O corpo é assim "scaneado", interpretado enquanto sistema de processamento de informação. Ele é, ao mesmo tempo, informação, bits no sistema social. Na esfera do biológico, como na esfera do social, trata-se do desaparecimento do corpo, num processo de exteriorização e interiorização: hiper-exteriorização, com diversos implantes (lentes de contato, marcapassos, hemodiálises e nanotecnologias); e hiper-interiorização, com a construção de subjetividades pelos media e as novas redes eletrônicas (o ciberespaço). Talvez possamos pensar mais uma vez no "corpo sem órgãos" de Deleuze e Guattari(4). Seja na radicalização discursiva, seja pela artificialização, o corpo vive numa cultura do excesso(5), passando por um processo de restruturação, de obsolescência e virtualização.
O cyborg, como híbrido de cibernética e organismo, só pode existir num mundo traduzido em informações binárias regidas pelo princípio da cibernética(6). Cyborgs são seres simbióticos, misturas de carne e máquinas cibernéticas(7), que surgem de novos paradigmas: o eletrônico-digital e a biogenética. Em ambas está em jogo a tradução do mundo em pequenas quantidades de informação(8). Assim os circuitos eletrônicos (que podem ser implantados num nervo ótico permitindo um cego reconhecer texturas)(9) e o projeto "Genoma Humano" partem do mesmo princípio informacional do mundo. É com o surgimento da sociedade de informação e do corpo simulacro, que a figura do cyborg pode sair da ficção-científica e ingressar na vida quotidiana.
REFERENCIAS
1.Kroker, A. e M.., "Body Digest. Theses on The Disappearing Body in The Hyper-Modern Condition"., "Body Digest. Fashion, Skin & Technology", Canadian Journal of Political and Social Theory, v.XI, no. 1-2, Montréal, 1987.
2. Kroker, A. "Panic Cyberspace"., http://www.freedonia.com/panic/cyberspace/cyberspace.html, (08/06/96). Ver também, Kroker, Arthur e Marilouise., "Code Warriors", http://www.ctheory.com/ a36-code_warriors.html,(08/06/96). Esse trecho é parte do livro dos mesmos autores "Hacking the Future"., NY, St.Martin Press, 1996.
3. Uma das figuras mais proeminentes desse discurso são os "extropians". Os extropians são partidários de uma filosofia transhumanista, levando o ser humano a uma superação dos limites e das fronteiras do corpo humano. De caráter hiper-liberal, os extropians buscam lutar contra a entropia através da razão, da ciência e da ordem. Ver More, M., "The Extropians Principles v. 2.6.", in http://www.primenet.com/~maxmore/extprn26.htm , (08/06/96).
4. Um exemplo interessante de "neuro-hackers" é do engenheiro japonês Masahiro Kahata que consegui ligar uma interface MIDI no seu sistema nervoso e assim ele pode visualizar suas ondas cerebrais na tela de seu Macintosh. Ver Branwyn, G., "The Desire To Be Wired.", in Wired, n°1.4., set/oct, 1993., p.65.
5. Ver Deleuze, G.; Guattari, D., "Capitalisme et Schizophrénie. Mille Plataux"., Paris, Les Editions de Minuit, 1980.
6. Nesse sentido a realidade virtual seria, ao mesmo tempo, o desaparecimento do corpo físico substituído por um simulacro virtual e, ao mesmo tempo, exaltação e reaparecimento do corpo biológico como fonte de recepção das sensações virtuais. Sobre a realidade virtual ver Heim, M., "The Metaphysics of Virtual Reality"., Oxford Press, 1993.
7. O filme da brasileira radicada em Nova Iorque Iara Lee, "Synthetic Pleasures", vai discutir a questão do cyborg, e as transformações sofridas pelo corpo na era do digital. Ver http://www.caipirinha.com/Book/book.htm . (06/08/96).
8.Ver Bukatman, Scott., "Terminal Identity: The Virtual Subject in Post-Modern Science Fiction"., Durham and London; Duke University Press, 1993., pp. 258.
9.O Instituto Nacional de Prótese Neurológica dos EUA acaba de
senvolver um olho mecânico com câmara e "chips" implantados no córtex cerebral. Ver Dimenstein,
G., "Cientistas testam aparelho para dar visão aos cegos"., in http://www.uol.com.br/fsp/mundo
/ft101111.htm,(10/11/96). As informações do Mercury Newspot, in
André Lemos, PhD.
Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.
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