Universidade Federal da
Bahia
Faculdade de Comunicação
Trabalho final destinado ao
prof. Leandro Colling para a
disciplina Comunicação e
Política
Salvador – Bahia
Outubro - 2002
Introdução....................................................................................................................... 1
Referencial teórico .......................................................................................................... 2
As capas ......................................................................................................................... 12
Pesquisas de intenção de voto ....................................................................................... 14
Análise das matérias ...................................................................................................... 16
Ensaio fotográfico ......................................................................................................... 20
Conclusão ...................................................................................................................... 23
Anexo 1 .......................................................................................................................... 24
Anexo 2 .......................................................................................................................... 26
Referências Bibliográficas ............................................................................................ 27
Introdução
O presente trabalho é uma análise da revista ISTOÉ, em relação ao tipo de cobertura que foi dada à eleição presidencial de 2002, em seu primeiro turno. O recorte feito inclui as edições dos meses de agosto, setembro e começo de outubro (de 7 de agosto a 9 de outubro). Só foram analisadas as notícias que foram destaques de capa da revista.
A análise foi tanto quantitativa quanto qualitativa e se dividiu em basicamente três partes. A primeira está relacionada às capas da revista, a fim de identificar quantas delas foram dedicadas ao assunto eleição e assim descobrir a importância que a campanha presidencial teve para o meio. Como parâmetro, o número encontrado foi comparado ao número de capas que o mesmo veículo, no mesmo período, dedicou ao assunto durante as eleições de 1998.
A segunda parte diz respeito à análise das matérias propriamente ditas. Neste caso, o objetivo é identificar o papel das pesquisas de intenção de voto, aqui abreviadas como PIV, na construção das matérias. Outro objetivo é identificar quais temáticas foram associadas aos quatro candidatos melhores colocados (Luís Inácio Lula da Silva, PT; José Serra, PSDB; Ciro Gomes, PPS; Anthony Garotinho, PSB). Dessa forma, busca-se descobrir se houve diferenciação no enquadramento que foi dado a cada candidatura.
Na terceira e última parte foi feita a análise do ensaio fotográfico de cada candidato. Em quatro edições distintas, a ISTOÉ dedicou um caderno especial – ISTOÉ Cidadania – com uma entrevista e um ensaio fotográfico para cada um dos quatro candidatos, já mencionados acima. A análise das fotos busca descobrir se as imagens, de certa forma, agregaram alguma coisa ao enquadramento da candidatura de cada um deles.
Antes, porém, da análise propriamente dita, é preciso explicar os conceitos que serão aplicados e como se chegou a tais conceitos. É o que será feito no referencial teórico logo a seguir. Alguns conceitos não estão explícitos no decorrer da análise, mas as noções que os constituem podem ser facilmente percebidas na construção do texto.
Primeiramente é preciso notar como está arranjada a sociedade atual. Segundo Rubim (2000), a sociedade contemporânea vive um estágio por ele denominado de “Idade Mídia”, em que a sociedade está “estruturada e ambientada pela comunicação”. Estruturada porque (utilizando os conceitos marxistas) a comunicação deixa de fazer parte apenas de uma “superestrutura”, de estar ligada apenas ao campo do pensamento e das idéias, como uma questão presente e fragmentada em diversas áreas, e passa a fazer parte também da “infraestrutura”. Os meios de comunicação começam a tomar corpo de empresa, com uma profunda atuação econômica e mesmo política. Ela inclui forças produtivas e relações de produção (os bens culturais e os profissionais da comunicação), quesitos postos por Marx para caracterizar os atores infra-estruturais da sociedade. A comunicação passa a atuar como cúmplice do sistema capitalista, sendo imprescindível na sua manutenção. Rubim cita essas inúmeras relações entre mídia e capitalismo, estudadas por outros autores, como os valores simbólicos dos produtos (Jean Baudrillard), redes e fluxos de informações ligadas ao capital e as finanças (Manuel Castells), e o uso da publicidade.
“A lembrança desses momentos de interação entre capitalismo e comunicação, obviamente, faz recordar apenas alguns tópicos possíveis, mas, sem dúvida, sugere a superação de uma concepção apenas ‘superestrutural’ da comunicação” (RUBIM, 2000. P. 30).
Já a ambientação da sociedade pela comunicação se deve à organização desta em rede. Com a grande importância dada à comunicação no sistema capitalista, a informação deve sempre estar disponibilizada quando preciso. As pessoas têm que estar interligadas para receberem tais informações de forma veloz. Segundo Rubim, a televisão foi um grande passo para tal construção. As redes telemáticas e agora as digitais, os satélites artificiais permitem que as pessoas estejam em contato sem a necessidade da presença física. Com isso, muitas relações sociais passam a ser feitas através dessas redes, sendo então desmaterializadas. Essa nova realidade afeta muitos campos da sociedade, inclusive o político, tornando necessária uma adequação de linguagem com esses novos meios.
Rubim também fala em seu texto de como se encontra o campo político na sociedade contemporânea. A comunicação, que era vista como um simples instrumento da ação política, se autonomiza, passando agora a ator. Devido a todas as mudanças acima descritas, os políticos precisam estabelecer um diálogo com os meios de comunicação para atingir o seu eleitorado. A política não perde suas características básicas, mas se vê acrescida de uma necessidade de publicização via meios de comunicação de massa.
Numa sociedade em que a maioria das informações e relações são feitas através da mídia, há que se perguntar como fica o debate do campo político pelo público. Como se torna mais eficiente para o político se relacionar com o eleitorado através desses aparatos, como é feita a discussão entre as pessoas sobre a política? Neste ponto, será usado o texto de Wilson Gomes e o seu estudo sobre a esfera pública política.
Gomes parte do conceito de Habermas de esfera pública moderna (burguesa) que seria “o debate ou discussão que os sujeitos privados realizam reunidos em público” (GOMES, 1999. P. 2). As características básicas da esfera pública habermasiana são: 1. Argumentação (com o uso da razão e com o intuito de obter consenso); 2. Publicidade (exposição, visibilidade, disponibilidade e acessibilidade dos fatos) e 3. Privacidade (valorização do ser individual e sua capacidade argumentativa). Para Habermas, é impossível falar de uma esfera pública na sociedade contemporânea, já que as características da esfera pública moderna se perderam com a mudança da estrutura social.
Gomes aponta os principais motivos encontrados por Habermas para o fim da esfera pública na sociedade contemporânea. Primeiro, a esfera pública foi incorporada pelo Estado de Direito, deixando de ser privada para ser parte integrante e legitimadora do Estado, ao invés de proteger o cidadão. Com isso, a esfera pública perdeu a sua “capacidade de produzir posições legítimas” (GOMES, 1999. P. 4). Estas são feitas fora do alcance público, nos bastidores do governo. Por último, a esfera pública preserva apenas uma função de legitimação, só se pronuncia quando sua opinião é solicitada. Perdidas suas características, não é mais possível para Habermas a existência de tal esfera. Sem desmerecer a importância do estudo de tal autor, Gomes critica sua posição, pois esta subestima o caráter argumentativo dos meios de comunicação.
“Provavelmente, as maiores limitações da visão desta primeira fase de Habermas consiste em subestimar o potencial argumentativo da cena política mediática e sua capacidade de produzir – e não apenas representar – a opinião pública. O juízo genérico sobre a existência de uma esfera aparentemente pública, mas desprovida de função produtiva da opinião pública, por conseguinte um simulacro de esfera pública, talvez se tenha orientado por uma visão demasiadamente conspiratória do papel dos mass media no sistema social” (GOMES, 1999. P. 4).
Gomes ainda considera mais três posições de estudos que vem ao passo das pesquisas de Habermas. Segundo o autor, porém, todas pecam ao darem ênfase a um certo aspecto da política e da esfera pública, subestimando outros e sem ter uma visão mais ampla da inter-relação entre a mídia e a esfera pública. Mas essas posições também trazem contribuições ao notarem outras características da política além da argumentação, como a encenação, a sedução e a emoção. Mesmo que tenham superestimado tais características, estas realmente fazem, e sempre fizeram, parte da atividade política. Também Rubim (2002) acredita que a política vai além da pura argumentação. Ele exemplifica seu argumento dizendo que
“A ágora grega, o senado romano, a coroação do rei, o parlamento moderno, a posse do presidente, as manifestações de rua, as eleições, enfim toda e qualquer manifestação política, anterior ou posterior a nova circunstância societária, supõe sempre encenação, ritos etc”. (RUBIM, 2002. P. 5).
Após tal constatação, Gomes lança um novo conceito para dar conta deste aspecto político, que ajuda na construção da esfera pública (esfera de discussão pública, por ele denominada), mas que não deve ser confundido com a mesma: a esfera de visibilidade pública ou cena pública. Sua definição é “a cena ou proscênio social, aquela dimensão da vida social (‘política’ ou ‘civil’ diriam os antigos) que é visível, acessível, disponível ao conhecimento e domínio públicos”. (GOMES, 1999. P. 9). Já a esfera de discussão pública é a disseminação do assunto para que os interessados ingressem nas discussões e disputas. Os meios de comunicação fazem parte da esfera de visibilidade pública, formando o que Gomes chama de uma esfera de visibilidade pública mediática.
Para Gomes, a existência da esfera pública não está diretamente condicionada à cena pública. A relação entre elas deve ser relativizada, a depender do assunto em voga e dos seus interessados. A cena pública serve de fonte para a formação de opinião sobre os assuntos, mas ela não é a única fonte, e mesmo que seja, cada indivíduo irá edita-la como esfera pública ou não de acordo com a sua experiência de vida, ou conhecimento prévio de tal assunto.
Como foi dito, o simples fato de estar na esfera de visibilidade pública não vai fazer com que o assunto faça parte de uma esfera pública. Até porque, muitos assuntos aparecem ao mesmo tempo, e o público irá escolher o mais relevante de acordo com seus interesses. Para que possam ser notados, a atividade política se utiliza muitas vezes do recurso do espetáculo. Tal recurso foi estudado por Rubim no texto “Espetáculo, política e mídia”.
As encenações e os espetáculos, como já foi explicado acima, são práticas inerentes ao campo político. O que acontece, segundo Rubim, é que estas adquiriram um grau de importância muito maior na contemporaneidade, devido à nova organização social em que a política não mais é feita através da força, e sim pelo convencimento, e também pelo estabelecimento de novas relações de sociabilidade – “Idade Mídia”, conceito de Rubim já explicado.
O espetáculo tem alguns dispositivos que o caracterizam, como um caráter público, contraposição com o dia-a dia, uso do extraordinário, caráter dramático, organização e profissionais especializados. Tais características fazem com que a sua realização esteja facilmente ligada com os meios de comunicação, já que não existe via de maior visibilidade na sociedade atual. Mas isto não quer dizer que só possa haver espetáculos midiáticos, ou que qualquer evento midiatizado seja um espetáculo.
Rubim alerta para que não se pense que, diante dessa lógica, a atividade política se esvazie de seu caráter argumentativo e que seu funcionamento habitual se torne somente espetáculo e encenação. Novamente afirma que não é porque um fato político seja midiatizado que ele se torna imediatamente espetacularizado. Neste caso, podem prevalecer apenas os critérios de noticiabilidade, sem o atropelamento da lógica política. A noticiabilidade é o conjunto de elementos que o órgão informativo utiliza para controlar a quantidade e o tipo de acontecimento que deve virar notícia, e também a forma como tal notícia será tratada pelo veículo. Esses elementos podem ser definidos como valores/notícias, segundo o autor Mauro Wolf. Os valores/notícias funcionam, na prática, de maneira complementar – suas relações e combinações auxiliam na seleção de um fato – e acompanham todo o processo produtivo jornalístico.
Uma das funções dos valores/notícias é facilitar a rotina do jornalista, evitando incertezas após a efetivação da escolha. Os critérios de seleção, para tal, devem ser rapidamente aplicáveis e sem demasiada reflexão. Por outro lado, precisam ser flexíveis para ser possível adaptá-los a variedade de acontecimentos disponíveis. Também devem garantir a eficiência da produção de notícias, com mínimo dispêndio de tempo, esforço e dinheiro. Para evitar o caos da atividade, esses diversos fatores, alguns até opostos, devem convergir para um ponto de equilíbrio.
Wolf mostra que os valores/notícias derivam de considerações relativas ao conteúdo, aos critérios relativos ao produto informativo, ao público e à concorrência. Aqui, somente nos interessa a primeira consideração (critérios substantivos) que está associada à importância e ao interesse da notícia. Nesse aspecto, existem quatro variáveis:
1. grau e nível hierárquico do indivíduo envolvido no acontecimento noticiável;
2. impacto sobre a noção ou interesse nacional;
3. quantidade de pessoas que o acontecimento de fato ou potencialmente envolve
4. relevância e significatividade do acontecimento quanto à evolução futura de uma determinada situação.
Tomando como base essas variáveis, é possível encaixar grande parte das notícias relativas à política em uma ou várias dessas categorias. Midiatizá-las, então, seria apenas seguir tais critérios de noticiabilidade.
Para Rubim (2002), a maioria dos aspectos políticos, mesmo quando noticiáveis, não estão pré-destinados a espetacularização. A atividade política realmente se influencia com o funcionamento dos meios de comunicação, mas está muito longe de se tornar refém destes.
“A política midiatizada
significaria tão somente a política que transita na contemporânea dimensão
pública de sociabilidade, buscando adequar-se a este espaço e as linguagens
próprias da mídia, sem com isso importar uma tal lógica produtiva que impeça a
política de se realizar e buscar suas pretensões. Mas tal concepção também não
pode se assentar sobre uma visão instrumental da mídia, transformada em suporte
indolor de política, conformada na modernidade. A adequação ao novo ambiente,
não resta dúvida, implica em mudanças relevantes da dinâmica política”. (RUBIM,
2002. P. 15).
Constatada essa relação entre mídia e política, levando em consideração o fato de a mídia ser o palco principal onde os atores políticos se apresentam para o público, conclui-se que a maioria das representações que este cria da atividade política tem origem nos meios de comunicação. Em seu estudo sobre Cenário de Representação Política, Venício Lima estuda justamente as condições que levam à criação de tais representações.
Para elaborar seu conceito, Lima usa como base três conceitos para ele essenciais: imaginário social, cultura política e hegemonia. O conceito de imaginário social é de Baczko e, segundo este autor, “os imaginários sociais constituem [...] pontos de referência no vasto sistema simbólico” (BACZKO citado por LIMA, 2001. P. 179) de uma coletividade. Seriam as representações próprias dos grupos sociais de uma coletividade que, juntas, formam o sistema simbólico desta. Já a cultura política é um conceito de Almond e trata das representações e elementos simbólicos relativos à política em uma determinada sociedade; a forma como a política é feita e pensada para determinada sociedade. O conceito de hegemonia usado por Lima é o de Gramsci, retrabalhado por outro autor, Williams, e que seria um processo não de dominação, mas de disputa e construção contínuas para chegar ao poder.
Com base nestas explicações, Lima constrói seu conceito de CR-P como um espaço em que as representações políticas ocorrem, construído na e pela mídia e onde a hegemonia faz suas disputas e pelo qual disputa a hegemonia. Assim como Rubim, Lima ressalta a importância adquirida pela mídia, afirmando que, diante da contemporânea conjuntura social, não é surpresa que “(...) a mídia tenha também se transformado em palco e objeto privilegiado das disputas pelo poder político (...)”. (LIMA, 2001. P. 176). O seu papel é essencial, pois ao construir representações da realidade também a mídia constrói a própria realidade quando tais representações são por esta incorporadas. Por esse motivo, para Lima a centralidade da mídia é constitutiva do CR-P, pois ela assume funções de ator político, transformando o próprio processo político. Também o exercício da hegemonia constitui o CR-P, pois são as contínuas disputas pela hegemonia, as contra-hegemonias e as hegemonias alternativas que vão dar forma e deslocar os CR-Ps existentes. Por último, outro fator que constitui o CR-P é a TV como meio dominante. Isto porque a TV trouxe algumas conseqüências que aumentam a relevância dos CR-Ps na disputa política. São elas: quebra da necessidade da conexão entre presença física e experiência (a TV é que constrói o real); quebra da impessoalidade e distância entre fatos e pessoas, que havia em outros meios; confusão entre realidade e ficção e a TV como construtora da cultura mítica da atualidade.
Após esta descrição, Lima lança duas hipóteses para o seu conceito. A primeira é que, em épocas não eleitorais, o CR-P dominante delimita o grau de discussão de assuntos políticos variados, se impondo e controlando oposições e alternativas. Já a segunda é a de que, em eleições, o candidato deve estar em acordo com o CR-P dominante, e se isso não acontece, deve haver uma disputa para que seu contra-CR-P ou CR-P alternativo se torne dominante. Só assim ganhará as eleições.
Duas das ferramentas que são utilizadas na identificação de um CR-P, e que interessam os estudiosos da área de jornalismo, são o agenda-setting e o framing. Isso porque tais conceitos se referem diretamente aos assuntos que são tratados pela mídia e como eles são tratados. Tais posições da mídia irão reforçar ou tentarão modificar as representações políticas apresentadas em um determinado cenário de representação política.
De acordo com a pesquisa feita por Colling, o conceito de agenda-setting foi criado por Maxwell McCombs e Donald Shaw, inspirado nos estudos de Walter Lippman. Segundo tal conceito, a mídia agendaria os assuntos discutidos pela opinião pública; a mídia diria ao público o que se “deve” pensar e discutir em determinado período. Já alguns autores como Nelson Traquina, segundo Colling, defendem que tal conceito estaria ligado a tese de que a mídia exerce efeitos poderosos na opinião pública, influenciando as suas decisões. Já outros autores, inclusive McCombs, dizem que na verdade tal conceito vem reafirmar a teoria dos efeitos limitados, pois o agendamento da mídia nem sempre coincide com as preocupações da opinião pública. Existem pesquisas comprovando as duas hipóteses. Colling se inclina para a segunda hipótese, alegando que as pesquisas precisam ser amplificadas e que a mídia, às vezes, apenas reflete aquilo com o que a opinião pública está preocupada.
O conceito de agenda-setting está bastante ligado ao conceito de esfera de visibilidade pública dado por Gomes e acima explicado. Mais uma vez é destacado a importância de um assunto estar visível e aparecer na mídia para que o público possa levá-lo ao debate. Porém, é preciso lembrar que nem todo assunto que está na esfera de visibilidade será convertido em matéria de debate para o público.
Com o desenvolvimento dos estudos sobre a agenda-setting e os efeitos no público surge um outro conceito: framing (enquadramento). Enquanto o agenda-setting diz que assuntos devem ser pensados, o framing mostra como um assunto agendado deve ser pensado. O enquadramento direciona o assunto, destacando ou menosprezando aspectos de tais temas.
Como procedimentos para a identificação do frame de uma mensagem, Colling cita em seu texto os passos indicados pelo autor Robert Entman: identifica-se a definição do problema (econômico, social, etc); verifica-se se há personalização do problema; identifica-se as causas, os autores, os solucionadores e as soluções do problema. Após tais passos, é possível identificar a avaliação moral do problema.
Um outro aspecto que pode ajudar na identificação do enquadramento dado a um assunto pelo meio, se este for impresso, é analisar também as fotos que fazem parte da matéria. O princípio a ser seguido aqui é o mesmo utilizado por Barthes em seu texto “A mensagem fotográfica”: a fotografia, num meio impresso, é uma mensagem. Segundo ele, a fotografia é dotada de uma autonomia estrutural, o que leva a sua análise a ser baseada em um método específico para a fotografia. Mas ele também acrescenta que a análise, para ser completa, deve levar em consideração a relação existente entre a foto e o texto que a acompanha.
A hipótese do autor é que a fotografia apresenta duas facetas: uma mensagem denotada e uma mensagem conotada. A mensagem denotada é aquela já conhecida do senso comum, em que a fotografia seria a analogia de uma cena real. A fotografia não transforma o real, ele está reduzido em proporção, perspectiva e cor, mas não deixou de ser o real. Porém, a fotografia não pode estar restrita apenas a este conceito. Também ela possui uma mensagem conotada. Para Barthes, o fato mesmo de ela ser “um objeto trabalhado, escolhido, composto, construído, tratado segundo normas profissionais, estéticas ou ideológicas” já garantiriam uma mensagem segunda, pois tais processos são fatores de conotação. Barthes acrescenta também o fato de que a fotografia não é só percebida, ela é lida e associada a signos pelo público. Como todo signo precisa de um código e o código é uma conotação, seria necessário estabelecer que código é esse. Essas duas mensagens contidas numa foto de imprensa constituem o que o autor chama de “paradoxo fotográfico”, em que “uma mensagem conotada (ou codificada) se desenvolve aqui a partir de uma mensagem sem código”.
Assim, Barthes levanta alguns processos de conotação presentes nas fotografias.
1. Trucagem: montagem artificial de uma cena, feita depois da foto tirada
2. Pose: movimentos feitos pela pessoa que está sendo fotografada, o que pode remeter a alguns estereótipos, constituindo efeitos de significação
3. Objetos: detalhes que constituem a cena e que podem produzir algum sentido
4. Fotogenia: uso de técnicas de iluminação, impressão e tiragem que visam o embelezamento da imagem
5. Esteticismo: tentativa de aproximar a fotografia à pintura
6. Sintaxe: seqüência de fotos cuja construção de sentido está no próprio encadeamento
Outro processo de conotação da fotografia é o texto. Este aspecto é destacado por Barthes. Ele faz três observações sobre a relação texto imagem. A primeira é que o texto seria uma mensagem “parasita” da foto; ele viria para conotar a imagem. Antes, a fotografia era usada para ilustrar um texto, tornando-o mais leve; hoje, é o texto que conota a imagem, amplificando-a e tornando-a mais pesada de conteúdo. A segunda observação feita por Barthes é em relação a proximidade entre texto e imagem. Para ele, quanto mais próximo o texto da foto, menos aquele conota a imagem. Nesse sentido, as manchetes e títulos de matérias trariam mais sentido e conteúdos externos a uma fotografia do que a legenda colocada logo abaixo desta. Por último, o autor aponta a impossibilidade de tradução perfeita da fotografia através de palavras. Na transição entre estruturas seria inevitável, segundo ele, a elaboração de significados segundos. O texto pode amplificar, inventar ou mesmo contradizer conotações relacionadas à imagem.
Diante disso, o código que rege as conotações ligadas à fotografia é histórico e cultural, pois os signos a ele relacionados (gestos, atitudes, expressões, cores, etc) são interpretados de acordo com a sociedade e a época em que ela habita . “A leitura da fotografia é portanto sempre histórica”. As boas fotografias, segundo Barthes, são aquelas que mais contém informações que localizem a percepção do leitor e a identificação da cena. Ela trabalha com o saber do leitor para uma boa leitura. Uma outra conotação é aquela que trabalha introduzindo razões ou valores a cena. Utiliza, assim, signos que remetem a significados ideológicos (e políticos). Mostrando essa variação de como a foto pode ser conotada, Barthes quer provar que não há uma guia de interpretação de uma imagem. Ela tem vários níveis, que podem ser percebidos das mais diversas ordens e graus de importância. A percepção de uma fotografia ainda é algo bastante subjetivo e com poucos métodos instrumentalizados.
Retomando um pouco o estudo de Entman sobre o enquadramento, o autor fala que a hipótese geral do framing é de que se existe um frame dominante na mensagem narrada, e a maioria do público irá entender a mensagem de acordo com tal enquadramento dado. Porém, como afirmou Gomes sobre as diferentes edições que o público faz sobre os assuntos que vêem na cena pública, não se pode ser ingênuo em acreditar que um enquadramento dominante na mídia seja completamente apreendido pelo público. Novamente, a bagagem trazida pelos indivíduos e seus interesses particulares irão interferir em sua percepção.
Existem variáveis no estudo do framing. O estudo de Entman, que foi explicado por Colling, trata do enquadramento feito pelos meios de comunicação. Colling também cita a visão de outros autores que se dedicam ao estudo do enquadramento feito pela audiência, a edição por ela feita, como explicado logo acima.
Mesmo com tantas análises e estudos, nem sempre é possível afirmar que os frames são puramente intencionais. Não se ignora a existência de interesses pessoais por trás de algumas mensagens, mas é preciso levar em conta as rotinas produtivas e a agilidade exigida na mídia. Além disso, o repórter pode estar influenciado por um CR-P, e não se dá conta de que sua matéria reflete e reforça tais representações. Desta forma, o enquadramento é um processo inconsciente por parte do repórter.
Mesmo que não haja a intencionalidade, a limitação de um framing deixa o público carente de informações e, por conseqüência, o seu debate sobre tal assunto fica empobrecido. A construção de uma esfera de debate público fica comprometida, pois as opiniões sobre o assunto não têm informações suficientes para se sustentar. E mesmo o CR-P ligado a tal assunto poderá conter representações que não correspondem à verdade dos fatos.
As capas
Da mesma forma que no jornal impresso, a primeira página traz aquilo que o meio considera mais importante, as revistas também colocam suas principais notícias na sua capa. Esses destaques são os acontecimentos considerados de maior relevância no período de sua veiculação. Por esse motivo, escolhemos como objeto de análise as reportagens de capa da revista ISTOÉ de 07 de agosto a 9 de outubro de 2002. Esse período é referente ao processo de campanha eleitoral do primeiro turno do ano em questão. Nossa análise somente cobre até antes do resultado da eleição presidencial. A última revista, apesar de apresentar a data de publicação três dias após a votação (6 de outubro), na verdade foi editada antes do resultado da eleição.
Há fatos dentro de uma sociedade democrática que são noticiáveis por sua própria essência/estrutura, como é o caso das eleições presidenciais. Esse evento político se encaixa perfeitamente nas variáveis de noticiabilidade que foram apresentadas na página 6 – grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento (candidatos ao cargo executivo máximo do país, a presidência), impacto sobre a nação ou interesse nacional (quais as propostas desses candidatos para o país quando eleitos), quantidade de pessoas que o acontecimento de fato ou potencialmente envolve (toda a população do país), relevância e significatividade do acontecimento quanto à evolução futura de uma determinada situação (que rumos tomará o país diante da eleição de cada candidato). Diante disso, o primeiro passo será comparar a eleição de 1998 com a de 2002, através do número de capas da revista ISTOÉ dedicadas ao evento, no mesmo período. Isso para melhor avaliar o grau de importância que o tema adquire no atual processo eleitoral. A nossa observação será quantitativa, verificando o número de vezes que o assunto ganha destaque na capa.
Tabela 1
|
RELAÇÃO DAS REVISTAS DO PERÍODO DA CAMPANHA
ELEITORAL |
|||
|
1998 |
2002 |
||
|
Data: |
Matéria de Capa: |
Data: |
Matéria de Capa: |
|
05 de agosto |
A procura do pai |
07 de agosto |
E Ciro passa Lula |
|
12 de agosto |
Emagreça sem sofrer |
14 de agosto |
Lula não assusta mais |
|
19 de agosto |
O sonho da fama |
21 de agosto |
O amigo americano |
|
26 de agosto |
E você, aceitaria? |
28 de agosto |
O plano B de FHC |
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02 de setembro |
FHC contra a crise |
04 de setembro |
A reação de Serra |
|
09 de setembro |
Meditação: como usar essa técnica milenar |
11 de setembro |
O franco-atirador (exclusivo Anthiny Garotinho) |
|
16 de setembro |
Eles querem acabar com a Globo |
18 de setembro |
“Serra é um projeto de ditador” (exclusivo Ciro
Gomes) |
|
23 de setembro |
“Por favor, eu quero me tratar” |
25 de setembro |
“Vamos ver se o Lulinha paz e amor é de verdade ou
não” (exclusivo José Serra) |
|
30 de setembro |
Ervas milagrosas |
02 de outubro |
“Não vamos aceitar que se faça terrorismo econômico”
(exclusivo Lula) |
|
|
|
09 de outubro |
E agora é Lula? |
Foram analisadas as capas de 5 de agosto a 30 de setembro, o que corresponde a 9 revistas publicadas. Em 98, a votação ocorreu no dia 4 de outubro. Na tabela 1, estão dispostos os títulos dos destaques que aparecem na capa tanto de 98 quanto de 2002. Foi constatado que enquanto no período de 98 apenas uma capa foi dedicada à eleição (2 de setembro), em 2002 somente uma não foi dedicada a eleição (21 de agosto). Este resultado vem confirmar outros estudos realizados sobre as eleições de 1998, como o de Leandro Colling, que conclui que a cobertura feita pelo Jornal Nacional não correspondeu a importância do evento.
O autor cogita a hipótese do silenciamento dos meios de comunicação. Para Colling, os veículos atuam por meio de escolhas, omissões, publicização e ênfases: “o material selecionado é aquilo que os meios de comunicação publicam e o que não é publicado pode ser considerado como uma omissão intencional ou não”. No texto, o termo omissão é utilizado como sinônimo de silêncio. Não é possível, no entanto, afirmar que houve uma falta de cobertura da ISTOÉ, já que existiram notícias sobre o processo eleitoral no interior da revista, mesmo não sendo a matéria de destaque. O tema não deixou de ser agendado. Algumas matérias foram noticiadas através de uma chamada no topo da capa, sem foto ou imagem acompanhando, ou através de uma orelha. Tal atitude pode ser interpretada como uma forma de mostrar que, apesar de não dar o destaque devido, o veículo não deixou de cobrir a eleição.
Já em 2002, a cobertura foi ampla e destacada: de 9 edições, 8 tiveram como capa a campanha eleitoral para presidente. Um dos fatores que pode ter influenciado na cobertura dos meios são as pesquisas de intenção de voto.
Em 1998, as PIV se mostravam estáveis, como se a disputa eleitoral já estivesse determinada, com pouca variação dos índices. Pelo fato de o candidato à reeleição ser o líder das pesquisas, e por conseqüência a sua vitória nada traria de novidade nas ações do governo, os meios não tenham visto o processo eleitoral como algo de novo a ser noticiado.
Tabela 2
|
PRESIDENTE
|
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
TOTAL |
PROG- |
|
Intenção
de voto nominal/válido |
Ago-98 |
Ago-98 |
Ago-98 |
Ago-98 |
Set-98 |
Set-98 |
Set-98 |
Set-98 |
Out-98 |
|
Fernando
Henrique |
55% |
60% |
60% |
55% |
57% |
61% |
58% |
57% |
57% |
|
Lula |
31% |
28% |
28% |
31% |
29% |
27% |
30% |
29% |
28% |
|
Ciro
Gomes |
7% |
6% |
7% |
8% |
8% |
8% |
8% |
10% |
11% |
|
Enéas |
5% |
4% |
4% |
4% |
4% |
3% |
3% |
3% |
2% |
|
Outros |
2% |
2% |
2% |
2% |
2% |
1% |
2% |
11% |
2% |
|
Brancos/Nulos/Indecisos |
* |
* |
* |
* |
* |
* |
* |
* |
* |
(*): não foi citado.
Já nas eleições de 2002, os índices estavam mais instáveis. Mesmo com o candidato do PT sempre aparecendo à frente da campanha, a sua liderança chegou a ser ameaçada, e a vitória no primeiro turno nunca apareceu como algo certo para acontecer. A disputa entre o adversário de Lula para o segundo turno foi bastante disputada. Diferente do que aconteceu em 98, onde as posições dos candidatos, apesar de pequenas variações nos índices, nunca sofreram alteração.
Gráfico

A importância da disputa numa eleição já foi notada pelo autor Fernando Azevedo, ao estudar as eleições municipais de São Paulo, em 2000. Ele também chega a conclusão que as pesquisas de opinião podem servir como um critério de noticiabilidade (horse race) e orientar a forma como cada candidato será tratado pelo meio. Para Azevedo, “a posição do candidato nas pesquisas de intenção de voto é um critério de noticiabilidade mais importante do que a posição partidária ou vinculação com o governo”.
Na cobertura da ISTOÉ, as pesquisas de intenção de votos muitas vezes serviram de gancho para as matérias. Os textos sempre começavam falando dos pontos que sofreram alterações nas pesquisas, na mudança ou manutenção dos índices dos candidatos. Algumas capas trouxeram como destaque o resultado de pesquisas, como as edições de 7 de agosto (“E Ciro passa Lula”), 4 de setembro (“A reação de Serra”) e 9 de outubro (“E agora é Lula?”). A ISTOÉ divulgou pesquisas de vários institutos, como IBOPE, Vox Populi, CNT/Sensus, além de ter o próprio veículo encomendado algumas pesquisas, ISTOÉ/Toledo & Associados.
Na matéria de capa de 7 de agosto, a revista descreve o resultado das pesquisas, e começa a falar da campanha presidencial partindo do candidato Ciro Gomes, que apresentou aumento de 22 pontos na pesquisa. Nesta mesma edição, ainda no conjunto de matérias de capa, uma delas foi dedicada exclusivamente à elaboração do programa de governo de Ciro. Na edição de 4 de setembro, a ISTOÉ divulgou nova pesquisa em que Serra apresenta um aumento no seu índice de votos em 5 pontos, enquanto Ciro Gomes teve decréscimo de 5 pontos. A matéria, que fala das ações de todos os candidatos, começa seu texto descrevendo como o candidato José Serra conseguiu tal aumento e a repercussão desse fato na campanha. Só depois fala dos demais. Em 9 de outubro, a revista divulga as últimas pesquisas feitas antes da votação (6 de outubro) e a chance do candidato do PT, Lula, ganhar a eleição ainda no primeiro turno. Nas outras edições em que as pesquisas não basearam as chamadas de capa, os índices estiveram presentes no corpo da matéria, descritos como base para as estratégias de cada candidato – base para os ataques de Serra a Ciro (baixo índice de Serra, edições de agosto), mudança de estratégia de Ciro Gomes (queda de seu índice, nas edições de setembro), manutenção da estratégia de Lula (estabilidade dos índices em todas as pesquisas, assunto presente em todas as edições).
É preciso destacar porém que, em associação às pesquisas, outros fatores podem ser considerados no noticiamento de um fato na campanha eleitoral, como um escândalo que envolva um dos candidatos, uma renúncia, etc. Tais acontecimentos fora da rotina de uma campanha podem fazer com que candidatos que não estejam tão bem colocados nas pesquisas tenham mais destaque do que aqueles preferidos dos eleitores. Esses fatores, no entanto, não foram encontrados durante o período de análise, e não era também objetivo desse trabalho aprofundá-los, caso fossem encontrados.
A primeira reportagem de capa analisada é a de 7 de agosto, com a manchete Ciro Atropela. A matéria faz referência ao crescimento de Ciro nas pesquisas de intenção de voto, especificadamente ISTOÉ/Toledo & Associados. O candidato da Frente Trabalhista, com 34,3% das intenções de voto, emparelha com Lula, que figura em 33, 6%. Um dos motivos atribuídos à perda de força de Lula foi à denúncia do esquema de propina em Santo André, cidade governada pelo PT. Associados a matéria citada, estão matérias menores que abordam, nesta ordem, os tipos de aliados e alianças feitos pela Frente Trabalhista (destaque para o papel de Antonio Carlos Magalhães – PFL); tentativa do auxiliar do vice de Ciro Gomes, Marcos Cará, em subornar Vargner Cinchetto (denunciou falcatruas da Força Sindical); Lula dialoga com o empresariado e as implicações da morte do prefeito Celso Daniel. Os demais candidatos, na maior parte das vezes, são citados com o intuito de comparação a Ciro Gomes. As páginas referentes a reportagem de capa são da 26 a 41.
Capitalismo de Resultado é a manchete da segunda reportagem analisada (14 de agosto), que vai da página 24 a 31. O principal assunto tratado é a maior flexibilização do Partido dos Trabalhadores à classe empresarial. São destacadas as mudanças no programa de governo de Lula em relação ao capitalismo e as reuniões com o empresariado. Há também uma entrevista com o assessor econômico de Lula, Guido Mantega, na qual são abordados temas como imagem de Lula no exterior, as propostas do PT e a situação financeira do país.
Já a revista de 21 de agosto, foge à regra. Traz como principal reportagem Carta Marcada (página 68 a 79), a única, das dez revistas trabalhadas, que não está diretamente relacionada coma temática Eleições 2002. A matéria fala sobre a licitação de caças da Força Aérea Brasileira e o favorecimento que FHC está dando a compra do caça anglo-sueco JAS-39, devido ao acordo com o FMI. Também é feita referencia ao crescente enfraquecimento da superpotência EUA e a campanha de George W. Bush de união contra Saddam Hussein.
A última revista do mês de agosto (28 de agosto) apresenta Saída pela esquerda como reportagem de capa. Nesta matéria, fala-se que a ameaça de um segundo turno entre Lula e Ciro Gomes, fez FHC se aproximar do petista. Outro assunto apresentado é o horário eleitoral gratuito, seus efeitos no eleitor e as expectativas dos marketeiros de Serra, Lula e Ciro (em menor parte). São citadas algumas situações em que os candidatos utilizaram estratégias que não ajudaram na campanha. Como, por exemplo, a derrota da Seleção Brasileira no Ceará, atrapalhando os planos da CBF em apoiar e homenagear Ciro. Numa segunda parte da reportagem, é abordado o apoio do ex-presidente José Sarney a Lula. Essa atitude fez o candidato José Serra ficar praticamente sem palanque no Maranhão. O candidato Ciro Gomes também teve problemas no estado, pois estava apoiando a candidatura de Jacson Lago, ex-prefeito de São Luís, acusado de falcatrua na Coliseu (Companhia de Limpeza e Serviços Urbanos). A reportagem corresponde às páginas 26 a 41, mas desconsiderando as páginas 35 a 37 dedicadas a propagandas.
Na revista de 4 de setembro, a reportagem de capa (página 24 a 30) tem como manchete Sinais de Vida. Baseada nas pesquisas de intenção de voto, a matéria sinaliza o crescimento do candidato Serra (média de 5 pontos) e a queda de Ciro. Dois dos fatores atribuídos a essa mudança é o programa eleitoral gratuito, no qual Serra ataca diretamente o candidato da Frente trabalhista, e a posição crítica deste: “se responde (as acusações) parece destemperado. Se não revida, consente e parece covarde” (ISTOÉ, 4 de setembro,p.28). Nesta matéria em especial, os quatro candidatos em destaque na campanha são citados. Garotinho e Lula aparecem relacionados a assuntos sobre apoio de José Sarney a candidatura do petista.
As próximas quatro edições foram dedicados a entrevista com os candidatos Garotinho (11 de setembro), Ciro (18 de setembro), Serra (25 de setembro) e Lula (02 de outubro). Coincidentemente, a ordem de entrevista dos candidatos foi igual a posição deles nas pesquisas de intenção de voto. Foram destinadas 15 páginas para cada, contendo uma entrevista com os jornalistas da ISTOÈ e um ensaio fotográfico. Guardando as diferenças no desenvolvimento das respostas de cada candidato (por exemplo, Serra relacionou a maioria dos assuntos a economia, enquanto que Lula procurou dar um tom emotivo), as entrevistas tiveram o direcionamento parecido. Temas como propostas de governo, situação financeira do país, alianças partidárias e financeiras, política externa, segurança e saúde estiveram presentes em todas as entrevistas. Já aborto, discriminalização da maconha, união civil entre homossexuais, previdência e Alca foram assuntos nas matérias de três dos candidatos em questão.
Na véspera das eleições, a revista de 9 de outubro trouxe uma série de matérias que compunham a reportagem de capa. O conjunto de matérias ocupa da página 40 a página 71. Na primeira matéria, é apresentada uma análise do mapa astral dos quatro candidatos que despontam nas pesquisas de intenção de voto. Fala-se da personalidade de cada um e sua atuação caso sejam eleitos – sempre associando ao processo de mudança cármica que o Brasil vem passando. Há uma parte dedicada as eleições para governador, dividida por estado. O destaque é dado a São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná com matérias que ocupam duas páginas da revista. Também é feito referência aos parlamentares, que desiludidos com a política ou já satisfeitos com a sua missão, não entraram na disputa eleitoral. Já o PRONA (Partido de Reedificação da Ordem Nacional) comemora a possibilidade de eleger o deputado federal mais votado do país: Enéas Carneiro. Outro tema tratado é sobre a votação eletrônica. São apresentados números relativos a quantidade de eleitores em cada estado, a distribuição do eleitorado por sexo e faixa etária e dados que apontam a eleição de 2002 como a maior do planeta. A tecnologia utilizada nessa eleição – 100% dos votos foram eletrônicos – já traz novidades para teste: voto impresso.
O material analisado mostrou que a cobertura da ISTOÉ foi bastante enfática. Nove reportagens de capa traziam como tema a eleição para presidente. Entretanto, foi possível perceber que o espaço reservado para os candidatos não foi equânime. Tanto o candidato Anthony Garotinho, quanto os nanicos José Maria (PSTU) e Rui Pimenta (PCO), não tiveram destaque nas reportagens. Serviram sempre como objeto de comparação ou relacionados a assuntos menores que ocupavam os parágrafos finais das matérias. É evidente que esta afirmação desconsidera a entrevista com o candidato Garotinho, já que o espaço estava dedicado com exclusividade a ele. Outra característica observada nas matérias foi a utilização da personalidade dos candidatos como critérios noticiáveis: “Foi a melhor apresentação de Lula até hoje. Ele foi franco,sereno, ouviu as ponderações, de todos com interesse e atenção. Demonstrou ser um homem de diálogo. (...) Eu daria nota 4 para Ciro e 8 para Lula. Ciro é pavio curto. Ele passou uma sensação de instabilidade e imprevisibilidade, o que é muito ruim” (pág 30 – ISTOÉ, 14 de agosto ).
O enquadramento dedicado a cada candidatura foi claramente diferenciado. Lula sempre apareceu como um candidato moderado, que buscava novas alianças para fortalecer suas propostas. Poucas vezes tais alianças foram questionadas, mesmo assim não diretamente pelo repórter, mas através da fala de alguém entrevistado. Serra foi mostrado como compenetrado e sempre como o candidato do governo. Seus ataques a Ciro e Lula também foram noticiados, sem um julgamento sobre suas palavras. Já Ciro Gomes teve um enquadramento mais negativo, pois as matérias dedicadas a ele sempre ressaltavam como algo prejudicial o seu temperamento forte e suas alianças mal estabelecidas (com ACM, por exemplo). Quanto a Garotinho, nas poucas vezes em que foi citado, o enquadramento se centrou nos problemas financeiros de sua candidatura, e sua dificuldade em fazer campanha nos diversos estados, pela falta de apoios políticos.
Através da utilização da tabela de temáticas de Venício Lima (anexo 2) foi feito uma análise quantitativa do conteúdo das matérias de capa da ISTOÉ, detectando-se a temática de maior predominância na reportagem. Também foram escolhidos, por ordem de classificação, assuntos trabalhados em menor proporção com o objetivo de não excluir enquadramentos relevantes.
A temática de maior predominância foi política: de 10 edições analisadas, 8 estavam diretamente relacionadas ao tema. A edição do dia 21 de agosto trouxe uma matéria enfocando um assunto que não fazia referência direta às eleições (política externa). Sendo assim, o empate das temáticas política e ciência não surpreendeu. Já a revista do dia 14 de agosto, apesar de fazer referência na capa às eleições 2002, apresentou um direcionamento para economia. Constatou-se, então, que o assunto apontado pela reportagem de capa não indica, necessariamente, o enquadramento dado ao conteúdo da matéria relacionada.
Tabela 3
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Ordenação das temáticas |
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Revistas: |
1a |
2a |
3a |
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07 de agosto |
PO |
CV |
EC |
|
14 de agosto |
EC |
PO |
IH |
|
21 de agosto |
PO/CC |
EC |
OU |
|
28 de agosto |
PO |
IH |
EC |
|
04 de setembro |
PO |
- |
- |
|
11 de setembro |
PO |
EC |
CV/OU |
|
18 de setembro |
PO |
EC |
OU |
|
25 de setembro |
PO |
EC |
SA |
|
02 de outubro |
PO |
EC |
CV/OU |
|
09 de outubro |
PO |
IH |
- |
Ensaio fotográfico
Como já foi dito antes, a ISTOÉ dedicou um caderno exclusivo com entrevistas e ensaio fotográfico dos principais candidatos à presidência. Em razão disso, e pela importância da imagem no enquadramento de um tema, será feita uma análise superficial das fotos que compõem os ensaios. Foram dedicadas 7 páginas com fotos e pequenos textos correspondentes para os quatro principais candidatos, em quatro edições distintas. Todas as imagens estão em preto e branco e a diagramação segue um mesmo padrão. O fotógrafo foi o mesmo para todos os candidatos: Ricardo Stuckert.
No ensaio de Anthony Garotinho foram priorizadas a rotina familiar e a conciliação desta com os compromissos de campanha. Em 9 fotografias, quatro estão relacionadas diretamente à campanha. Nas outras, Garotinho sempre aparece em sua casa e/ou acompanhado de algum familiar, como a mulher, os filhos e a cachorra Laila. As fotos transmitem um certo grau de espontaneidade e aparentemente não são posadas. Tal espontaneidade, no entanto, não deixa de transmitir uma mensagem ao leitor. As imagens reforçam o discurso eleitoral do candidato, que prega o respeito à família, com base em sua crença religiosa.
Já na edição do especial dedicada a Ciro Gomes, há 10 imagens, mas somente uma pode ser associada a compromisso de campanha. E essa identificação só é possível após a leitura do texto referente à cena. Um diferencial desse ensaio é a utilização de uma imagem sem a presença real do personagem. A foto apresenta apenas objetos, que são um bilhete, um recorte de jornal e uma foto pessoal do candidato, tocando saxofone. Esses objetos remetem a fatos desvinculados da rotina política de Ciro Gomes. Esse distanciamento é comprovado nas demais imagens do ensaio fotográfico. É significativa a presença de Patrícia Pillar, esposa de Ciro, nas fotos, o que reflete a constante aparição da atriz no processo eleitoral do candidato. Um fato curioso é a última foto desse ensaio, em que aparece um livro nas mãos do candidato, com o título em destaque – “Tempos muito estranhos”. Segundo Barthes, os detalhes de uma imagem podem produzir significados relacionados ao contexto externo à cena. Será que o fotógrafo, ao focar o título do livro, tinha o interesse de relacioná-lo ao processo de campanha do candidato? Esse questionamento é bastante subjetivo, e não pode ser comprovado nessa análise. Assim, a leitura irá depender da percepção e do conhecimento do leitor em relação aos componentes da cena.
A série de fotografias relacionadas ao candidato José Serra traz um diferencial: das nove fotos que o compõe, nenhuma está associada à rotina familiar do candidato. Serra não foi fotografado com parentes nem em sua residência. A foto mais pessoal do ensaio foi feita em um quarto de hotel, onde o candidato parece estar trabalhando. A imagem de abertura do especial faz uso do recurso da fotogenia: a iluminação e a impressão dão beleza a foto. Há um feixe de luz que parece sair dos olhos de Serra, remetendo à idéia de uma visão privilegiada. Uma das fotos parece ter sido armada, como uma cena representada – o candidato, atrás de uma claquete, olha diretamente para a câmera. Nenhum dos outros candidatos foi fotografado fazendo pose, pelo menos não de forma de forma explícita, olhando para o fotógrafo. O conjunto das imagens dá a impressão de que a única preocupação de Serra é seu trabalho na campanha eleitoral.
O último ensaio está relacionado ao candidato Luís Inácio Lula da Silva. São 11 fotos, com três relacionadas diretamente à sua campanha. Duas imagens significativas são a de abertura e a que ele faz careta para Michele, sua fox-terrier de 9 anos. Na primeira, Lula está sorrindo, com a cabeça apoiada em uma das mãos. De certa forma, essa cena, e o texto a ela vinculada (“Resolvi fazer uma campanha em que, em vez de falar mal dos outros, falo bem de mim, bem do PT, das coisas que fizemos pelo país”, declaração do próprio Lula), reforça o slogan que ele próprio adotou de “Lulinha paz e amor”. Já a segunda foto, é de alguma forma curiosa, pois Lula parece zangado com a sua cadela, mas o texto diz que ele está apenas brincando com Michele. Nas demais fotos, o candidato está ou em casa ou no seu escritório no comitê de campanha. Sua esposa Marisa e um de seus netos aparecem com ele em um evento durante o processo eleitoral.
As fotos dos candidatos parecem apenas reforçar a imagem que cada um deles construiu, ou tentou construir, de si próprio durante toda a campanha. Garotinho, ao estar muito próximo da família e também equilibrando seus compromissos políticos, transmite a impressão de um homem responsável e equilibrado. Um homem que sabe respeitar e dar atenção aos laços familiares sem nunca se descuidar do trabalho. Ciro Gomes passa uma imagem de tranqüilidade, por ele defendida no seu programa eleitoral. Ao contrário das acusações de desequilíbrio emocional e de atitudes cometidas por ele que demonstram seu “temperamento forte”, Ciro aparece nas fotos sempre sorrindo, ou com um semblante sereno, concentrado em alguma atividade. José Serra aparece em compromissos em todas as fotos. Parece querer mostrar que, durante a campanha, a sua dedicação exclusiva foi ao trabalho, sem ter tempo nem de estar perto da família. Tem a fisionomia séria em todas as imagens, dando uma impressão de concentração nas suas atividades. As fotos do candidato Lula são bastante variadas. Mostram facetas que não eram conhecidas, como um certo ar de brincalhão. Ele aparece dividido entre compromissos de campanha e a rotina familiar, parecendo equilibrar bem as duas atividades. O aspecto relaxado tirou a imagem sisuda de outras eleições, o que o candidato já vinha tentando apagar desde o início da campanha.
O que parece é que a revista tentou não interferir muito na imagem que os candidatos construíram de si mesmos. O objetivo seria, então, apenas retratar a rotina desses candidatos nessa campanha. Uma espécie de contra-balanceamento após as oito páginas de entrevista sobre os planos de governo de cada um deles.
Conclusão
O estreitamento da relação entre comunicação e política ficou bastante evidente na eleição 2002. Após a análise da eleição atual através da revista ISTOÉ em comparação à cobertura dada pelo mesmo meio em 1998, pode-se notar uma maior publicização do tema. Contradizendo alguns estudos sobre o silenciamento dos meios de comunicação na cobertura das eleições 98, a revista ISTOÉ não deixou de mostrar matérias relacionadas. Essa crescente exposição dos candidatos, como recurso importante no processo eleitoral, já foi citado por Rubim, no texto “Espetáculo, política e mídia”.
Em relação a pesquisas de intenção de voto, foi constatado que elas influenciaram diretamente na construção de matérias. Em alguns momentos, elas são o próprio fator desencadeante da matéria, como na edição de “E Ciro passa Lula”, com o destaque de capa: “Pela primeira vez, o candidato da Frente Trabalhista aparece em uma pesquisa com ligeira vantagem sobre o petista”. Outras situações trazem os índices como determinantes do encaminhamento da matéria ou motivo de certa seleção. Pode-se perceber isso pela escolha em tornar notícias determinados candidatos (Lula, José Serra e Ciro Gomes) em detrimento de outros (Rui Pimenta e Zé Maria).
Uma característica que ficou bem evidente nessa eleição foi utilizar a personalidade dos candidatos como fato a ser noticiado. Algo curioso relativo a esse ponto foi o destaque, na edição de 9 de outubro, a uma matéria que trazia o mapa-astral dos 4 presidenciáveis melhores colocados nas intenções de voto. Esse tom emotivo esteve presente no ensaio fotográfico analisado à medida que mostrou a rotina pessoal (descrição dos hábitos e manias) de cada um deles, deixando para segundo plano a atuação na campanha. As imagens do ensaio não agregaram novos valores às performances, e sim enfatizaram o discurso que já havia sido construído por cada um na campanha.
No período analisado, as matérias de capa priorizaram o tema político, em especial as eleições presidenciais. A cobertura, como já foi dito, foi mais enfática do que em 98. Entretanto, pelos próprios critérios de noticiabilidade, os espaços e os enquadramentos dedicados a cada candidato nas matérias foram bastante desiguais. É bom deixar claro que essa avaliação, por estar centrada nas reportagens de capa, não pode ser usada como julgamento da cobertura total da ISTOÉ na campanha eleitoral.
Anexo
1:
1998






05/08/1998 12/08/1998 19/08/1998 26/08/1998 02/09/1998



09/09/1998 16/09/1998 23/09/1998 30/09/1998
2002
07/08/2002 14/08/2002 21/08/2002 28/08/2002
04/09/2002 11/09/2002 18/09/2002 25/09/2002
02/10/2002 09/10/2002
Anexo
2:
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(PO) política: foram classificadas neste assunto todas as
notícias que tratassem explicitamente de: poder Executivo/ações do
Governo (em níveis municipal, estadual e federal), Poder Legislativo
(Congresso Nacional, Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores), Poder
Judiciário (em todos os níveis de atuação), corrupção na esfera pública,
(des)respeito às leis, eleições, campanha e pesquisas eleitorais, ações de
sindicatos, CUT, MST, greves, mobilizações de entidades civis e categorias
profissionais, ações dos partidos políticos (p.ex.: convenções partidárias),
caso Sérgio Naya (queda do edifício e processo de cassação do deputado na
Câmara), troca de ministros; declarações, viagens e/ou atos do presidente
Fernando Henrique e seus ministros; ações dos partidos de oposição ou
governistas na Câmara ou Senado e/ou nos Estados, como a votação da Reforma
Administrativa e da Reforma da Previdência, projeto de mudança do Código
Penal; saques promovidos no Nordeste etc. Exemplos de chamadas de abertura
deste tema: "Entra em vigor a lei que combate a lavagem de
dinheiro" (JN/03/03), "Aprovada no Congresso a Reforma Administrativa
que acaba com a estabilidade do servidor público"(JN/11/03). |
|
(EC)
economia: foram classificadas
notícias que tratassem explicitamente de: indicadores econômicos
(Bolsas de Valores, desemprego, cesta básica, inflação, etc.), déficit
público, dívida externa, política cambial, juros, inadimplência no comércio,
ações da equipe econômica do governo, pacotes econômicos, combate ao
desemprego, indústria automobilística etc. Exemplos de chamada de abertura
deste tema: "CEF decide apertar o cerco aos mutuários
inadimplentes" (JR/11/03), "Valor da cesta básica em São Paulo
praticamente empata com o salário mínimo" (JR/30/03). |
|
(CV)
crime/violência: notícias que
tratassem explicitamente de casos de violência como: assaltos (a
bancos, pessoas, empresas), assassinatos, tentativas de homicídio, tráfico e
consumo de drogas, contrabando (armas, produtos industrializados), exploração
sexual (de mulheres, infantil), prostituição, ações das Polícias (Federal,
Civil, Militar), entre outros. Exemplos de chamadas deste tema: "Dois
policiais militares foram assassinados na Rodovia Anchieta, em São
Paulo"(JR/30/04), "Assalto dentro da área do Palácio Guanabara -
RJ" (JN/30/04), "O caminho criminoso dos remédios falsos"
(JN/08/05). |
|
(FD)
‘fait divers’: tudo que tratasse de
fatos do cotidiano, como: enchentes, acidentes diversos, fatalidades,
curiosidades. Exemplos de chamadas incluídas neste tema: "Pessoas
honestas acabam na lista dos maus pagadores "(JN/08/05), "Incêndio
destrói um prédio histórico em Florianópolis"(JR/16/05), "Técnicos
de incêndio florestal da ONU chegam ao Brasil" (caso do incêndio em
Roraima - JR/30/03), "Bandeirantes da FAB cai num condomínio no Rio de
Janeiro"(JN/08/05). |
|
(IH)
interesse humano: foram
classificadas neste assunto as notícias que contassem uma história centrada
em uma pessoa, valorizando a dramaticidade da situação vivida. Diferencia-se
do assunto FD. Por exemplo: dentro do assunto ‘incêndio em Roraima’
(originalmente classificado como FD), uma matéria poderia dar saliência ao
bombeiro que ajudou a apagar o fogo: como ele é, o que fez, como vive etc,
dando um caráter humano à reportagem e buscando uma identificação com o
telespectador por meio da história pessoal do personagem da notícia.
Exemplos de chamadas classificadas neste tema: "Muita emoção na missa de
sétimo dia do cantor Leandro"(JN/08/05), "Georgete Vidor recupera
parte dos movimentos das pernas" (JR/30/03). |
|
(SA)
saúde: neste assunto estão as
notícias que tratam de epidemias, aparecimentos de doenças em certas regiões,
tratamentos em hospitais públicos e privados, curas do Câncer ou da Aids, com
exceção das matérias que tratavam de pesquisas científicas sobre alguma
doença ou remédio, que foram classificadas como Ciência. Exemplos de
chamadas: "Consumo de água contaminada provoca doenças no Nordeste"
(JR/16/05), "A ameaça do perigo do cólera"(JN/30/04). |
|
(CC)
ciência: Incluiu-se neste assunto
notícias sobre conquistas da ciência, experimentos, pesquisas e descobertas
científicas. As matérias relacionadas com este assunto privilegiam o que
acontece fora do Brasil, notadamente, nos Estados Unidos, e estão ligadas à
saúde e tecnologia. |
|
(CO)
comportamento: aqui aparecem
notícias sobre moda, comportamento adolescente e infantil, mudança e/ou
alteração no modo de vida das pessoas. |
|
(OU)
outros: foram classificadas nesta
categoria notícias que não se encaixavam em nenhum dos demais assuntos. |
AZEVEDO, Fernando. Imprensa e cobertura eleitoral (jornais paulistas e a eleição
municipal de 2000). Compós 2001.
BARTHES, Roland. A mensagem
fotográfica. In: LIMA,
Luiz Costa. Teoria da
cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra. 2000, p.321-338.
COLLING, Leandro. O silêncio no Jornal Nacional nas eleições presidenciais.
___________. Agenda-setting e framing: reafirmando os efeitos limitados.
GOMES, Wilson. Esfera pública política e media II. In: RUBIM, A., BENTZ, I.,
PINTO,M. J. (org). Práticas discursivas na cultura contemporânea. São
Leopoldo, RS, 1999, p. 203-231.
LIMA, Venício A. de. Cenário de representação da política (CR-P): um conceito e
duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política. In:
Mídia, teoria e
política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 175-212.
RUBIM, Antonio A. C. Zona de fronteira. In: Comunicação e política. São Paulo:
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_____________. Espetáculo, política e mídia. 37p. (Texto apresentado no XI Encontro
Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação,
realizado de 4 a 7 de junho de 2002).
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