UFBA – Universidade Federal da Bahia

Faculdade de Comunicação

Departamento de Comunicação

Comunicação e Política

Professor Leandro Colling

Alunos: Jorge Cunha e Tereze Dantas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paródia e Política

O Casseta & Planeta nas eleições 2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensaio apresentado ao professor

 Leandro Colling como

avaliação da disciplina

Comunicação e Política.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Salvador – Bahia

Outubro – 2002


Introdução:

Os pesquisadores das diversas áreas de conhecimento conhecem muito bem o problema de desenvolver uma análise sobre seu objeto de estudo. Seja no ramo das ciências duras ou das ciências sociais aplicadas, os cientistas estão sempre estudando fenômenos cujas causas e conseqüências são tão amplas que simples teses não são capazes os esgotar em toda complexidade. Portanto, faz-se “recortes” do fenômeno e procura-se dar conta daquele elenco de questões que se propôs a descrever na análise, nunca dando conta do fenômeno inteiro, mas somente de suas partes.

Nosso recorte é o programa humorístico Casseta & Planeta, que vai ao ar na Rede Globo todas as terças-feiras logo após a novelas das oito. O objetivo é analisar o modo como esse programa parodia as questões políticas do momento, interessando-nos, sobretudo, os blocos do programa que se referem a disputa política, uma vez que são neles que encontramos os candidatos a presidência. Essa escolha, contudo, não nos impediu de utilizar alguns quadros do Casseta & Planeta que não se referiam as candidaturas, explicitamente, mas que fossem importantes para as hipóteses levantadas. O período de captação dos dados compreendeu desde 27/08/2002 (acirramento da disputa presidencial) até 1/10/2002 (último programa Casseta & Planeta antes das eleições), num total de seis programas analisados.

Uma pesquisa como essa requer um esforço teórico, por parte dos pesquisadores, capaz de dar conta tanto do vínculo entre fatos políticos e programas humorísticos como da capacidade que o humor possui de fazer críticas as práticas culturais, estando, portanto, inserido numa perspectiva de reflexão/construção da realidade pública. Para tanto, buscamos evidenciar os temas que foram agendados pelo programa, os enquadramentos dados a esses temas e, sobretudo, o alvo da paródia desses humoristas. Apresentamos duas interpretações possíveis para o fenômeno: a primeira admite que o formato humorístico do Casseta & Planeta favoreceu o candidato do PSDB, na medida em que baniu do programa uma série de quadros que tinham como principal alvo os representantes do governo federal,  como ministros, secretários e até mesmo o próprio presidente FHC. A segunda considera que, não havendo no humor um compromisso necessário com a crítica social, o Casseta & Planeta fez uma paródia da cobertura feita pela mídia sobre disputa presidencial.

Comunicação e política

Nos é, claramente, perceptível que dependemos dos meios de comunicação para conhecer diversos assuntos, práticas e situações. Os meios de comunicação, mais do que suportes de mensagens, são verdadeiras formas de conhecimento do mundo, agindo como um dos principais atores sociais na idade contemporânea[1]. Ora, na medida em que os assuntos são midiatizados e a mídia possui uma lógica particular, é razoável supor que essa lógica interfere na produção das mensagens, sobretudo se lembrarmos dos postulados do agenda setting.

O agenda setting considera que as pessoas agendam seus assuntos e suas conversas em função do que a mídia veicula. Em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas teriam a tendência de incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que a mídia inclui ou exclui do seu conteúdo. O pressuposto fundamental do agenda-setting é que a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida pela mídia (Colling, 2002).

 Na perspectiva do “framing”,  os meios de comunicação, além de nos dizer sobre o que pensar, nos diz como devemos pensar esses temas. Talvez por isso, Nelson Traquina tenha se sentido impelido em afirmar que “novas investigações, explorando as conseqüências do agenda setting e do enquadramento, sugerem que os media não só nos dizem em que pensar, mas também como pensar nisso, e consequentemente, o que pensar” (TRAQUINA, citado em COLLING, 2002), negligenciando as pesquisas de McCombs sobre os efeitos limitados. O pressuposto de Robert Entman, herdeiro da perspectiva de McCombs, é que a agenda setting possui um efeito limitado sobre a interpretação dos receptores, não obstante, os influencie.

Poder-se-ia verificar o enquadramento de uma reportagem, segundo Entman, buscando: a) a definição do problema apresentado. b) verificar se há personalização do problema. c) identificar as causas do problema e quem são seus atores. d) quais as soluções e quem pode oferecê-las. Essa metodologia funciona bem empiricamente, provando que as categorias criadas pelo autor são de grande utilidade para a compreensão do que é, efetivamente, dito numa reportagem. Observe que a abordagem pelo viés do enquadramento é útil para entendermos o que dito, mas não é útil para analisar o que é interpretado pelos espectadores da mensagem. Foi, exatamente, nesse ponto que Traquina pecou. Por ter suposto que a teoria do framing defendia a tese do espectador passivo, ela acabaria por alicerçar o postulado dos efeitos poderosos – famosos com a teoria da agulha hipodérmica – que os meios exerceriam sobre o público.

Contudo, o fato de algumas pessoas absorverem a mensagem tal qual fora pretendido pelo enquadramento não garante que o efeito sobre os espectadores seja poderoso, uma vez que outras pessoas não a absorvem da mesma maneira. A variável enquadramento mostra-se pouco esclarecedora para o fenômeno a ser analisado. Faz-se necessário, portanto, uma busca por teorias que permitam mostrar outros agentes midiáticos formadores de opinião. O Cenário de Representação da Política, proposto por Venício Lima, parece-nos útil nesse momento.

CR-P e Framing: um casamento inteligente

Embora o conceito de CR-P tenha sido, muitas vezes, combatido devido aos seus problemas de aplicação metodológica – como vou identificar o CR-P dominante? E os alternativos? – ele trouxe significativas contribuições para as análises políticas na idade mídia, sobretudo porque trabalha com diversos formatos midiáticos importantes numa sociedade, entre eles, a telenovela. Esse conceito pode ser aplicado a qualquer sociedade que seja centrada na mídia, onde haja uma disputa pela hegemonia e onde a TV seja o mass media dominante.[2]

Lima considera que a TV possui um papel fundamental na construção do imaginário social contemporâneo. Através do imaginário social a sociedade designa sua identidade, distribui papéis e fornece as bases do bom comportamento que deve ser seguido pela coletividade. Citando Baczko, ele afirma que “os mass media fabricam e emitem [....] os imaginários sociais, as representações globais da vida social dos seus agentes, instâncias e autoridades” (BACZKO, 1985, passim citado por LIMA, 2001).

O autor alia o conceito de imaginário social ao conceito de cultura política – conjunto de orientações subjetivas, de componentes cognitivos, afetivos e avaliativos, resultante de uma socialização e educação infantil de uma sociedade – a fim de demonstrar que a media torna-se, na contemporaneidade, o espaço das construções simbólicas e de disputas pela hegemonia. Com duas ressalvas importantes: primeira é que ao supor uma hegemonia, supõe-se também uma contra-hegemonia. Segunda, a mídia não é, somente, construtora de significados como também é construída por eles. Ao mesmo tempo em que torna a realidade presente, cria a realidade.

A TV torna-se, desse modo, o “maquinário de representação” da sociedade, constituída/constituídora de tendências e atitudes. Ela não somente cria tendências como se apropria de fatos criados longe da mídia, locais fora de seu domínio, e torna-os visíveis a uma série de pessoas. Dessa forma, ela se apropria dessa nova tendência, influencia outras pessoas e mantém a “roda girando”. É com essa dupla orientação que ela reflete/cria tendências na sociedade. Característica que pode ser identificada tanto nas telenovelas brasileiras como nos programas humorísticos.

A proposta de aliança entre CR-P e framing aqui exposta visa superar dois problemas: evidenciar o papel constitutor/constituído exercido pela/na mídia na sociedade contemporânea e identificar o CR-P dominante numa determinada ocasião, antes do resultado das eleições. O primeiro problema parece-nos, de certa maneira, explicado. A esfera midiática se apropria de muitos fenômenos que ocorreram distantes dela e, nesse sentido, reflete-os (constituída) embutindo particularidades da narrativa midiática e influenciando a esfera social (constituidora). Já no segundo, sugerimos uma análise dos conteúdos agendados não só pelos telejornais, como também pelas telenovelas e dos programas de humor, uma vez que eles também contribuem para a construção de um CR-P na medida em que trabalham com o imaginário social  dos indivíduos. Contudo, atentamos, para o seguinte problema: sendo a esfera midiática o principal cenário dos debates públicos e da sucessão presidencial 2002, reuniria ela as condições necessárias para ser uma esfera pública democrática e deliberativa num dos episódios mais importantes da democracia moderna? Como os debates iniciados longe da esfera midiática são absorvidos por este meio, nos seus diversos formatos?

A morte da esfera pública?

Wilson Gomes, em “Esfera Pública Política e Media – II”, distingue duas formas de esfera pública: a esfera do debate público – que pode ocorrer em qualquer lugar – e a esfera da visibilidade pública – nos nossos tempos, midiática.

 Para o autor, a existência de uma esfera da visibilidade pública de caráter sedutor e efêmero, que é parte da lógica midiática, não implica a inexistência de uma esfera do debate público argumentativa, uma vez que o discurso retórico sempre esteve presente na prática política como recurso mais natural de convencimento. A maneira como estruturou-se o debate público contemporâneo não nega a esfera pública moderna. Contudo, a confusão conceitual cometida pelo próprio Jürgen Habermas[3], entre cena pública e debate público, acabou por gerar uma concepção de esfera pública deliberativa sem qualquer influência das dimensões não argumentativas. Desse modo, Gomes procura sustentar que é possível debate público dentro de um cenário sedutor, na medida em que a exibição – na esfera da visibilidade pública –  não prevê a extinção do debate – na esfera do debate público.

A intertextualidade do discurso humorístico nos leva a reiterar ainda mais a idéia do autor, uma vez que os assuntos que são evidenciados na esfera da visibilidade pública pelo Casseta & Planeta foram iniciados longe da mídia, não obstante serem paródias dos formatos telejornais e telenovelas. Se a mídia é a refletora/construtora da realidade, como afirmado por Venício Lima, a proposta Wilson Gomes casa perfeitamente com a análise que será feita nesse ensaio e servirá como eixo de investigação nos esquetes humorísticos.

 

Humor e política

A esse ponto, fica claro que nossa análise privilegia a capacidade que o humor possui de tecer críticas culturais, no sentido amplo, a uma sociedade. O humor não poupa nenhuma instância da sociedade, seja ela Estado, Sociedade Civil ou Igreja e, portanto, exerce uma influência bastante significativa no imaginário social e cultura dos grupos. Sendo a política uma atividade que diz respeito a todas as pessoas de uma cidade, ela torna-se alvo privilegiado de piadas e paródias. A cultura brasileira, devido a seu passado colonial, parece ter usado, com freqüência, o recurso humorístico como arma contra a hegemonia do pensamento europeu. Maurício Tavares, em “Crítica cultural no Brasil: paródia e ambivalência”, escreve:

 

“O humor é a atmosfera de nossa época. No Brasil a presença marcante do humor como visão-de-mundo não é novidade. O riso como instrumento de reflexão cultural esteve presente desde a criação do Brasil e agora pontua a nossa civilização midiática”. (TAVARES, p.1, 2002)

 

Como a mídia, atualmente, exerce o papel de maquinário das representações sociais, ela é o cenário ideal para o exercício do humor e a paródia é seu principal formato humorístico. A paródia provoca o riso através da reprodução de formas discursivas reconhecidas sendo, portanto, intertextual. Um texto parodiado só funciona se a forma discursiva que se está parodiando é reconhecida, podendo-se parodiar discursos políticos, formatos midiáticos etc.

Em sua relação com a política, o humorismo parece estar cada vez mais se aproximando de uma paródia acerca da cobertura midiática dos fatos políticos – aquilo que tornou-se visível através dos mídia – e se afastando do que ocorre longe da esfera midiática – o que ocorreu na esfera do debate público. Nesse sentido, sua crítica não passaria de uma paródia de si mesma e dos formatos discursivos presentes no seu interior, dando pouco, ou nenhum valor, aqueles fatos que não foram por ela apreendidos. Se levássemos esse problema até suas raízes, estaríamos inclinados em dizer que o humorismo, na idade mídia, perdeu totalmente sua função social[4] possuindo, simplesmente, um compromisso estético. Contudo, essa é ainda uma hipótese que queremos comprovar, por isso responderemos a essa questão no decorrer da análise.

O que podemos dizer desde já é que os discursos que permeiam, mesmo que ingenuamente, os programas de humor revelam uma série de preconceitos, noções e tradições da cultura política brasileira. Ser capaz de reconhecer, no formato humorístico, essas informações é ter acesso ao imaginário social da sociedade, atualizada pelas narrativas midiáticas – o que, mais uma vez, comprova a idéia de mídia como refletora e construtora da realidade.  

Prevenidos desses problemas possíveis e cientes da importância que o formato humorístico possui no imaginário social das pessoas, passamos a observar quais as características particulares do processo eleitoral 2002 e constatamos que as organizações jornalísticas aparentam preocupação no que diz respeito a cobertura dos candidatos, organizando entrevistas, debates e procurando sempre dar o mesmo tempo de visibilidade tanto a um candidato quanto ao outro – tal formato irá se tornar um dos maiores alvos de piada no Casseta & Planeta.

Desse modo, temos uma conjuntura política muito específica para a campanha presidencial de 2002: fim do mandato de FHC, esperança de renovação, candidatos que propõem mudanças e uma ruptura, mesmo que muito pequena, com o modelo de governo vigente. A imprensa parece ter se mobilizado na cobertura das campanhas e um grande espaço foi aberto na esfera da visibilidade pública para os quatro principais candidatos a presidência.  Vejamos como o Casseta & Planeta irá se comportar nesse contexto.

 

Procedimentos metodológicos para análise

Para a identificação dos elementos constitutivos do CR-P nos programas do Casseta & Planeta, adotou-se uma perspectiva metodológica qualitativa. Nessa perspectiva, a pergunta não é “como os mídia nos afetam ?”, mas sim “quais as interpretações de sentido e valor criadas nos mídia e qual a sua relação com o resto da vida?” (CHRISTIANS e CAREY,1981,citado por LIMA). Um primeiro passo é, portanto, a avaliação das “interpretações de sentido e valor “ sobre a política criadas nos mídia.

No presente estudo, isso é feito através dos “significados dominantes ou preferenciais” (HALL, 1980, citado por LIMA). A análise pressupõe, portanto, um esforço de caráter qualitativo no sentido de localizar as representações dominantes da política construídas nos programas do Casseta & Planeta. Os passos do procedimento são: 1- anotam-se todas as passagens em que se trataram de temas políticos; 2- agrupam-se posteriormente estas passagens de acordo com alguns temas centrais.

Uma objeção que poderia questionar a validade desses procedimentos metodológicos é a que se refere à afirmação da polissemia da mensagem ou do papel ativo dos receptores no processo da comunicação. Surgem, então, algumas questões importantes: qual a garantia de que a leitura do pesquisador coincide com a da audiência? Não poderá uma mesma representação ser decodificada de forma diferente por diferentes receptores?

Uma discussão mais detalhada desse tema escapa aos propósitos desse trabalho, mas é importante chamar a atenção para o fato de que alguns autores têm afirmado os limites da polissemia da mensagem (LIMA, Venício, 2001) e a trivialidade do conceito de resistência dos estudos que enfatizam o poder dos receptores (SHOLLE, 1990, citado por LIMA). Além disso, como afirma Stuart Hall (citado por LIMA), a polissemia não deve ser confundida com pluralismo, pois toda sociedade tende a impor a sua classificação do mundo social, cultural e político. Esta classificação gera um “ordem cultural dominante”, apesar de não ser unívoca ou incontestada. Assim, ainda que seja possível decodificar uma mensagem de diversas formas, existe um padrão de “leituras preferenciais” nas quais estão inscritas toda a ordem social.

Analisaremos a seguir as representações sobre o mundo da política construídos nos programas do Casseta & Planeta, evidenciando os temas agendados e enquadramentos dominantes nos seus blocos.

 

O programa Casseta & Planeta: desqualificação da política

O programa Casseta & Planeta, da Rede Globo, constitui um fórum importante na discussão de questões políticas utilizando-se, para isso, de uma linguagem irreverente e escrachada, incluindo em seus esquetes  diversos episódios e temas da conjuntura nacional. Ele baseia seus quadros em acontecimentos que são veiculados na mídia existindo, para isso, uma funcionária (jornalista) cuja missão é selecionar fatos e imagens de telejornais, filmes e eventos que possam virar piadas ou paródias nas mãos dos redatores do Casseta & Planeta. O programa editado (sem os comerciais) possui uma duração de aproximadamente 25 minutos. Desse total, observamos que os temas que envolvem a política, no período de tempo pesquisado, chegam a ocupar cerca de 52% (13 minutos) do programa. A política se faz presente através de diversos quadros inseridos ao longo do programação.

A grande maioria dos esquetes do Casseta & Planeta reforçam uma característica comum aos programas de humor, a desqualificação da política: todos os políticos são corruptos ou se utilizam dos cargos políticos em benefício próprio, construindo uma generalização de atributos extremamente negativos a toda atividade política, uma postura comum no imaginário social do povo brasileiro. Nesses enquadramentos, os problemas são gerados pelos políticos e não há qualquer solução para as eventuais questões.

 

Esquete 1

Marido:...e a partir de hoje eu prometo que vou levar minha esposa à loucura.

Esposa: Todo ano eleitoral é assim. Eles prometem, prometem, mas não cumprem nunca.

Problema apresentado – as promessas de campanha feita pelo marido que nunca são concretizadas.

 

Esquete 2

O candidato “seu Creysson”  visita o PROJAC (estúdios da Rede Globo) buscando o apoio dos artistas. Porque, segundo ele, precisa de gente bonita para tirar fotos e assim ganhar as eleições.

Seu Creysson: Olha só os depoimentos que eu consegui na Globo. Agora minha campanha é vitoriosa!

Luis Gustavo (ator): Eu vou votar no “seu Creysson” porque eu tenho certeza que ele não vai ter conta na Suíça. Ainda, porque eu sei que ele não sabe onde fica a Suíça.

Problema apresentado – Presidentes que possuem conta no exterior.

Essa desqualificação da política se torna evidente também nesses outros esquetes.

Esquete 3

Esse esquete é interessante pois é interativo. Os espectadores votam, via Internet ou  por telefone, escolhendo entre as opções dadas, pela apresentadora Maria Paula, qual a preferida do público.

Maria Paula: Na sua opinião como é que a gente deve fazer para tornar o horário eleitoral menos chato?

Opção A: Mudar para “acorrentado” eleitoral gratuito.

Aparece o humorista Bussunda parodiando o apresentador Luciano Hulk.

Luciano Hulk: Loucura, loucura. O programa eleitoral de hoje está show. São oito candidatos a deputados acorrentados ao eleitor. Não sabemos porque eles estão acorrentados, mas oito políticos acorrentados já é uma boa idéia.

Político (com os braços presos pelas correntes): Como é que eu vou fazer para meter a mão numa verba pública, assim! Fala sério!

Maria Paula: Se você acha que os candidatos devem ficar bem presos. É só escolher a opção A ligando para o telefone XXXX.

Opção B: Trocar para “Fama” eleitoral gratuito.

O humorista Hélio de La Pena (parodiando Toni Garrido): Gente o auditório está pegando fogo! Hoje é o dia de escolher o candidato eleito. Vai lá, deputado!(Entra o candidato ao som da música Negro Gato de Roberto Carlos).

Candidato (cantando): Eu vou ser deputado se você votar. Eu vou lá  pra Brasília pra me arrumar. Eu sou o candidato!

Maria Paula: Se você não quiser que o seu candidato não vá para a berlinda. É só escolher a opção B e ligar para XXX.

A opção escolhida pelos telespectadores foi a opção B.

Conclusão do esquete da opção B:

Toni Garrido: Agora vamos ver o que o júri achou de sua performance.

Jurada: Olha, você cantou legal. Mas, eu vou te dar uma dica. Você está muito preso. Deputado no Brasil está sempre solto. Não fica preso nunca. Tem imunidade parlamentar, sabe?

Problema apresentado – Imunidade parlamentar impede que os políticos sejam presos.

 

Esquete 4

Pesquisa interativa do programa

Maria Paula: Em qual criatura sobrenatural você acredita mais?

Opção A: Vampiro

Opção B: Lobisomem

Opção C: Candidato em época de eleição

A opção C foi a escolhida pelos telespectadores por 43% dos votos. Segue a conclusão do quadro.

Um eleitor é assediado por um candidato que promete salário mínimo de 50 mil reais, um carro 0Km para cada cidadão e distribuição de lagosta, champanhe e caviar para as comunidades carentes.

Eleitor: Socorro! Eu não agüento mais esses candidatos. Xô, passa fora!

Candidato: Vote em mim, vote em mim.

Eleitor: Eu, não. Eu te conheço pra tu te eleger você faz pacto até com o diabo, rapaz!

Diabo (aparecendo): Êpa, comigo não! Tá maluco! Não faço coligação com qualquer um, não. Eu tenho uma reputação a zelar!

Problema apresentado – Falta de ética nas alianças dos candidatos.

Assim como a política, o programa Casseta & Planeta não poupa nem o Estado nem o governo de uma desqualificação, construindo representações profundamente negativas sobre essas formações coletivas. O Estado e o governo são representados como espaços da incompetência e da corrupção, como instituições ineficazes, construindo uma generalização  negativa, principalmente, com relação a polícia e aos policiais.

 

Esquete 5

Repórter: Essa semana, em São Paulo, um boneco foi flagrado fazendo a vigília de um presídio de segurança mínima. Estamos, aqui, com o diretor do presídio que vai esclarecer este caso. O senhor pretende tomar alguma providência?

Diretor: É claro! Nós decidimos que o “soldado boneco” vai ser promovido à “sargento boneco” e, ainda, vai ser condecorado.

Reporter: Condecorado?! Mas o boneco não faz nada!

Diretor: E daí? Tem um monte de policial que não faz nada. Esse pelo menos nunca levou celular para dentro da cadeia, nunca recebeu dinheiro para facilitar a fuga, nunca levou propina de bandido. Vocês da imprensa são fogo! Vivem criticando a polícia, no dia que aparece um policial honesto reclama também. Ah, fala sério!

Problema apresentado – Corrupção na Polícia.

 

Esquete 6

Repórter: O poder paralelo não tem mais limites. Depois de mandar e desmandar em todas as favelas cariocas, os traficantes resolveram, agora, também fazer eleição para o poder paralelo. Não é isso meu caro marginal?

Maurinho da Chacina: É, exatamente, “seu Casseta”. A gente resolvemos organizar essas eleições para nos candidatar a todos os cargos no legislativo e no executivo. Porque executar é com a gente mesmo. Agora, o senhor da licença que eu estou em campanha.

Maurinho da Chachina (assaltando um cidadão):Você me conhece. Vote em Maurinho da Chacina para traficante federal. Se você votar em mim eu não vou mais te assaltar.

Cidadão: Pode deixar “seu Maurinho”, eu vou votar no senhor.

Maurinho da Chacina: Beleza, agora passa a grana.

Cidadão: Mas...o senhor não disse que não ia mais me assaltar?

Maurinho da Chacina: E você vai acreditar em promessa de traficante em época de eleição, rapá?

Problema apresentado – Promessas políticas que não são cumpridas.

 
A paródia travestida de crítica

Bergson nos ensina três lições acerca do cômico: primeiro, ele dirige-se a uma inteligência humana, uma vez que é preciso uma operação racional para se compreender o cômico e, conseqüentemente, rir. Segundo, o cômico é produto de determinada rigidez e inflexibilidade mecânica que quando percebida por outra pessoa provoca o riso. Por fim, o cômico é sempre suscetível a imitação. Esses três postulados servem de base para a análise do “Casseta & Planeta” na medida em que todos são encontrados no modelo humorístico do programa. Tendo se dado conta do rígido formato criado pela mídia para tornar os candidatos visíveis ao público, o Casseta & Planeta ridicularizou a situação. Observe próxima esquete:

 

Esquete 7

Paródia do programa “Mais Você”, da TV Globo, apresentado por Ana Maria Braga.

Dona Maria Brega: Oi gente! Hoje o Menos Você está sensacional. Eu vou dar uma receita ótima, muito prática e deliciosa. A receita de Lula com arroz de brócolis. Mas como a gente está em período eleitoral, eu tenho que dar também a receita de Serra com arroz de brócolis, Ciro com arroz de brócolis, Garotinho com arroz de brócolis e até Rui Pimenta com arroz de brócolis.

Voz em off: Interrompemos este programa para o pronunciamento do Sr. Inexpressivo de Albuquerque candidato à presidência pelo PSI (Partido Social Insosso).

Inexpressivo de Albuquerque: Eu, Inexpressivo de Albuquerque, candidato à presidência pelo PSI fui o único que não fui citado em nenhuma das receitas. Exijo ser cozido com arroz de brócolis como os outros candidatos.

Louro José: Quem é que vai querer esse cara, sô!

Dona Maria Brega: Ele é meio sem sal, mas é só a gente botar uma pitadinha que vai ficar uma delícia.

Problema apresentado – Tempo de visibilidade dos candidatos.

Durante a transmissão do showmício do personagem “seu Creysson”, que foi ao ar no dia 1 de outubro, outro candidato teve chance de se pronunciar devido ao tempo de cobertura dos candidatos. Dessa vez, foi o candidato Wanderney, do Partido da Sauna Gay, quem teve tempo para apresentar seu showmício.

Quando alguma propaganda de candidato vai ao ar no Casseta & Planeta, o espectador ouve a seguinte mensagem:

Voz em off: Interrompemos nossa programação para a exibição do Otário Eleitoral Gratuito.

Todos esses quadros demonstram que o alvo das críticas do programa é a própria mídia, sendo evidenciada a forma mecânica e rígida na maneira de tratar a campanha presidencial. Como essa postura se fixa como um formato, o humor age sobre ele expondo-o ao ridículo e demonstrando sua condição patética. Contudo, o próprio modo de produção da paródia no Casseta & Planeta parece excluir de seu alcance agentes externos a lógica midiática, fechando-se no próprio mundo. Resultado: o que o Casseta & Planeta fez foi uma auto homenagem travestida de crítica, na medida em que limitou-se a tornar cômico o que era agendado pelos telejornais. Poderíamos, então, questionar “será que esse modelo humorístico favorece a algum candidato?”.

 
Conspiração midiática

O programa Casseta & Planeta, que vai ao ar na TV Globo desde 1992, é detentor de uma grande audiência, sendo visto por mais de 36 milhões de telespectadores. Durante todos esses anos, os políticos sempre foram os mais visados pelos “cassetas” (como eles costumam ser chamados). Os ex-presidentes Collor e  Itamar Franco, assim como o atual, Fernando Henrique Cardoso, renderam excelentes paródias.

O Casseta & Planeta possui vários quadros onde o personagem Viajando Henrique Cardoso (paródia do atual presidente) aparece com freqüência em quase todos os programas. Os redatores utilizam o humor e uma linguagem irreverente, através desse personagem, para criticar o presidente e o seu governo.

Durante a nossa pesquisa, realizada no período de 27/08/2002 a 01/10/2002, analisamos seis edições do Casseta & Planeta e observamos que o personagem Viajando Henrique Cardoso não aparece em nenhum dos programas analisados. Outros personagens, como ministros e líderes de governo, que apareciam com vozes dubladas em situações constrangedoras também não apareceram em um programa sequer. Além disso, alguns  temas suscetíveis a paródias – como a alta do dólar, o risco Brasil e o novo empréstimo feito junto ao FMI – não estiveram presentes no programa. Essas constatações nos levam a formular outra questão importante: por quê um personagem como Viajando Henrique Cardoso, que aparecia com tanta freqüência e era alvo de tantas piadas engraçadas, “desapareceu” do programa no período de sucessão presidencial?

Podemos levantar duas hipóteses: 1) para favorecer, intencionalmente, o candidato à presidência, que pertence ao mesmo partido de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, já que o silenciamento das críticas evitaria prejudicar o candidato do PSDB. 2) o não agendamento, nos telejornais da rede Globo, acerca dos problemas do governo FHC acabaria por não sustentar o personagem Viajando Henrique Cardoso, uma vez que linha editorial do Casseta & Planeta é parodiar o que é veiculado na mídia, principalmente no Jornal Nacional.

Acreditamos que essa análise não é capaz de responder a primeira hipótese, pois seria necessário fazer um estudo sobre a cultura organizacional do Casseta & Planeta e dos critérios adotados pelos editores para produção das piadas. Dados que não levantamos. Contudo, nossa análise nos aproxima bastante da segunda hipótese e se não a afirmamos categoricamente nesse ensaio é porque não fomos capazes de comparar os temas agendados pelos telejornais com os temas agendados pelo Casseta & Planeta. Apesar disso, estamos convencidos de que houve uma relação entre os agendamentos dos telejornais e do Casseta & Planeta.

 

Conclusões

Após a análise dos programas, consideramos que o alvo das paródias humorísticas na Casseta & Planeta foi a própria narrativa midiática e que o principal tema político agendado no programa foi a disputa pela sucessão presidencial com um enquadramento que desqualificava a atividade política e os políticos, em geral. Esses temas, contudo, não apareceram associados a problemas políticos contemporâneos e sim a estrutura da narrativa midiática, resultando num meio que faz uma paródia de si mesmo.

Evidenciamos o não agendamento de temas suscetíveis a ótimas piadas, como o sumiço do quadro de Viajando Henrique Cardoso e de qualquer outra paródia que fizesse referência ao seu governo. Mesmo tendo percebido esses fatos, consideramos não ser possível postular a intencionalidade dos editores em favorecer o candidato do PSDB, por falta de dados esclarecedores sobre esse fenômeno.

Por fim, questionamos se o grande espaço aberto pelo Casseta & Planeta para cobrir a disputa eleitoral não teria fechado os espaços referentes as notícias do governo FHC,  como se sugerisse uma preocupação com as eleições e não com os problemas do governo naquela ocasião. O resultado disso, seria um público com muitas informações sobre o futuro – as propostas dos candidatos, planos de governo etc. – mas com poucas informações sobre a situação que o país passava naquele período.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencias Bibliográficas:

 

BERGSON, Henri. O riso – Ensaio sobre a significação do cômico. 2ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.

COLLING, Leandro. Agenda-setting e framing: reafirmando os efeitos limitados. Revista Famecos, n 17, abril 2002.

GOMES, Wilson da Silva. Esfera pública  política e media II. In: RUBIM, ª, BENTZ, I., PINTO, M. J. (organizadores). Práticas discursivas na cultura contemporânea. São Leopoldo, RS, 1999.

LIMA, Venício A de. Cenário de Representação da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política. In: Mídia, teoria e política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

RUBIM, Antônio Albino Canelas. Comunicação e Política. São Paulo: Hacker Editores, 2000.

TAVARES, Maurício. Crítica cultural no Brasil: paródia e ambivalência. Texto inédito, 2002

 

Monografias

JACOB, Adriana. Comunicação e Política: uma análise do Casseta & Planeta, Urgente. Salvador, 2000.

 

Sites

Casseta & Planeta on line – www.cassetaeplaneta.com.br

 

 

 



[1] Posição infra-estrutural ocupada pelos meios de comunicação na sociedade contemporânea, uma vez que ela é importante ator social e econômico (RUBIM, Comunicação e Política, 2000) 

[2] Condições que devem ser satisfeitas para que exista um CR-P. (LIMA, Cenário de Representação da Política (CR-P): um conceito e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política, 2001)

[3] O autor decreta a morte da esfera pública ao perceber que a esfera pública midiática não reúne condições para satisfazer o critério de esfera pública moderna (GOMES, Esfera Pública Política e Media II, 1999).

[4] Henri Bergson havia associado ao riso uma função de crítica social. (BERGSON, O riso – ensaio sobre a significação do cômico, 1987)