R O S A P Ú R P U R A
Marcos Palacios
(Para Alfredo Palacios)
"Todo dia ela faz tudo sempre igual"
Chico Buarque de Holanda
6:30 horas: Escovando os dentes.
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No espelho oval, moldura amarela, na parede de azulejos brancos, os peitos que já começam a cair. Afagou-os com as mãos em concha. No gosto ardido da pasta, a voz da mãe: "escova os dentes, menina, escova os dentes, escova os dentes...Você ainda vai acabar perdendo esses dentes, menina...". Já perdera vários e tinha dois pivôs, bem na frente. Enxaguou a boca, mas continuou sentindo a língua espessa, viscosa. Do armário tirou uma escova de cabelo. No espelho oval, moldura amarela, os cabelos que ainda eram os mesmos. Os cabelos não tinham idade. Passou as mãos por eles, com carinho. Começou a escová-los, num ritmo pausado, ritual, quase. Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Preciso me lembrar de comprar pó de café. Nem sei se o que sobra ainda dá para hoje. Quinze , dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três... Vai ter que dar... Será que ele almoça hoje em casa? Trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro... Ele quase já não come em casa... Fixou o olhar em alguma coisa que se movia pela parede. Barata? Será? Não, é um grilo. Um grilo? Aqui no banheiro? Imaginou-se num banheiro de uma suite de um hotel de luxo, abrindo e fechando torneiras douradas e tomando um banho de espuma, como a Rita Hayworth, naquele filme em que ela canta num cassino e tem um caso com o Glenn Ford, que é um gangster malvado, que se regenera mas mesmo assim se dá mal, no fim. Cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove... Sessenta e dois, sessenta e três, sessenta e quatro.... Chega, está bom demais... Guardou a escova. Colocou a touca de banho e enfiou-se debaixo do chuveiro. A vagina ardia da violência dele na noite anterior.
7 horas: Servindo café.
Ele quieto, passando margarina no pãozinho. Ela quieta, despejando café na xícara branca. - Tchau, amor. Já vou. Hoje almoço na rua... Saiu pelos fundos, deixando a porta aberta.
7:30 horas: Fazendo a feira.
- Olha a laranja, Dona Maristela...Olha o morango, Dona Aurora... Cenoura. Vagem. Abobrinha. Chuchu. Pepino. Quiabo. Tomate. Cebola. Cheiro-verde. Mandioquinha. Jiló. Beringela. Batata. Pimentão. Alface. Escarola. Beterraba. Couve. Repolho. Almeirão. Espinafre. Agrião. Couve-flor. Brócoli. Rabanete. Alho. Acelga. Limão. Abacate. Mamão. Uva. Banana. Ameixa. Figo. Maçã. Pera. Jaboticaba. Ananás. Goiabada Cascão. - A quanto a sardinha? - Setequorento... - Quanto?...
9 horas: Varrendo a casa.
Detestava varrer. Logo que se casaram, viveram por alguns meses na Pensão de Dona Estela, em Vera Cruz, porque era mais barato que alugar um apartamento. Quando se mudaram para aquela casa, tiveram uma empregada. Chamava-se Anabela, era muito jovem, tinha muitos defeitos, mas pelo menos livrava-a de varrer a casa. Mas durou pouco.... As despesas, as despesas, economiza daqui, economiza dali, despede a empregada. Quando as coisas melhorarem um pouco a gente arranja outra... Arranjou? Arranjou nada... Nunca mais.... Acendeu um cigarro. Fumava às vezes, quando ele não estava em casa. Ele detestava. Imaginou-se usando uma estola branca, de arminho, e segurando elegantemente uma longa piteira, como a Greta Garbo, naquele filme em que ela se cura de uma tuberculose e casa com o mocinho, que é o médico, e os dois vão para a China trabalhar num hospital de crianças, no fim. Fechou as janelas para que o vento não levasse o pó. Arrastou a poltrona e encontrou uma meia azul, atrás. Dele, claro... Cadê o outro pé? Puxa, como está quente ! E ainda é cedo. Vai ser um dia de cão ! Arrastou o sofá. Já faz tempo que não chove. Ainda bem. Da última vez que choveu forte, o bairro ficou todo alagado. Cada ano que passa o bairro cresce mais. Até uma favela já tem, onde era o campo de futebol. Varreu debaixo da televisão. Graças a Deus ainda funciona. Já pensou ficar sem televisão? Nem pensar... Varreu ao redor da mesa, sem se dar o trabalho de afastar as sete cadeiras. Uma havia se quebrado e nunca fora consertada e estava guardada no quartinho de empregada, junto com uma pilha de trastes inúteis, mas que ele não deixava jogar fora porque ainda poderiam servir para alguma coisa. Comiam sempre na cozinha, na mesinha de fórmica imitando mármore. Varreu debaixo do móvel das bebidas. Não conseguia pensar naquilo como um "bar", como ele insistia em chamar. Achava horroroso. Ele que comprara. Era de madeira escura e destoava completamente do resto da mobília. Parece um caixão-de-defunto com pernas. Cruz Credo !... Varreu debaixo da cristaleira. Achou o outro pé de meia azul.
10 horas: Lavando roupa.
Não adianta ! Sabão só presta mesmo é Omo. Besteira insistir. Dá nisso. Mas isso é mancha de que, afinal?
11 horas: Atendendo a vizinha.
- ...ai eu disse prá ele que era a última vez que ele chegava em casa àquela hora, senão eu fechava mesmo o tempo e mandava trocar a fechadura da porta e ele que fosse morar logo de uma vez com aquela vagabunda... Olhava a sonora mulher ali plantada, como se a estivesse vendo pela primeira vez. Imaginou-a como Jessica Lange, naquele filme em que ela é a mulher do dono de um posto de gasolina decadente na beira da estrada e se apaixona por um cara que passa por lá e os dois resolvem se livrar do marido dela e tudo sai errado, no fim. Notou a pequena verruga no ombro esquerdo, lá nela, bem ali onde se apoiava a alça do vestido, que se fosse de outra cor talvez não fosse de todo feio. A mão, que segurava a xícara de açúcar que pedira emprestada, permanecia firme, enquanto todo o resto do corpo chacoalhava, agitado. Voltou os olhos para aquela boca que abria e fechava, abria e fechava. Imaginou-se beijando aquela boca. Uma vez beijara uma boca de mulher. Foi numa festa de Ano Novo, há muito tempo... -... e ai eu falei prá ele: assim não dá, não dá. Ou ela ou eu ! Você não acha que eu tenho razão? Olha, me empresta também dois limões, que ele vem almoçar em casa hoje e gosta de uma caipirinha antes da comida...
12 horas: Almoçando sozinha.
Ouvia o barulho das crianças que nunca tivera. Útero bicorne, reverso, transverso... Infelizmente a senhora não tem condições de engravidar... Não, não há tratamento, sinto muito... talvez uma adoção... Não? Bom... Se tivesse tido três, como queria, elas estariam com onze, dez e nove anos, por ai... Mastigou sem vontade mais um bocado do risoto de frango de ontem. A mais velha brigando com a mais nova. O copo de refresco de uva virando e encharcando a toalha recém-lavada. Parem com isso já ! Vocês não vão nunca aprender a ter modos? Essas crianças me enlouquecem... E esse calor? Esse calor... E o verão ainda nem bem começou. Não vai dar para aguentar! Lembrou-se que sua mãe costumava dizer que o verão mais quente de todos os tempos havia sido o de 42. Sentiu-se enjoada. Levantou-se e jogou todo o resto do risoto na lata do lixo. Lavou a louça. Trocou a toalha limpa.
13 horas: Pintando as unhas.
Sempre adorara aquele cheiro, desde criança. Tinha uma enorme coleção de esmaltes. Eram sua única mania. Passava horas nas lojas, buscando as novidades, experimentando novas cores. Só nunca se acostumara com o cintilante. Achava vulgar. Olhou para as fileiras de esmaltes, estiletes, lixas e pincéis. Imaginou-se como Elizabeth Taylor, naquele filme em que ela é uma pintora que vive numa cabana de madeira numa praia deserta cheia de penhascos, e o pastor protestante se apaixona por ela, mas eles não acabam juntos, mas já era tarde demais para esquecer, no fim. Pegou um vidro de Mar de Rosas. Pintou a unha do polegar esquerdo. Será? Quando era menina, sua mãe proibia. Talvez daí a mania. Pintou a unha do indicador. Esmalte barato não presta: não rende quase nada e endurece logo no frasco. Para não falar do mau-gosto das cores... O bom gosto custa caro. Pintou a unha do dedo médio... Mindinho, seu Vizinho, Pai-de-Todos, Fura-bolos, Cata-piolho... Pintou a unha do anular. A aliança não saia mais. Nem com sabão. Engordara durante aqueles anos. Claro. E ele vivia dizendo isso a ela. Todo mês prometia fazer regime. Começava. Descumpria. Recomeçava. Os doces eram sua perdição. Dá para resistir? Dá? Dá? Não dá... Pintou a unha do mindinho. Uma vez tomara um porre de acetona, cheirando fundo, cheirando fundo, sentindo tudo rodar em volta e seu corpo caindo, caindo, caindo... Olhou para a mão esquerda pintada. Será? Não, definitivamente não. Recomeçou a passar a acetona...
14 horas: Assistindo a novela da tarde.
- Você não pode fazer isso comigo, Eduarda! Não é justo ! - Justo? Justo? Quem é você para falar em justiça, Roberto? Você se esquece que foi você quem começou tudo isso? Você se esquece que foi você o causador da ruína de meu pai , da ruína de todos nós? !... - Não, não é verdade, Eduarda ! Eu nunca poderia imaginar que as coisas sairiam daquela maneira ! O plano era perfeito... Um golpe de mestre ! - Você é um assassino Roberto, um cruel e vulgar assassino...
15 horas: Passando roupa.
Se alguém inventasse uma máquina para passar colarinhos, ficaria rico.
16 horas: Catando feijão.
...de onde será que vêm os carunchos? Será que nascem nos feijões? Olha outro ali...Bichinhos nojentos... Ligou o rádio da cozinha. Anunciavam a morte de um artista famoso. O corpo está sendo velado na Rádio América e o féretro sairá às cinco horas para o cemitério da Consolação. Sua primeira paixão, se é que a podia chamar assim, havia sido por um escultor. Conheceu-o numa festa de formatura do Colégio Brasil. Muito mais velho que ela, vivia sozinho num estúdio, que montara numa igreja abandonada. Uma vez ele a levou lá. Tomaram vinho e se esfregaram. Ela quase cedeu. No último momento, resistira. Dois anos depois estava prosaicamente casada com um corretor de imóveis. Seu legítimo esposo. Quando seus pais morreram, num acidente ônibus na estrada de Santos, vira-se totalmente só no mundo. Só, com ele. Só ela e ele, sem filhos, sem ninguém. Os feijões já catados pareciam desenhar um mapa do Brasil. Começou a pensar em viagens e imaginou-se como Faye Dunaway na garupa de uma potente motocicleta, agarrada à cintura de Charles Bronson, como naquele filme em que ela é uma advogada recém-formada e ele é um policial honesto, mas acaba matando um político importante por acidente e tem que ficar fugindo por todo o Estados Unidos, com toda polícia atrás dele, mas ela consegue provar que ele é inocente, no fim. Já estivera em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.No Rio de Janeiro, foi a lua-de-mel. Fazia quarenta graus. Subiram ao Pão-de-Açúcar. Passearam no Jardim Botânico e na Quinta da Boa-Vista. Visitaram o Cristo Redentor. Lá em cima, no barzinho, pedira um daiquiri. Pediu sem saber o que era. Tinha ouvido o nome num filme. Achou chique...Mas chique mesmo tinha sido almoçar na Confeitaria Colombo, com todos aqueles espelhos, todos aqueles garçons velhinhos chamando-a de madame. Isso sim, foi de filme. E se lembrou da primeira noite, no quarto do hotel. As paredes recobertas de papel de um rosa bem claro com florzinhas brancas. A cama, que lhe parecera imensa. O sangue nos lençóis, na manhã seguinte.
17 horas: Costurando.
E se eu colocasse um debrum aqui? Não, ficaria cafona... Costurou a pala, seguindo a curva dos pontos alinhavados. Levantou-se. Encostou o vestido ao corpo, olhou-se no espelho da parede e sorriu. Veludo azul !. O que será que ele vai pensar?... Agora apenas vagamente se lembrava da última vez que comprara um vestido feito. Escolhera, escolhera e acabara nem usando, afinal. Assentava-lhe mal. Aperfeiçoara-se em fazer suas próprias roupas. Não costurava para mais ninguém, fosse pelo que fosse. Só para si mesma. Acabava usando muito pouco seus muitos vestidos. Quase não saiam de casa. Ultimamente, então... Sentiu o cheiro do feijão cozinhando. Imaginou-se num restaurante fino, com um violinista tocando à luz de velas, e ela tomando vinho numa taça alta, como Betty Davies, naquele filme em que ela é uma mulher orgulhosa e vaidosa da alta sociedade e acaba virando freira, no fim. A última vez que jantaram num restaurante havia sido no aniversário dela, dois anos atrás. Ela insistira, insistira e acabaram indo a uma cantina italiana, no Bexiga. Ela comeu ravioli com molho branco e mousse de chocolate como sobremesa. Na volta, já nem se lembrava porque, tiveram uma briga feia. Nos últimos tempos quase não se falavam. Ele raramente almoçava em casa. À noite assistiam televisão, em silêncio. Ele bebendo cerveja, ela comendo bolachas. Quando recebiam visitas, era ali mesmo, frente à televisão, que as conversas se arrastavam, entremeando-se aos diálogos das novelas, animando-se nos intervalos comerciais. Aos domingos, o almoço com os pais dele e a tarde toda ouvindo a sogra se queixar de sua sinusite e sua hérnia de disco, enquanto ele e o pai jogavam intermináveis partidas de gamão. Boa noite, querida, já vamos. Até domingo. Se cuide, viu ... Na cama, com ele, ela não sentia mais nada. Se é que alguma vez sentira...
18 horas: Tomando banho
Passou o vestido novo, colocou-o num cabide e foi tomar banho. Deixou a água fria escorrer por seu corpo por um longo tempo, tentando afastar o calor, aquele calor que parecia vir mais de dentro que de fora. Meu Deus, será menopausa? E se eu aproveitasse para raspar as pernas? Sem saber porque, raspou também os pelos do púbis. Era a primeira vez em sua vida que fazia isso. Fechou o chuveiro. Enxugou-se numa toalha rosa choque bem felpuda. Sentou-se na banqueta do banheiro e começou a massagear a pele do rosto, pescoço e peitos com um creme hidratante. Imaginou-se como Marilyn Monroe, naquele filme em que ela é a vizinha meio maluquinha do bonitão e a mulher dele viaja e ela aparece embrulhada numa toalha, mas acaba não acontecendo nada daquilo, no fim. Tirou a touca de banho. Escovou rapidamente os cabelos e deixou-os soltos.
18:30 horas: Vestindo-se
Foi para o quarto e escolheu sua melhor calcinha, seu melhor sutiã. Colocou o vestido novo. Perfeito! O decote nas costas alongava-se num V, que descia até a curva das nádegas, quase... Calçou sapatos combinando. Passou baton e pintou os olhos. Perfumou-se e colocou seu colar de pérolas. Ele vai ter uma surpresa...
19 horas: Cortando bifes.
Colocou um avental, para não sujar o vestido novo e foi tirando as pelancas com muito cuidado, usando a ponta afiada do facão, para não desperdiçar a carne, que estava fria, ainda meio-congelada, e amortecia suas mãos. Cortou um pedaço de uma parte mais escura. Será que está estragada? Cheirou. Não, deve estar queimada pelo gelo do congelador. Está boa... Começou a cortar os bifes. Que calor, meu Deus! Que calor ! Eu nunca me senti assim antes, nunca... Ouviu o barulho da chave e da porta da frente se abrindo. "Querida", pensou. - Querida !... Contou os passos dele se aproximando, sentiu suas duas mãos em seus ombros. Imaginou-se como Vivien Leigh, naquela cena da ponte de Waterloo, s, quando o namorado dela volta depois de ficar um tempão desaparecido e dado como morto no campo de batalha e ela havia perdido toda a moral e a compostura, no fim. Ele se curvou, foi envolvido pelo cheiro do perfume, imaginou-se em algum lugar do passado e aproximou seu rosto do dela. Ela se virou , imaginou- se vestida para matar, como naquele filme do Brian de Palma e cravou-lhe o facão no pescoço, bem debaixo do queixo. A ponta saiu pelo outro lado, na base da nuca. Largou-o no chão, estertorando. Lavou as mãos, tirou o avental, colocou uma rosa púrpura nos cabelos e saiu pelos fundos, deixando a porta aberta.
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(Conto premiado no Concurso Nacional de Contos de Araçatuba, S.P.- 1998)