Universidade Federal da Bahia

Faculdade de Comunicação

Curso: Comunicação Social / Jornalismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Análise da cobertura do jornal baiano “A Tarde” das eleições presidenciais de 2002

 

por

Mariana Luz Donato

Viviam Cruz Pimentel de Matos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Análise apresentada ao professor Leandro Colling para a disciplina Comunicação e Política.

 

Salvador, BA

Outubro de 2002


SUMÁRIO

 

 

1.     Introdução............................................................................................4

2.     Metodologia.........................................................................................6
3.     Referencial Teórico.............................................................................8

3.1. Comunicação e contemporaneidade..............................................8

3.2. Comunicação e política................................................................10

3.3. O poder do texto comunicativo....................................................13

4.     Análise................................................................................................16

4.1.  A cobertura em números.............................................................16

4.2.  O enquadramento das candidaturas............................................18

4.3.  A influência das pesquisas na cobertura.....................................25

4.4.  Direcionamento da cobertura ao eleitor baiano..........................30

5.     Conclusões.........................................................................................33

6.     Referências Bibliográficas.................................................................35


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A política já não controla de modo pleno a sua própria realização como atividade necessariamente pública. A complexidade da sociabilidade atual e o desenvolvimento da comunicação mediática [sic], portadora do virtual monopólio da construção da dimensão pública da atualidade, subtraem da política o controle e o poder de se realizar como coisa pública (...). A contemporânea febre dos políticos em controlar aparatos sócio-tecnológicos de produção e difusão de bens simbólicos (...) encontra agora uma perversa lógica. Ela sugere a percepção dos “media” como locais privilegiados de concentração de poder (Rubim, 1995:131).

1. INTRODUÇÃO

 

 

            Às vésperas de mais uma campanha presidencial brasileira, o debate acerca do papel e da influência da mídia sobre o processo certamente tem ocupado uma posição de destaque na agenda dos pesquisadores das áreas de comunicação e política, bem como dos próprios partidos e dos seus respectivos candidatos. O papel decisivo da TV Globo na vitória de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial de 1989, por exemplo, escancarou o problema e mostrou como o engajamento explícito de um meio de comunicação de massa pode se constituir num diferencial significativo (e, no caso, determinante) sobre as chances dos candidatos nas urnas.

            Tendo em vista esta relação entre os media e o processo eleitoral e suas implicações, decidimos contribuir para os estudos sobre este assunto através da análise da cobertura realizada pelo jornal baiano “A Tarde”. Nossa escolha deveu-se a alguns fatores. O primeiro deles foi notarmos que não existiam análises sobre a cobertura deste jornal para eleições presidenciais (apenas havia análises sobre a cobertura de eleições municipais e governamentais) e por acharmos que seria interessante verificar as possíveis particularidades existentes na cobertura de uma mídia local para um evento nacional. Outros motivos foram a credibilidade que este jornal conquistou perante seus leitores ao longo de seus 90 anos de existência e a importância dele se comparado aos demais jornais baianos em termos de tiragem por edição (o jornal “A Tarde” chega a ter uma tiragem de 110 mil exemplares aos domingos, dia em que é mais requisitado pelos leitores). 

Assim, este trabalho apresenta uma análise de conteúdo das catorze últimas edições (de 22 de setembro a 05 de outubro) do jornal “A Tarde” antes do primeiro turno das eleições, que ocorreu no dia 6 de outubro de 2002. Escolhemos este período, pois, naturalmente, com a proximidade das eleições a cobertura se intensifica, e, conseqüentemente, a quantidade de material publicado sobre o assunto aumenta, trazendo assim, mais dados para o nosso estudo. Combinando métodos quantitativos e qualitativos, a pesquisa tem como focos principais a importância atribuída ao processo eleitoral pelo jornal, a possível existência de visibilidade e tratamento diferenciados das quatro principais candidaturas — Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PPS), José Serra (PSDB) e Anthony Garotinho (PSB) —, a importância atribuída às pesquisas de intenção de voto e o direcionamento desta cobertura ao público local.

           


2. METODOLOGIA

 

Desenvolvida como requisito para a conclusão da disciplina Comunicação e Política do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA, a análise foi centrada no recorte de chamadas de capa e matérias da editoria “Política” diretamente relacionadas às eleições presidenciais, além da coluna “Palanque Eletrônico”, assinada pelo jornalista Levi Vasconcelos. Consideramos como diretamente relacionadas ao processo eleitoral as matérias que fazem referência aos quatro candidatos citados, a pesquisas de intenção de voto e a outros assuntos ligados diretamente às eleições presidenciais, como o Horário Eleitoral Gratuito e os debates entre os presidenciáveis veiculados pelos meios de comunicação. Estamos cientes de que outras matérias fazem referência ao processo eleitoral, embora de forma indireta — como matérias da editoria “Economia” referentes à alta do dólar, por exemplo — mas optamos por não incluí-las em nossa análise, pois isto resultaria em um trabalho extremamente extenso e denso.

            É importante ressaltar também que a limitação de nossa análise à capa, à editoria “Política” e à coluna “Palanque Eletrônico” justifica-se por estes serem os espaços do jornal “A Tarde” onde a cobertura das eleições presidenciais deu-se de modo mais intenso.

Após a separação de todo material, iniciamos uma análise quantitativa da cobertura verificando, inicialmente, o espaço dedicado à cobertura das eleições presidenciais de um modo geral através da contagem de chamadas de capa, matérias da editoria “Política” e colunas “Palanque Eletrônico” sobre o assunto.  Posteriormente, verificamos o espaço dedicado a cada um dos quatro candidatos, às pesquisas de intenção de voto e a outros assuntos em números de chamadas de capa e matérias na editoria “Política” através da separação do material recolhido por assunto principal. É importante ressaltar que, para esta contagem, o critério utilizado para definição do assunto principal de uma matéria foi a leitura dos títulos, subtítulos e lead das mesmas. A fim de verificar a existência ou não de uma cobertura direcionada ao público local (baiano), contabilizamos também a quantidade de matérias assinadas e as provenientes de agências.

Além de métodos quantitativos, nos utilizamos também de métodos qualitativos de análise a fim de verificar a possibilidade de existência de tratamentos diferenciados às candidaturas dos presidenciáveis. Nesta análise, fugimos da simples classificação do enquadramento em positivo, negativo ou neutro; os critérios que utilizamos foram análises do perfil desenhado para cada candidato e a identificação dos assuntos que foram mais freqüentemente associados a estes. Para tanto, empregamos como ferramenta teórica o conceito de “enquadramento”, que será explicado em seguida, no referencial teórico deste trabalho.


3. REFERENCIAL TEÓRICO

 

3.1. Comunicação e contemporaneidade

            Desde sempre, a comunicação permeou a sociedade humana. Ela é algo imanente e indispensável à própria instituição desta sociedade. Sem linguagem/comunicação, não existe homem ou sociedade humana em sua nomeação como tal. Ao transpassar e dar forma à sociedade humana, a comunicação penetrou de tal maneira em todos os lugares e poros da sociabilidade que não apareceu no seio do social enquanto algo distinto. Sua indistinção deriva da naturalidade de sua inserção como momento inerente, essencial e constitutivo das relações sociais e da vida societária. Hoje, entretanto, a comunicação aparece como problema, como objeto de reflexões e de atenção da sociedade (Rubim, 1995:114).

 

            Ao analisar a questão da ordem mundial que vem se estabelecendo no mundo nos dias que correm, é possível notar que muitos debates teóricos têm como questão central a denominação e caracterização correta para este fenômeno. Segundo Albino Rubim, o tema da incidência da comunicação na sociabilidade e das modalidades de sua conexão com a contemporaneidade tem mobilizado um grande número de pensadores, a exemplo de Mc Luhan, Manuel Castells, Venício Lima, entre muitos outros, todos preocupados em identificar e caracterizar o real lugar ocupado pela comunicação, em especial a midiática, no mundo atual (Rubim, 2000:28).

            Embora seja grande a diversidade de concepções acerca de temas ligados à comunicação midiatizada, é certo que há um consenso sobre o fato de que o papel da comunicação midiática tem sido finalmente reconhecido como crucial na nova ordem mundial. Assim, Rubim propõe o conceito de “Idade Mídia”, caracterizando uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, em seus diversos aspectos e campos.

             

 

 

 

3.1.1.     A emergência da comunicação midiatizada

A comunicação midiática assumiu um papel fundamental na estruturação da sociedade contemporânea, em especial no campo econômico. Inúmeros estudiosos têm destacado o papel fundamental da mídia na manutenção e reprodução do sistema capitalista e na constituição de uma sociedade de consumo através da difusão de modas, valores e comportamentos, beneficiando o consumo rápido do descartável e o modismo desenfreado. Assim, a publicidade veiculada pela mídia passou a ser a grande viabilizadora da concorrência capitalista por substituir a antiga competição baseada em preços pela fundamentada na importância da marca. Deste modo, conclui-se que sem publicidade e sem marca, portanto sem comunicação, em situações normais de vida capitalista, um produto não pode ser transformado em mercadoria (Rubim, 2000:31).

Devido à sua importância já verificada na realização e reprodução do sistema, a comunicação midiatizada passa a ocupar o papel de superestrutura do capitalismo. Para muitos autores, como Manuel Castells e Fredric Jameson, estamos vivendo o reflexo de mais uma modificação do sistema — uma espécie de terceira fase da economia capitalista —, na qual a informação ganha status de mercadoria mais valiosa. Dentro de diversas versões expostas por diversos campos de estudo, podemos apreender a mudança geral que demonstra a diferença dessa etapa do capitalismo em relação às anteriores. Definindo uma “sociedade globalizada”, o capitalismo agora tem suas bases solidificadas na ação da mídia e na cultura da informatização.

 

3.1.2.     Comunicação, sistema de redes e reestruturação do espaço

Além de seu papel estrutural na economia capitalista, a comunicação midiatizada também mostra-se fundamental à estruturação da sociedade contemporânea como um todo, além da esfera meramente financeira. A configuração da comunicação midiática em sistema de redes, possibilitada pelos sistemas de telecomunicações via satélites artificiais a partir da década de 60, implica a abolição de fronteiras espaciais e a supressão da relação espaço- tempo, devido a sua busca pela velocidade e instantaneidade. O sistema de redes passou a constituir a morfologia social de nossas sociedades[1] , por provocar uma transformação radical na experiência humana e no conhecimento da vida, da realidade e do mundo, afetando todos os campos, como política, economia, cultura, etc.

 

3.1.3.     A nova sociabilidade contemporânea

A incidência da comunicação afeta de modo decisivo a sociabilidade contemporânea ao inserir novos conceitos “fabricados” pela mídia, como espaço eletrônico, televivência e globalização. Constituído pelas comunicações em redes, o espaço eletrônico consiste em um ambiente desmaterializado e desterritorializado onde são viabilizadas as vivências à distância — as televivências — em tempo real, não mais se exigindo a presença física para este tipo de experiência. Todo este contexto se dá em mundo sem fronteiras — um mundo globalizado — , onde as distâncias físicas não mais têm importância devido à facilidade e à rapidez de transmissão de informações proporcionadas pela comunicação estruturada em redes.

Este “novo mundo” em que vivemos hoje caracteriza-se pela existência de uma nova dimensão pública de sociabilidade[2] — constituída pela já mencionada rede de mídias —, onde os espaços eletrônicos se transformam em suportes de televivências, vivências à distância e não presenciais, planetárias e em tempo real (Rubim, 2002:12). Estas vivências se dão cada vez mais mediadas e deixam de exigir a presença física, como se dava na dimensão pública existente anteriormente, onde os relacionamentos eram permitidos pelo compartilhamento presencial de idéias e emoções, pela comunicação face-a-face. Isto pode ser verificado no discurso de Venício Lima quando ele afirma que a televisão quebra a necessidade de conexão entre presença física e experiência (Lima, 2001:195), ao dissertar sobre as conseqüências da televisão como meio de comunicação dominante.

 

3.2.   Comunicação e política

Como já foi visto, o desenvolvimento acelerado da comunicação midiatizada associado a um contexto sócio-econômico em mutação provocou um impacto notável na estrutura da sociedade que, por sua vez, atestou a necessidade de se aprofundar os estudos da comunicação em relação a outros campos, a exemplo da política. Esta necessidade foi verificada primeiramente nos Estados Unidos, entre as décadas de 20 e 30, devido a uma articulação de fatores favoráveis existentes neste país como: avanço do capitalismo, expansão da urbanização, emergência da comunicação midiatizada (através da imprensa e do cinema inicialmente) e a estabilidade democrática interna devido à participação distante nas guerras mundiais. Os estudos em comunicação associados a outros campos, em especial ao da política, têm o desafio de superar a idéia de que a comunicação tem um poder ilimitado e imensurável sobre todas as coisas. Em sua relação com a política, o papel da mídia e de suas ressonâncias societárias é superestimado pelos estudiosos em comunicação que crêem na existência de uma política sujeita aos ditames da comunicação. O contrário também ocorre, ou seja, os cientistas sociais e políticos atribuem um papel subalterno á comunicação na sua relação com a política, ignorando seu poder de interferir no jogo político contemporâneo, promovendo alterações significativas.

O novo contexto produzido pela revolução das comunicações e suas múltiplas conseqüências trazem consigo a necessidade de se repensar os enlaces entre comunicação e política na contemporaneidade, eliminando o caráter de prevalência de um campo sobre o outro. Como o estudo de comunicação e política está situado em uma “zona de fronteira”[3] entre dois campos, é normal que estejam em permanente disputa, porém o novo contexto produzido pela comunicação midiática deixa transparecer que, acima de tudo, a comunicação e a política são áreas complementares que precisam estar em constante interação.  

 

3.2.1.     Mídia: espaço de disputa pelo poder

Os estudos em comunicação e política evidenciam que a mídia desempenha um papel significativo no jogo político contemporâneo — ao contrário do que pensam os cientistas políticos que negam o poder que a comunicação tem de interferir no jogo político, promovendo alterações —, em especial devido à dimensão pública de sociabilidade instituída pela presença da mídia e das redes midiáticas. Assim, como afirma Afonso de Albuquerque, a sociedade estruturada em rede e ambientada pela mídia funciona como um princípio reorganizador da atividade política na contemporaneidade (citado em Rubim, 2002:13).

Grande parte da atividade política contemporânea se realiza no espaço instituído pela rede de mídias. A televisão, principalmente, institui-se como o principal cenário de disputas políticas em sociedades ambientadas pela mídia, tanto no cotidiano ordinário da atividade política, como no período eleitoral. A atividade política hoje apóia-se essencialmente na mídia porque, na sociedade contemporânea, não há espaço de exposição, de exibição, de visibilidade e, ao mesmo tempo, de discurso, de discussão e debate que se compare em volume, importância, disseminação e universalidade com o sistema dos mass media (Gomes, 1999:2).  Este deslocamento da atividade política para o espaço midiático representou um forte impacto sobre as campanhas realizadas nas ruas e em outros espaços convivenciais — a política baseada em comícios, passeatas, discussões, etc.

 

3.2.2.     Despolitização da política?

Como grande parte da atividade política hoje se realiza na mídia, verifica-se a necessidade de adequá-la a este novo espaço de ambientação e a sua linguagem. Mas de que modo ocorre esta adequação? Alguns autores, de modo equivocado, têm defendido que esta adaptação se dá através de uma “despolitização da política” (Rubim, 2002:40), que significa uma absorção da lógica produtiva da mídia — a mídia passa a fazer a política — que, neste caso, se identificaria, com a lógica de produção do espetáculo.

Este modelo de análise — segundo o qual a espetacularização do poder político significa a absorção pela política de uma lógica produtiva da mídia comandada pelo entretenimento — tornou-se hegemônico nos estudos sobre as relações entre espetáculo, política e mídia. A prevalência desta lógica necessariamente levaria a atividade política a uma “despolitização”, isto é, a um direcionamento aos propósitos da lógica mídia/ entretenimento em detrimento de seus objetivos reais. Assim, espetacularização seria meramente o mesmo que a prevalência de uma lógica estrangeira, uma lógica mídia/ entretenimento.

Wilson Gomes (1999), por exemplo, é um dos autores que aproxima os conceitos de midiatização e espetacularização, em especial quando afirma que tudo que se expõe no “grande palco dos mídia” se submete a uma estruturação espetacular (Gomes, 1999:2). Este ponto de vista torna-se evidente quando ele cita o conceito de “Esfera Pública” de Habermas e suas características. Habermas afirma que Esfera Pública é o debate ou discussão que os sujeitos privados realizam reunidos num público (citado por Gomes, 1999:2) e que uma das suas características fundamentais é a discursividade ou argumentação, ou seja, o confronto de idéias, de posições e interesses distintos através do uso da razão. Assim, Gomes questiona se de fato, na contemporaneidade, podemos falar na existência de uma “Esfera Pública Política”, já que, por ser majoritariamente ambientada na mídia — portanto organizada segundo princípios de sedução e espetacularizada —, perdeu uma de suas características fundamentais: seu caráter argumentativo.

Para que se compreenda qual é o equívoco desta idéia é necessário um breve panorama sobre os conceitos de midiatização e espetacularização. Albino Rubim (2002) defende que a espetacularização e midiatização são fenômenos radicalmente distintos. Espetacularização seria o processamento, enquadramento e reconfiguração de um evento, seja ele ambientado na mídia ou não, enquanto midiatização pode ser definida como uma adequação às linguagens estético-culturais da mídia, não necessariamente em uma perspectiva espetacular. Verificada a distinção existente entre estes dois conceitos, percebe-se o quanto a tese de que a midiatização ou a espetacularização da política significam necessariamente sua despolitização é equivocada. O que ocorre de fato é que a política pode, a fim de obter visibilidade perante a sociedade, recorrer ao recurso das encenações, dos papéis sociais especializados. A política passa a recorrer ao espetáculo enquanto forma de provocar a sensibilização visando a disputa pelo poder e à mídia enquanto meio de obter uma maior visibilidade, mas isto não significa uma rendição à lógica mídia/entretenimento, uma despolitização, como muitos insistem em afirmar.

     

 

 

3.3.   O poder do texto comunicativo

Como foi visto anteriormente, a mídia passou a desempenhar um papel importante no jogo político contemporâneo por ter se tornado palco e objeto da disputa pelo poder. Através da linguagem e recursos midiáticos, os grupos políticos buscam, por meio da sensibilização da opinião pública, conquistar ou manter a hegemonia, o domínio sobre as demais facções, pois esta tem que ser continuamente renovada, recriada, defendida e modificada (Williams, citado por Lima, 2001:180).

A mídia é considerada por Venício Lima (2001) um objeto fundamental de análise para a compreensão do poder político na contemporaneidade não apenas por ter se tornado o principal espaço de lutas políticas, mas principalmente pelo seu papel de formadora da cultura política e de constituidora, a longo prazo, dos Cenários de Representação da Política (CR-Ps) devido a seu poder de construir (e ser construída pela) realidade através de representações que faz da vida humana. Entende-se por CR-P o espaço onde são construídas publicamente as significações relativas à política nas democracias contemporâneas, onde e porque ocorre a disputa pela hegemonia. Evidentemente que, além do CR-P dominante, existem os contra-hegemônicos ou alternativos. No entanto, Venício Lima faz uma ressalva: o conceito de CR-P só pode ser aplicado em sociedades centralizadas na mídia onde a TV seja o meio dominante e onde haja disputa pela hegemonia. 

A mídia constitui o CR-P através de representações que faz da realidade. Segundo Walter Lippmann, dependemos dos meios de comunicação para nos informar sobre os assuntos, personalidades e situações; para que possamos experimentar sentimentos de apoio ou de repulsa e para conhecer aqueles pontos de atenção medidos pelas sondagens de opinião (citado por Colling, 2002:1). Em suma: os meios informativos desempenham um papel extremamente importante na definição do nosso mundo, na construção de nosso imaginário social[4], nos dizendo quais são os assuntos mais importantes ao nosso redor, ou seja, através do Agenda-Setting.

Segundo o conceito de Agenda-Setting abordado por Leandro Colling (2002), em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, (...) realça ou negligência elementos específicos dos cenários públicos (Shaw, citado por Colling, 2002:5). Assim, a compreensão da realidade social pela sociedade e o agendamento dos assuntos e conversas se dão em função do que a mídia veicula.

No entanto, Colling afirma que os mais recentes estudos sobre agendamento concluíram que a mídia não apenas nos fornece os assuntos pelos quais iremos nos preocupar, mas também nos dizem como devemos pensar os temas propostos pela agenda — o chamado Framing. O enquadramento ou Framing consiste em selecionar alguns aspectos da realidade percebida e dar a eles um destaque maior na mensagem veiculada, gerando interpretações e avaliação moral recomendadas.

Para Robert Entman, o conceito de Framing oferece um modo de descobrir o poder no texto comunicativo, ou seja, o já mencionado poder da comunicação midiatizada, em especial na disputa pelo poder político (citado em Colling, 2002:8). Mas é importante ressaltar que a noção de Framing não implica necessariamente em um efeito universal em todo o público, e sim um efeito comum em uma larga faixa de receptores — a audiência não recebe as mensagens passivamente; ela é livre para tirar seus próprios significados. Isto vem a comprovar que, conforme defende Colling, os conceitos de Agenda-Setting e Framing, não contestam a teoria comunicacional dos Efeitos Limitados[5].

O Enquadramento pode ser detectado pela sondagem de palavras e imagens que aparecem insistentemente na narrativa. Entman defende que, para identificar o Enquadramento em uma reportagem, por exemplo, é necessário ir em busca da definição do problema apresentado, verificar se há personalização do problema, identificar as causas deste, quais são seus atores, quem é o responsável pela sua solução, quais são as soluções possíveis e, finalmente, identificar a avaliação moral do problema. 

 

 

 


4. ANÁLISE

         

          4.1. A cobertura em números

            O tema “eleições presidenciais” entrou na agenda pública e recebeu uma atenção bastante expressiva do jornal “A Tarde” durante o período de análise. Em um universo de catorze edições, foram um total de 10 (dez) chamadas da capa sobre o assunto, 39 (trinta e nove) matérias, além da coluna “Palanque Eletrônico” que, entre as 11(onze) edições em que esteve presente, em 7(sete) delas dedicou seu espaço às eleições para presidente da República. Para se ter uma melhor dimensão do que estes dados representam, é necessário ressaltar que isto representou uma média de 0,7 chamadas de capa e de 2,8 matérias sobre o assunto por edição, o que pode ser considerado um número significativo. A tabela abaixo descreve estes dados com mais detalhes, além de trazer outras informações, como o número de páginas da editoria “Política” e o número de matérias assinadas por edição.

 

Figura 1: A cobertura das eleições presidenciais pelo jornal “A Tarde” em números

Data

Chamadas de capa

Páginas da Editoria “Política”

Matérias na editoria “Política”

Matérias assinadas

22/09

1

3

3

1

23/09

0

3

0

0

24/09

0

4

1

1

25/09

1

3

4

3

26/09

0

4

5

0

27/09

0

6

1

0

28/09

0

4

2

0

29/09

1

4

1

0

30/09

1

3

2

0

01/10

1

6

4

1

02/10

1

3

3

0

03/10

2

5

6

2

04/10

1

5

4

1

05/10

1

5

3

0

 

Total

10

58

39

9

Média por edição

0,7

4,1

2,8

0,7

            Durante as duas semanas de análise, constatamos um crescimento (embora irregular), em termos quantitativos, da cobertura das eleições presidenciais. Este crescimento atingiu seu ápice no dia 3 de outubro, três dias antes das eleições, quando “A Tarde” publicou 6(seis) matérias sobre o assunto na editoria “Política” e 2 chamadas de capa. Nos dias posteriores, a cobertura apresentou uma queda significativa, chegando a 3(três) matérias sobre o assunto na editoria “Política” e 1 chamada de capa apenas no dia 5 de outubro, véspera das eleições (ver figura 2). Embora este número seja maior que o de outras edições analisadas, como a do dia 23 de setembro que apresentou a cobertura mais inexpressiva, com nenhuma matéria sobre o assunto na editoria “Política” e nenhuma chamada de capa, este número é considerado muito baixo em se tratando da véspera da eleição. No entanto, verificamos que houve razões que possivelmente explicassem este fato. A primeira delas foi a publicação de um caderno especial sobre eleições, o que certamente provocou um decréscimo das matérias sobre o assunto no caderno principal, nosso objeto de análise. Outra explicação possível é que não é permitida a divulgação de pesquisas de opinião nas vésperas das eleições e, como mostraremos a seguir, as pesquisas de opinião representaram uma parcela significativa da cobertura, até maior do que a cobertura dedicada a algumas candidaturas.  

           

 

 

4.2. Enquadramento das candidaturas

            Ao contabilizarmos o total de chamadas de capa e matérias sobre as eleições presidenciais publicadas nas catorze edições analisadas (totalizando respectivamente 10 e 39), também fizemos uma separação por assunto, dividindo-as em seis categorias:

-        Pesquisas: quando assunto principal era a divulgação de novos resultados de pesquisas de intenção de voto;

-        Lula: quando o principal assunto era o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT);

-        Serra: quando o principal assunto era o candidato José Serra (PT);

-        Garotinho: quando o principal assunto era o candidato Anthony Garotinho (PSB);

-        Ciro: quando o principal assunto era o candidato Ciro Gomes (PPS);

-        Outros: quando o principal assunto não se enquadrava em nenhuma das categorias anteriores, como a cobertura do Horário Eleitoral Gratuito e de debates entre os presidenciáveis.

Como já foi dito em “Metodologia”, utilizamos como critério para a definição do assunto principal de uma matéria a leitura dos títulos, subtítulos e lead das mesmas. Assim, chegamos aos seguintes números, melhor representados nos gráficos abaixo:

            Para verificarmos o espaço dedicado a cada um destes assuntos, fizemos um somatório de chamadas de capa e matérias na editoria “Política” e chegamos ao gráfico abaixo:

            Através da análise do gráfico acima, pode-se verificar que houve uma diferença significativa no espaço dedicado aos assuntos destacados, em especial quando se trata das quatro principais candidaturas à presidência. Sem dúvidas, o candidato Lula (PT) foi o que teve mais destaque nos noticiários, enquanto o candidato Garotinho (PSB) foi o menos noticiado. A princípio, teria-se a impressão de que o candidato Lula (PT) foi o mais beneficiado e que, conseqüentemente, o candidato Garotinho (PSB) o mais prejudicado pela cobertura, mas estes dados numéricos, embora sejam relevantes, não são suficientes para fazer afirmativas deste tipo. Apenas uma análise de conteúdo do material recolhido poderia fornecer dados mais consistentes.

 

4.2.1. A cobertura eleitoral de Lula

            O candidato à presidência pela Coligação “Lula Presidente” (PT/PL/PC do B/PCB/PMN), Luiz Inácio Lula da Silva teve sempre associado à sua candidatura o perfil de vencedor. Na maioria das matérias veiculadas sobre o candidato, ele era apresentado como o provável presidente do Brasil, dando-se mais ênfase ao que seria feito após sua eleição do que às próprias propostas de campanha. Isto geralmente era feito, trazendo nas matérias publicadas depoimentos do próprio candidato ou de personalidades renomadas sobre a “inevitável” vitória do petista.

 

...Durante palestra promovida pela Câmara de Comércio Brasil/EUA, [o presidente do Banco Itaú] Roberto Setúbal iniciou seu discurso dizendo: “Lula será o próximo presidente do Brasil; não tenho nenhuma dúvida disto” (Vice da FIESP aposta na vitória de Lula, 1 set, p.12).

 

O presidente Fernando Henrique Cardoso confidenciou ao colega argentino, Eduardo Duhalde, quando este visitava o Brasil esta semana, que o candidato à presidência Luiz Inácio lula da Silva. Do PT, “vencerá no primeiro turno”, publicou ontem o jornal “Clarín” (Datafolha: Lula está a um ponto da vitória, 29 set, p.7)

 

Bastante otimista, o líder das pesquisas de opinião disse acreditar em uma vitória no primeiro turno... Ele afirmou que já preparou um roteiro para sua equipe: “Eu quero pegar todo o ministério e colocar num ônibus e levar para conhecer o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que é região mais pobre deste País. Eu quero fazer isto porque, toda vez que um ministro tiver que tomar uma decisão, ele tem que se lembrar que existem homens, mulheres e crianças, e não estatísticas frias” (Lula pede a presidência como presente pelo seu aniversário, 2 out, p.10).

 

O consenso (nacional e internacional) dita que Lula botou o pé direito no Palácio do Planalto e está com o esquerdo a caminho do passo final (a não ser que dê uma monumental topada) (Coluna “Placar Eletrônico”, de Levi Vasconcelos, Lula mantém favoritismo na reta de chegada, 27 set).

 

O jornal britânico “Financial Times” afirma em uma matéria publicada em sua edição de ontem que um dos grandes desafios do candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), caso ele seja eleito, será agradar sua ampla e heterogênea base de apoio (Novo presidente vai enfrentar muitos desafios, 4 out, p.12).

 

            No caso deste último trecho citado, é importante ressaltar que o título da matéria é “Novo presidente vai enfrentar muitos desafios” e que a matéria faz referência exclusivamente ao candidato Lula.

            Além disto, Lula teve associadas a sua candidatura duas características favoráveis: pacifismo, segundo a qual ele era o único candidato capaz de atender e conciliar todos os interesses (sem cultivar inimigos) e era visto como moderador; e humanismo, que consistia em afirmar que Lula manifesta preocupação muito mais com a população do país que com números, taxas de juros e estatísticas.

 

O vice-presidente da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo)... Paulo Skaf, disse ontem que espera uma vitória do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda no primeiro turno... O empresário também fez elogios ao presidenciável petista e afirmou que Lula é o candidato que “tem dado mais ouvidos ao setor industrial”. “Meu partido não é o PT, mas o Brasil”, afirmou (Vice da FIESP aposta na vitória de Lula, 1 out, p.12)

 

Os petistas, que caminham desde o início na base do “paz e amor” (Lula diz que não quer atacar nem o governo nem os adversários), já anunciam que não vão entrar no bateu levou (Levi Vasconcelos, Coluna “Placar Eletrônico”, PT vai reagir aos ataques dos tucanos, 22 set).

 

 “... Lula é um líder que veio de baixo, sensível às reivindicações sociais”, disse [o ex-senador norte-americano Jesse Jackson], acrescentando que o candidato petista, por ser um grande negociador, está habilitado para promover o pacto social necessário ao Brasil (José Pacheco Maia Filho, Jackson não crê que vitória de Lula prejudique mercado, 1 out, p.9)

 

            No entanto, em alguns momentos, embora fossem poucos, foram levantadas questões que poderiam prejudicar a candidatura do petista. A principal destas questões foi a associação de seu excelente desempenho nas pesquisas à alta do dólar.

 

“O real brasileiro registrou a sua mais baixa cotação em relação ao dólar, em meio a indícios de que Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua vantagem para a eleição presidencial de 6 de outubro”, afirma o periódico [Financial Times] (Jornal relaciona alta do dólar a Lula, 26 set, p.12)

 

4.2.2. A cobertura da candidatura de Serra

Devido à sua posição de constante empate técnico nas pesquisas durante o período de análise com o candidato do PSB, Anthony Garotinho, o candidato do governo José Serra (PSDB) esteve sempre associado à imagem de permanente disputa com os demais e busca pelo segundo turno. Várias títulos de matérias retratavam este tema, como “José Serra acredita em disputar segundo turno” (1 out, p.12) e “País precisa do segundo turno, diz José Serra” (4 out, p.12).

 

O coordenador político da campanha de José Serra à Presidência, deputado Pimenta da Veiga (PSDB – MG), disse estar certo de que a eleição presidencial não será decidida no próximo domingo e que o tucano estará no segundo turno (FHC apóia Serra em Minas, 30 set, p.9)

 

Devido a este caráter de permanente disputa, Serra teve sua estratégia de ataque direto aos adversários destacada em boa parcela das matérias e colunas publicadas no jornal “A Tarde” no período em questão. O que acabou ressaltando o lado “vilão” do candidato.

 

Está aí o novo Serra que emergiu no cenário após uma semana de ataques a Lula que nada somaram e ainda diminuíram (aumentou a rejeição e revigorou Garotinho) (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, Serra recua e suspende ataques a Lula, 25 set).

 

               Em algumas matérias foi posta em questão a ligação do candidato ao governo FHC, já que, em alguns momentos, ele criticava medidas e voltava atrás, como no exemplo abaixo da crítica feita à Petrobrás.

 

O candidato do PSDB à presidência, José Serra, ironizou ontem, em Pelotas (RS), o fato de a Petrobrás ter reajustado o preço do óleo combustível faltando menos de uma semana para a eleição presidencial... Depois da ironia, o candidato tucano procurou atenuar o discurso em relação à estatal. “Se ela fez porque acha necessário” (Serra ironiza a Petrobrás por reajuste, 2 out, p.10)

 

 

 

4.2.3. A cobertura da candidatura de Garotinho

            Embora estivesse em uma condição próxima à de José Serra (PSDB) nas pesquisas, o candidato Anthony Garotinho (PSB) teve evidenciada a ascensão de sua candidatura, ao invés do caráter de disputa em que se encontrava, como ocorreu com o candidato do governo.

A presença de Garotinho no quarto colégio eleitoral, nesta reta final das eleições, tem como estratégia impulsionar a candidatura do socialista, que vem crescendo (Patrícia França, Garotinho retorna à Bahia para alavancar candidatura, 22 set, p.6).

 

Decidido a acelerar o ritmo da campanha nesta reta final das eleições, quando as pesquisas mostram o crescimento de sua candidatura, o presidenciável Anthony Garotinho (PSB) chega hoje à Bahia, vindo de São Paulo, para cumprir uma maratona de atividades em cinco municípios (Patrícia França, Garotinho chega para atrair votos, 24 set, p.7).

 

O presidenciável Anthony Garotinho (PSB) comemorou ontem, em Salvador, durante Showmício Gospel na Praça Castro Alves, o resultado de mais uma pesquisa do Ibope, confirmando o empate técnico com o candidato do governo José Serra (PSDB/PMDB), em segundo lugar (Patrícia França, Garotinho comemora pesquisa e garante estar no 2º turno, 25 set, p.10).

 

            Durante o período de análise da cobertura, foi exaltada uma característica do candidato do PSB: a polêmica. Em vários trechos de matérias, Garotinho lançava críticas e farpas para todos os lados, incluindo seus adversários, o atual presidente Fernando Henrique Cardoso e até mesmo a imprensa.

 

 “A culpa pela alta recorde do dólar é de Fernando Henrique Cardoso, ele é o culpado, ele é que é o presidente da República”, disparou ele [Anthony Garotinho] em Conquista (Juscelino Souza, Souza Andrade e Ana Cristina Oliveira, Comícios rápidos no interior, 25 set, p.10).

 

O candidato do PSB à Presidência da República, Anthony Garotinho, criticou ontem os institutos de pesquisa e o presidenciável José Serra... “A minha candidatura foi a única que se manteve na oposição. Quem poderia dizer que Lula é oposição se está abraçado com Sarney (José Sarney, senador pelo PMDB) e se juntando com o sistema financeiro internacional”. “É difícil dizer qual campanha é a mais rica, se a do Lula ou a do Serra”. Questionado se assumiria uma postura de franco atirador no debate previsto para hoje na Rede Globo, ele disse: “Eu sou franco e atirador é o Serra”. Ele acusou ainda a imprensa de ser governista e de ter tentado desestabilizar sua campanha (Garotinho promete surpresa no domingo, 3 out, p.12)

 

4.2.4. As notícias sobre a candidatura de Ciro Gomes

            Apesar de ter disposto de 14,3% do espaço total dedicado à cobertura das eleições presidenciais contra os 12,3% de Anthony Garotinho (o candidato que teve menos espaço), a maior parte dos textos publicados sobre o candidato à presidência pela “Frente Trabalhista”, Ciro Gomes (PPS), traziam aspectos negativos de sua candidatura. Na maior parte das matérias e colunas, Ciro Gomes era retratado como o derrotado, “o grande perdedor destas eleições”.

 

“O Ciro somente vai para o segundo turno se houver um fato de grande repercussão nacional”, disse ACM, um dos principais aliados do candidato (Ex-senador admite ser difícil ida de Ciro ao segundo turno, 26 set, p.11).

 

Ciro Gomes, já ultrapassado por Garotinho, tenta renascer (Coluna “Placar Eletrônico”, de Levi Vasconcelos, Serra recua e suspende ataques a Lula, 25 set).

 

Na tevê, Ciro ainda tenta sobreviver: “Serra teve oito anos e não fez. Lula não sabe fazer. Ciro sabe” (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, Serra recua e suspende ataques a Lula, 25 set).

 

Ciro tenta sobreviver atacando FHC e o PT, mas assiste a debandada de aliados (sem nada poder fazer) (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, Lula mantém favoritismo na reta de chegada, 27 set).

 

Ciro (que anda melancólico, mas não joga a toalha) botou lá: “Imprensa sofre pressão para beneficiar Serra” (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, PT vai reagir aos ataques dos tucanos, 22 set).

 

Além de ser enquadrado como derrotado, Ciro ainda foi considerado culpado, em partes, pela própria derrota.

 

Seja lá quem for o vencedor, Ciro Gomes é o personagem maior desta eleição, como grande perdedor... Se pudéssemos resumir tudo numa frase, poderíamos dizer que agosto de 2002 foi o 11 de setembro de 2001 de Ciro Gomes, o mês em que um candidato à presidência com chances subiu e caiu pela boca (em ambas as situações). Subiu, enquanto falava sozinho nas inserções editadas da programação regular das televisões. Caiu quando enfrentou as câmeras ao vivo (falando espontaneamente) (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, Agosto foi o 11 de setembro de Ciro Gomes, 4 out).

 

Em síntese, besteiras e destemperos todo falam ou cometem, diz Ciro Gomes, com a ressalva: “Mas a imprensa só implica comigo”. Está quase certo. Quase porque sabia que havia “o esquema Serra” pronto a detonar não ele, mas qualquer um que atravessasse o projeto tucano de “fabricar” o sucessor de Fernando Henrique. E errado porque é um falastrão desastrado que mesmo agora, já detonado, não consegue curar a sua verborréia... Ciro não precisa de inimigos (ele se basta) (Coluna “Placar Eletrônico”, Levi Vasconcelos, Tropeços e acertos nas frases ditas na campanha presidencial, 29 set).

 

Em suma, foi enfatizado o caos em que se encontrava a campanha do candidato à presidência, com desistência de inúmeros aliados e rupturas de alianças, como é possível notar em títulos de várias matérias como “Saída de Mangabeira Unger racha a campanha de Ciro” (28 set, p.11), “Frente [Trabalhista] reflete sobre a renúncia de Ciro” (30 set, p.7) e “PDT baiano rompe com Ciro e apóia o PT” (3 out, p.7).

 

O quarto lugar de Ciro Gomes (PPS) nas pesquisas de intenção de voto continua causando estragos na Frente Trabalhista. Leonel Brizola, presidente do PDT, voltou a falar ontem sobre a possibilidade de a coligação abandonar a disputa e declarar apoio a Lula (Vice da FIESP aposta na vitória de Lula, 1 out, p.12).

 

 

4.3. A influência das pesquisas na cobertura

As pesquisas de intenção de voto constituíram 17,9% das matérias referentes às eleições presidenciais do jornal “A Tarde”, entre os dias 22 de setembro e 05 de outubro, e 30% das chamadas de capa referentes ao assunto. O instituto Datafolha divulgou 3 pesquisas durante o período analisado, o Ibope divulgou 2, assim como o Vox Populi. O Census apareceu com apenas uma pesquisa, que foi publicada junto com a pesquisa do Vox Populi do dia 1º de outubro, ou seja, na mesma matéria, não aumentando a quantidade de espaços dedicados ao assunto. De acordo com o Datafolha, a pontuação dos candidatos à Presidência da República nas pesquisas de intenção de voto, divulgadas nos dias 22 de setembro e 03 de outubro era:

 

Figura 6: Resultado das pesquisas de intenção de voto do Datafolha

Candidato

22/09

03/10

Lula

44%

45%

Serra

19%

21%

Garotinho

15%

15%

Ciro

13%

10%

Brancos e Nulos

3%

3%

Indecisos

5%

5%

                        Fonte:Datafolha

 

Na pesquisa Ibope, os números não mudam muito. A diferença entre as pontuações apresentadas pelo Datafolha e Ibope não é muito significativa, considerando que a quantidade de eleitores entrevistados e os municípios em que são feitas as pesquisas difere de instituto para instituto. A pontuação dos candidatos divulgada pelo Ibope nos dias 25 de setembro e 02 de outubro foi:

 

Figura 7: resultado das pesquisas de intenção de voto do Ibope

Candidato

25 de setembro

02 de outubro

Lula

41%

43%

Serra

18%

19%

Garotinho

15%

16%

Ciro

12%

11%

Brancos e Nulos

4%

3%

Indecisos

10%

7%

                        Fonte: Ibope                                                                 

 

Na contagem dos votos válidos (sem a inclusão dos brancos e nulos), Luís Inácio Lula da Silva aparece na última pesquisa Datafolha (03/10), antes das eleições, com 49% dos votos válidos e com 48% na pesquisa Ibope. As simulações de segundo turno apareceram em todas as pesquisas analisadas, sendo que Lula vencia todos os outros candidatos nessas simulações. Através das simulações de segundo turno, percebe-se nas matérias com divulgação de pesquisas que há duas incertezas: a primeira delas é se haverá de fato um segundo turno e a segunda é com que candidato Lula irá disputar o segundo turno (Serra ou Garotinho), caso ele aconteça.

As pesquisas sempre citam o empate técnico entre o candidato José Serra (PMDB) e o candidato Anthony Garotinho (PSB), como por exemplo, a matéria da página 11 do jornal “A Tarde” de 25 de setembro, que teve como título “Lula sobe dois pontos e pode ganhar no primeiro turno”. Além de mostrar a pontuação de cada candidato, de acordo coma pesquisa Ibope, a matéria confirma que há uma incerteza quanto à realização de um segundo turno e quanto ao candidato que poderá concorrer com Lula. Essas incertezas são atribuídas, pelo jornal, “à tendência de fragilidade nas campanhas de Serra e de Ciro” e a “consolidação do crescimento do candidato petista (Lula)”.

Apesar de constatar que não há como afirmar, através das pesquisas de intenção de voto, o resultado das eleições presidenciais do dia 6 de outubro, não há nenhuma matéria que se aprofunde no assunto e explique o porquê das fragilidades das candidaturas de Serra e Ciro, o crescimento de Lula e, até mesmo o crescimento de Garotinho.

O candidato do PPS, Ciro Gomes, obteve 27 % das intenções do voto no mês de agosto, mas ficou com apenas 10% na última pesquisa Ibope feita antes das eleições. O candidato caiu 17 pontos percentuais e não houve nenhuma matéria do jornal “A Tarde”, entre o período analisado, que comentasse o porquê dessa queda. Com exceção do texto de Levi Vasconcelos, na coluna Palanque Eletrônico (4 out, p.10), com o título “Agosto foi o 11 de setembro de Ciro Gomes”, nenhuma outra matéria comentou a queda do candidato da Frente Trabalhista. Levi Vasconcelos citou fatos como o beijo que Ciro Gomes deu na mão de Antônio Carlos Magalhães, chamado de “Beijo da Morte”; a declaração do candidato de que o papel mais importante de sua esposa, Patrícia Pilar, era dormir com ele, o que diminuiu a popularidade de Ciro entre o eleitorado feminino, caindo de 28% para 10 %. Levi Vasconcelos também citou o momento em que Ciro ofendeu um ouvinte da Rádio Metrópole, chamando-o de “burro”. Mesmo assim, faltaram matérias que relacionassem a queda do candidato do PPS nas pesquisas de intenção de voto com o seu comportamento e com os ataques de José Serra direcionados a ele, no horário eleitoral gratuito, nas 14 edições que antecederam as eleições.

Observou-se que cada vez que era divulgada uma nova pesquisa de intenção de voto e que se constatava a queda de Ciro Gomes, havia a publicação de matérias sobre uma possível renúncia do candidato e o apoio da Frente Trabalhista a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, caso a renúncia ocorresse. Três matérias sobre a possibilidade de renúncia de Ciro Gomes e o possível rompimento de alianças entre a Frente Trabalhista e outros partidos foram publicadas no jornal “A Tarde” nos dias 28 e 30 de setembro e 03 de outubro,  devido à queda do candidato nas pesquisas. As matérias tinham os seguintes títulos: “Saída de Mangabeira Unger racha a campanha de Ciro”, “Frente reflete sobre a renúncia de Ciro” e “PDT baiano rompe com Ciro e apóia PT”.

Ciro Gomes foi colocado nas pesquisas de intenção de voto como o grande perdedor das eleições. Lula, no entanto, foi colocado como o provável vencedor, sendo que os títulos das matérias relacionadas às pesquisas estavam sempre evidenciando o aumento da preferência dos eleitores pelo candidato do PT. Os seguintes títulos exemplificam essa idéia: “Lula cresce mais 4 pontos no Datafolha” (22 set, p.07), “Lula sobe 2 pontos e pode ganhar no primeiro turno” (25 set, p.11), “Pesquisa mostra Lula com 48% dos votos válidos” (02 out, p.10).

Luís Inácio Lula da Silva, além de ter as pesquisas de intenção de voto ao seu favor, teve também declarações de empresários a favor de sua vitória no primeiro turno. Um deles foi Paulo Skaf, vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) e presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de confecção), teve o seu apoio a Lula divulgado na página 12 da edição do jornal “A Tarde” de 1º de outubro. Paulo Skaf disse que “Lula é o candidato que tem dado mais ouvidos ao setor industrial”, e que sua vitória no primeiro turno “seria importante para reduzir a instabilidade política e econômica do país”. Lula ganhou a torcida silenciosa de investidores, que desejavam a vitória do candidato no primeiro turno para que a situação de instabilidade do Brasil fosse reduzida logo e não houvesse a necessidade de se esperar por mais 20 dias (período entre o primeiro e o segundo turno) para que a situação se estabilizasse.

Declarações a respeito da vitória de Lula também foram destacadas em matérias do jornal “A Tarde”. Roberto Setúbal, dono do Banco Itaú, declarou que “não tem dúvidas de que Lula será o próximo presidente do País e de que o petista é mais pragmático do que os mercados pensam” (03 out, p.10). O presidente Fernando Henrique Cardoso também disse que o candidato do PT “vencerá no primeiro turno” e que “se por acaso houver segundo turno, também vai vencer” (29 set, p.07). Essas declarações confirmam o juízo de candidato vencedor atribuído a Lula pelas pesquisas de intenção de voto.

Garotinho e Serra foram colocados como os prováveis adversários de Lula no segundo turno, por apresentarem empate técnico nas pesquisas. A matéria “Serra e Garotinho batalham para chegar ao segundo turno”, publicada na edição de 03 de outubro, apenas mostra a pontuação dos candidatos e como eles deveriam agir no debate programado pela Rede Globo, que se realizaria na noite do dia em questão. A matéria, assim como outras que tratavam da disputa entre Garotinho e Serra, não divulgou nenhuma informação significativa sobre as propostas de governo dos candidatos, que permitisse a escolha de um deles pelos eleitores ou leitores indecisos. É claro que publicar todo o plano de governo de um candidato no caderno principal de uma edição do jornal “A Tarde” não seria sensato, mas matérias que explicassem ou tratassem de algumas propostas dos candidatos à Presidência da República poderiam ter sido produzidas, em especial às que poderiam ser de interesse do eleitor baiano.

Uma explicação provável para a produção de matérias para a editoria de política com poucas referências às propostas de governo dos candidatos seria a publicação do caderno especial “Eleições 2002” aos sábados, durante o período eleitoral. Embora a análise do caderno “Eleições 2002” não faça parte da nossa análise, constatamos que ele trazia em seu conteúdo propostas e planos de governo dos candidatos à Presidência da República

Apesar de não fazer parte do nosso estudo, a editoria “Opinião” do jornal “A Tarde” do dia 03 de outubro, publicou na página 08 as medidas do caderno temático “Combate à corrupção”, que integra o Programa de Governo do PT. O texto é assinado por Luís Inácio Lula da Silva e foi o único que trouxe em seu conteúdo as propostas de um dos candidatos, que nesse caso, foram as de Lula.

Como já foi dito, as eleições presidenciais não estavam totalmente definidas às vésperas do dia 6 de outubro. Luís Inácio Lula da Silva obteve 49% dos votos válidos na última pesquisa Datafolha, mas para não haver segundo turno seria preciso que ele tivesse 50% dos votos válidos mais um. O debate realizado pela Rede Globo no dia 3 de outubro poderia ter sido a chance de Lula obter votos e vencer no primeiro turno ou a chance de Antony Garotinho ou José Serra de obterem mais votos e irem para o segundo turno com o candidato do PT. De acordo com a matéria “Se vencer no 1º turno, PT anuncia equipe”, publicada em 05 de outubro na página 12 de “A Tarde”, o cientista político Fernando Abrucio avaliou que “cada candidato ganhou muito pouco com o debate” e que Lula perdeu a oportunidade de conquistar os votos que faltavam para a vitória no primeiro turno. Ainda segundo a matéria, “o fato de Lula não saber responder a pergunta de Garotinho sobre a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) e de fazer referência ao uso de métodos científicos para identificação de negros”, prejudicou o candidato do PT.

Essa matéria mostra a interferência do debate entre os candidatos nas pesquisas de intenção de voto, embora não tenha sido divulgada nenhuma pesquisa no dia 05 de outubro no jornal “A Tarde” que pudesse, de fato, comprovar as considerações de Fernando Abrucio. Há apenas o gráfico, ao lado da matéria, com uma pesquisa Ibope, que coloca Lula com 48% das intenções de voto, Serra com 21%, Garotinho com 15% e Ciro com 10%. No entanto, não há nenhuma indicação no gráfico que nos diga o dia exato em que foi feita a pesquisa e se as impressões causadas pelo debate estão inclusas nesse resultado do Ibope.

 

          4.4. Direcionamento da cobertura ao eleitor baiano

As matérias referentes às eleições presidenciais que possuíam inclinação local, ou seja, que traziam em seu conteúdo assuntos voltados para os leitores e eleitores baianos, totalizaram 20,5% das edições do jornal “A Tarde” analisadas entre os dias 22 de setembro e 05 de outubro. Isso significa que das 39 matérias sobre eleições presidenciais, 8 delas foram dedicadas a fatos que envolviam a Bahia.

Metade dessas matérias está relacionada ao candidato Anthony Garotinho (PSB), devido a sua vinda à Bahia pela segunda vez. A primeira delas, assinada pela jornalista Patrícia França, tem como título “Garotinho retorna à Bahia para alavancar candidatura” e divulga a programação da agenda do candidato na Bahia, além de citar que “a presença de Garotinho no quarto colégio eleitoral, nesta reta final das eleições, tem como estratégia impulsionar a candidatura do socialista” (22 set, p.06).  A segunda matéria foi publicada no dia 24 de setembro, dia em que o candidato chegou à Bahia. Também assinada por Patrícia França e com o título “Garotinho chega para atrair votos”, a matéria traz exatamente o mesmo conteúdo da anterior. A única diferença é que ela cita Teixeira de Freitas, Ilhéus, Vitória da Conquista, Itabuna e Salvador como prováveis municípios a serem visitados por Garotinho, sendo que na matéria do dia 22 de setembro apenas os três últimos foram citados.

As matérias “Garotinho comemora pesquisa e garante estar no 2º turno” e “Comícios rápidos no interior”, publicadas no dia 25 de setembro, foram um pouco mais completas, já que cobriram as atividades do candidato na Bahia. No entanto, apenas a proposta ou  “promessa” de Garotinho de elevar o salário mínimo para R$280 foi mencionada. As matérias, também de Patrícia França, não se aprofundaram nas propostas do candidato e só continham  declarações dele, relacionadas a variados assuntos, como a alta do dólar, as injustiças sociais, o governo de FHC  etc. As matérias relacionadas à vinda do candidato do PSB à Bahia não trouxeram dados que permitissem ao eleitor baiano obter mais informações sobre Anthony Garotinho.

Já foi dito anteriormente que isso pode ter acontecido devido à publicação do caderno especial “Eleições 2002”. No entanto, fatores como as rotinas produtivas, falta de dados suficientes para a construção de um bom texto e até mesmo a cobertura de um evento pouco significativo, podem contribuir para a produção de uma matéria medíocre. Esses seriam alguns fatores que podem ter levado a jornalista Patrícia França a escrever três matérias praticamente iguais sobre a vinda de Anthony Garotinho à Bahia.

A outra metade das matérias está relacionada ao rompimento do PDT baiano com Ciro Gomes e com o debate entre os candidatos à Presidência da República realizado pela Rede Globo.

A matéria de José Pacheco Maia Filho, “PDT baiano rompe com Ciro e apóia o PT”, presente na página 7 da edição do dia 3 de outubro, trata do anúncio de “rompimento de parte significativa do PDT estadual com a candidatura de Ciro Gomes (PPS) à Presidência da República”, devido à aliança de Ciro com Antonio Carlos Magalhães. A matéria traz críticas ao candidato ao Governo do Estado da Bahia, Paulo Souto (PFL), feitas pelos dirigentes dos pedetistas, e declarações do dirigente Fernando Aranha a respeito da vitória de Lula no primeiro turno: “Com a nossa decisão, pretendemos colaborar para eleger Lula presidente no primeiro turno e forçar o segundo turno nas eleições da Bahia”. Essa matéria abordou um fato importante, explicando as suas causas e as razões que levaram ao seu acontecimento. Também utilizou declarações de pessoas que contribuíram para uma melhor compreensão do assunto.

Acompanhando a matéria comentada acima, foi publicada a resposta  do presidente estadual do PDT, Severiano Alves, ao apoio oficial do partido à candidatura de Jaques Wagner e Waldir Pires. Segundo Severiano Alves, a decisão de apoio ao PT na Bahia não era oficial e a iniciativa tinha partido de membros  isolados da militância pedetista. A matéria, que tem como título “Presidente diz ser decisão isolada”, é do jornalista José Pacheco Maia Filho.

As últimas duas matérias com inclinação local foram publicadas na página 10 da edição de 4 de outubro e são sobre o debate  entre os candidatos, realizado pela Rede Globo. A primeira delas, com o título “Candidatos fazem debate mais quente da campanha”, apenas cita o questionamento de Anthony Garotinho quanto à transposição das águas do Rio São Francisco, dirigido a Luís Inácio Lula da Silva, e mostra a resposta de Lula: “Não se trata de ser contra ou a favor. É um projeto que vem desde o tempo de D. Pedro II. Não podemos falar no assunto sem primeiro pensar em revitalizar o rio. Se fosse uma questão fácil não duraria 153 anos”. Essa matéria não foi assinada, é proveniente de uma agência de notícias.

A segunda matéria, “Telões mostram as discussões”, destaca a opinião de eleitores baianos, que acompanharam o debate dos candidatos por televisores instalados em comitês políticos, bares e restaurantes, quanto ao desempenho dos mesmos durante os blocos de perguntas. De acordo com a matéria, assinada por Jair Mendonça, Lula e Serra monopolizaram as atenções durante o debate e, segundo os entrevistados, “o debate é peça importante para possibilitar ao eleitor um maior conhecimento das propostas de cada candidato”. O texto de Jair Mendonça traz entrevistas com eleitores baianos e divulga a forma como eles receberam as propostas e colocações da cada candidato.

 

 

 

 

 

 

 

5. CONCLUSÕES

 

 

O tema “eleições presidenciais” recebeu uma atenção bastante expressiva do jornal “A Tarde” durante o período de análise, em especial quando se tratava do desempenho dos quatro principais candidatos à presidência. Sobre o modo como se deu este aspecto da cobertura, é importante ressaltar que não é possível afirmar que houve intencionalidade. O contexto em que se encontravam os quatro principais presidenciáveis e as pesquisas de intenção de voto contribuíram para que as candidaturas fossem enquadradas do modo que apresentamos.

As pesquisas de opinião, sem dúvidas, funcionaram como critério de noticiabilidade para a cobertura: Lula, líder de todas as pesquisas, foi enquadrado como vitorioso; Serra e Garotinho, praticamente em empate técnico todo o tempo, foram enquadrados como em permanente disputa e busca pelo segundo turno contra o candidato petista; Ciro, quarto colocado nas pesquisas, sempre teve sua derrota e o abandono de seus aliados como destaques das matérias em que aparecia.

Portanto, o que se extrai desses dados apresentados sobre a cobertura do jornal “A Tarde” para as eleições presidenciais de 2002 é que vários elementos contribuíram para dar conteúdo e forma a esta cobertura das quatro principais candidaturas, elementos estes resultantes, principalmente, das próprias especificidades e oscilações do processo eleitoral (incluindo as particularidades das suas campanhas). Assim, duas conclusões possíveis a partir desta análise são que a mídia, sozinha, não fabrica candidatos nem resultados, como também que os candidatos acabam, intencionalmente ou não, construindo as notícias através de seu desempenho e atitudes no decorrer da campanha.

            A cobertura das eleições presidenciais localmente, ou seja, na Bahia, poderia ter sido mais expressiva. Entre as 39 matérias sobre eleições presidenciais, produzidas durante as 14 edições analisadas, apenas 8 tinham inclinação local. Além disso, as matérias não foram satisfatórias em termos qualitativos. Três delas, assinadas por Patrícia França, trataram do mesmo assunto (o retorno do candidato Garotinho à Bahia) com a mesma abordagem, sem que uma acrescentasse dados novos ou diferentes à outra. As matérias do jornalista José Pacheco Maia Filho, referentes ao rompimento do PDT baiano com a candidatura de Ciro Gomes, constituíram as mais expressivas de conteúdo local, por noticiarem um fato de interesse do eleitor e leitor baiano, seguindo os critérios jornalísticos de composição de matérias. Isso não significa que as matérias com conteúdos locais publicadas no jornal A Tarde entre os dias 22 de setembro e 05 de outubro tenham sido intencionais. O que se questiona é a falta de variedade de assuntos relacionados à cobertura local das eleições presidenciais e a quantidade de matérias publicadas.

 


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COLLING, Leandro. Agenda-Setting e Framing: reafirmando os efeitos limitados. In: Revista Famecos, n.17, abr 2002, pp 88-100.

 

GOMES, Wilson da Silva. Esfera Pública, Política e Mídia. In: RUBIM, A., BENTZ, I., PINTO, M. J. (orgs.). Práticas discursivas na cultura contemporânea. São Leopoldo, 1999. pp 203-231.

 

LIMA, Venício A. de. Cenário de Representação da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política. In: _____. Mídia, teoria e Política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. pp 175-212.

 

RUBIM, Antonio Albino Canelas. Comunicação, Política e Sociabilidade Contemporâneas. In: ____. Idade Mídia. Salvador: EDUFBA, 1995. pp 107-146.

 

________. Espetáculo, Política e Mídia. 2002. 37 p. (texto apresentado no XI Encontro anual da Associação Nacional dos Programas de Pós -graduação em Comunicação).

 

_________. Zona de Fronteira. In: _____. Comunicação e Política. São Paulo: Hacker Editores, 2000. pp 11-46.

 


 



[1] Expressão utilizada por Albino Rubim no Texto “Zona de Fronteira”.

[2] A esta nova dimensão de sociabilidade, Muniz Sodré (citado em Rubim, 2000:40) dá o nome de “telerrealidade”, que seria uma nova formatação da realidade por espaços e tempos integrados em redes eletrônicas.

[3] Título do texto de Albino Rubim, publicado em 2000.

[4] Baczko define “imaginário social” como sendo pontos de referência no sistema simbólico de qualquer coletividade através dos quais se estabelece uma espécie de ordem social, onde cada indivíduo tem sua identidade e seu papel bem definidos (citado por Lima, 2001: 179).  

[5] A teoria dos Efeitos Limitados pressupõe que líderes de opinião e elites bem informadas ocupam o primeiro passo na estrutura da formação da opinião pública e são transmissores de novas idéias e valores ao público menos informado (Lazarsfeld, citado por Colling, 2002:2).