A cada instante que
passava, eu ficava cansado. Era como se nos obrigassem a ver tanto quanto nossas mentes
absorvessem. Naturalmente isso até levava alguns indivíduos a loucura.
Felizmente, tudo isso era moldado de forma a ser aceitável ao ponto de um conformismo
incondicional. Eu caminho apático, e recebo toda essa carga avassaladora. É o preço de
se morar em um aglomerado onde milhões de outros humanos se espremem, também. E enquanto
caminhava, procurava discernir a beleza borrada de um entre quinze edifícios. Os rios
brilhantes de gás, aço e plástico são infinitamente mais claros do que qualquer coisa
que eu possa ver, e isso me entristece. Por quê ninguém reclama desses rios, só eu?
Todas as centenas escondidas dentro dos prédios borrados seguem tranqüilas, por que
sempre haverá emprego e estabilidade, e mais ilusões, piores. Gostaria de assistir a um
rio brilhante morrer, apagar-se e não mais ofuscar o ambiente. Mas ao mesmo tempo eu
aprecio e até glorifico aos rios, mesmo estando ciente da solidão habitando os pequenos
receptáculos. Glorifico a velocidade, a força poderosa das correntes que navegam nesses
rios ofuscantes. A força do dinheiro, da indústria, e da vida doentia de tantos, assim
como a minha.
É tudo assim, igual e veloz. Não existe mais um bucolismo padrão. O bucolismo se
encontra onde ele atacar. Velocidade, os rios, os totens, todos eles assumem seus papéis
na imagem que arde e cola nas minhas retinas, ficando ali impressa, forjada. Ouço os
gritos alegres e infelizes dos outros caminhando, mas fui ensinado a ignora-los até onde
for possível, em favor de um outdoor brilhante, ou de um anúncio de biquíni. Mas estou
tão acostumado que isso já não faz parte do universo que é só meu, e é tão único,
mesmo quando tentam padroniza-lo, afoga-lo em um mar de bens de consumismo. Outro dia
alguém me disse que partiria em uma busca espiritual. Dei-lhe minha benção e
sacrifiquei uma formiga em sua homenagem. De quê adianta?
Gostaria de que as pessoas percebessem o quanto estão submersas em uma galáxia feita de
cores, pessoas, dinheiro, produtos e linguagens de elétrons. Mas se elas descobrissem tal
coisa, não seriam elas apenas mais infelizes?
Os rios brilhantes conduzem muita coisa de um lugar ao outro, especialmente pessoas. É
toda uma gigantesca massa biológica se movimentando ao mesmo tempo. Todo dia é assim.
Mesmo quando as biomassas morrem e tem de ser descartadas. Mas sempre existirão mais rios
e mais pessoas, até o dia em que só existirão rios, e cartazes publicitários, e
pessoas. E as idéias do homem estarão a tal ponto domesticadas que servirão apenas para
concretizar a servidão de comprar, e comprar mais.
Se uma dessas biomassas sobreviver ao dia, ela chegará ao seu domicílio e desfrutará de
todos os produtos adquiridos com o dinheiro que tanto esmerou-se para conseguir. Enquanto
se alimenta, receberá em sua poltrona todo o treinamento necessário para seguir rumo a
mais um dia, através de um monitor de elétrons. Tudo acompanhado de imagens belas e
narcotizantes, assim como mensagens tão inocentes quanto subliminares. Chega o fim da
linha: escolher paixão conformista, celas minúsculas de dois quartos reversíveis para
três, quatro paredes brancas e no teto uma lâmpada de 220 watts.
Patrick Anthony B. Brock |