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A Página dos Cyborgs

O Imaginário do Cyborg.

Nosso imaginário é permeado de seres artificiais que nos chegam desde a antigüidade: Galetéia criada por Pigmalião, as estátuas vivas de Dédalo, o Golem da tradição judáica, os homúnculos de Paracelso, os autômatos artificiais da Idade Média, os robôs, andróides e cyborgs do século XX.

Os primeiros seres artificiais eram dados ao mundo pelo ato divino; ou é o sopro vital que anima o barro, ou o nome de Deus escrito e colocado na boca do Golem, ou a descarga elétrica do Dr. Frankenstein(1), ou o amor pela Eva Futura de Villiers de L'Isle-Adam, e assim por diante. Com as primeira criaturas artificiais, o divino anima e realiza a obra dos homens. Já os autômatos são animados pela forca da mecânica, pelos paradigmas newtonianos de energia, forca, movimento, regularidade. Eles não são mais a vida que se infiltra no artificio, mas a vida simulada em movimentos mecânicos. Os autômatos procuram imitar a vida da forma mais realista possível, identificando-a com o movimento. Dessa forma, eles são privados do sopro vital, ficando presos para sempre nas garras das polias e engrenagens. Eles são o gozo na imitação da vida, como os "thaumatas" gregos, máquinas do teatro, automatismos de produção de ilusão e de divertimento, sem nenhum caráter utilitário(2).

O imaginário do robô nos propõe seres dotados de alguma inteligência, mas diferentes do humano, mantendo uma fronteira de delimitação entre o artificial e o natural bem nítidas(3). Presos ao determinismo da máquina, os robôs simbolizam a prisão, o confinamento. Quando Kapek escreve em 1921 a peça "R.U.R - Rossum's Universal Robots", os robôs aparecem pela primeira vez como escravos, dominados pelo trabalho e pelo poder ditator ial. Os autômatos e os robôs são escravos da regulação mecânica de suas peças, de uma estrita gestão sincrônica do tempo e da sua externa programação eletromecânica.

O conceito de cyborg, na ficção-científica, parece surgir de uma história de Arthur Clark de 1965, intitulada "The City and the Stars", designando os organismo cibernéticos(4). O cinema explorou muito essa imagem, onde os replicantes(5) de Blade Runner (Scott, 1982), o Terminator (Cameron, 1991) e o Robocop (Verhoeven, 1987), depois do popular "Homem de Seis Milhões de Dólares", enriqueceram nosso imaginário com as possibilidades de simbioses entre os corpo humano e máquinas(6). O imaginário do cyborg alcança uma nova dimensão na década de 80 com a ficção-científica cyberpunk (7).

Para os cyberpunks a "New Edge", a nova fronteira eletrônica, é marcada por essa simbiose entre os homens e as novas tecnologias(8). A engenharia genética e as nanotecnologias(9) são realidades hoje, que permitem a manipulação do corpo humano (manipulação do seu código genético e introdução de máquinas/próteses) com diversos objetivos (médico, erótico, estético). Como profetisa um dos porta-vozes do movimento cyberpunk, R. U. Sirius, editor da revista californiana "Mondo 2000", "as the twentieth century draws to close, the essence of our social, political, and economical activities takes place in nonphysical, mediated space. We are less and less creatures of flesh, bone, and blood pushing boulders uphill; we are more and more creatures of mind-zapping bits and bytes moving around at the speed of light" (10).

REFERENCIAS

1. Muitos vêem Frankenstein de Mary Shelley como o primeiro cyborg protético.

2. Ver Breton, P., "Une Histoire de l'Informatique"., Paris, Seuil, 1990.

3. Azimov define as três leis dos robôs: 1. um robô não pode atentar contra os humanos nem deixar de ajudá-los., 2. os robôs devem obedecer aos humanos a não ser que esteja em contradição com a primeira lei., 3. um robô deve proteger sua existência a não ser que esteja em contradição com as leis 1 e 2., in Azimov, I., "Les Robots.", J'ai Lu, Paris, 1950.

4. O termo foi inventado em 1960 por Manfred Clynes, um cientista em engenharia biomédica (Ele escreveu um artigo em parceria com Nathan S. Kline, chamado "Cyborgs and Space" em 1960) e pode ser definido como "the melding of the organic and the machinic, or the engineering of a union between separate organic systems". Citado por Gray, C.H.; Mentor, S., Figueroa-Sarriera, H., "Cyborgology...", op.cit., p.2.

5. A diferença entre robôs, replicantes e cyborgs protéticos está na estrutura. O robô é formado de matéria inorgânica, os replicantes de matéria orgânica (manipulação genética) e os cyborgs protéticos de matéria orgânica e inorgânica.

6. Ver Rollins, E., "The Carnage of Identity: Cyborgs and Women in Science Fiction and Horror Film"., in http://violet.berkeley.edu/%7Erollins/cyborg.html, (05/08/96).

7. Ver Lemos, A., "Cultura Cyberpunk"., in Textos de Cultura e Comunicação, no.29, FACOM/UFBA., 1993, pp.25-39.

8. Gibson, W. "Neuromancer", SP, Aleph, 1991.

9. As nanotecnologias são tecnologias do infinitamente pequeno. Essas micro-máquinas são utilizadas na criação de novas moléculas, na fabricação de micro-dispositivos que podem ser implantados no corpo humano e nos mais diversos ambientes perigosos ao trabalho humano. O termo foi criado por Eric Drexler no livro "Engines of Creation". Ver Merkle, R.C., Drexler, K.E., "Overview of Nanotechnology". in, ftp.planchet.rutgers.edu.

10. Rucker, R., Sirius., R.U., Mu, Q., "Mondo 2000. A Users Guide to the New Edge", NY., HarperCollins, 1992. p. 100.

André Lemos, PhD.

Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.

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