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Impactos e Efeitos da Internet sobre a Comunidade Acadêmica:

quatro dificuldades e um possível consenso

 

 

Marcos Palacios

Nosso objetivo básico neste texto é levantar algumas questões que nos parecem pertinentes no contexto da discussão dos impactos e efeitos da disponibilização eletrônica/digital de informação sobre as práticas e os padrões de sociabilidade de uma comunidade bastante peculiar: a Comunidade Acadêmica.

O tema vem ganhando importância, à medida em que cresce o que poderíamos chamar de mundo acadêmico digital. Partindo de um conjunto de artigos recentes, integrantes de uma já considerável bibliografia relacionada à temática, buscamos apontar algumas dificuldades no seu equacionamento e tratamento, bem como assinalar alguns aspectos recorrentes nas análises, que podem constituir pontos de partida para discussões em torno da problemática.

 

Primeira dificuldade: que rede é essa?

O propósito de discutir impactos e efeitos da Internet sobre a Comunidade Acadêmica esbarra num primeiro obstáculo constituído pela escassa sistematização dos dados básicos sobre a própria rede mundial, em função de suas características de crescimento contínuo, acelerado e instável.

Estatísticas referentes à Internet: seu tamanho, seus ritmos de crescimento, sua distribuição geográfica, sua composição social, etc, são de baixa confiabilidade, chegando a ser motivo de chacota entre os próprios internautas. Não é de se estranhar, portanto, que inexistam dados precisos e sistemáticos sobre aqueles aspectos da Internet que, é de se supor, devam estar mais diretamente atingindo e afetando a Comunidade Acadêmica: publicações acadêmicas, fóruns de debate, sites universitários, programas de colaboração acadêmica online, etc

Tomemos inicialmente a questão das publicações acadêmicas digitais. Perguntas do tipo: que magnitude tem a ocupação do cyberespaço pelas publicações acadêmicas, que freqüência de uso, que mudanças de hábito podem estar acarretando na Comunidade Acadêmica, que efeitos sobre as editoras comerciais e universitárias, etc, esbarram na pouca confiabilidade dos dados disponíveis.

O número total de publicações digitais na rede mundial está aberto para especulações. A indústria norte-americana de jornais estimava extra-oficialmente que, em fevereiro de 1996, o número de publicações digitais (de todos os tipos: diárias, semanais, mensais; jornalísticas, científicas, técnicas, humorísticas, literárias, etc) na Internet girava em torno de 3.850 em todo o mundo. Uma parte ainda reduzida porém crescente de tais publicações situa-se no que poderíamos chamar de universo acadêmico.

Uma pesquisa realizada por Hitchcock, Carr e Hall, no período 1990/95, encontrou 115 jornais eletrônicos nas áreas de Ciência, Tecnologia e Medicina, disponibilizando integralmente textos da versão impressa ou existindo apenas na versão online. Todos se enquadravam na categoria de peer-reviewed, ou seja, contavam com um Conselho Editorial composto por especialistas que julgam o mérito do trabalho submetido para decidir sobre sua publicação ou não. A área de Humanidades não foi incluída na pesquisa.

Num trabalho de 1996, Harter & Kim usaram como universo para uma amostragem de jornais acadêmicos a combinação de dois bancos de dados, o que resultou num total de 134 periódicos que se enquadravam na categoria de peer-reviewed.

O número das publicações digitais acadêmicas continua crescendo mês a mês. Vários sites especializados funcionam na Internet como portas de entrada para periódicos eletrônicos de praticamente todas as áreas de conhecimento. Em dezembro de 1996, o Edoc, um dos sites especializados na publicização e provimento de acesso a jornais acadêmicos, listava centenas de periódicos acadêmicos, de todas as áreas, enquadrados na categoria de peer-reviewed. O Serials in Cyberspace, é outra uma excelente porta de entrada para listagens de periódicos acadêmicos eletrônicos. Para a área de Comunicação uma compilação já está sendo organizada pela Biblioteca da University of Pennsilvanya.

 

 

Segunda dificuldade: que Comunidade é essa?

Para se medir ou projetar impactos e efeitos da Internet sobre a Comunidade Acadêmica, faz-se necessário, evidentemente, que se parta de uma definição operacional de tal comunidade. De que tipo é essa comunidade? Como está constituída? Quais são suas peculiaridades? De que maneira ela vem se transformando ao longo do tempo? Ocorre, porém, que a quase totalidade da literatura voltada para o assunto não faz qualquer consideração sobre esse aspecto.

Um marco de referência importante para essa discussão se estabelece em 1962, com a publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, A obra, hoje um clássico na área da Filosofia/Sociologia das Ciências, gerou uma série de reações quanto à concepção de Comunidade Científica subjacente às teses desenvolvidas no livro .

Num posfácio para uma reedição de 1969, Kuhn procura explicitar o que entende por Comunidade Científica, afirmando ser ela "formada pelos praticantes de uma especialidade científica" (1969:220). Haveria, portanto, uma multiplicidade de Comunidades Científicas, cada qual com seu objeto de estudo próprio, sendo a comunidade mais global composta "por todos os cientistas ligados às ciências da natureza" (1969:221). Cada cientista, individualmente considerado, poderia pertencer a diversas dessas comunidades, simultaneamente ou em sucessão. As Ciências do Homem (Sociologia, Psicologia, Antropologia, etc) não entram no âmbito de suas preocupações, por serem consideradas pré-paradigmáticas, não comportando, portanto, Comunidades Científicas na acepção kuhniana..

Do ponto de vista kuhniano, portanto, o estudo de impactos e efeitos da Internet sobre a Comunidade Acadêmica deveria ser efetivado considerando-se divisões (e sub-divisões?) disciplinares de cada especialidade científica.

Com efeito, pode-se observar que os avanços em termos de digitalização da vida acadêmica apresenta significativas diferenças de área para área. A área da Física conta com avanços extremamente significativos, tanto em termos da produção quanto do armazenamento de material eletronicamente disponibilizado. A Psicologia, através do experimento do Psicoloquy, aparece também em situação privilegiada. Como seria razoável supor-se, as áreas de Informática e Ciência da Computação também estão em situação especial no que diz respeito à quantidade de material a elas relacionadas disponível no cyberespaço. E, paradoxalmente, as áreas que poderíamos classificar como Clássicas (História Antiga, Literatura Clássica, Arqueologia, etc) apresentam uma fortíssima presença em termos de vida acadêmica digital, com sites extremamente sofisticados e bem organizados.

O problema com o tratamento kuhniano da questão, mesmo com a inclusão das ciências Humanas em seu universo, é que as especialidades científicas podem ser fragmentadas em sub-especialidades, acabando-se por perder de vista aspectos mais genéricos e unificadores da Comunidade Acadêmica em prol das especificidades e idiossioncrasias de áreas e sub-áreas. Se adotarmos e levarmos ao extremo a ótica de Kuhn, cada grupo de pesquisa, faculdade, etc forma uma Comunidade Científica, podendo sentir diferencialmente os efeitos e impactos da vivência acadêmica digital. Ainda que possam haver verdades nesse tipo de aproximação, impõe-se a necessidade de um recorte mais abrangente, que permita conclusões mais genéricas.

Uma abordagem menos fragmentadora, mas que procura dar conta de especificidades foi proposta por Silverman, em seu artigo "The Impact of Electronic Publishing on the Academic Community". Utilizando-se das categorias de Conhecimento Constitutivo e Conhecimento Regulativo, desenvolvidos por Lorraine Code, a partir dos trabalhos de Latour, Sassower e Anderson, dentre outros, Silverman sugere a existência de dois tipos básicos de Comunidades Acadêmicas: as Comunidades Constitutivas e as Comunidades Regulativas. Esses dois tipos referem-se, grosso modo, a Comunidades Acadêmicas em que o conhecimento buscado é instituinte ou instituído.

Na própria definição de Lorraine Code, nas comunidaddes constitutivas "todo ato de conhecimento tem lugar num ponto de intersecção de inúmeras relações, eventos, circunstâncias e histórias, que fazem o pesquisador e o objeto de pesquisa serem o que são naquele momento". Esse tipo de Comunidade está aberta à interrogação, renegociação, evidenciando confiança e, necessariamente, uma "vulnerabilidade" de seus membros.

Em Comunidades Regulativas, por contraste, conhecimento e credibilidade são reclamados (claimed) com base no privilégio ou na ortodoxia. O conhecimento regulativo está caracterizado por maior padronização, maior hierarquia e está informado por princípios do tipo objetividade e neutralidade de valores.

Com base em tal caracterização, Silverman, estabelece uma matriz com quatro possibilidades: conhecimento regulativo desenvolvido em comunidades regulativas (maior parte do trabalho acadêmico); conhecimento regulativo desenvolvido em comunidades constitutivas (quando idéias fundacionais- e.g. o pensamento de Foucalt, Lacan, Derrida, etc- constituem-se como o foco teórico de um grupo de acadêmicos que as utilizam para balizar suas próprias investigações); Conhecimento constitutivo desenvolvidos em comunidades regulativas (quando uma comunidade regulativa examina uma "problemática" através do uso seletivo de várias áreas, numa abordagem transdisciplinar); conhecimento constitutivo desenvolvido em comunidades constitutivas (quando acadêmicos se debruçam sobre assuntos novos buscando novas formas de abordagem).

Tal caracterização leva Silverman a concluir que diferentes impactos e efeitos da Internet (apesar de que ele, como muitos outros, se limite apenas ao efeito dos jornais eletrônicos) são esperados em cada uma dos casos tratados por sua matriz e sugere sua utilização para estudos mais sofisticados da questão.

Poderíamos ainda acrescentar que se para pesquisadores trabalhando em países desenvolvidos a disponiblização eletrônica de material científico e acadêmico representa acesso mais rápido às informações especializadas que, eventualmente, serão incorporadas em suas versões impressas às bibliotecas de suas instituições, em países menos desenvolvidos o acesso à versão digital pode significar a única forma possível de se ter contato com esse tipo de material, haja vista as crônicas deficiências dos acervos das bibliotecas universitárias e de outras instituições de pesquisa, especialmente no que diz respeito a periódicos especializados correntes.

Tal fato coloca um outro complicador na análise de efeitos e impactos que é a questão dos diferenciais regionais. Se as Comunidades Acadêmicas não são homogêneas numa mesma área geográfica, é de se esperar que ainda mais heterogêneas se mostrem quando consideradas em sua dispersão espacial globalizada.

 

 

Terceira dificuldade: a abrangência da vivência acadêmica digital

É necessário se ter claro que os periódicos especializados não esgotam, em absoluto, o conjunto do que poderíamos denominar o ambiente acadêmico online. Praticamente todo tipo de material de que se alimenta a atividade acadêmica e científica - bancos de dados, estatísticas, artigos avulsos, livros completos ou em desenvolvimento, manuscritos antigos, teses, anais, resenhas, gravuras, fotos, comunicações, programas de cursos e disciplinas, etc - pode ser hoje encontrado na Internet.

Poucos são atualmente os congressos ou encontros científicos nacionais ou internacionais sem uma home-page na WWW (World Wide Web). Gradativamente, as grandes bibliotecas de todos os continentes investem no esforço de disponibilizar eletronicamente seus acervos. Catálogos, livros, revistas, documentos históricos e manuscritos, estão sendo digitalizados (scaneados) e começam a se tornar instantaneamente acessíveis nas telas de nossos computadores pessoais. Já não apenas universidades em todo o mundo, mas departamentos universitários em todas as universidades começam a construir seus Sites na WWW, disponibilizando a produção científica e artística de seus docentes, projetos de pesquisa em andamento, programas de cursos, bibliografias online, etc, etc.

Um dos problemas que, a nosso ver, marca a produção de estudos voltados para a aferição dos possíveis impactos das redes comunicacionais sobre a Comunidade Acadêmica é justamente o fato de os autores se restringirem, quase que exclusivamente, ao âmbito dos periódicos especializados e às conseqüências de sua digitalização, deixando de considerar o universo acadêmico online em sua totalidade. Apesar da evidente importância desse tipo de recurso para a Comunidade Acadêmica, equacionar o impacto das publicações digitais com o impacto da Internet como um todo pode falsear as conclusões. Nossa sugestão é que a vivência acadêmica digital via Internet tem uma dimensão muito mais ampla que a publicação e acesso a jornais eletrônicos especializados, que constituem apenas uma das atividades constitutivas da vivência acadêmica digital. No entanto, praticamente a totalidade da literatura está voltada para a questão das publicações, seus custos, sua confiabilidade, sua estocagem para uso futuro, etc.

 

 

Quarta dificuldade: como mensurar efeitos e impactos

Medidas do impacto da disponibilização digital da informação sobre a Comunidade Acadêmica vem sendo produzidas nos últimos dez anos, a partir de uma série de diferentes perspectivas.

Kling & Lamb, trabalhando com uma amostragem de artigos produzidos sobre a questão dos impactos, procuraram sistematizar as abordagens recorrentes nesse tipo de literatura, criando uma tipologia que desse conta da variedade observada. Verificou-se, em primeiro lugar, que um número significativo de trabalhos estava marcado por perspectivas utópicas, sejam tais utopias positivas ou negativas. Grande parte do material se limita a especulações e construções de cenários futuros hipotéticos (sejam auspiciosos ou catastróficos) sem análises de fundo que efetivamente sustentem tais especulações.

Mais recentemente, no entanto, cresceu o número de trabalhos que se utilizam de abordagens mais sistemáticas, como o Realismo Social (utilização de dados empíricos para análise de situações específicas), as análises Sócio-Teóricas (que buscam desenvolver e testar conceitos e teorias que transcendam situações específicas) ou o Reducionismo Analítico (estudos puramente quantitativos).

O que se nota, de um modo geral, quanto a este aspecto ou dificuldade é que os estudos parecem estar gradativamente adquirindo maturidade e superando as especulações de tipo puramente projetivo e utópico, para dar lugar a análises mais fundamentadas a partir de parâmetros mais sólidos e utilização de dados mais confiáveis.

 

 

Confiabilidade e validação: preocupações consensuais?

Uma questão central recorrente na vasta maioria dos estudos que buscam mensurar os impactos das publicações acadêmicas digitais é a da validação. Parece haver um certo consenso de que o impacto e os efeitos da digitalização e disponibilização eletrônica de materiais acadêmicos serão tanto maiores quanto maior for sua confiabilidade. Como aferir a confiabilidade de informações disponibilizadas eletronicamente através das redes telemáticas ?

O problema, evidentemente, não é novo, pois não se circunscreve ao âmbito telemático. Com efeito, ensinar a um jovem pesquisador como validar suas fontes, como avaliá-las, como buscar e identificar a informação confiável, é talvez uma das primeiras e mais importantes tarefas daqueles que se dedicam a formar recursos humanos nesta área. Se tais questões sempre estiveram colocadas e geravam preocupações com respeito à pesquisa conduzida em moldes ‘tradicionais’, com mais força elas se colocam no âmbito da pesquisa online, com a manutenção de antigos problemas e o surgimento de novos. Não se pode, é claro, ensinar bom-senso e experiência, mas alguns balizadores podem ser estabelecidos, facilitando a tarefa de validação da informação disponibilizada.

A comunicação telemática, em redes informacionais de acesso massivo, permite que cada usuário se torne também, pelo menos potencialmente, um disponibilizador de informação As promessas de democratização e personalização da produção intelectual, trazidas pela explosão da editoração eletrônica (top-desk editing), na década passada, esbarraram na questão quase insuperável da circulação. De pouco vale produzir e reproduzir, mesmo que a baixo custo, se não há como circular eficientemente. Na Internet, desaparece o conceito de circulação tal como o conhecíamos. A informação - produzida por quem quer que seja - é simplesmente disponibilizada, ou seja colocada num arquivo digital, estando ao alcance de todos que desejem acessá-la. Essa característica, um dos elementos potencialmente mais revolucionários da comunicação online, provoca, em contrapartida, a exacerbação da questão da validação.

Grande parte da informação disponibilizada na Internet não está sujeita a um dos principais mecanismos de validação utilizados pelas publicações tradicionais: a arbitragem formal por parte de pares (peer-review mechanism). Quando um original é submetido a uma editora conceituada ou a uma revista acadêmica especializada, ele passa pelo crivo de um conselho editorial, formado por especialistas, que emitem um julgamento prévio quanto à qualidade do material proposto para publicação. Na Internet existem publicações digitais que utilizam critérios equivalentes para a decisão de publicação ou rejeição de originais submetidos, o que facilita a decisão quanto à confiabilidade de um grande número de publicações.

Mas o autor online pode simplesmente disponibilizar sua produção em sua própria home-page, ou mesmo numa home-page institucional, sem necessitar submete-la a qualquer julgamento que não o seu próprio. Não existem sequer regras de normalização bibliográfica unificadas e universalmente aceitas, tornando problemático o simples ato de citar um documento eletronicamente disponibilizado

Como resultado dessa salutar anarquia, documentos de todos os tipos são diariamente disponibilizados aos milhares na Internet, gradativamente constituindo uma memória coletiva de uma magnitude sem precedentes. Na medida em que a qualidade do material disponibilizado não é, nem deve ser, controlada centralmente, é evidente que coexistem, lado a lado, informações de variável teor, indo do mais avançado, bona-fide e confiável em uma determinada área de conhecimento, a material deliberadamente enviesado e/ou falsificado.

Preocupações com esse tipo de questão, vêm gerando contribuições de uma série de acadêmicos e especialistas em Teoria da Informação.

Cabem aqui breves comentários sobre algumas características particulares das publicações eletrônicas, que devem ser levadas em conta quando da produção e/ou utilização de documentos online.

Um primeiro ponto a ser ressaltado diz respeito à datação e à (ins)(es)tabilidade dos documentos online. Apesar de que, em alguns casos, encontramos online cópias exatas de documentos já publicados e disponíveis sob forma impressa (livro, artigo de revista, jornal, etc), um número elevadíssimo de documentos existem apenas em sua forma digital. E mais: existem enquanto documentos vivos, sujeitos a constantes revisões, modificações, mudanças de endereço e, muito freqüentemente, puro e simples desaparecimento.

Essa possibilidade de contínua atualização é, por certo, um dos atributos mais positivos do trabalho online, permitindo que a troca de informações seja renovada em lapsos de tempo extremamente curtos. O processo normal de colocar em discussão na comunidade científica uma idéia recém-concebida, sempre foi preparar um paper, apresentá-lo em um congresso de pares, ou submete-lo para publicação em um periódico especializado, aguardando as discussões, críticas e endossos porventura resultantes de tais ações. O processo implica, normalmente, num tempo de meses (ou até de anos) para que uma determinada idéia tenha plena repercussão, sendo circulada, criticada, assimilada ou rejeitada. Com a expansão da disponibilização online, as reações a uma colocação científica ou acadêmica, por parte de uma comunidade de pares espalhados pelos cinco continentes, podem vir a ocorrer numa questão de horas.

Por outro lado, essa rapidez de disponibilização e atualização provoca, necessariamente, uma maior fluidez dos conteúdos. Um documento visitado há um ou dois meses atrás (ou mesmo um ou dois dias atrás) pode não mais ser o mesmo se voltarmos a visitá-lo. Como as modificações online não deixam rastros, é essencial que a disponibilização eletrônica de documentos seja criteriosamente acompanhada de indicações sobre suas datas de produção e atualização. Por outro lado, ao citar um documento eletronicamente disponibilizado, é absolutamente necessário indicar não apenas suas datas de produção e atualização, mas também a data da visita ao Site.

Essa rapidez de atualização e, portanto, fluidez potencial dos documentos online, coloca ainda sobre o autor/disponibilizador o ônus de constantemente checar as indicações online de suas fontes. Nada mais frustrante do que, clicar num link de referência e, ao invés de ser levado para o texto da obra citada, confrontar-se com os neurotizantes avisos de N0 FOUND 404, FATAL ERROR 500 ou algo semelhante. Isso significa, simplesmente, que, por alguma razão, não foi possível o acesso ao endereço eletrônico (URL) pretendido. É claro que isso pode ocorrer por circunstâncias casuais (o Site está em manutenção, faltou energia elétrica naquele lugar do mundo, há um defeito passageiro na conexão etc, etc), mas pode ser, igualmente, a indicação de que aquele documento, ou mesmo aquele Site, já não existem. É preciso que se tenha em mente que, na Internet, criar um link é o equivalente a fazer uma citação, exigindo igual atenção e cuidados. Infelizmente nem sempre isso parece ser a regra. No já citado trabalho de Harter & Kim (1996), foi constatado que apenas 60% dos Sites mencionados por autores em seus artigos podiam ser acessados com sucesso.

Tal dificuldade, no entanto, não é tão exclusiva das publicações digitais, como pode parecer à primeira vista. As publicações impressas muitas vezes se "esgotam", não podendo, após um certo lapso de tempo, ser encontradas a não ser em bibliotecas que abriguem coleções completas de periódicos. As publicações eletrônicas, para adquirirem estabilidade e permanência, tem que ter o mesmo destino, com organização, por parte das grandes bibliotecas, de bancos que sistematizem e perpetuem o material disponibilizado online, inclusive gravando-os em suportes mais pernamentes, como CD-Roms, que vem tendo capacidade de estocagem de material continuamente expandida.

Finalmente, existem as questões referentes à produção do hipertexto, enquanto modalidade de processo comunicativo. É óbvio que redigir para a Internet, utilizando plenamente os recursos (e atentando para as limitações) do hipertexto, requer treino e aprendizado. A mera transposição da forma impressa para a forma online produz documentos longos, de difícil manejo e reduzida praticidade. Uma série de especialistas vêm se debruçando sobre tais questões e muitos manuais de estilo para utilização do hipertexto já estão disponíveis na própria Internet. É de se esperar que, aos poucos, os membros das comunidades acadêmicas acabem por se "alfabetizar" na nova modalidade de produção intelectual, disponibilizando documentos formatados de maneira mais apropriada ao novo ambiente comunicacional. Os "becos-sem-saída" encontrados amiúde em documentos online deverão passar a ser coisa do passado, assim como serão cada vez mais raras produções hipertextuais no estilo "Labirinto Cretense", nas quais o leitor se perde e corre o risco de acabar devorado pelo Minotauro do cansaço e desorientação.

A tradição dos periódicos acadêmicos, que remonta à segunda metade do século XVII, vai sendo transposta para o cyberespaço. Transposição parece efetivamente um termo adequado nesse contexto, uma vez que a grande maioria dos materiais acadêmicos (teses, livros, periódicos, etc) são apenas disponibilizados no cyberespaço como uma espécie de versão eletrônica do texto, originalmente veiculado em suportes convencionais. Além do já mencionado "analfabetismo hipertextual", poder-se-ia supor que a replicação de formatos convencionais, já universalmente aceitos pela Comunidade Acadêmica, constitue uma forma de gerar maior confiabilidade.

O aparecimento de jornais acadêmicos que efetivamente utilizem todo o potencial multimídia do WWW ainda está por acontecer. Nesse sentido será interessante verificar o produto anunciado pela American Communication Association (ACA) que, em sua convenção anual de 1996, decidiu lançar um jornal acadêmico eletrônico - The American Communication Journal - de formato exclusivamente digital, arbitrado por pares, e aberto para que o pesquisador, ao submeter suas contribuições "faça uso do espectro total de dados disponíveis como um resultado das tecnologias mediatizadas por computador". O novo jornal se propõe a "redefinir aquilo que, tradicionalmente, vem sendo reconhecido como texto(...)". Vamos esperar para conferir...

 

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