A virtualização do mundo afeta de forma irreversível a sociedade desse fim de século. A cibercultura contemporânea é uma forma peculiar de relação entra a sociabilidade e as tecnologias. A tecnologia, pensada como destruidora de toda e qualquer singularidade, transforma-se no seu oposto: ela potencializa singularidades ordinárias (Scheer). Agora, é na troca ordinária de informações entre pessoas ordinárias que se estrutura a civilização da comunicação (comunhão, agregação). É essa frivolidade ordinária que constitui, de forma indiscutível, a singularidade contemporânea.
Mesmo tratando-se de uma cultura abertamente tecnológica, isso não significa uma obra puramente tecnocrática. Isso também não pressupõe um domínio social. Trata-se em realidade de uma relação simbiótica entre a socialidade (Maffesoli) e a tecnologia contemporânea. Com a civilização do virtual, a perspectiva crítica da tecnologia não é mais suficiente para dar conta dessa "tecno-socialidade"(4).
A partir da possibilidade de virtualização do mundo, tudo está disponível (possível) à uma requisição digital. O "tudo é possível", afirma Scheer, mina, pouco à pouco, o determinismo da racionalidade tecnológica que constitui o pilar da sociedade de consumação. É a própria atmosfera cultural, social e econômica desse fim de século que está em jogo(5). Nessa civilização do virtual, não somos mais nós que pensamos o mundo, mas o mundo que nos pensa. Nós traduzimos o mundo em "bits" e, ao mesmo tempo, os "bits" nos traduzem em informação. Somos todos pontos de troca nessa estrutura rizomática de informações.
A virtualização do mundo, afirma Scheer, é o término do mundo. A modernidade controlou o tempo para esculpir o espaço (industrialismo, urbanização). A contemporaneidade vê a instauração de um tempo universal, (imediato, "real") que destitui o espaço físico de parte de sua importância estratégica. A sociedade de massa, do consumo e da dominação energético-física do mundo entra em crise. Se a informação não é mais consumida pelo uso, é todo o princípio energético e material da sociedade de consumo que desaparece. Por outro lado, a queda das metanarrativas se encaixa bem no mundo do "tudo é bom".
A civilização do virtual impõe assim a desordem, o inesperado, o ordinário. Se as massas já não podem ser sondadas, é a própria noção de social, como pensado pela sociologia clássica que desmancha-se pelas maiorias silenciosas(6). O Big Bang dessa vez é social: "...after the equally Big Bang of communication technologies, which began the new universe of post-modernity (signifying) culture, 90% of the social matter of the universe went missing, just disappeared..."(7). Classe, indivíduo, alienação, gênero são abalados por uma efervescência social tribal, estética, presenteísta (Maffesoli) (8).
É nesse contexto que pode surgir o discurso sobre os cyborgs. Os cyborgs só podem existir num mundo traduzido em informações, tempo real e ciberespaço. O cyborg é assim capital para a cibercultura . Ele simboliza todo o processo simbiótico no qual vive a cultura contemporânea com o advento das tecnologias do virtual(9). Esse processo é a "cyborgização" da cultura, a era da máquina vital(10). Parece-nos que não é ao acaso que o discurso sobre os cyborgs emerge no contexto da pós-modernidade: "it is no accident that the modern has become postmodern as humans changes to cyborgs. Nor that cyberculture is spreading as exuberantly and insidiously as the Internet, into recreation, work, and politics"(11).
REFERENCIAS
1. Scheer, L., "La Civilisation du Virtuel", in Sociétés, Dossier Technosocialité, no. 51, Paris, Dunod, 1996.
2. Utilizamos propositadamente a noção de "requisição/provocação" no sentido dado por Heidegger. A técnica moderna se estabeleceu numa requisição energética e material que provocava a natureza a revelar-se através da linguagem da ciência moderna. Poderíamos dizer que a técnica contemporânea realiza uma "requisição" digital que obriga a natureza a se revelar como informação, através da simulação. Heidegger, M., "La Question de la Technique", in "Essais et Conférences", Paris, Gallimard, 1954.
3. Bataille, G., "La Part Maudite"., Paris, Les Editions de Minuit, 1967.
4. Ver "Dossier Technosocialité", in Sociétés, op.cit.
5. Ver Kroker, Arthur e Marilouise., "Body Digests"., in Canadian Journal of Political and Social Theory, vol. XI, n. 1-2, Montreal, 1987.
6. Baudrillard, J. "A L'ombre de Majorités Silencieuse"., Paris, Cahiers d'Utopie, 1978.
7.Kroker, A., "Synapse Lapse"., in "Body Digests"., in Canadian Journal of Political and Social Theory, vol. XI, n.1-2, Montreal, 1987., p. 30.
8. Ver Maffesoli, M., "O Tempo das Tribos. O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa" , RJ, Forense Universitária, 1987.
9. Ver Haraway, D., "Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature.", NY, Routledge, 1991.;e Ross, Andrew., "Strange Weather: Culture Science and Technology in the age of Limits." , NY, Verso, 1991.
10. A máquina vital surge na "quarta descontinuidade", após as rupturas de Copérnico (homem e cosmos), Darwin (homem e vida) e Freud (homem e inconsciente). Ver Channell, David F., "The Vital Machine"., in Gray, C.H. (ed)., "The Cyborg Handbook", Routledge, NY, 1995.
11. Figueroa-Sarriera et alli., "Cyborgology. Constructing the Knowledge of Cybernetic Organisms"., in Gray, C.H. (ed). "The Cyborg Handbook",op.cit., p.7.
André Lemos, PhD.
Professor e Pesquisador da Facom/UFBA.
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