CIBER-CIDADES
Por André Lemos

Se você ainda não foi a Amsterdã, a Bolonha, a Aveiro ou a Edimburgo, não se preocupe: você pode visitar estas ciber-cidades, e muitas outras, pela rede. Ciber-cidades são construções digitais de cidades reais, na tentativa de aproveitar o potencial das novas tecnologias de comunicação para lutar contra a exclusão social, regenerar o espaço público e promover a apropriação social das novas tecnologias. Não é à toa que a Comissão Européia as considera como projetos prioritários.

Acredita-se que as ciber-cidades poderiam dinamizar o espaço público, colocar em sinergia instâncias sociais e reforçar laços comunitários reais. O desafio é enorme já que uma cidade é mais do que um arranjo espacial de ruas, prédios e monumentos. Ela é uma rede eco-social complexa, interligando diferentes sistemas e agrupamentos socioculturais. Não é uma tarefa fácil digitalizar uma cidade e deve-se evitar um modelo substitutivo ou transpositivo. As ciber-cidades devem ampliar e complementar o poder da ação à distância e potencializar a emergência de redes de sociabilidade, ajudando na ocupação de espaços concretos.

A análise das atuais ciber-cidades aponta problemas e potencialidades. Em geral, a virtualização das cidades não constituem a criação de uma esfera pública. A maioria das experiências são apenas bases de dados sobre um determinado espaço urbano, agregando informações sobre municipalidades, lazer, turismo, etc. São poucas as experiências que criam espaços de interação social, com abertura a discursos bidirecionais e a fóruns comunitários. A maioria das experiências procura substituir a cidade real pela virtual e também são poucas as iniciativas com quiosques públicos e gratuitos.

Em sua maioria, as experiências em curso são paródias assépticas de suas respectivas cidades. É raro aparecer dados negativos. Informações sobre criminalidade, tensões sociais, racismo, deficiências em sistemas de infra-estrutura estão ausentes. Com algumas exceções, a possibilidade de interação dos netizens entre eles e com seus representantes, também é mínima. Poucas são as experiências que estimulam a formação de agregações eletrônicas, livres e independentes, que possam tomar posições e implementar ações concretas. A experiência não atinge ainda uma larga parcela da população, sendo dominada por uma elite tecnológica. Em geral os setores públicos estão fechados, fornecendo apenas propaganda de suas ações, sem constituírem formas verdadeiramente consistentes de interação.

Apesar dos problemas apontados, há possibilidades efetivas. O ciberespaço pode criar sinergias comunitárias, auxiliar a planificação e execução de projetos comuns, proporcionar canais efetivos com os poderes públicos e reaquecer os espaços reais a partir de uma maior participação dos cidadãos. O ciberespaço pode servir como vetor de formas comunicativas livres e democráticas. O acesso a uma enorme variedade de serviços passa a ser também um ponto positivo na criação de ciber-cidades. Fica o desafio: Como virtualizar a efervescência festiva de uma cidade como Salvador, como exprimir o charme de Paris ou a dinâmica veloz de New York? Como virtualizar as partes malditas de uma cidade? Como virtualizar uma cidade sem criar uma visão estereotipada, burocratizada e asséptica da mesma?