Entrevistado: Victor Estrada


Victor Estrada

"...depois de 22 anos é que fui tomar o caminho da luz".

Em 15 de novembro, iniciamos no Peru, uma entrevista com Victor Estrada. Um Xamã que trabalha com a Erva de São Pedro e tem muitos conhecimentos. Habita em Cusco, porém trabalha em muitos locais que circundam o Peru.

Fonte: Jornal Xamã- ano 1- n.2 - março/95


Xamã - Victor, em qualquer trilha que se faça, existe sempre uma Tradição a seguir. No seu caso, qual a sua Tradição?

Victor - Inicialmente quero saudar a todos os irmãos de luz, em qualquer ponto de amor em que se encontrem. A Tradição que eu trago é de meus ancestrais. A natureza sempre me atraiu muito, me sentia muito identificado com ela e posteriormente na Universidade, segui o materialismo dialético, tudo que é material, pura matéria. Foi aos meus 22 anos, quando ia concluir a profissão como guia turístico e viajei para um lugar muito mágico chamado Padra Tuzán - Padra é o Universo mesmo, e se aplica à Mãe Terra. Tuzán, sustento do mundo, sustento da Mãe Terra. Foi um templo maior dos nossos antepassados antes dos Incas, e os Incas continuaram com os Rituais que faziam como oferenda de Amor e de Serviço ao Pai Criador. Senti que eu devia ir àquele lugar pela minha profissão, para ver como se realizavam os rituais folclóricos, assim eu os sentia, como folclore. Quando cheguei ali, de cara gostei muito, sofri muito no caminho, tive muitos problemas antes de chegar, passei uma noite terrível naquele lugar; senti então, vendo milhares de peregrinos que vão com uma fé imensa, que eu andava totalmente equivocado; chorei muito, me confundi com a fé daqueles seres e não fui eu mesmo quando retornei. Interessante é que não me recordo muito das coisas que se passaram nos dois ou três dias que estive lá.
Quando retornei a Cusco era outro. Eu havia resgatado a minha essência primeira, e foi aí que percebi que Amar seria através do Serviço do Amor e não pela luta de classe, pelas armas. Eu passei a visitar algumas pessoas que havia conhecido lá, que eram curandeiros e que naquele momento pensei que era uma casualidade tê-los encontrado e conversado com eles. Hoje, depois de 22 anos é que fui tomar o caminho da luz. Estou seguro que foram seres de luz, os irmãos maiores, que me puseram no caminho aqueles mestres que com mita paciência, com muito amor, me iniciaram no caminho dos conhecimentos das plantas, dos cristais, dos metais, das pedras; em outras palavras o conhecimento da alquimia de todos os elementos da natureza para harmonizar com o Universo Cósmico Humano.

Xamã - Como foi esse primeiro contato com esses mestres?


Victor -
O primeiro contato foi em Collorite, onde conheci três mestres de três zonas diferentes. Numa zona em Mara na província de Chucuyto, perto da Bolívia, eu conheci um mestre que vinha do Vale de Villcabamba. Em seguida conheci um mestre de Cusco da localidade de Piza, que continua dando-me muitos conhecimentos, e posteriormente depois de alguns anos, tomei contato com uma pessoa que trabalhava dentro de uma unidade secreta, os Interchuricunas, que significa os filhos do Sol, lá estão os conhecimentos da sabedoria ancestral. Tive duas oportunidades onde me mandaram chamar para comunicar-me algumas coisas e dar-me algumas tarefas.

Xamã - Sempre escutamos falar que as mulheres não fazem parte das confrarias. Desta confraria também as mulheres não fazem parte?


Victor -
Pelo contrário, essa confraria é uma Panaca. Pana é proveniente do nome irmã, então lá o mais importante é a mulher. Agora no início desta Era de Aquário, elas estão ocupando os cargos mais importantes e têm as responsabilidades maiores.

Xamã - Quando uma pessoa amplia a consciência e recebe o chamado dessa confraria, o que ela deve fazer?


Victor -
Aguardar. Nós vivemos normalmente nosso trabalho e não sabemos em que momento podem nos chamar ou enviar mensagens, não sabemos absolutamente nada; devemos é estar ligados profunda, íntima e espiritualmente aos nossos irmãos que trabalham nas dimensões superiores. Não devemos também nos desligar da matéria, porque muitas vezes através da matéria eles nos enviam mensagens.

Xamã - Como é a relação dessa confraria, dessa sociedade, desse conhecimento tão sagrado e secreto, com o Xamanismo? Que tem a ver uma coisa com a outra? Os Xamãs fazem parte da confraria ou são coisas diferentes?


Victor -
Nós entendemos o termo Xamã como uma pessoa que tem elevada a sua consciência, que tem certos conhecimentos, acesso e permissão prévia, provas para fazer certos rituais. Então entendemos esse nome, falando de forma universal como aqueles que têm maior conhecimento, que sobrepassa os cinco sentidos. Então se quisermos aplicar à confraria, eu diria que ela é composta pelos Xamãs.

Xamã - O que significa dizer que Cusco é o plexo solar do planeta?


Victor -
Plexo solar vem a ser o centro das emoções. Os Incas desenvolveram o plano geográfico (sempre de acordo com seus estudos astronômicos) para Cusco. Nesse plano, Cusco tem a forma de um Puma, um felino que simboliza poder: poder de lutar, poder de governar, poder de transcender a si mesmo, vencer a si mesmo, dentro de tudo aquilo que se chama limitaçào, liberando-se dos sofrimentos do passado. Então quando se consegue harmonizar as emoções - não quero dizer não ter sentimentos, pelo contrário, os sentimentos se elevam ao grau máximo, ao êxtase, em rir, em cantar, em chorar, porém não com sofrimento, senão de harmonia e felicidade - então se terá vencido o seu Puma; quer dizer, consegue-se dominar as emoções, e harmonizar o plexo solar.

Xamã - Sabendo que Machu Picchu é um lugar Sagrado, uma coisa que sempre fico a pensar: por que os espanhóis nunca chegaram a Machu Picchu? Como conseguiram gente para deter a entrada dos espanhóis?


Victor -
A princípio Machu Picchu era conhecida só por sacerdotes de alto nível, por sacerdotisas que cuidavam e cultuavam o Pai Sol, a Mãe Lua e outras entidades maiores - o povo comum não sabia da sua existência. Alguns sabiam de uma Cidade Sagrada onde se faziam investigações genéticas - vegetal e animal, observações astronômicas, de calendários e de toda a organização política, social e econômica, e não sabiam onde estava localizada e nem se perguntavam por que esta era a cidade mais sagrada. Assim como temos fé em Deus e não é necessário se perguntar "aonde está Deus", nós todos sabemos que existe Deus. Então vieram os espanhóis castigando,torturando e matando pessoas para saber onde era o local da Cidada Sagrada, pois quem não sabia teria que morrer. Assim é que em mais de 350 anos de dominação, os espanhóis jamais visitaram este lugar. Machu Picchu é destinada apenas a seres que alcançaram a alta evolução espiritual.


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