Vocês sabem, os computadores nasceram para serem máquinas de calcular, máquinas austeras, individualistas. A informática foi desde sempre marcada pelo desejo apolíneo da ordem, da razão e do controle. Mas a história da informática será marcada pela transição destas máquinas apolíneas em máquinas dionisíacas, efervescentes, orgiásticas, caóticas. Na era do tudo em rede, estamos em plena transformação do PC (Personal Computer), o computador individual, desconectado, austero, projetado para um indivíduo racional e objetivo, em um CC (Collective Computer), os computadores em rede. Não é à toa que os arautos da moralidade queixam-se contra o excesso de informação, o desperdício de tempo em chats banais, ou o perigo do isolamento patológico.
A conjunção de uma tecnologia retribalizante (o ciberespaço) com a socialidade contemporânea vai produzir a cibercultura. Parece que a homogeneidade e o individualismo da cultura do impresso vai ceder, pouco a pouco, lugar à conectividade e à retribalização da cultura. Assim, fenômenos como o que chamamos, em outra coluna, de napsterização apontam para este estado de coisas. A troca de arquivos (música e filmes) ponto a ponto, isto é, usuário a usuário capilariza ainda mais a rede, fazendo do ciberespaço o verdadeiro computador coletivo. Somos terminações nervosas deste imenso organismo planetário.
Para lembrar, a formação da micro-informática deve-se ao desenvolvimento de domínios científicos diferentes a partir dos anos 40: a cibernética (1948), a inteligência artificial (1956), a teoria da auto-organização e de sistemas (dos anos 60), a tecnologia de comunicação de massa (rádio, televisão e telefone) e a telemática (de 1950). Os primeiros passos no tratamento automático da informação foram dados entre 1940 e 1960. Aqui os princípios essenciais e as inovações estratégicas são influenciadas fortemente pela cibernética. A segunda etapa, de 1960 a 1970, caracteriza-se por sistemas centralizados ligados às universidades e à pesquisa militar. A terceira etapa, de 1970 aos nossos dias, marca o surgimento dos microcomputadores. Proponho uma quarta fase que seria aquela surgida na metade dos anos 80, caracterizada pela popularização do ciberespaço e sua inserção na cultura contemporânea.
É a fase do computador em objetos (falamos disso em outra coluna) e de tudo em rede. Se a terceira fase foi a do computador pessoal (PC), o milênio que se aproxima será a fase do computador conectado (CC). Assim, a cibercultura forma-se com a micro-informática, adquirindo seus contornos mais nítidos quando o PC cede lugar ao CC. A sociedade contemporânea vai aproveitar o potencial comunitário, associativo ou simplesmente agregador dessa nova tecnologia (chats, listas, fóruns, icq...) para transformar a ferramenta apolínea que é o computador em uma arma dionisíaca.
O paradoxo é que podemos estar sós sem estarmos isolados.
Se os radicais que criaram os microcomputadores na década de 70
propunham a informática para todos, os internautas da década
de 90 propõem a conexão generalizada. Dioniso pode, assim,
vencer Apolo.