Ao sentir nos pássaros
tanta liberdade
e aéreo poder
imagina um pássaro
superior a todos
e tão invisível
que seu vôo deixe
sensação de sonho.
Com leveza e graça
o homem pensa Deus.
No mais alto ramo
Deus está pousando
com uma garra apenas
e fita o mundo.
Do mais alto ramo
desfere vôo
e sai por aí
bicando as coisas,
indiferente às coisas
bicadas,
encantadas.
Bica-me Deus
de manso nos olhos,
antes referência que repreensão.
Alisa o bico
no local. E dói.
Ao sumir, crocita:
"Hoje te perdôo."
O que Deus perdoa,
só o sabe Deus.
Deus rumina
que fazer, acaso.
Mais um terremoto?
De que proporções?
Uma nova guerra?
De quantas nações?
Que margem ceder
ao capricho do homem?
Vai nascer um artista?
Nascerão idiotas?
Surgirão robôs?
Ao findar o tempo
tudo se acomoda
à sua vontade.
Já não há projeto
de outro Deus ou vários.
Laços entrançados,
gemidos, crepúsculo
sempre continuado.
O homem arrependo-me
da criação de Deus,
mas agora é tarde.