![]() |
A GRANDE EPOPÉIA DE 25 DE
JUNHO Não foi por acaso que o então Brigadeiro Ignácio Luiz Madeira de Melo escolheu Cachoeira para o envio de uma escuna canhoeira na ocasião da ocupação militar de Salvador. Realmente, na então Vila da Cachoeira, de há muito se registravam sérios conflitos entre brasileiros e portugueses; os senhores de engenho do recôncavo, solidário com a população baiana repudiavam a posse do militar como governador das Armas da Bahia (homem arrogante, truculento e hostil) que ordenava ataques a quartéis brasileiros, residências particulares e ao Convento da Lapa, ocasião em que foi barbaramente assassinada a religiosa Sóror Joana Angélica de Jesus e o Capelão Padre Daniel da Silva Lisboa. Com o apoio das Câmaras Municípios (notadamente de Cachoeira, Jaguaripe, Santo Amaro, São Francisco do Conde e Maragojipe), reuniram-se os senhores de engenho com o objetivo de concentrar forças de resistência, para liderar um movimento revolucionário contra o regime português e, enfim, proclamar a nacionalidade brasileira. A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DE CACHOEIRA A importância políticoeconômica de Cachoeira era fator indiscutível. Produtora de cana-de-acúçar e tabaco, dona de dezenas de engenho de moagem, comercializava a exportava vários produtos, tornando-se o mais importante entreposto comercial da Província. Para deixar o régulo comandante português mais apreensivo e chateado, o padre Lourenço e Silva Magalhães Cardoso, encontrava-se em Cachoeira e, do púlpito da igreja local combatia com severas e corajosas críticas o regime português. AS PRIMEIRAS ESCARAMUÇAS A escuna aportou em águas cachoeiranas no dia 19 de junho e já no dia seguinte o primeiro caso era criado. por volta das 17 horas, quase toda a guarnição (soldados armados com espadas, pistolas e espingardas) aprisionou um frade carmelita pelo simples fato do mencionado religioso haver protestado, com justíssima razão, contra as desordens promovidas por um soldado da barca. A população cachoeirana já consternada com a presença da guarnição portuguesa, protestava veementemente contra a prisão arbitrária do religioso, havendo o Comandante da canhoneira, primeiro-tenente Domingos Fortunato do Valle agido com certa habilidade, contornando o incidente. Todavia, nos dias subsequentes, os soldados da escuna continuaram ostensivamente a promover pelas ruas de Cachoeira toda a sorte de distúrbios. A RESPOSTA CACHOEIRANA No dia 24, espalhava-se na Vila, a confortadora notícia de que nos arraiais de Belém e Iguape estavam se formando batalhões patrióticos em defesa do solo cachoeirano. Realmente, às primeiras horas do dia 25, oriundos de Belém da Cachoeira, chegam à Vila o Comandante de Cavalaria José Garcia Pacheco de Maria Pimentel e Aragão e algumas dezenas de homens armados. Na casa do major José Joaquim dAlmeida e Arnizán, na antiga praça da Regeneração (atual Dr. Milton), reúnem-se o padre José Marcelino de Carvalho, Antônio Pereira Rebouças e Arnizán, ocasião em que é lida uma carta de Francisco Gê de Acaiba Montezuma, na qual o ilustre brasileiro aconselhava a Câmara a "proclamar logo o príncipe D. Pedro como Regente do Brasil, raciocinando com lógica, antes mesmo que os portugueses o fizessem pela sua causa". A carta de Montezuma, dirigida à Câmara, fazia sentido. Eram as Câmaras Municipais instituições profundamente democráticas, de vida autônoma, onde se praticavam e floresciam princípios e doutrinas de amplo liberalismo político. Antônio Pereira Rebouças fez uma convocação do povo cachoeira para uma reunião do Conselho e a celebração de um solene Te-Deum na igreja matriz. AS TROPAS DO CORONEL BRANDÃO Nesse ínterim, entrando pelo Caquende, chegam a Cachoeira comandados pelo coronel Rodrigo Antônio Falcão Brandão centenas de bravos soldados alistados no Iguape, concentrando-se em frente à Câmara Municipal onde os vereadores já se achavam reunidos. A força patriótica de resistência segundo o Dr. Aristides Augusto Milton nas "Ephemérides Cachoeiranas" em pouco estava engrossada com o Regimento dos Auxiliares, a Companhia Agregada, o Esquadrão da Cachoeira, quatro Companhias de Infantaria, além de muitos voluntários". O TE-DEUM E A SESSÃO MAGNA Eram 9 horas da manhã. Do Paço Municipal, a Câmara acompanhada das autoridades e do povo, encaminhava-se para a igreja matriz onde foi celebrado pelo padre Manuel Jacintho Pereira de Almeida o solene Te-Deum, fazendo o sermão o padre Francisco Gomes dos Santos Almeida, então vigário de Santo Estêvão do Jacuípe. Após a bênção do Santíssimo Sacramento, retornam todos ao prédio do Paço Municipal onde o juiz de fora, Dr. Antônio de Cerqueira lima presidente da memorável sessão, assonou à janela da Câmara desfraldando um estandarte, aclamando D. Pedro como Regente do brasil, dando vivas que foram ruidosamente correspondidos pelo povo e pela tropa reunidos na praça. Antônio Pereira Rebouças encarregado de redigir a ata histórica, anos depois escreveria: "Estando os povos dispostos a expor-se pela causa da pátria, tiveram os patriotas mais influentes, por oportuno, o dia 25 de junho do ano de 1822 para o rompimento da revolução, aclamando a regência do Príncipe Imperial D. Pedro de Alcântara como precursora da independência em que, dentre nós, já havia quem a meditasse". O INÍCIO DAS HOSTILIDADES Novos vivas ecoaram pela praça lotada de gente. A tropa resolveu dispara para o ar uns tiros de festim. Foi aí que, não obstante, haver-se comprometido o comandante da canhoneira de que não impediria as manifestações, partiram da mesma, vários tiros de bala e de metralha. O Dr. Aristides Milton narra com riqueza de detalhes os acontecimentos que se sucederam: "Uma das balas atiradas do navio passou pela cornija do sobrado n.º 2 da rua da matriz e outra ricocheteando no cais dos Arcos pôr estar então baixa a maré. Uma bucha, alcançando o Tambor-mor, Manoel da Silva Soledade o prostrou por terra a lançar golfadas de sangue. Saíram feridos dois soldados da Cavalaria que aliás haviam se portado heroicamente. O CONTRA-ATAQUE CAHOEIRANO Quando se começou a responder ao fogo da barca, fugiram do campo de luta os soldados das Ordenanças, não pôr deslealdade ou covardia, mas antes para obedecer a ordem que neste sentido o Capitão mor terminantemente lhes dera. da casa do português Manoel Machado Nunes, no entanto, fizeram repetidos tiros de fuzilaria e um deles varou a barretilha (antiga cobertura de feltro e peles para a cabeça dos militares) do major Joaquim José Bacellar Castro. A luta se tornava de momento a momento mais tenaz. o contra-ataque dos cachoeiranos foi imediato. As tropas entrincheiraram-se em vários pontos do cais e da rua dos Arcos (atual Teixeira de Freitas). A VITÓRIA FINAL À tarde do dia 28, o comandante da canhoneira envia ofício às autoridades cachoeiranas ameaçando arrasar a vila se continuasse a resistência. Todavia, à meia-noite daquele dia, o fogo se intensificou, sendo abordada a canhoneira e aprisionados o camandante tenente Duplaquet e mais 26 soldados que ainda estavam vivos. Como se vê, o trabalho e o papel das Câmaras Municipais não ficaram apenas na "Aclamação". Elas chamaram a si a responsabilidade e a missão do chamamento às armas, recrutaram escravos e tributos, formaram batalhões, criaram comissões e Caixa Militar, cuidaram do abastecimento das tropas, enfim, a voz das Câmaras, como as das vilas de Santo Amaro, São Francisco do Conde, Maragojipe, Jacobina, Valença, Catu, Caetité, Camamu, Cachoeira e outras, clamava e concitava a alma do pela redenção, pelo ideal supremo de liberdade nacional contra o regime opressor, superando os milhares de soldados do Governador das Armas - o general Ignácio Luiz Madeira de Melo na epopeica luta de Cabrito e Pirajá no dia 2 de julho de 1823 (um ano após o movimento cachoeirano), culminando com o 7 de setembro às margens do Ipiranga em São Paulo. |
| Informações sobre o conteúdo do
site: webmast@mcluhan.facom.ufba.br Copyright©1998 - COM024 - FACOM / UFBA |