Raul - Nova Iorque. Encontrei John Lennon em Nova Iorque.
|
| Jô - E como foi tua barra em Nova Iorque? Como é que
era a vida lá? |
| Raul - Bem, eu estive com John Lennon quando ele estava
separado da Yoko Ono num apartamento que ele alugou. O apartamento era grande. eu fui com
um cara do Cruzeiro. O segurança dele botou o cara para fora. Eu já tinha
escrito cartas para ele falando da Sociedade Alternativa, e foi por este motivo que eu fui
posto para fora do país. Queriam saber quem eram os donos da Sociedade quando era apenas
uma música (risadas).Fiquei três dias na casa de Lennon, conversamos sobre os
donos do planeta Terra. As pessoas que fizeram a cabeça do Planeta Terra. Jesus Cristo,
pessoas ilustres (risadas). |
|
| Jô - Pessoas altamente ilustres, né? |
| Raul - Pessoas ilustres... E ele me perguntou quem é que
tinha no Brasil de grande figura. Nós conversamos sobre Calígula, sobre todas essas
pessoas incríveis e, quando ele perguntou do Brasil eu não tinha ninguém para dizer!
Aí disse Café Filho. Aquelas coisas quando a gente fica nervoso não sabe o que dizer
(risadas)... |
|
| Jô - Imagine o John Lennon ouvindo isto... Coofee
Filho??? (risadas) |
| Raul - É, eu disse não é nada, não. |
|
| Jô - Raul, em Nova Iorque a barra chegou a pesar? O
negócio do lixo. Como é que era esse negócio do lixo que você estava contando aqui? |
| Raul - Ah! do lixo... Três horas da manhã eu me vi numa
viela perdido em Nova Iorque e tinha um palhaço comendo lixo... |
|
| Jô - Um palhaço!!!? |
| Raul - É um palhaço muito bonito, bem vestido, comendo
lixo. E ele me convidou assim(faz um gesto cordial) para ir comer o lixo com ele. E eu
comi o lixo com ele...(risadas) Não... mas o lixo de Nova Iorque é gostoso! |
|
Jô - É um lixo comível?
| Raul - É um lixo comível.(risadas) |
|
| Jô - Você lembra o que é que tinha no lixo ou não? |
| Raul - Catchup. (risadas) |
|
| Jô - Muito catchup! Agora, catchup no lixo não vira
um pouco comida de vampiro, não Raul? |
| Raul - Naquela época eu tinha que ser vampiro mesmo
(risadas) |
|
| Jô - O que pintasse? |
| Raul - É, o que pintasse tava dando. Eu estava
vivendo...sobrevivendo em New York. |
|
| Jô - Eu me lembro de você fazendo um show que eu fui
assistir no teatro Teresa Raquel. Era um show extraordinário. |
| Raul - Em 73, né? |
|
| Jô - Foi...72...73. Eu sei que tinha um lado muito
moleque, muito irreverente. E você na época dizia coisas no palco sobre o disfarce do
roqueiro que as outras pessoas não podiam dizer fora da música, né? |
Raul - Sim...
|
| Jô - Aliás, neste dia estava comigo meu amigo Paulo
Pontes e ele me disse: "Esse rapaz diz uma porção de coisas que se a gente quiser
escrever numa peça de teatro na hora é proibido." |
| Raul - Eu sempre tive problema com a censura. Até hoje eu
tenho 11 músicas censuradas, eles olham minha obra de cima para baixo. Sacodem para ver
se sai alguma coisa. |
|
| Jô - Mas até hoje isso continua? |
| Raul - Até hoje. É uma coisa terrível! |
|
| Jô - E o rock. O rock está vivo no Brasil? Como está
a situação do rock, Raul? |
| Raul - Para mim o rock'n'roll morreu em 59. Hoje em dia o
que existe é um reflexo de nossa época, da nossa cultura. |
|
| Jô - E como é que você chama a música que você faz
hoje? |
| Raul - Raulseixismo (risadas). |
|
| Jô - E o Marcelo? O Marcelo Nova está fazendo o que
Marcelonovismo ou Raulseixismo? |
| Marcelo Nova - É, acho que a gente tem umas coisas de
identificação que já vem desde essa época que eu comecei a falar. Quer dizer, naquela
época eu ouvia Beatles, Rolling Stones, vinha tudo de outro continente, né? Aí eu
descobri que existia um tal de Raulzito e uma banda Os Panteras. Eu vou lá ver, e aí me
apareceu esta figura (aponta para Raul) vestida de couro e de topete. Eu olhei e disse: um
dia quero ter uma Banda. Foi esse o primeiro contato ao vivo. |
|
Jô - Você queria ter o que? A banda ou o topete?
| Marcelo Nova - Os dois bicho...os dois. Tinha aquele
negócio da cuspida do chiclete que era esteticamente importante. Naquela época era muito
importante você usar a gola da camisa para cima e cuspir o chiclete. |
|
| Jô - Mas por que importante? |
| Marcelo Nova - Porque o pai da gente não fazia isso. o pai
da gente tinha a gola assim (abaixa a gola) e não mascava. O mascar era um negócio muito
complicado. Podia ser muito arriscado inclusive. |
|
| Jô - Marcelo, agora que você falou este negócio de
cuspir, eu olhei de repente para você e vi o Bob Cuspe, aquele personagem do Angeli. |
| Marcelo Nova - Rapaz, sabe que quando eu comecei, durante
um certo tempo no Camisa de Vênus, muita gente fazia esta comparação. |
|
| Jô - Raul como é que aconteceu, você em Serra Pelada
dando autográfo? |
| Raul - Ah rapaz! Na hora do show me deu uma dor de barriga
desgraçada (risadas). Eu estava em Serra Pelada na casa de prostitutas, né? que
serve para alimentar a população de garimpeiros dali. Eu fui chamado para lá mesmo. |
| Me levaram para um buraco para fazer minhas necessidades
num buraco. Eu estava defecando e as pessoas me pedindo autográfos com um isqueiro aceso
para eu enxergar o buraco (risadas). |
|
| Jô - Que situação hein, Raul?!! Agora sobre o novo
disco. Vai ter a foto dos dois na capa, né? |
| Raul - Vai ter nós dois. |
|
Jô - E vai chamar A Panela do Diabo, e os dois
demoninhos cozinhando naquela panela.
| Marcelo Nova - É. Nós fomos tocar no interior
de São Paulo, e o disco estava em andamento e não tinha nome ainda. Aí estavamos dentro
do camarim esperando para subir no palco, veio uma pessoa com uns panfletos que estavam
sendo distribuídos na entrada alertando os jovens do perigo de assistir um show de Raul
Seixas e Marcelo Nova porque nós éramos a encarnação do demônio. E fazia uma analogia
com textos do Raul - Eu nasci há 10 mil anos atrás. |
| Raul - Que eu vi Cristo ser crucificado. Eu era
o diabo que estava ali no meio. |
| Marcelo Nova - Pois é, e eu olhei para o Raul
e disse: bicho, taí o nome do disco. Agora, mais do que nunca vai se chamar A Panela do
Diabo. São eles que querem. |
|
| Jô - E vocês podem mostrar para a
gente alguma coisa do disco novo? |
| Marcelo Nova - É claro. Está aqui a
Banda Envergadura Moral que já acompanhou a gente em 43 shows. |
|
| Jô - Então vamos lá: Raul Seixas,
Marcelo Nova e a Envergadura Moral... |
|
(Raul e Marcelo cantam
Carpinteiro do Universo) |
|
| Diversos |
Fotografias |
Discografia |
|
Copyright © 1999 -
COM 024/ FACOM/ UFBA
Informações: joaoneto@cpunet.com.br |
|
|
|
|
|