A. Canelas. Espetáculo, Política e Mídia. 37 p. (Texto apresentado no XI Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação, realizado de 4 a 7 de junho de 2002).
RUBIM, Antonio A. Canelas. Comunicação e Política. São Paulo: Hacker Editores, 2000, p. 11-46.
8. ANEXO
Questionário
1) Você percebe a presença de personagens ou fatos políticos em revistas como Caras e Quem Acontece?
2) Você gostaria de ver mais presente o tema Política em revistas como Caras e Quem Acontece? Por que?
3) Qual o tratamento dado aos políticos que você percebe nessas revistas, em relação à/ao:
a) Vida íntima dos políticos:
b) Proposta de governo dos candidatos:
c) Papel da mulher na política:
d) Briga entre políticos:
4) O que leva você a escolher as revistas Caras ou Quem Acontece ao invés de Veja, Isto É e Época?
5) Você utiliza o que lê nas revistas Caras e Quem Acontece em suas conversa no dia-a-dia?
[1] O imaginário social e a cultura política são conceitos presentes e antecessores da configuração de um Cenário de Representação da Política, que será explicado mais adiante.
[2] Percebemos que as revistas analisadas conferem uma importância maior à pessoa noticiada que ao fato em si. Muitas vezes, não há um fato, mas apenas e exposição da vida de alguém famoso. O próprio nome destas revistas – Caras e Quem Acontece – apontam para esta característica.